Já não apanhei a música desde o início. Estava a meio, talvez. Aumentei o volume. Adoro esta música. Aumentei ainda mais. Cantarolei só com a garganta. A imaginação que não pára. O pára-arranca do trânsito. O vizinho do carro ao lado, alertado com a minha música alta, fixou-me. Sorriu. Baixei um pouco o volume. E o rosto. O Bolero de Ravel que saía do meu carro era ouvido na vizinhança. O sinal abriu. Voltei a aumentar o volume. Acelerei. Abri os vidros. Aumentei o meu Ravel. Passei o amarelo. Talvez já vermelho. E o inspirador Ravel no meu rádio do carro. Um polícia que me mandou parar. Maldito. Estaria vermelho? Encostei. O Ravel em altos berros. Abordou-me à janela do carro. O Ravel em fundo. Pediu-me que baixasse o volume e de seguida os documentos. Não percebeu nada... Era o Bolero de Ravel.
terça-feira, 29 de maio de 2012
segunda-feira, 28 de maio de 2012
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Dedos nas estrelas
À noite os meus dedos ganham vida própria. Ficam inquietos, peganhentos, nervosos, mexidos. Tenho dedos noctívagos. Eu, sem os meus dedos, prefiro os dias.
Agradam-me as manhãs. Quem é da Rádio gosta das manhãs. As primeiras horas do Sol, brilhante, radiante. As rugas na testa, que se franze com tamanha luminosidade. A manhã é um gigante. As pálpebras incomodadas, como estores cobrindo meia janela. O azul, o branco, o verde clarinho, o beige, o cinza, o acinzentado, o azulado, o esverdeado, o amarelo, o baunilha, o amarelado, um ligeiro castanho avermelhado, o rosa, o rosa acastanhado, o rosa avermelhado, e outra vez o branco e o azul, tudo mesclado, misturado, matizado... Não sei como há quem use óculos escuros para filtrar todas estas cores da manhã. Devia ser proibido escurecer a manhã.
E o cheiro? Então se chove, aquele cheiro da manhã molhada. A alma humedece apenas com o cheiro da manhã. Orvalha-me o dia. Há sempre uma brisa fresca quando abro a janela ainda ensonada. Inspiro. Encho o peito de ar. Espreguiço-me à janela todos os dias. Gosto de espreguiçar-me à janela, parece que os músculos esticam melhor, nutridos pela energia matinal.
Mas os meus dedos não se espreguiçam comigo. Mantêm-se deitados na cama quente, sonolentos, indiferentes à manhã que tenta despertá-los.
Também gosto das tardes. Gosto dos inícios das tardes. O Sol quente, a pique. Os girassóis quase incandescentes. As cigarras, quando é tempo delas. O meio do dia, com todo o tempo ainda pela frente.
E gosto dos fins das tardes. O regresso a casa, às famílias, aos ninhos. A algazarra da passarada. Os vôos felizes das andorinhas. O pôr do Sol silencioso. O gin tónico. O recolher. O cantar dos grilos. Meter a chave à porta ao fim do dia, descalçar-me. Descalçar-me...
Aquele namoro entre o Sol e a Lua, que, atrevida, começa a espreitar. Volto a abrir a janela ao anoitecer. Descalça, abro a janela. Inspiro, ouço, sinto. O cheiro da cidade é diferente, à noite. A brisa matinal deslocou-se para uma outra margem, outro rio, num outro país. Voltará daqui a algumas horas. O cheiro do anoitecer é mais adocicado, mais quente. O dia também está cansado.
Anoitece.
Os meus dedos despertam ao anoitecer. Correm para o teclado enquanto eu corro para um duche relaxante. Agarram-se às letras, às palavras, procuram metáforas e exclamações. Conquistam verbos e adjectivos. Descobrem vírgulas e reticências...
A noite é viciante para os meus dedos. Há contos e imagens que querem escrever. Não sei se será das estrelas, se da Lua. Parecem pirilampos cintilantes, saltitantes, fervilhantes. Os meus dedos querem falar. Pedem-me para abrir o tampo do computador, fora de horas. Querem conversa, espaço de liberdade. Alimentam-se do luar, da noite escura, da dança dos morcegos. Escutam os rouxinóis, que também adormecem tarde. Desafiam os mochos e corujas que, de olhos espantados, espreitam cada linha. Nas cabeças dos meus dedos nascem histórias, desejos, vidas que desconheço.
Vou dormir. Os meus dedos vão continuar por aqui. A querer contar histórias.
Agradam-me as manhãs. Quem é da Rádio gosta das manhãs. As primeiras horas do Sol, brilhante, radiante. As rugas na testa, que se franze com tamanha luminosidade. A manhã é um gigante. As pálpebras incomodadas, como estores cobrindo meia janela. O azul, o branco, o verde clarinho, o beige, o cinza, o acinzentado, o azulado, o esverdeado, o amarelo, o baunilha, o amarelado, um ligeiro castanho avermelhado, o rosa, o rosa acastanhado, o rosa avermelhado, e outra vez o branco e o azul, tudo mesclado, misturado, matizado... Não sei como há quem use óculos escuros para filtrar todas estas cores da manhã. Devia ser proibido escurecer a manhã.
E o cheiro? Então se chove, aquele cheiro da manhã molhada. A alma humedece apenas com o cheiro da manhã. Orvalha-me o dia. Há sempre uma brisa fresca quando abro a janela ainda ensonada. Inspiro. Encho o peito de ar. Espreguiço-me à janela todos os dias. Gosto de espreguiçar-me à janela, parece que os músculos esticam melhor, nutridos pela energia matinal.
Mas os meus dedos não se espreguiçam comigo. Mantêm-se deitados na cama quente, sonolentos, indiferentes à manhã que tenta despertá-los.
Também gosto das tardes. Gosto dos inícios das tardes. O Sol quente, a pique. Os girassóis quase incandescentes. As cigarras, quando é tempo delas. O meio do dia, com todo o tempo ainda pela frente.
E gosto dos fins das tardes. O regresso a casa, às famílias, aos ninhos. A algazarra da passarada. Os vôos felizes das andorinhas. O pôr do Sol silencioso. O gin tónico. O recolher. O cantar dos grilos. Meter a chave à porta ao fim do dia, descalçar-me. Descalçar-me...
Aquele namoro entre o Sol e a Lua, que, atrevida, começa a espreitar. Volto a abrir a janela ao anoitecer. Descalça, abro a janela. Inspiro, ouço, sinto. O cheiro da cidade é diferente, à noite. A brisa matinal deslocou-se para uma outra margem, outro rio, num outro país. Voltará daqui a algumas horas. O cheiro do anoitecer é mais adocicado, mais quente. O dia também está cansado.
Anoitece.
Os meus dedos despertam ao anoitecer. Correm para o teclado enquanto eu corro para um duche relaxante. Agarram-se às letras, às palavras, procuram metáforas e exclamações. Conquistam verbos e adjectivos. Descobrem vírgulas e reticências...
A noite é viciante para os meus dedos. Há contos e imagens que querem escrever. Não sei se será das estrelas, se da Lua. Parecem pirilampos cintilantes, saltitantes, fervilhantes. Os meus dedos querem falar. Pedem-me para abrir o tampo do computador, fora de horas. Querem conversa, espaço de liberdade. Alimentam-se do luar, da noite escura, da dança dos morcegos. Escutam os rouxinóis, que também adormecem tarde. Desafiam os mochos e corujas que, de olhos espantados, espreitam cada linha. Nas cabeças dos meus dedos nascem histórias, desejos, vidas que desconheço.
Vou dormir. Os meus dedos vão continuar por aqui. A querer contar histórias.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Da falta de leitura
"O velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito, dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas."
Valter Hugo Mãe, "O filho de mil homens"
Valter Hugo Mãe, "O filho de mil homens"
Libreria Acqua Alta, Veneza
domingo, 6 de maio de 2012
O Perigeu
Para quem, como eu, não sabia por que motivo científico a Lua está hoje tão imensa, reproduzo o aqui a explicação dos cientistas do Observatório Astronómico de Lisboa (no site do Observatório).
"Nesta noite a Lua Cheia está maior e mais brilhante que o habitual. Esta “Super Lua” é provocada pela ocorrência simultânea da fase de Lua Cheia, com a Lua no perigeu (ponto da órbita da Lua, em que a esta se encontra mais próxima da Terra).
A melhor ocasião para observar esta "Super Lua Cheia" foi o momento do nascimento da Lua, quando esta apareceu no horizonte, em Lisboa pelas 20:09 horas, Porto pelas 20:12 horas. A Lua parece maior quando está perto do horizonte e aparece por entre edifícios ou árvores.
A melhor ocasião para observar esta "Super Lua Cheia" foi o momento do nascimento da Lua, quando esta apareceu no horizonte, em Lisboa pelas 20:09 horas, Porto pelas 20:12 horas. A Lua parece maior quando está perto do horizonte e aparece por entre edifícios ou árvores.
Este facto torna aparentemente a Lua cheia ainda maior do que já é: 14% maior e 30% mais brilhante.
Há um mito, de associar esta fase da Lua ao azar, aos desastres naturais, etc…, embora cientificamente não haja qualquer relação entre ambos. O fenómeno somente influenciará a intensidade das marés, em especial no Oceano Atlântico, mas sem consequências significativas.
Neste perigeu a Lua estará a uma distância de aproximadamente de 357 mil km da Terra.
Este fenómeno é cíclico. O último registou-se a 19 de Março de 2011, o próximo ocorrerá a 23 Junho de 2013 e em 2014 acontecerá a 10 de Agosto."
Há um mito, de associar esta fase da Lua ao azar, aos desastres naturais, etc…, embora cientificamente não haja qualquer relação entre ambos. O fenómeno somente influenciará a intensidade das marés, em especial no Oceano Atlântico, mas sem consequências significativas.
Neste perigeu a Lua estará a uma distância de aproximadamente de 357 mil km da Terra.
Este fenómeno é cíclico. O último registou-se a 19 de Março de 2011, o próximo ocorrerá a 23 Junho de 2013 e em 2014 acontecerá a 10 de Agosto."
sexta-feira, 4 de maio de 2012
O efeito psicológico de um relógio adiantado
Vivemos à pressa. Passamos a vida a correr. E passamos pela vida a correr.
É sempre tudo de fugida, um toca e foge, uma manhã que já passou, é uma inconstância, um aperto, o dia que é sempre curto, a tarde que já se fez noite, o relógio que parece sempre acelerado.
Sempre sem tempo.
Andamos apressados nas ruas, andamos apressados nas estradas, buzinamos por falta de paciência quando o da frente não arranca, insultamos o semáforo que, cruel, cai vermelho mesmo no exacto momento em que o queremos cruzar como se só ficasse vermelho uma vez por dia.
Reclamamos quando esperamos pelo elevador, irritamo-nos se a nossa fila de supermercado não anda (achamos sempre que a do lado mingua mais depressa), incomoda-nos o tempo de espera em qualquer balcão de atendimento, vociferamos quando ficamos pendurados ao telefone a ouvir música irritante à espera que nos atendam, ululamos quando a pessoa à nossa frente no multibanco paga contas, levanta dinheiro e ainda pede um extracto final.
Reclamamos porque perdemos tempo. E reclamamos porque não temos mais tempo a perder. Mas depois não temos tempo para fazermos o que queríamos ter feito com o tempo que tínhamos para isso.
O tempo...
O tempo provoca em nós actos irracionais. Em mim, pelo menos, provoca.
Todos os meus relógios estão adiantados. Todos. Cinco minutos o de pulso. Quatro minutos o do carro. Dez minutos o do forno da cozinha. O da mesa de cabeceira, quando toca de manhã, está quinze minutos adiantado. Já chegou a estar onze, mas onze não é um número redondo. Era-me mais difícil fazer as contas de cabeça (para me mentalizar da dimensão do meu atraso) enquanto me vestia, ouvia o noticiário na rádio, preparava o pequeno almoço e espreitava os jornais online. Optei pelos quinze minutos adiantados por ser um número mais fácil. No fundo, é mais um quarto de hora. Sei sempre que tenho um quarto de hora extra, além do tempo real que o relógio sentencia.
O efeito psicológico de um relógio adiantado é completamente estúpido. Adianto o relógio para ganhar tempo. Mas, afinal, saio sempre à mesma hora. À hora que devia sair, fintando o meu próprio relógio. Haverá coisa mais estúpida?
Acreditamos todos os dias que no dia seguinte teremos tempo para fazermos o que não conseguimos fazer hoje. Como se o dia de amanhã tivesse mais horas que o dia de hoje.
O relógio de sol não se consegue adiantar para ganhar tempo.
Têm pressa de quê, as pessoas? Pressa para quê? Quem é que marca as horas, afinal?
É sempre tudo de fugida, um toca e foge, uma manhã que já passou, é uma inconstância, um aperto, o dia que é sempre curto, a tarde que já se fez noite, o relógio que parece sempre acelerado.
Sempre sem tempo.
Andamos apressados nas ruas, andamos apressados nas estradas, buzinamos por falta de paciência quando o da frente não arranca, insultamos o semáforo que, cruel, cai vermelho mesmo no exacto momento em que o queremos cruzar como se só ficasse vermelho uma vez por dia.
Reclamamos quando esperamos pelo elevador, irritamo-nos se a nossa fila de supermercado não anda (achamos sempre que a do lado mingua mais depressa), incomoda-nos o tempo de espera em qualquer balcão de atendimento, vociferamos quando ficamos pendurados ao telefone a ouvir música irritante à espera que nos atendam, ululamos quando a pessoa à nossa frente no multibanco paga contas, levanta dinheiro e ainda pede um extracto final.
Reclamamos porque perdemos tempo. E reclamamos porque não temos mais tempo a perder. Mas depois não temos tempo para fazermos o que queríamos ter feito com o tempo que tínhamos para isso.
O tempo...
O tempo provoca em nós actos irracionais. Em mim, pelo menos, provoca.
Todos os meus relógios estão adiantados. Todos. Cinco minutos o de pulso. Quatro minutos o do carro. Dez minutos o do forno da cozinha. O da mesa de cabeceira, quando toca de manhã, está quinze minutos adiantado. Já chegou a estar onze, mas onze não é um número redondo. Era-me mais difícil fazer as contas de cabeça (para me mentalizar da dimensão do meu atraso) enquanto me vestia, ouvia o noticiário na rádio, preparava o pequeno almoço e espreitava os jornais online. Optei pelos quinze minutos adiantados por ser um número mais fácil. No fundo, é mais um quarto de hora. Sei sempre que tenho um quarto de hora extra, além do tempo real que o relógio sentencia.
O efeito psicológico de um relógio adiantado é completamente estúpido. Adianto o relógio para ganhar tempo. Mas, afinal, saio sempre à mesma hora. À hora que devia sair, fintando o meu próprio relógio. Haverá coisa mais estúpida?
Acreditamos todos os dias que no dia seguinte teremos tempo para fazermos o que não conseguimos fazer hoje. Como se o dia de amanhã tivesse mais horas que o dia de hoje.
O relógio de sol não se consegue adiantar para ganhar tempo.
Têm pressa de quê, as pessoas? Pressa para quê? Quem é que marca as horas, afinal?
terça-feira, 1 de maio de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Poesia Japonesa 3 - Sabedoria
A segunda lição é que os Japoneses são excessivamente organizados. Achei piada quando comecei a ouvir a descrição, até pelo que já aqui confessei. Mas à medida que ia ouvindo pormenores, sentia-me uma principiante em matérias de organização.
Contou a minha Professora de Poesia Japonesa (hei-de falar acerca dela num post específico) que os Japoneses são excessivamente organizados - e sublinha a palavra "excessivamente".
Organizam tudo, planeiam tudo, pensam em tudo, analisam todas as hipóteses, ponderam custos e benefícios, comparam tudo o que é comparável e o que não o é. As mais pequenas decisões domésticas podem ser verdadeira ciência.
Contou ela que os feriados nacionais, por exemplo, são planeados de um ano para o outro. Isto é, as famílias decidem este ano o que vão fazer no feriado de Junho ou Outubro do ano que vem. Como têm poucos dias de férias, os feriados são autênticas celebrações nacionais. E preparam meticulosamente esse programa, para onde vão, com quem vão, o que levam, qual o percurso, etc.
Há, nessa medida, Poetas Japoneses que demoram anos a escrever um Poema. Anos a escrever um conjunto de Poesias coerentes. Anos, décadas até, a reflectir a poesia, tal a obsessão pela métrica, pela carga simbólica, pela mensagem, pela envolvência, pelo ritmo, pelas sílabas, pela cadência, pelos versos, pela estrutura, pelo conteúdo, pelos elementos que têm de constar no texto, pelo respeito pelas regras dos Mestres de Poesia.
Um mundo mágico ancestral, em que a sabedoria da idade é valorizada como uma fortuna. As rugas e os cabelos grisalhos são tesouros. As mãos, porventura trémulas, escrevem palavras certas. Idade. Respeito. Sabedoria.
sábado, 28 de abril de 2012
Poesia Japonesa 1 - Aventura
Estou a fazer um curso de Poesia Japonesa.
Inscrevi-me num impulso. Consciente de que o meu tempo é curto, entre a rádio, o doutoramento, as aulas a que assisto, as aulas que dou, as conferências e seminários, o volley, a vida, os livros, os mimos, fui inconsciente no impulso: "não posso perder, hei-de arranjar tempo para isto".
As aulas são maravilhosas, uma aventura, uma descoberta, um mundo novo. É como entrar num filme ou num romance, é como ser personagem de um livro. Tudo é diferente.
Subo o elevador até ao quarto andar, onde vou ter aulas. Olho-me ao espelho. Estou mal encarada. Aquela luz de cima, também não favorece. Que olheiras... Sim, sinto-me cansada. Pestanejo mais perto do espelho. Que figurinha. Ainda bem que subo sozinha.
Depois dos primeiros segundos em que me desagrada o que vejo ao espelho, descolo do meu mundo. Começo a transformar-me. Poesia Japonesa? Só pode ser muito bom... Olho-me desconfiada novamente, agora mais longe do espelho fugindo do foco de luz na cabeça, já com um sorriso de entusiasmo pela proximidade da aula. Parece que já me vejo oriental. A minha imagem reflectida no espelho já é outra.
O meu trajecto de dois minutos no elevador é a minha câmara de transformação. Faço ali a minha expurga das notícias da política, da economia e da crise. Mato ali, naqueles segundos, os meus políticos, os meus Ministros, os meus Deputados e apago num ápice os números negros da economia que tenho que saber de cor.
A porta do elevador abre-se. Saio, confiante. Há um burburinho discreto no hall. Entro na sala. Estão umas vinte e poucas pessoas, algumas sentadas, outras ainda de pé. Olho em volta. Olham-se todos uns aos outros. Há jovens universitários, alguns porventura desempregados, há dois casais de namorados (que bonito, que poético), há meia dúzia de senhoras com ar de professoras, um ou outro senhor grisalhado, alguns reformados, há um rapaz vestido de negro cheio de piercings, há gente, há pessoas. Olhares. Curiosidade. Sento-me na primeira fila, para ouvir tudo, beber tudo, aprender tudo, apreender tudo.
Poesia Japonesa. Meto-me em cada uma...
Inscrevi-me num impulso. Consciente de que o meu tempo é curto, entre a rádio, o doutoramento, as aulas a que assisto, as aulas que dou, as conferências e seminários, o volley, a vida, os livros, os mimos, fui inconsciente no impulso: "não posso perder, hei-de arranjar tempo para isto".
As aulas são maravilhosas, uma aventura, uma descoberta, um mundo novo. É como entrar num filme ou num romance, é como ser personagem de um livro. Tudo é diferente.
Subo o elevador até ao quarto andar, onde vou ter aulas. Olho-me ao espelho. Estou mal encarada. Aquela luz de cima, também não favorece. Que olheiras... Sim, sinto-me cansada. Pestanejo mais perto do espelho. Que figurinha. Ainda bem que subo sozinha.
Depois dos primeiros segundos em que me desagrada o que vejo ao espelho, descolo do meu mundo. Começo a transformar-me. Poesia Japonesa? Só pode ser muito bom... Olho-me desconfiada novamente, agora mais longe do espelho fugindo do foco de luz na cabeça, já com um sorriso de entusiasmo pela proximidade da aula. Parece que já me vejo oriental. A minha imagem reflectida no espelho já é outra.
O meu trajecto de dois minutos no elevador é a minha câmara de transformação. Faço ali a minha expurga das notícias da política, da economia e da crise. Mato ali, naqueles segundos, os meus políticos, os meus Ministros, os meus Deputados e apago num ápice os números negros da economia que tenho que saber de cor.
A porta do elevador abre-se. Saio, confiante. Há um burburinho discreto no hall. Entro na sala. Estão umas vinte e poucas pessoas, algumas sentadas, outras ainda de pé. Olho em volta. Olham-se todos uns aos outros. Há jovens universitários, alguns porventura desempregados, há dois casais de namorados (que bonito, que poético), há meia dúzia de senhoras com ar de professoras, um ou outro senhor grisalhado, alguns reformados, há um rapaz vestido de negro cheio de piercings, há gente, há pessoas. Olhares. Curiosidade. Sento-me na primeira fila, para ouvir tudo, beber tudo, aprender tudo, apreender tudo.
Poesia Japonesa. Meto-me em cada uma...
quarta-feira, 25 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
Metro a metro
Gosto de andar de transportes públicos nas cidades que visito. Penso que aí está a essência das pessoas, do ritmo e do verdadeiro pulsar da cidade. Mesmo quando não tenho tempo para explorar as linhas de autocarro ou o rendilhado do metropolitano procuro fazer a minha observação.
Espreito para dentro dos autocarros, vejo quem lá vai, se estão sentados ou de pé, se ouvem música, se conversam, se dão gargalhadas, se lêem, se lêem jornais ou livros.
Fixo os motoristas dos autocarros. Se estão com ar stressado ou descontraído, se têm bigode ou barriga, se são jovens ou velhos, cabelos curtos ou longos, se têm piercings, se sorriem para quem entra, se esperam por quem, atrasado, corre atrás do autocarro ou lhes fecham a porta na cara.
Gosto de descer até ao Metro. Sempre que posso percorro algumas paragens de Metro. É a hipoderme das cidades. Tenho sempre curiosidade para descobrir se há quem esteja a actuar nos corredores. Um saxofone? Uma guitarra? Uma flauta? Uma voz? Um cantar que ecoa desde lá do fundo, como uma serpente que chega às bilheteiras? Chego a descer as escadas de acesso e entrar no átrio apenas para observar o frenesim das estações, o burburinho das entranhas da cidade.
É um laboratório de comportamento humano. Uma verdadeira escola sociológica.
Espreito para dentro dos autocarros, vejo quem lá vai, se estão sentados ou de pé, se ouvem música, se conversam, se dão gargalhadas, se lêem, se lêem jornais ou livros.
Fixo os motoristas dos autocarros. Se estão com ar stressado ou descontraído, se têm bigode ou barriga, se são jovens ou velhos, cabelos curtos ou longos, se têm piercings, se sorriem para quem entra, se esperam por quem, atrasado, corre atrás do autocarro ou lhes fecham a porta na cara.
Gosto de descer até ao Metro. Sempre que posso percorro algumas paragens de Metro. É a hipoderme das cidades. Tenho sempre curiosidade para descobrir se há quem esteja a actuar nos corredores. Um saxofone? Uma guitarra? Uma flauta? Uma voz? Um cantar que ecoa desde lá do fundo, como uma serpente que chega às bilheteiras? Chego a descer as escadas de acesso e entrar no átrio apenas para observar o frenesim das estações, o burburinho das entranhas da cidade.
É um laboratório de comportamento humano. Uma verdadeira escola sociológica.
sábado, 21 de abril de 2012
Assim-assim
É considerada a capital política da Europa e quase toda a gente que conheço já por ali passou alguma vez. Ninguém vai para Bruxelas de férias. As pessoas vão "a" Bruxelas, que é muito diferente de ir "para" Bruxelas. É sempre um lugar de passagem.
A cidade enche-se entre terça e quinta feira com todos os que trabalham para as instituições europeias - os eurocratas, expressão que os próprios detestam mas os locais adoram, irónicos. A segunda-feira é um vazio, a sexta-feira é mais ou menos, depende. O fim de semana é um autêntico deserto.
Diariamente quase tudo fecha às 18h. Um jantar a horas decentes, para eles, é às 19H/19.30H. Às 21h, na maior parte dos restaurantes, os empregados já olham impacientes para a nossa mesa, para nos apressarem a pedirmos a conta e sairmos dali para fora. Fica no coração da Europa, dali é fácil dar um salto a qualquer outra cidade. Estar em Bruxelas e ir, por exemplo, jantar a Paris é um must do! Ainda não foi desta que pude fazê-lo. Gosto da ideia de centralidade, de tudo estar à mão, perto de vários países e imensas cidades que quero conhecer.
Mas Bruxelas é uma cidade estranha. Misto de bom e de mau. É uma cidade estranha em que não me sinto bem nem mal. Não sei se gosto ou não. Há momentos ou dias em que gosto e acho que conseguiria gostar muito, ao ponto de ali passar uma temporada profissional. Mas há outros momentos ou detalhes que rapidamente me demovem dessa hipótese. Não sei bem explicar. É um assim-assim. Talvez sim, talvez não.
Dizem que o tempo é sempre cinzento, é quase sempre verdade. Faz-me falta o sol.
Dizem que quase não há verdadeiros belgas em Bruxelas. Não sei se me cruzei com algum, gostava de perceber a diferenças.
Há um cheiro estranho, diferente do cheiro de Lisboa. O cheiro das pessoas é bastante diferente, menos arejado. Há cheiros de náusea, adocicados, enjoativos, de fugir. Mas as ruas cheiram a chuva, a terra molhada.
Há bicicletas, centenas de pessoas a andar de bicicletas, como se a chuva e o frio não perturbassem. Gostava de poder pedalar em Bruxelas.
E há esplanadas com muita gente a beber cerveja ao fim da tarde como se fosse sempre fim-de-semana.
E há tulipas nos jardins.
Ninguém pisa ou danifica as tulipas de Bruxelas. Ninguém arranca as tulipas amarelas que enchem as alamedas. E há brancas ali mais à frente. E vermelhas no canteiro ali à esquina. Um mar de tulipas coloridas, organizadas. Mas também ninguém pára para as contemplar, apenas os turistas ou temporários como eu.
Detesto a estátua do menino a fazer xixi - tem algum jeito?
Não há mar. Isso é mau. Não gosto de Bruxelas, assim. Onde iria ver o mar? Onde iria ver a espuma e as ondas e o horizonte e as algas e as conchas e a areia e o azul e o verde? E o som das ondas a baterem nas rochas? Onde iria sentir o cheiro do mar?
Tem o Magritte...
Mas o café é mesmo muito mau.
Não se come bem nem mal. Às vezes come-se bem, já comi muito bem em Bruxelas (ostras também). Mas também já comi horrivelmente. Sempre caro, para os nossos padrões. Gosto de cerveja. Gosto de provar as várias cervejas que lá existem. Gosto de me perder a ver a ementa de cervejas e provar as diferenças.
Adoro chocolates, será porventura um dos meus vícios. Até nisso, a cidade é estranha. Comer um chocolate artesanal numa chocolataria tradicional pode ser a mais maravilhosa e pecadora experiência. O cheiro à entrada de cada chocolataria, as cores, os aromas, os tipos de cobertura, as misturas com as frutas, os açucares, o cacau puro de todas as partes do mundo, as fontes que pingam chocolate e onde apetece enfiar os dedos e libertar a língua.
Quase gostava de ter uma chocolataria em Bruxelas. Uma chocolataria com livraria de poesia, tudo no mesmo espaço. Muitos sofás e almofadas pelo chão, luz acolhedora, aberta até tarde, uma lareira na sala grande, janelas altas até ao tecto, fotografias grandes nas paredes, música a sair de um gira-discos. E estantes de livros de poesia e contos mágicos intervaladas com fontes de chocolate. Fios de chocolate espesso, castanho, intenso, aveludado a caírem sobre poemas talhados na pedra. Venderia bombons de Sophia, Pessoa, Ruy Belo, Ramos Rosa... - "um bom-bom Sophia com recheio de frutos silvestres, s'il vous plaît!"
Ah, sim... Acho que adoraria ter uma chocolataria em Bruxelas...
A cidade enche-se entre terça e quinta feira com todos os que trabalham para as instituições europeias - os eurocratas, expressão que os próprios detestam mas os locais adoram, irónicos. A segunda-feira é um vazio, a sexta-feira é mais ou menos, depende. O fim de semana é um autêntico deserto.
Diariamente quase tudo fecha às 18h. Um jantar a horas decentes, para eles, é às 19H/19.30H. Às 21h, na maior parte dos restaurantes, os empregados já olham impacientes para a nossa mesa, para nos apressarem a pedirmos a conta e sairmos dali para fora. Fica no coração da Europa, dali é fácil dar um salto a qualquer outra cidade. Estar em Bruxelas e ir, por exemplo, jantar a Paris é um must do! Ainda não foi desta que pude fazê-lo. Gosto da ideia de centralidade, de tudo estar à mão, perto de vários países e imensas cidades que quero conhecer.
Mas Bruxelas é uma cidade estranha. Misto de bom e de mau. É uma cidade estranha em que não me sinto bem nem mal. Não sei se gosto ou não. Há momentos ou dias em que gosto e acho que conseguiria gostar muito, ao ponto de ali passar uma temporada profissional. Mas há outros momentos ou detalhes que rapidamente me demovem dessa hipótese. Não sei bem explicar. É um assim-assim. Talvez sim, talvez não.
Dizem que o tempo é sempre cinzento, é quase sempre verdade. Faz-me falta o sol.
Dizem que quase não há verdadeiros belgas em Bruxelas. Não sei se me cruzei com algum, gostava de perceber a diferenças.
Há um cheiro estranho, diferente do cheiro de Lisboa. O cheiro das pessoas é bastante diferente, menos arejado. Há cheiros de náusea, adocicados, enjoativos, de fugir. Mas as ruas cheiram a chuva, a terra molhada.
Há bicicletas, centenas de pessoas a andar de bicicletas, como se a chuva e o frio não perturbassem. Gostava de poder pedalar em Bruxelas.
E há esplanadas com muita gente a beber cerveja ao fim da tarde como se fosse sempre fim-de-semana.
E há tulipas nos jardins.
Ninguém pisa ou danifica as tulipas de Bruxelas. Ninguém arranca as tulipas amarelas que enchem as alamedas. E há brancas ali mais à frente. E vermelhas no canteiro ali à esquina. Um mar de tulipas coloridas, organizadas. Mas também ninguém pára para as contemplar, apenas os turistas ou temporários como eu.
Detesto a estátua do menino a fazer xixi - tem algum jeito?
Não há mar. Isso é mau. Não gosto de Bruxelas, assim. Onde iria ver o mar? Onde iria ver a espuma e as ondas e o horizonte e as algas e as conchas e a areia e o azul e o verde? E o som das ondas a baterem nas rochas? Onde iria sentir o cheiro do mar?
Tem o Magritte...
Mas o café é mesmo muito mau.
Não se come bem nem mal. Às vezes come-se bem, já comi muito bem em Bruxelas (ostras também). Mas também já comi horrivelmente. Sempre caro, para os nossos padrões. Gosto de cerveja. Gosto de provar as várias cervejas que lá existem. Gosto de me perder a ver a ementa de cervejas e provar as diferenças.
Adoro chocolates, será porventura um dos meus vícios. Até nisso, a cidade é estranha. Comer um chocolate artesanal numa chocolataria tradicional pode ser a mais maravilhosa e pecadora experiência. O cheiro à entrada de cada chocolataria, as cores, os aromas, os tipos de cobertura, as misturas com as frutas, os açucares, o cacau puro de todas as partes do mundo, as fontes que pingam chocolate e onde apetece enfiar os dedos e libertar a língua.
Quase gostava de ter uma chocolataria em Bruxelas. Uma chocolataria com livraria de poesia, tudo no mesmo espaço. Muitos sofás e almofadas pelo chão, luz acolhedora, aberta até tarde, uma lareira na sala grande, janelas altas até ao tecto, fotografias grandes nas paredes, música a sair de um gira-discos. E estantes de livros de poesia e contos mágicos intervaladas com fontes de chocolate. Fios de chocolate espesso, castanho, intenso, aveludado a caírem sobre poemas talhados na pedra. Venderia bombons de Sophia, Pessoa, Ruy Belo, Ramos Rosa... - "um bom-bom Sophia com recheio de frutos silvestres, s'il vous plaît!"
Ah, sim... Acho que adoraria ter uma chocolataria em Bruxelas...
segunda-feira, 16 de abril de 2012
De avião
Gosto tanto de viajar. Sinto sempre um nervoso miudinho quando me preparo para sair. Adoro andar de avião, não é isso que me provoca a borboleta na barriga. É a descoberta, a aventura, a novidade.
Vou para uma cidade que já conheço, já lá fui várias vezes. Será mais uma viagem em trabalho por isso não terei grande margem para passeios. Mas é sempre uma aventura.
Gosto de olhar os rostos, os olhos, fixar os olhares das pessoas com quem me cruzo. Gosto de lhes procurar a expressão - em que pensam as pessoas, que histórias estão por detrás daqueles rostos fechados, gosto de provocar sorrisos a quem estabelece contacto visual comigo. Que vidas terão? O que os trouxe ali? Estarão de passagem, como eu? Serão mesmo de lá? Quem os espera no avião à chegada?
Gosto de ver como andam as pessoas para cá e para lá, umas atarefadas, outras descontraídas. Gosto de observar os que parecem perdidos em aeroportos, em cidades novas, em ruas estranhas à procura de uma resposta, de uma saída.
Gosto de ouvir o som das cidades, o burburinho das vozes, o ruído de quem passa, um som de fundo numa outra língua.
Amanhã cresço mais um bocadinho.
Vou para uma cidade que já conheço, já lá fui várias vezes. Será mais uma viagem em trabalho por isso não terei grande margem para passeios. Mas é sempre uma aventura.
Gosto de olhar os rostos, os olhos, fixar os olhares das pessoas com quem me cruzo. Gosto de lhes procurar a expressão - em que pensam as pessoas, que histórias estão por detrás daqueles rostos fechados, gosto de provocar sorrisos a quem estabelece contacto visual comigo. Que vidas terão? O que os trouxe ali? Estarão de passagem, como eu? Serão mesmo de lá? Quem os espera no avião à chegada?
Gosto de ver como andam as pessoas para cá e para lá, umas atarefadas, outras descontraídas. Gosto de observar os que parecem perdidos em aeroportos, em cidades novas, em ruas estranhas à procura de uma resposta, de uma saída.
Gosto de ouvir o som das cidades, o burburinho das vozes, o ruído de quem passa, um som de fundo numa outra língua.
Amanhã cresço mais um bocadinho.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Manual de sobrevivência para o dia de hoje
Beijar 1: tocar levemente com os lábios sobretudo no rosto ou na mão, geralmente de pessoas, para cumprimentar, agradecer, agradecer ou em sinal de amizade, amor ou respeito.
Beijar 2: pressionar, com a boca, a boca de outra pessoa ou outra parte do corpo, em sinal de paixão, de amor.
Beijar 3: tocar com os lábios em alguma coisa, sobretudo em sinal de devoção.
Beijar 4: tocar levemente, suavemente.
Beijinho: a melhor parte de alguma coisa.
Beijo 1: toque com os lábios em alguém ou alguma coisa, em sinal de respeito, afecto, desejo, ou simplesmente como cumprimento.
Beijo 2: contacto leve, semelhante ao toque suave dos lábios em alguma coisa.
Beijocar: dar beijos, por vezes repetidamente e geralmente com ruído.
Beijoqueiro: que dá muitos beijos, que gosta de beijocar
(In Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa)
Beijar 2: pressionar, com a boca, a boca de outra pessoa ou outra parte do corpo, em sinal de paixão, de amor.
Beijar 3: tocar com os lábios em alguma coisa, sobretudo em sinal de devoção.
Beijar 4: tocar levemente, suavemente.
Beijinho: a melhor parte de alguma coisa.
Beijo 1: toque com os lábios em alguém ou alguma coisa, em sinal de respeito, afecto, desejo, ou simplesmente como cumprimento.
Beijo 2: contacto leve, semelhante ao toque suave dos lábios em alguma coisa.
Beijocar: dar beijos, por vezes repetidamente e geralmente com ruído.
Beijoqueiro: que dá muitos beijos, que gosta de beijocar
(In Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa)
Beijar, beijar, beijar
Eu beijo. Tu beijas. Ele beija. Nós beijamos. Vós beijais. Eles beijam. E somos todos felizes. Dia Mundial do Beijo. Celebremos!
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Outra coisa
Sinto que ando sempre atrás de alguma coisa. Às vezes canso-me de correr atrás de alguma coisa. A natureza humana (ou serei só eu?) é estranha. Nunca estamos satisfeitos. Eu, pelo menos, não estou nunca satisfeita. Que coisa? Alguma. Não sei, uma qualquer. Outra coisa diferente. Uma insatisfação. Uma procura. Um incómodo de quem está à espera que aconteça alguma coisa. E algo se passa. Passa-se sempre algo. Vem sempre algo porque a vida não pára. Mas volto ao mesmo. Deixo passar. Não era aquilo de que estava à espera. Há-de vir a seguir, a "tal coisa". Que não sei qual é. Também não era isto que eu queria escrever hoje. Era outra coisa.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Estudos sobre o poder - número 1
As mulheres (que acham) que têm poder não gostam de ser entrevistadas por mulheres. E são tendencialmente arrogantes, indisponíveis e antipáticas. E gostam de afirmar o poder (que acham) que têm perante as mulheres que as entrevistam.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Estudos sobre o poder - número zero
Sou jornalista e trabalho diariamente com as pessoas, supostamente, mais influentes e poderosas do meu país: políticos, ministros, deputados, presidentes disto e daquilo, chefes de tudo e mais alguma alguma coisa, decisores públicos e privados, administradores, empresários, gestores, comentadores, opinion makers, jornalistas, académicos, etc, etc, etc.
Acho que tenho material suficiente para começar uma enciclopédia acerca do comportamento humano nas suas relações com o poder.
Inicio aqui uma sequência de estudos empíricos sobre o poder.
Como todas as generalizações, esta pecará do mesmo defeito - ser generalista. Haverá sempre excepções que confirmam a regra. E também quero desde já avisar: qualquer coincidência com a realidade é pura coincidência. Sempre que se tente encontrar um nome, dos que entrevistei nesse dia ou nos tempos mais recentes, que encaixe no perfil que tracei é mesmo uma pura coincidência.
Acho que tenho material suficiente para começar uma enciclopédia acerca do comportamento humano nas suas relações com o poder.
Inicio aqui uma sequência de estudos empíricos sobre o poder.
Como todas as generalizações, esta pecará do mesmo defeito - ser generalista. Haverá sempre excepções que confirmam a regra. E também quero desde já avisar: qualquer coincidência com a realidade é pura coincidência. Sempre que se tente encontrar um nome, dos que entrevistei nesse dia ou nos tempos mais recentes, que encaixe no perfil que tracei é mesmo uma pura coincidência.
domingo, 1 de abril de 2012
Para onde voam os pássaros quando há relâmpagos?
O relâmpago é a sobrancelha franzida das nuvens. Uma ruga profunda. O melhor amigo do relâmpago é o trovão (como pode algo ser amigo do tal relâmpago?). Uma variz no céu. É o céu virado do avesso depois de uma discussão com as estrelas. É uma alma ao contrário, desarranjada. É a gritaria depois do vento. Assusta até os Oceanos. O relâmpago é uma cicatriz na lua. É um tiro ensurdecedor. Estremeço. É um rasgão abrupto. O relâmpago obriga-me a fechar os olhos (não quero fechar os olhos). Tapo os ouvidos com as duas mãos, com tanta força que me ouço respirar (não quero tapar os ouvidos). Tenho medo. Para onde voam os pássaros quando há relâmpagos?
quinta-feira, 29 de março de 2012
03.54H
Hoje tinha tanto para contar. Tanto... Queria escrever... Tanto por contar. Vou resistir ao sono. Tive um dia cheio. Vou resistir. Tanto por contar. Fiz uma descoberta. Quero escrever. Tanto... Era uma história. Será que amanhã, depois dos lençóis, vai ainda viver dentro de mim? Quero escrever...
quarta-feira, 28 de março de 2012
quinta-feira, 22 de março de 2012
O Presente Absoluto
Este foi o Poema que disse ontem, em voz alta, no Dia Mundial da Poesia. Já passaram umas horas e o autor, magnífico António Ramos Rosa, ainda não me processou. Nem tudo está perdido.
O PRESENTE ABSOLUTO
Duas bocas descobrem o veludo incandescente
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.
Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.
Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha, um esplendor, um redemoinho.
António Ramos Rosa
O PRESENTE ABSOLUTO
Duas bocas descobrem o veludo incandescente
e saboreiam o sabor perfeito de um fruto liso
que é um sumo do universo. Com a sua espuma constante
os amantes tecem uma abóbada leve de seda e espaço.
Vivem num volume cintilante o presente absoluto.
Corpos encerrados em superfícies delicadas
abrem-se como velas vermelhas e o calor brilha,
clareiras acendem-se numa tranquilidade branca,
os olhos embriagam-se de miríades de cores
e todos os vocábulos são recentes como o orvalho.
Criam a origem pela origem, num corpo duplo e uno,
transformam-se subindo morrendo em verde orgia,
inertes renascem de onda em onda radiantes,
reconhecem-se no vento que os expande e os dissolve,
o mundo é uma brecha, um esplendor, um redemoinho.
António Ramos Rosa
terça-feira, 20 de março de 2012
Hoje assassinei um poema
Nunca tinha dito um poema assim, em voz alta, para toda a gente ouvir. Leio poesia aos domingos. E à semana, ao fim da tarde, para ajudar o pôr-do-sol. Leio poesia à noite, como quem bebe leite antes de se deitar. Um poeminha quente, apaziguador, antes de dormir. Sem açúcar, nem mel, nem café - um poema puro para me ajudar a adormecer. Recostada na cama, leio baixinho alguns poemas que me acomodam na almofada e aquecem os pés. Mas nunca tinha dito um poema assim, em voz alta, para toda a gente ouvir.
Na grande casa da rádio vamos por estes dias celebrar a chegada da Primavera e o Dia Mundial da Poesia, a 21 de Março. Desafiaram-nos a tirar das gavetas os nossos poemas e timidez e que celebrássemos a poesia dita ao grande microfone da rádio.
Hoje assassinei um poema.
Na grande casa da rádio vamos por estes dias celebrar a chegada da Primavera e o Dia Mundial da Poesia, a 21 de Março. Desafiaram-nos a tirar das gavetas os nossos poemas e timidez e que celebrássemos a poesia dita ao grande microfone da rádio.
Hoje assassinei um poema.
segunda-feira, 19 de março de 2012
domingo, 18 de março de 2012
Dos Deuses, dos crentes, dos ateus, dos agelastas
Tropecei, sem querer, na internet nesta Conferência "Deus, questão para crentes e não crentes", que teve lugar na Capela do Rato há dois anos. Vale a pena ver os excertos destes pequenos vídeos e reflectir sobre o seu conteúdo.
Na mesma mesa estavam Ricardo Araújo Pereira e José Tolentino Mendonça.
Partilho aqui algumas passagens de um dos mais consistentes ateus que conheço, Ricardo Araújo Pereira: "a minha não experiência de Deus é bastante caótica"; "eu não acredito em Cristo, mas acredito nos Cristãos"; "nós (ateus) e vocês temos, em certo sentido, pátrias diferentes"; "a religião é uma estratégia para fingir que a morte não existe", citando Philip Larkin; "para nós, ateus, a morte é um sono sem sonhos".
Fala-se da vida, da morte, da relação entre o riso e a morte, do sentimento de culpa, do(s) Deus(es) e termina com a magnífica história da Pedra Agelasta, invocando a mitologia grega. Vale mesmo a pena ver.
Na mesma mesa estavam Ricardo Araújo Pereira e José Tolentino Mendonça.
Partilho aqui algumas passagens de um dos mais consistentes ateus que conheço, Ricardo Araújo Pereira: "a minha não experiência de Deus é bastante caótica"; "eu não acredito em Cristo, mas acredito nos Cristãos"; "nós (ateus) e vocês temos, em certo sentido, pátrias diferentes"; "a religião é uma estratégia para fingir que a morte não existe", citando Philip Larkin; "para nós, ateus, a morte é um sono sem sonhos".
Fala-se da vida, da morte, da relação entre o riso e a morte, do sentimento de culpa, do(s) Deus(es) e termina com a magnífica história da Pedra Agelasta, invocando a mitologia grega. Vale mesmo a pena ver.
quarta-feira, 14 de março de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
Sou tão Virgem
Sou tão Virgem, que às vezes irrita.
Desde sempre tive a fixação pela organização. Dizem os que acreditam nos signos, que até nem é o meu caso, que este é um dos mais característicos traços dos de signo Virgem.
Quem me conhece bem sabe que passo horas a "arrumar papéis". Guardo tudo, como quem tem medo de perder a memória se não tiver papéis. O bilhete de Metro com que entrei na Casa de Campo de Madrid pela primeira vez, lá está guardado. A entrada para a Tower of London, talvez porque me impressionaram os corvos. O papelinho da primeira rifa que comprei à Comissão de Finalistas da Faculdade. Postais de Natal. Um bilhete para a montanha russa (adoro!). O post it amarelo com um recado que achei, em certa data, importante. Os bilhetes que me deixam no limpa pára-brisas. Mapas de Metro de várias cidades, o bilhete da viagem de barco em Singapura, o papelinho da alta médica depois do internamento em Timor. Sei lá, guardo tudo e mais alguma coisa.
O pior de tudo (ou será o melhor de tudo?) é organizar. Numa fase inicial enchem-me as gavetas e o roupeiro, num caos que aprecio moderadamente. Sorrio e penso "ui, quando tiver que meter mão a isto..."
Depois, quando a quantidade alimenta o monstro, os papéis da minha vida passam para caixas de sapatos ou outras caixas de cartão coloridas. Mudam de casco, como o vinho. Ali ficam a amadurecer. A minha história a fermentar.
Até que, em momentos de loucura, espalho o caos pelo chão e começo a organizar tudo direitinho. Que alegria! A minha vida em pequenos papéis, guardanapos assinados, em multas que não paguei, bilhetes de barco, tickets, recados, bocadinhos de papel rasgado com números de telemóvel que não sei a quem pertencem, cartas e cartões de tanta gente. E organizá-los?! Em dossiers, por datas, com legendas. Com separadores, com capinhas plastificadas.
Um antigo namorado chegou a confidenciar-me: "gostava tanto que um dia fosses famosa. Para eu escrever a tua biografia! Tens aí a tua biografia toda". Devia tê-lo escrito num papelinho. Assim, teria lugar no dito dossier.
Desde sempre tive a fixação pela organização. Dizem os que acreditam nos signos, que até nem é o meu caso, que este é um dos mais característicos traços dos de signo Virgem.
Quem me conhece bem sabe que passo horas a "arrumar papéis". Guardo tudo, como quem tem medo de perder a memória se não tiver papéis. O bilhete de Metro com que entrei na Casa de Campo de Madrid pela primeira vez, lá está guardado. A entrada para a Tower of London, talvez porque me impressionaram os corvos. O papelinho da primeira rifa que comprei à Comissão de Finalistas da Faculdade. Postais de Natal. Um bilhete para a montanha russa (adoro!). O post it amarelo com um recado que achei, em certa data, importante. Os bilhetes que me deixam no limpa pára-brisas. Mapas de Metro de várias cidades, o bilhete da viagem de barco em Singapura, o papelinho da alta médica depois do internamento em Timor. Sei lá, guardo tudo e mais alguma coisa.
O pior de tudo (ou será o melhor de tudo?) é organizar. Numa fase inicial enchem-me as gavetas e o roupeiro, num caos que aprecio moderadamente. Sorrio e penso "ui, quando tiver que meter mão a isto..."
Depois, quando a quantidade alimenta o monstro, os papéis da minha vida passam para caixas de sapatos ou outras caixas de cartão coloridas. Mudam de casco, como o vinho. Ali ficam a amadurecer. A minha história a fermentar.
Até que, em momentos de loucura, espalho o caos pelo chão e começo a organizar tudo direitinho. Que alegria! A minha vida em pequenos papéis, guardanapos assinados, em multas que não paguei, bilhetes de barco, tickets, recados, bocadinhos de papel rasgado com números de telemóvel que não sei a quem pertencem, cartas e cartões de tanta gente. E organizá-los?! Em dossiers, por datas, com legendas. Com separadores, com capinhas plastificadas.
Um antigo namorado chegou a confidenciar-me: "gostava tanto que um dia fosses famosa. Para eu escrever a tua biografia! Tens aí a tua biografia toda". Devia tê-lo escrito num papelinho. Assim, teria lugar no dito dossier.
Em mudanças. Com chocolate.
"Uma jornalista. A América. Sentidos despertos. Toqueville na bagagem. Um diário americano." - Este era o texto de apresentação que motivou o nascimento deste blogue no Verão de 2011. Regressei da América já há uns meses. Não sabia o que fazer com o blogue. Encerrá-lo? Nem pensar. Deixá-lo murchar, como quem deixa de regar uma planta? Também não me agradou a ideia. Pensava nisto de vez em quando: "tenho que resolver aquela história". Era um assunto pendente, entre tantos outros que se acumulam na minha lista crescente de "to-do things" (ainda a influência americana).
Passei por aqui hoje, quase sem querer. Senti-me bem, tão bem, como quem regressa a casa e se entrega ao sofá. No mesmo instante decidi recuperar esta minha sala de estar. Nos outros blogues por onde ando (Elevador da Bica, Escrita Política, O Que Fica do Que Passa) escrevo sentada à secretária, de costas direitas, principalmente sobre política, tema que adoro.
Nesta minha sala de estar vou escrever sobre o que me apetecer. E escreverei da minha sala de estar, deste meu sofá. Descalça, escrevendo sobre a metafísica do mundo e comendo chocolates como a pequena da Tabacaria do Álvaro de Campos.
["Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão
[Chocolates.]
Sinto saudades de escrever. Sinto um impulso instantâneo para contar histórias. Apetece-me escrever sobre tudo. É o que me apetece fazer agora. Sinto-me hipercalórica. Escrever, escrever, escrever [Come chocolates, pequena; Come chocolates!]
Decidi manter este blogue com pequenas mudanças. Arrasto uns móveis, mudo umas prateleiras, uns quadros aqui e ali mas aqui mantenho o meu confortável sofá na minha sala de estar com vista para a metafísica do mundo.
E afinal, bastam umas pequenas mudanças no texto de apresentação. Continuo jornalista. Continuo com os sentidos despertos, cada vez mais. Na bagagem trago ainda Toqueville. E muitos, muitos outros. Continuo em viagem, todos os dias. De Americano a Metafísico, renasce aqui o meu diário. Já não é americano. Mas é o mais giro da minha rua.
Passei por aqui hoje, quase sem querer. Senti-me bem, tão bem, como quem regressa a casa e se entrega ao sofá. No mesmo instante decidi recuperar esta minha sala de estar. Nos outros blogues por onde ando (Elevador da Bica, Escrita Política, O Que Fica do Que Passa) escrevo sentada à secretária, de costas direitas, principalmente sobre política, tema que adoro.
Nesta minha sala de estar vou escrever sobre o que me apetecer. E escreverei da minha sala de estar, deste meu sofá. Descalça, escrevendo sobre a metafísica do mundo e comendo chocolates como a pequena da Tabacaria do Álvaro de Campos.
["Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão
[Chocolates.]
Sinto saudades de escrever. Sinto um impulso instantâneo para contar histórias. Apetece-me escrever sobre tudo. É o que me apetece fazer agora. Sinto-me hipercalórica. Escrever, escrever, escrever [Come chocolates, pequena; Come chocolates!]
Decidi manter este blogue com pequenas mudanças. Arrasto uns móveis, mudo umas prateleiras, uns quadros aqui e ali mas aqui mantenho o meu confortável sofá na minha sala de estar com vista para a metafísica do mundo.
E afinal, bastam umas pequenas mudanças no texto de apresentação. Continuo jornalista. Continuo com os sentidos despertos, cada vez mais. Na bagagem trago ainda Toqueville. E muitos, muitos outros. Continuo em viagem, todos os dias. De Americano a Metafísico, renasce aqui o meu diário. Já não é americano. Mas é o mais giro da minha rua.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Vida
Cheguei a casa.
Sabe bem voltar a casa.
Sinto que a minha vida, nas últimas quase seis semanas, foi uma montanha russa.
Ups and downs like a merry-go-round.
Emoções, experiências, conhecimentos, viagens, pessoas, reuniões, diversão, lágrimas, gargalhadas, afectos, homens, mulheres, abraços, olhares, cheiros, o arco-íris de Black-Hills, cores, rostos, pessoas, sons, sentimentos, sotaques, idiomas, pensamentos, frases, pessoas, alegria, tristeza, sabedoria, atitude, povo, ideias, vontades, blogue, medo, solidão, ansiedade, felicidade, amor, saudade, postais, preocupação, avó, aperto, memórias, culpa, estradas, rádio, livros, olhos, olhares, poemas, prédios, a espreguiçadeira na noite de High Line em NY, as estrelas, a noite, em que pensas?, lábios, vozes, pessoas, o cabelo despenteado da sem-abrigo "Miss Dallas" ao acordar, revolta, conformismo, cobardia, sociedade, energia, arquitectura, rugas, hábitos, hálitos, amigos, arte, histórias, bom, hamburgueres, aviões, suores, calores, calafrios, cidade, urbe, a roda gigante de Chicago, descalça, olhos fechados, "mereço?", lágrimas de felicidade, luz, tempo, mapas, danças, dançar, música, cantar, fotografia, verdade, sentir, temer, erros, entrega, pessoas, dor, o olhar fixo daquele prisioneiro em Stateville, o som da prisão, mensagens, palavras, esperança, sonhos, futuro, o sol da meia noite no Alaska, o silêncio, em que pensas?, o búfalo a atravessar a estrada, gargalhada, nudez, molhar os pés no Lago Michigan, correr de sapatos na mão, molhar o vestido, partir, pessoas, amizade, adeus, dor, palavras, promessas, saudade, voltar, casa. Eu.
Vida.
Viver.
Sabe bem voltar a casa.
Sinto que a minha vida, nas últimas quase seis semanas, foi uma montanha russa.
Ups and downs like a merry-go-round.
Emoções, experiências, conhecimentos, viagens, pessoas, reuniões, diversão, lágrimas, gargalhadas, afectos, homens, mulheres, abraços, olhares, cheiros, o arco-íris de Black-Hills, cores, rostos, pessoas, sons, sentimentos, sotaques, idiomas, pensamentos, frases, pessoas, alegria, tristeza, sabedoria, atitude, povo, ideias, vontades, blogue, medo, solidão, ansiedade, felicidade, amor, saudade, postais, preocupação, avó, aperto, memórias, culpa, estradas, rádio, livros, olhos, olhares, poemas, prédios, a espreguiçadeira na noite de High Line em NY, as estrelas, a noite, em que pensas?, lábios, vozes, pessoas, o cabelo despenteado da sem-abrigo "Miss Dallas" ao acordar, revolta, conformismo, cobardia, sociedade, energia, arquitectura, rugas, hábitos, hálitos, amigos, arte, histórias, bom, hamburgueres, aviões, suores, calores, calafrios, cidade, urbe, a roda gigante de Chicago, descalça, olhos fechados, "mereço?", lágrimas de felicidade, luz, tempo, mapas, danças, dançar, música, cantar, fotografia, verdade, sentir, temer, erros, entrega, pessoas, dor, o olhar fixo daquele prisioneiro em Stateville, o som da prisão, mensagens, palavras, esperança, sonhos, futuro, o sol da meia noite no Alaska, o silêncio, em que pensas?, o búfalo a atravessar a estrada, gargalhada, nudez, molhar os pés no Lago Michigan, correr de sapatos na mão, molhar o vestido, partir, pessoas, amizade, adeus, dor, palavras, promessas, saudade, voltar, casa. Eu.
Vida.
Viver.
quinta-feira, 21 de julho de 2011
Da série Futilidades Americanas 7
Da série Futilidades Americanas 6
Todas (mas mesmo todas) as casas-de-banho nos Estados Unidos têm papel higiénico e estão realmente limpas.
Da série Futilidades Americanas 5
Os norte-americanos não seguram as portas depois de entrarem nos edifícios, nem olham sequer de lado para ver se vem alguém atrás deles.
Da série Futilidades Americanas 4
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Guilty or not guilty? Call, vote and win this cell phone
No dia em que aterrei nos EUA, há um mês, estranhei que fosse das poucas pessoas atentas ao tapete rolante onde as bagagens iam surgindo por detrás da cortina negra de plástico. As malas rodavam, abandonadas, mas a atenção dos passageiros do aeroporto de Dulles-Washington DC naquele dia fixava-se nos ecrãs da televisão. Vários grupos de pessoas amontoavam-se, de cabeça erguida, atentos ao folclórico “breaking news”. Como tinha estado fechada no avião durante várias horas pensei poder tratar-se de um atentado, uma explosão ou algo verdadeiramente grave. Aproximei-me e li qualquer coisa como “Casey Anthony’s Trial – not guilty”. Não percebi do que se tratava apenas pelo título, mas calculei que fosse assunto sério.
Passou um mês, percorri várias cidades e Estados norte-americanos e o caso continua a provocar “breaking news”. Bastam dois minutos de tv’s, rádios ou jornais e percebo que o caso de uma mãe que supostamente matou uma filha com violência e foi declarada inocente pelo tribunal é – e continua a ser um mês depois – o tema mais importante para a nação americana.
Há horas intermináveis de debates, fóruns, análise, comentários, etc. Há até concursos em que o telespectador participa, dá opinião sobre o caso (dita a sua sentença popular) e ainda pode ganhar telemóveis!
Há quem chame a isto “infotainment”; eu prefiro a expressão “dumbtainment”. E este é “O” tema que mais preocupa a maior economia do mundo através dos media.
Lembrei-me do chamado “caso Joana”, que tanta tinta fez rolar em Portugal. Critiquei, na altura, o comportamento dos media portugueses. Critico agora também o comportamento dos media norte-americanos. Talvez sejam mais as semelhanças do que as diferenças. E, apesar de tudo, acreditem que os media portugueses podiam dar lições de sobriedade aos norte-americanos, neste caso concreto. Ou isso ou então as tv´s portuguesas não têm dinheiro para oferecer telemóveis em primetime.
Passou um mês, percorri várias cidades e Estados norte-americanos e o caso continua a provocar “breaking news”. Bastam dois minutos de tv’s, rádios ou jornais e percebo que o caso de uma mãe que supostamente matou uma filha com violência e foi declarada inocente pelo tribunal é – e continua a ser um mês depois – o tema mais importante para a nação americana.
Há horas intermináveis de debates, fóruns, análise, comentários, etc. Há até concursos em que o telespectador participa, dá opinião sobre o caso (dita a sua sentença popular) e ainda pode ganhar telemóveis!
Há quem chame a isto “infotainment”; eu prefiro a expressão “dumbtainment”. E este é “O” tema que mais preocupa a maior economia do mundo através dos media.
Lembrei-me do chamado “caso Joana”, que tanta tinta fez rolar em Portugal. Critiquei, na altura, o comportamento dos media portugueses. Critico agora também o comportamento dos media norte-americanos. Talvez sejam mais as semelhanças do que as diferenças. E, apesar de tudo, acreditem que os media portugueses podiam dar lições de sobriedade aos norte-americanos, neste caso concreto. Ou isso ou então as tv´s portuguesas não têm dinheiro para oferecer telemóveis em primetime.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Na América profunda: o patriotismo e as bandeiras chinesas
Hoje o país parou: 4 de Julho, Dia da Independência dos Estados Unidos. Os americanos ficam loucos. É feriado nacional. Famílias saem para passear, milhares de carros, bicicletas, Harley Davidson com condutores sorridentes sem capacete, há estradas cortadas, centenas de polícias nas ruas, há fogo-de-artifício, rodas gigantes e carrosséis, pipocas, hotdogs, concursos de rodeo, de miss american wet t-shirt (muito popular nas redondezas, por sinal), concursos de miss cowgirls e até “de patriotismo”.
A cidade de Rapid City, a mais próxima do rancho onde estou alojada (a uma hora e meia de distância!), está a concorrer ao título nacional da cidade mais patriótica dos Estados Unidos. Em todo o Estado do South Dakota há literalmente milhões de bandeiras azuis e brancas: umas penduradas nas janelas, outras coladas nos postes, esticadas nas paredes, espetadas em bolos. Há balões com as cores nacionais, guardanapos, toalhas, pratos, meias, bonés, bandeirinhas portáteis nas mãos de toda a gente e estampadas em tudo o que é t’shirt: “USA in my heart”; “Love your country”; “Does my patriotism hurt you?”
Ainda não percebi se o voto para este concurso de patriotismo também é electrónico, mas sei que ninguém fala noutra coisa. Para não me olharem de lado, lá acabei por comprar uma t-shirt por 3 dólares e um chapéu à cowboy. Um sucesso! Tudo made in China. Isn´t it beautiful?
A cidade de Rapid City, a mais próxima do rancho onde estou alojada (a uma hora e meia de distância!), está a concorrer ao título nacional da cidade mais patriótica dos Estados Unidos. Em todo o Estado do South Dakota há literalmente milhões de bandeiras azuis e brancas: umas penduradas nas janelas, outras coladas nos postes, esticadas nas paredes, espetadas em bolos. Há balões com as cores nacionais, guardanapos, toalhas, pratos, meias, bonés, bandeirinhas portáteis nas mãos de toda a gente e estampadas em tudo o que é t’shirt: “USA in my heart”; “Love your country”; “Does my patriotism hurt you?”
Ainda não percebi se o voto para este concurso de patriotismo também é electrónico, mas sei que ninguém fala noutra coisa. Para não me olharem de lado, lá acabei por comprar uma t-shirt por 3 dólares e um chapéu à cowboy. Um sucesso! Tudo made in China. Isn´t it beautiful?
domingo, 3 de julho de 2011
10 Factos acerca do Alaska
1 – O Alaska é o maior Estado norte-americano em área. Mede mais de 1 milhão e 700 mil km2, quase 20 vezes o tamanho de Portugal continental;
2 – É habitado por cerca de 600 mil habitantes, tendo a menor densidade populacional do país;
3 – Os Estados Unidos compraram o Alaska à Rússia em 1867;
4 – 20% dos Alaskanos são indígenas; há 220 aldeias nativas no Estado do Alaska e 20 idiomas nativos reconhecidos;
5 – É um dos Estados mais ricos dos Estados Unidos em recursos naturais (principalmente petróleo): o petróleo representa 90% da riqueza daquele Estado;
6 – É, simultaneamente, um dos dez Estados mais pobres dos Estados Unidos, com índices de pobreza, em várias regiões, semelhantes aos do Paraguai;
7 – Cada cidadão do Alaska recebe desde o nascimento cerca de 1200 dólares por ano, como incentivo à fixação no território;
8 – O Alaska tem a mais elevada taxa de alcoolismo dos Estados Unidos;
9 – O Alaska tem a mais elevada taxa de violência doméstica do país: 60% das mulheres do Alaska já sofreram abuso sexual, violação ou violência doméstica;
10 – Os níveis de abstenção rondam os 60%; é um Estado Republicano.
2 – É habitado por cerca de 600 mil habitantes, tendo a menor densidade populacional do país;
3 – Os Estados Unidos compraram o Alaska à Rússia em 1867;
4 – 20% dos Alaskanos são indígenas; há 220 aldeias nativas no Estado do Alaska e 20 idiomas nativos reconhecidos;
5 – É um dos Estados mais ricos dos Estados Unidos em recursos naturais (principalmente petróleo): o petróleo representa 90% da riqueza daquele Estado;
6 – É, simultaneamente, um dos dez Estados mais pobres dos Estados Unidos, com índices de pobreza, em várias regiões, semelhantes aos do Paraguai;
7 – Cada cidadão do Alaska recebe desde o nascimento cerca de 1200 dólares por ano, como incentivo à fixação no território;
8 – O Alaska tem a mais elevada taxa de alcoolismo dos Estados Unidos;
9 – O Alaska tem a mais elevada taxa de violência doméstica do país: 60% das mulheres do Alaska já sofreram abuso sexual, violação ou violência doméstica;
10 – Os níveis de abstenção rondam os 60%; é um Estado Republicano.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
O sol da meia-noite
Há um ano tive quase essa experiência em São Petersburgo, na Russia, quando em Agosto ainda apanhei as românticas noites brancas. E já nessa altura fiquei impressionada.
Hoje não havia nuvens no céu e decidi ficar à espera da meia-noite. Sem relógio, sem pressas, sentidos despertos, com os olhos postos no céu. Vesti um casaco quente, despejei café a ferver numa enorme caneca e sentei-me a contemplar.
É um azul, um cinzento, um prateado. É um rosado pingado junto ao mar. É um amarelo torrado entre as nuvens. E as nuvens mestiças cinzentas e rosa. E lá ao fundo as montanhas. Brutas, pálidas, brancas, brilhantes, imperiais, soberbas, exageradas. E a neve, delicada e sensível. E o sol da meia-noite metediço. E é o mar adormecido, contemplativo. E eu. Eu e o silêncio. E aquele sol que me espia entre as nuvens. E o mar que me escuta os gemidos. E o vento que parece querer dançar. Haverá mais bela criação da natureza?
Hoje não havia nuvens no céu e decidi ficar à espera da meia-noite. Sem relógio, sem pressas, sentidos despertos, com os olhos postos no céu. Vesti um casaco quente, despejei café a ferver numa enorme caneca e sentei-me a contemplar.
É um azul, um cinzento, um prateado. É um rosado pingado junto ao mar. É um amarelo torrado entre as nuvens. E as nuvens mestiças cinzentas e rosa. E lá ao fundo as montanhas. Brutas, pálidas, brancas, brilhantes, imperiais, soberbas, exageradas. E a neve, delicada e sensível. E o sol da meia-noite metediço. E é o mar adormecido, contemplativo. E eu. Eu e o silêncio. E aquele sol que me espia entre as nuvens. E o mar que me escuta os gemidos. E o vento que parece querer dançar. Haverá mais bela criação da natureza?
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