E para terminar este Dia Internacional da Música, fica aqui uma das minhas músicas preferidas. Humility, Wim Mertens. Acompanha-me sempre. Para um anoitecer mais tranquilo.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Eva
Primeiro, ao longe, parecia uma criança de tão pequena. Estava
no meio da estrada com qualquer coisa nas mãos. Eram umas oito da noite e eu
seguia de carro. As luzes e as cores cintilantes dos painéis publicitários
tornavam aquela silhueta difusa, a uns metros de mim, à contraluz. O vulto
estava parado. Pequenino. Um vulto pequenino, como que escondido.
O sinal ficou vermelho. Parei. Deu dois, três passos. Dois,
três passinhos que nem de gente eram. Devagarinho. Devagarinho. Devagarinho. Aproximou-se
da janela.
- “Menina…”, quase gemeu.
Olhou para baixo para o alcatrão. Engoli em seco. Fixei-a. Trazia
na mão direita um chapéu virado ao contrário. Um chapéu de homem, de flanela, aos
quadrados castanhos. Agarrava com uma mão na pala e a outra por baixo, no
fundo.
Olhou para mim, quase a medo. Olhos pequeninos, tão
pequeninos, assustados, que se escondiam na vergonha das mãos estendidas.
Rugas. Oitenta anos de rugas.
Baixinha, um metro e pouco. Curvada. Ela de pé, à altura do
meu rosto, sentada. Frágil. Cheia de dores. E frio.
No fundo do chapéu que trazia na mão, em vez do forro, duas
fotografias a cores de 15 por 20. Um menino. Uma menina. Sorridentes. Morenos.
Ela com um ganchinho. Ele desdentado. “Os meus netinhos”, apontou com o
indicador esquerdo, deformado pelas artroses. Teriam uns seis, dez anos. E
reparei, então, que havia uma terceira fotografia. Tipo passe. Uma senhora dos
seus trinta e poucos. Roupa escura. Óculos. Cabelo curtinho, encaracolado, pelo
pescoço. “A minha filha, que Deus já a levou por ser tão boa”.

Tinha um xaile escuro – roxo, cinzento, não sei bem, cheio
de borbotos – que lhe cobria a cabeça e protegia os ombros. Casaco de malha em
cima da blusa de lã. E mais um lenço, pareceu-me ver. Uma saia comprida. O
queixo, de onde sobressaíam uns desmaiados pêlos brancos, tremia-lhe. Fixou-me
nos olhos.
“Oh, menina…” – repetia.
“É para os meus netinhos”, espere, mas tem fome?, “É para os
ajudar”, a senhora tem mais filhos?, “A minha filha, que Deus Nosso Senhor a
guarde…”, tem casa? onde vive?, “na João Crisóstomo”, quer que a leve a casa?,
“sozinha”, mas quer que a leve? “os meninos, coitadinhos”, já jantou?, “aquela
senhora disse que me trazia jantar”, .
Fiquei sem saber o que fazer. E agora? O que faço? Agarro
nela, levo-a? Trago-a? Deixo-a? O que faço? Ligo à Segurança Social? À Santa
Casa? Ao Ministro? O que faço?
- Como se chama?
- Eva.
- Que nome tão bonito…
Olhou para mim, como se não soubesse o que era um elogio, um
mimo.
A fila de carros atrás de mim estava parada. O sinal estava
verde. Ninguém buzinou.
- Vá para casa, querida…
- Tenho que ficar até às dez.
- Porquê?
- Pode a senhora vir com o jantar, coitada.
Toquei-lhe as mãos. Apertei-as. Estavam geladas.
[Também eu]
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Retrato
"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
Cecília Meireles
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Hoje fala-se de Rádio
Já houve quem lhe ditasse a morte. Há, aliás, quem a cada
ano, moda, época, era, dia, sei lá, lhe dite a morte. Há quem franza o nariz
quando, à pergunta “é jornalista onde”?, lhes respondo na Rádio. Na Rádio com
letra maiúscula.
A Rádio é um mundo de emoções.
A Rádio é plena. A Rádio é
companhia, é informação, é formação, é aprendizagem, é crescimento, é memória, é história, é estória, é rua, é mundo, é presença, é rapidez, é intensidade, é palavra, é som, é
sentimento, é voz, é silêncio, é permanente, é animação, é festa, é
entretenimento, é vida, é verdade, é amiga, é agora, é aqui, é já, é sempre.
Hoje, quarta-feira, decorre a Rádio em Congresso. Um dia inteiro com um programa repleto de maluquinhos da e pela Rádio que se juntam para falar da menina dos seus olhos.
A minha menina.
A Rádio é sorriso. É paixão. É bichinho. É vibrante. É contagiosa. É pele. É nossa. É minha.
Silêncio. Porque vai falar-se de Rádio.
domingo, 23 de setembro de 2012
Hirundine
No dia em que chegou o Outono fui espreitar o ninho. Já era
noite e quase chuviscava. Olhei para cima. Ninguém. Estava vazio. Apenas as
palhas castanhas e o barro. Sorri. “Já partiram”.
Abri a porta de casa,
pensativa. “Onde estarão, por esta hora, com este frio e ameaça de trovoada?” Esfrego os braços para cima e para baixo com a palma das mãos rija.
Arrefeceu mesmo. Entro em casa despenteada. “Foste espreitá-las? A última
partiu na passada quinta-feira”, disse a minha mãe. Sorrimos as duas. Silêncio.
Saudade.
Partiram dois dias antes do Outono.
Quem as terá avisado que o Outono chegaria já com trovoada?
Terão sido apanhadas pelos relâmpagos? Talvez não. Voam em média 500 km por
dia, por isso se partiram quinta-feira, por esta hora já percorreram mais de mil
quilómetros. Já estão bem longe, no calor do Norte de África.
“A última partiu sozinha” – insistiu a minha mãe. “Se calhar
perde-se das outras…”
Não, ficou a fechar tudo. Para o ano está cá outra vez.
Leva-me na tua asa, Hirundine.
* Hirundine é a origem latina da palavra andorinha
sábado, 22 de setembro de 2012
15.49
Hoje às 15.49h começa o equinócio de Outono.
Quero Outonar.
Outonando na esplanada.
Acalmando.
Sentindo o Outono no gerúndio.
Contemplando as folhas.
Cheirando as cores.
Amarelando.
Alaranjando.
Acastanhando.

Vendo veios suaves.
Ouvindo as folhas cair.
Ouvir o que dizem.
O que sentem as folhas ao cair?
Tocando-lhes.
Sentindo o Outono nas mãos.
Folhas pairando.
Folhas parando.
Soltando folhas.
Libertando amarras.
Caindo.
Em mim.
Quero Outonar.
Outonando na esplanada.
Acalmando.
Sentindo o Outono no gerúndio.
Contemplando as folhas.
Cheirando as cores.
Amarelando.
Alaranjando.
Acastanhando.

Vendo veios suaves.
Ouvindo as folhas cair.
Ouvir o que dizem.
O que sentem as folhas ao cair?
Tocando-lhes.
Sentindo o Outono nas mãos.
Folhas pairando.
Folhas parando.
Soltando folhas.
Libertando amarras.
Caindo.
Em mim.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
La muerte es toda una hija de puta
A casa parecia estar sempre cheia de gente. A Abuela Elena enchia a casa com a sua voz. Falava alto como pouca gente sabe fazê-lo sem gritar. Ainda vinha a descer a rua ou a subir as escadas do prédio, e já se ouvia a Elena. Uma lenga-lenga castelllana, sempre a reclamar com alguém ou com alguma coisa. Ou porque demorámos a abrir a porta, ou porque deixámos a janela aberta, ou porque a mesa estava suja ou porque qualquer coisa.
Quando eu e os meus primos dormíamos lá em casa, tínhamos sempre serviço de despertar personalizado. Às 8 ou 9 da manhã, no máximo, independentemente de nos termos deitado de madrugada (a noite de Madrid é exigente!), entrava no quarto, batia palmas, tipo castanholas, abria as janelas e chamava-nos tudo e mais alguma coisa, carinhosamente. "Venga hijos de puta! A acordar! Pero como duermen tanto?!"
Estremunhados, ensonados, por muito que nos quiséssemos revoltar, acordávamos à gargalhada.
Era a única pessoa a quem eu gostava de ouvir chamar-me "cabrona". "Que cabrona, como come!"
Era uma mulher inspiradora. Uma batalhadora. Venceu um cancro há muitos anos, que lhe roubou dezenas de quilos, que lhe trouxe dor, rugas e cabelos brancos. Mas ainda mais o sentimento de vitória. "El hijo puta no me va a pegar!". E não a apanhou. Vencia tudo, a grande Elena.
Elena, já nos oitentas, continuava a dançar "à espanhola" com salero, batia as palmas das mãos em concha com ritmo, inclinava ligeiramente a cabeça, olhava por cima do ombro, para ver quem a mirava a bailar, batia o pé com firmeza no chão ao som da música, franzia a testa como uma verdadeira dançarina de sevilhanas. Vaidosa, caprichosa, cheia de personalidade e génio. Cheia de vida. Na véspera de morrer, ainda cantava. Enchia sempre a nossa vida, a nossa casa, os nossos dias. Ria-se e gozava de todos, com todos. E tinha um coração generoso, de manteiga.
Elena. Abuela Elena. A última vez que a vi, dormia. Quase sorria, serena. Não quis missa. "Los curas son todos unos hijos de puta!". Fez-se-lhe a vontade. Pena que não disse que não queria morrer. Devia ter dito: "la muerte es toda una hija de puta!". Porque é.
Hasta luego, Abuela Elena...
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Amigando
Não é fácil fazermos amigos.
Os nossos amigos são feitos nos tempos da escola, quando não
há preconceitos nem segundas intenções. São feitos no bairro, quando corremos,
brincamos e começamos a descobrir o mundo juntos. Os nossos amigos são feitos
na faculdade, quando apanhamos os primeiros embates da vida.
Até aí não conhecemos inimigos propriamente ditos. Há gente
de quem não gostamos, é certo, mas não há inimigos. Esses só aparecem na nossa
vida mais tarde, quando começamos a trabalhar. Aí conhecemos a competição, a
inveja, a maldade, enfim, o mundo real.
O trabalho raramente nos traz amigos. Raramente. Não é fácil
mas às vezes traz.
Mas a culpa é toda nossa.
Não estamos disponíveis para fazer novos amigos. Somos desconfiados
das intenções dos outros e o pretexto de não termos tempo é sempre uma boa desculpa.
Se um homem quer ser amigo de uma mulher, desconfiamos das
suas intenções: “sei bem o que ele quer”. Se uma mulher quer aproximar-se de um
homem, “olha, olha…” (olhos arregalados e sorriso malandro). Se uma mulher quer
ser amiga de outra mulher, a desconfiança pelo menos quintuplica. “Olha-me
esta! O que é que esta quer?”. Desconfiança e maldade que não tínhamos nos
tempos da escola, do bairro, da faculdade. Porque estávamos disponíveis para a
amizade.
Construímos redes de contactos virtuais, construímos uma
imagem que queremos projectar, construímos networking, construímos ideias,
construímos negócios, estudamos teambuilding para as empresas mas esquecemos
que também temos que construir a amizade. Disponibilidade para a amizade, vontade
e acção.
Tenho uma amiga recente. Não custou nada. E estou tão feliz
por isso.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Terceiro sem título (não sei escolher títulos apelativos)
E chegaste e voltaste a escrever em mim e nem uma palavra
sobre os meus apelos. Sei que me leste. Sei que leste, curiosa, os meus textos.
As linhas que escrevi com dificuldade sem os teus dedos. E nem uma palavra, nem
um pedido de desculpa pela ausência, nem um sinal de remorso. Voltaste como se
não tivesses partido, como se não me tivesses deixado sozinho. Do mal, o menos:
já arrumaste aquela odiosa mala de viagem. Acabaram-se as tuas férias? Queres-me
teu, outra vez? Voltaste para ficar?
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Noventa e um
A idade é uma soma de letras que pesa toneladas. O meu Avô
fez ontem 91 anos. Noventa e um por extenso ainda parece mais. 91 anos… Quase
comecei a escrever que 91 é imenso, uma vida, um quase século, uma quase
barbaridade. Mas parei a tempo. Não é. 91 anos passam num estalar de dedos. “Passou
num instante”, diz-me ele. Acredito.
Os noventa.
Noventa vem de nove. Mas também podia vir de novo: dos que
aprendem a viver de novo. Com as dores do corpo minguante. Com ranger dos
ossos. Com o sangue preguiçoso. Com as pernas que não reagem. Com o cheiro da
pele que está velha, branca e flácida. Com o desprezo dos [outros] novos. Com a
cabeça lúcida em contagem decrescente. Com a falta de tempo dos outros. Com o
espelho que lhe cospe impropérios.
Aos noventa, o que se pensa? O que se faz? Que planos? Que
vida?
Há uns dias li um texto no Público, da Alexandra Lucas Coelho, que se chamava simplesmente “Dona Cléo”. A Dona Cléo tem 96 anos, vive
no Rio de Janeiro, e diz-se que é a maior “lusitanista” brasileira. Diz que leu
Os Lusíadas numa tarde. Diz que uma das secções de autores portugueses mais
pequena da sua biblioteca é a de Gil Vicente “com umas três prateleiras”. Diz
que aos doze anos já sabia 200 poemas. Diz que passeou em Lisboa com Cardoso
Pires e Abelaira. Diz-se admiradora incondicional de Sophia. Não diz, mas tem
96 anos. Noventa e seis. Extensos.
Hei-de, aos noventa, lembrar-me de Dona Cléo. Acho que vou
chegar lá, aos noventa por extenso. E penso – estupidamente – que falta muito tempo.
Não falta. Passam num instante, disse-me o meu Avô.
domingo, 12 de agosto de 2012
Segundo post desesperado sem título
Querida Ana Catarina,
Continuas, portanto, a ignorar-me. Sei que me leste e, conhecendo-te como conheço, deves estar incomodada com o que leste. Não respondeste. Não me consegues ser indiferente, apesar de manifestares indiferença. Conheço-te bem, esse é o meu trunfo. Mas, ainda assim, continuas a ignorar-me.
Suspiro (consigo suspirar sem dificuldade, não preciso dos teus dedos para isso).
Essa praia, esses dias na praia, o que te trazem? E essa languidez com que estendes no sofá essa pele bronzeada, o que te traz? Não era melhor escreveres? Não era melhor para ti? (Para mim?)
Noto-te hoje particularmente agitada. Andas numa correria desde que acordaste.
Essa mala... Outra vez essa mala de viagem... Negra, como antevejo os meus próximos dias.
Vais viajar outra vez?
Levas-me contigo, desta vez?
Suspiro.
Ou, pelo menos, deixa-me os teus dedos.
Continuas, portanto, a ignorar-me. Sei que me leste e, conhecendo-te como conheço, deves estar incomodada com o que leste. Não respondeste. Não me consegues ser indiferente, apesar de manifestares indiferença. Conheço-te bem, esse é o meu trunfo. Mas, ainda assim, continuas a ignorar-me.
Suspiro (consigo suspirar sem dificuldade, não preciso dos teus dedos para isso).
Essa praia, esses dias na praia, o que te trazem? E essa languidez com que estendes no sofá essa pele bronzeada, o que te traz? Não era melhor escreveres? Não era melhor para ti? (Para mim?)
Noto-te hoje particularmente agitada. Andas numa correria desde que acordaste.
Essa mala... Outra vez essa mala de viagem... Negra, como antevejo os meus próximos dias.
Vais viajar outra vez?
Levas-me contigo, desta vez?
Suspiro.
Ou, pelo menos, deixa-me os teus dedos.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Sem título (apenas um post com um apelo desesperado)
Querida Ana Catarina,
Escrevo-te com alguma dificuldade, pois sem os teus dedos sinto-me amputado e é mais difícil sequenciar as letras, os pontos e as vírgulas. Sei que tens estado de férias. Foste para o estrangeiro e mal me ligaste. Apenas um ou outro texto, minimalistas, disfarçados com o peso das imagens. Falta de tempo, nem sempre a internet disponível, até compreendo. Mas entretanto regressaste a casa. Já passaram três semanas e, desde então, nem um olhar, nem uma linha, nem uma letra.
Todos os blogues meus amigos foram de férias com os seus dedos humanos, condição vital de sobrevivência, mas tu deixaste-me aqui. Sozinho. Sem dedos. Resisiti uns dias, umas semanas mas, francamente, já me parece um pouco excessivo. Já nem te peço que me leves de férias (que, mesmo assim, penso que seria de elementar justiça). Mas peço-te que me dês alguma atenção agora no teu regresso.
Por isso, se não te importas, devolve-me os dedos. Sei que são teus mas preciso mais deles que tu, que tens boca e até podes falar.
Todos os blogues meus amigos foram de férias com os seus dedos humanos, condição vital de sobrevivência, mas tu deixaste-me aqui. Sozinho. Sem dedos. Resisiti uns dias, umas semanas mas, francamente, já me parece um pouco excessivo. Já nem te peço que me leves de férias (que, mesmo assim, penso que seria de elementar justiça). Mas peço-te que me dês alguma atenção agora no teu regresso.
Por isso, se não te importas, devolve-me os dedos. Sei que são teus mas preciso mais deles que tu, que tens boca e até podes falar.
Com amor, sim apesar de tudo, ainda com amor,
O teu Diário Metafísico (sem dedos)
sexta-feira, 20 de julho de 2012
A desfazer histórias
O melhor das férias? Ler um livro num ápice, em dois dias, coisa que já não fazia há muito tempo. Mergulhar na história com uma intensidade tal que vejo os rostos das personagens aqui, à minha frente. Entro-lhes em casa. E elas na minha. Conheço-lhes as divisões, a sala de estar, o espelho onde se arranjam, o som da fechadura da porta, a vista da janela do quarto, o café onde se juntam com os amigos. Conheço-lhes a vida.
Ler, principalmente de seguida, tem esta enorme vantagem: tudo é mais real, mais próximo, mais verdade. Deixamos a nossa realidade lá fora, antes da primeira página e entramos. E ali estamos, em silêncio, a assistirmos à vida delas, as personagens. Chego a sussurrar "que parva, esta gaja" ou "não vás por aí, Humberto!". Não me ouvem, continuam na vida delas como se eu não tivesse falado.
Viro mais uma página. E outra, e outra e passaram mais duas horas. No palco do meu livro todas aquelas vidas continuam em sobressalto. E eu, deitada, à sombra a assistir aos seus tormentos. A observá-los atentamente: como se movem na sala, como dormem juntos, como se falam...
Gosto do teu quadro, Aleixo! Agressivo, mas marcante. As cores, o rosto dela, gosto até do cão deitado, tal como está, meio disforme. Não tentes mudar. Deixa como está, Aleixo. Guilherme? Pára! Olha que fecho o livro e não pintas mais hoje!
Ler, principalmente de seguida, tem esta enorme vantagem: tudo é mais real, mais próximo, mais verdade. Deixamos a nossa realidade lá fora, antes da primeira página e entramos. E ali estamos, em silêncio, a assistirmos à vida delas, as personagens. Chego a sussurrar "que parva, esta gaja" ou "não vás por aí, Humberto!". Não me ouvem, continuam na vida delas como se eu não tivesse falado.
Viro mais uma página. E outra, e outra e passaram mais duas horas. No palco do meu livro todas aquelas vidas continuam em sobressalto. E eu, deitada, à sombra a assistir aos seus tormentos. A observá-los atentamente: como se movem na sala, como dormem juntos, como se falam...
Gosto do teu quadro, Aleixo! Agressivo, mas marcante. As cores, o rosto dela, gosto até do cão deitado, tal como está, meio disforme. Não tentes mudar. Deixa como está, Aleixo. Guilherme? Pára! Olha que fecho o livro e não pintas mais hoje!
A vida deles. E eu ali mesmo à sua frente. A invadi-los. A comentá-los. A modificá-los. E eles vivem no meu livro.
Tão presente e tão real, que consigo imaginar-lhes o timbre de voz, quase o sotaque. Da Maria dos Remédios palpita-me o cheiro das suas roupas, o corte de cabelo. E aqueles brincos, sem dúvida Maria dos Remédios, ficam-te mal.
Ler é um luxo. Um prazer sem limites. Ouves-me, Humberto? Por que não olhas para mim quando te falo? Humberto? Vou desfazer a tua história. O que é real, afinal? O que vale? A tua história? Ou a minha visão da tua história? Baixa o som do rádio, por favor, estou a falar contigo.
PS: O livro em causa: "Bolor", de Augusto Abelaira

"Bolor: mãos que preparam, mãos que fazem e desfazem
Ir desfazendo sempre a história à medida que a escrevo?",
Augusto Abelaira
Tão presente e tão real, que consigo imaginar-lhes o timbre de voz, quase o sotaque. Da Maria dos Remédios palpita-me o cheiro das suas roupas, o corte de cabelo. E aqueles brincos, sem dúvida Maria dos Remédios, ficam-te mal.
Ler é um luxo. Um prazer sem limites. Ouves-me, Humberto? Por que não olhas para mim quando te falo? Humberto? Vou desfazer a tua história. O que é real, afinal? O que vale? A tua história? Ou a minha visão da tua história? Baixa o som do rádio, por favor, estou a falar contigo.
PS: O livro em causa: "Bolor", de Augusto Abelaira

"Bolor: mãos que preparam, mãos que fazem e desfazem
Ir desfazendo sempre a história à medida que a escrevo?",
Augusto Abelaira
sábado, 14 de julho de 2012
A meu favor tenho
"A meu favor tenho o teu olhar
Testemunhando por mim
Perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
À noite na solidão do quarto
Refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
Quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
Dos demónios da noite e da aflições do dia,
Fala em voz alta, não deixes que adormeça
Afasta de mim o pecado da infelicidade."
Manuel António Pina, in "Algo Parecido Com Isto,
Da Mesma Substância"
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Vergonha maior
Cada centímetro de muro é um quilómetro de vergonha...
Impressionada com tamanha brutalidade... O peso da história, aqui em Berlim, é muito mais cruel. Como foi tudo isto possível?
Aqui estou, em silêncio, incomodada, perplexa, junto ao muro verdadeiro da vergonha maior desta Alemanha.
terça-feira, 3 de julho de 2012
A crescer
De viagem outra vez. Cresço a cada viagem que faço. Por estes dias cresço mais um bocadinho. Quero acabar velhinha, muito velhinha, mas gigante.
sábado, 30 de junho de 2012
O espírito que sai da boca
«Cá fora sento-me nas escadas a ler um pequeno livro sobre
caracteres japoneses.
O de “livro” vem do desenho-esquema de “raiz de árvore”; de
raiz passou-se para “origem”, e de origem (origem do conhecimento) para livro.
O caracter de “palavra” é o desenho de um rectângulo (uma “boca”)
com quatro traços paralelos em cima, e à letra (…) quer dizer “o espírito que
sai da boca”.
“Nome” faz-se da junção entre o caracter de “boca” e o de “noite”,
porque quando uma pessoa se cruza com outra de noite, no escuro, tem de dizer
quem é.
“Ter”, “ser” e “existir” escrevem-se com o mesmo caracter,
que significa “coisa encontrada no chão”.
“Ilha” desenha-se juntando o caracter de “pássaro” com o de “montanha”.
Guardo o livro.»
In “Livro Usado”, Jacinto Lucas Pires
segunda-feira, 25 de junho de 2012
Hanami
Sempre tive atracção pelo Oriente.
Já viajei pelo Oriente, atravessando vários países, tenho lido sobre o Oriente, leio escritores orientais, vejo filmes de autores orientais e sobre o Oriente. E sinto que esse apelo vai crescendo. São povos imperiais, de culturas e tradições milenares com hábitos curiosos, sociedades interessantíssimas.
Há anos que leio livros sobre o Oriente, mesmo sobre os países que ainda não visitei. Lembro-me de, há quase dez anos, estar internada e o meu magnífico médico (do Serviço Nacional de Saúde, claro) e hoje meu amigo, me ter trazido uma História du Japam, assim mesmo em português antigo, depois de numa conversa, entre o soro e a medicação, ter partilhado com ele este meu prazer de viajar e o encanto pelo Oriente.
Desde o primeiro dia que comecei a frequentar o curso de Poesia Japonesa, em Abril, tenho andado num frenesim a tentar conhecer melhor a cultura e os hábitos japoneses. Não sei nada de japonês, o idioma, mas a poesia japonesa traduzida para português (às vezes do Brasil) ou inglês, tem sido um choque vitamínico, quase uma fixação.
Já encomendei uma pilha de livros nas livrarias e pela internet, já andei por Feiras de Livros e Alfarrabistas à procura de "coisas sobre o Japão", poesia especialmente.
- "Boa tarde. Não estranhe a pergunta, ando à procura de coisas esquisitas..."
- "Diga" - responde uma voz seca atrás de uns óculos amarelados - "nós, alfarrabistas, estamos habituados a tudo!"
- "Hayku. Quero tudo o que tenha a ver com Hayku."
- "Hummm..."
- "É um género de poesia japonesa."
- "Hummm..."
Já viajei pelo Oriente, atravessando vários países, tenho lido sobre o Oriente, leio escritores orientais, vejo filmes de autores orientais e sobre o Oriente. E sinto que esse apelo vai crescendo. São povos imperiais, de culturas e tradições milenares com hábitos curiosos, sociedades interessantíssimas.
Há anos que leio livros sobre o Oriente, mesmo sobre os países que ainda não visitei. Lembro-me de, há quase dez anos, estar internada e o meu magnífico médico (do Serviço Nacional de Saúde, claro) e hoje meu amigo, me ter trazido uma História du Japam, assim mesmo em português antigo, depois de numa conversa, entre o soro e a medicação, ter partilhado com ele este meu prazer de viajar e o encanto pelo Oriente.
Desde o primeiro dia que comecei a frequentar o curso de Poesia Japonesa, em Abril, tenho andado num frenesim a tentar conhecer melhor a cultura e os hábitos japoneses. Não sei nada de japonês, o idioma, mas a poesia japonesa traduzida para português (às vezes do Brasil) ou inglês, tem sido um choque vitamínico, quase uma fixação.
Já encomendei uma pilha de livros nas livrarias e pela internet, já andei por Feiras de Livros e Alfarrabistas à procura de "coisas sobre o Japão", poesia especialmente.
- "Boa tarde. Não estranhe a pergunta, ando à procura de coisas esquisitas..."
- "Diga" - responde uma voz seca atrás de uns óculos amarelados - "nós, alfarrabistas, estamos habituados a tudo!"
- "Hayku. Quero tudo o que tenha a ver com Hayku."
- "Hummm..."
- "É um género de poesia japonesa."
- "Hummm..."
Quem me conhece bem sabe que sou excessiva, de entrega total quando me apaixono por algo. É assim com a Rádio, com o Voleibol, com os Amores. E sinto que esta onda japonesa me está a contaminar. Estou a ser tomada pelo Hayku. Ando enfeitiçada pelo Japão.
E tomei uma decisão: vou ao Japão. Já para o próximo ano, espero. E será, sem dúvida, na época das cerejeiras em flor. Quero cumprir a tradição Hanami.
- "Hanami? Hummm...", diria o Alfarrabista.
- "É um acto de contemplação. O Hanami é o acto
humano de contemplar as cerejeiras em flor no Japão!", explicar-lhe ia
sorridente, condescendente, entusiasmada. - "Quero muito fazer isso!"
- "Hummm..."
Sentar-me no chão japonês. Sentir a terra nas mãos e o
fresco na pele. Ver as flores das cerejeiras de baixo para cima, seguindo a
força da terra. As cerejeiras brancas, rosadas, de pontas avermelhadas. Estender
as pernas, encostadas à pele da terra, relaxadas. As minhas pernas, também em flor.
Hanami. Olhar à volta. Despertar os sentidos. Agarrar a
memória. E olhá-las, mirá-las, fixá-las, descobri-las. Contemplá-las em
silêncio. Cheirá-las. Fechar os olhos, cheirar, ouvir, absorver, impregnar o
corpo e a mente com imagens de flores de cerejeiras.
O que dizem? E o que dizem àquele povo? Sentir o que
transmite a filigrana natural rosada, delicada, harmoniosa. Reflectir. Porque
renasce, a cada ano, a natureza. Sentir. Renovar o espírito. Hanami.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Na esquina da ironia
O sinal estava quase vermelho e parei. Ia com tempo. Tinha o
vidro aberto e nem sequer havia muito trânsito. Braço de fora, rádio ligado
baixinho e um calor abafado em Lisboa. Ponto morto. Olhei distraidamente para o
lado de lá da estrada. Havia uma única pessoa à espera para atravessar a estrada.
O primeiro detalhe a captar a minha atenção foi o cachecol
vermelho, verde e amarelo que lhe cobria o pescoço, cruzado no peito. Ali
repousavam as letras "ugal". Fixei-o melhor. Tinha barba
grisalha, longa, descuidada. Tinha o cabelo despenteado, comprido, irregular.
Tinha calvície. Tinha testa alta cheia de rugas.
O sinal para os peões ficou verde. Começou a atravessar a
estrada. Olhou para baixo. Pisou o alcatrão devagarinho. Calçava uns ténis
castanhos de pano. Gastos. Rotos. Sujos. Sola gasta. Arrastava os pés. Mexia-se
lentamente. Um pé à frente do outro, passinhos curtos, hesitantes, calejados,
doídos. Trazia na mão um saco de plástico, cheio de coisas, usado e encardido.
A sua fortuna, os seus bens, o seu presente.
Usava um casaco preto, puído nos braços, com o forro
descosido em baixo. Preto, já quase cinzento. Era um casaco preto de executivo,
outrora. Há anos aquele casaco já teria passado, quem sabe, por escritórios
luxuosos na Avenida da Liberdade. Ou ali mesmo, nas Torres das Amoreiras.
Aquele casaco escuro cobria agora um homem velho sem destino nem tecto.
Passou a uns dois metros de mim, do meu carro em ponto
morto, que cheira a perfume e ao meu banho tomado. Não olhou para mim. Nem para
mais ninguém. Não desviou o olhar da estrada até chegar ao passeio do lado de
cá. Ainda estava verde para os peões.
O homem parou na esquina, depois de atravessar. Abriu o saco
de plástico, não fosse ter perdido algo pelo caminho. Olhou depois para a rua
em frente, que seria talvez o seu destino seguinte. De pé, aquele casaco preto
puído, amarrotado. O casaco de executivo à espera de ordens. De pé,
despenteado, com o nome e as cores de Portugal junto ao coração. Um sem
abrigo que traz ao peito as cores do meu país. O mesmo país que o mantém na rua.
Buzinaram atrás de mim. Tinha aberto o sinal verde. Olhei o
retrovisor, meti a primeira e avancei devagarinho. Voltei a fixá-lo, o homem.
Continuava parado no passeio, agora um pouco mais para lá. Encostou-se a um mupi com
fundo azul claro e ar fresco, que escrevia "haja alegria".
"Haja alegria", lamentei...
Não sei bem o nome daquela rua. Foi para os lados das
Amoreiras, algures em Campolide. Bem podia chamar-se a esquina da ironia.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Vira-te para cá
Gostava que o dia tivesse mais vinte e quatro horas. Ou mais vinte e nove. Ou mais trinta, umas trinta e sete, sei lá. Quarenta... Imaginar um dia com mais quarenta e tal horas, além das vinte e quatro. Que alegria!
- "Que horas são?"
- "Trinta e sete e cinquenta minutos!"
- "E ainda nem anoiteceu..."
E imaginar um relógio de sessenta e tal horas. E as voltas dos ponteiros. E o ponteiro dos segundos, que se cansaria certamente, na volta completa ao relógio das sessenta e muitas horas.
Ficaria a vê-lo bailar entre as horas e os minutos, impressionada com as horas que o dia agora tinha. Mais uma hora que teria muito mais do que sessenta minutos. Mais um minuto que teria muito mais do que sessenta segundos.
- "Baila, baila, ponteiro, baila!"
- "Estou cansado hoje. Mais hoje que ontem..."
- "Espera! Para onde vais?"
- "Para lá."
- "Sempre para lá. Porque não te viras para cá?"
- "Não sei dançar de costas."
- "Que horas são?"
- "Trinta e sete e cinquenta minutos!"
- "E ainda nem anoiteceu..."
E imaginar um relógio de sessenta e tal horas. E as voltas dos ponteiros. E o ponteiro dos segundos, que se cansaria certamente, na volta completa ao relógio das sessenta e muitas horas.
Ficaria a vê-lo bailar entre as horas e os minutos, impressionada com as horas que o dia agora tinha. Mais uma hora que teria muito mais do que sessenta minutos. Mais um minuto que teria muito mais do que sessenta segundos.
- "Baila, baila, ponteiro, baila!"
- "Estou cansado hoje. Mais hoje que ontem..."
- "Espera! Para onde vais?"
- "Para lá."
- "Sempre para lá. Porque não te viras para cá?"
- "Não sei dançar de costas."
terça-feira, 29 de maio de 2012
Bolero de fim de tarde
Já não apanhei a música desde o início. Estava a meio, talvez. Aumentei o volume. Adoro esta música. Aumentei ainda mais. Cantarolei só com a garganta. A imaginação que não pára. O pára-arranca do trânsito. O vizinho do carro ao lado, alertado com a minha música alta, fixou-me. Sorriu. Baixei um pouco o volume. E o rosto. O Bolero de Ravel que saía do meu carro era ouvido na vizinhança. O sinal abriu. Voltei a aumentar o volume. Acelerei. Abri os vidros. Aumentei o meu Ravel. Passei o amarelo. Talvez já vermelho. E o inspirador Ravel no meu rádio do carro. Um polícia que me mandou parar. Maldito. Estaria vermelho? Encostei. O Ravel em altos berros. Abordou-me à janela do carro. O Ravel em fundo. Pediu-me que baixasse o volume e de seguida os documentos. Não percebeu nada... Era o Bolero de Ravel.
segunda-feira, 28 de maio de 2012
segunda-feira, 21 de maio de 2012
Dedos nas estrelas
À noite os meus dedos ganham vida própria. Ficam inquietos, peganhentos, nervosos, mexidos. Tenho dedos noctívagos. Eu, sem os meus dedos, prefiro os dias.
Agradam-me as manhãs. Quem é da Rádio gosta das manhãs. As primeiras horas do Sol, brilhante, radiante. As rugas na testa, que se franze com tamanha luminosidade. A manhã é um gigante. As pálpebras incomodadas, como estores cobrindo meia janela. O azul, o branco, o verde clarinho, o beige, o cinza, o acinzentado, o azulado, o esverdeado, o amarelo, o baunilha, o amarelado, um ligeiro castanho avermelhado, o rosa, o rosa acastanhado, o rosa avermelhado, e outra vez o branco e o azul, tudo mesclado, misturado, matizado... Não sei como há quem use óculos escuros para filtrar todas estas cores da manhã. Devia ser proibido escurecer a manhã.
E o cheiro? Então se chove, aquele cheiro da manhã molhada. A alma humedece apenas com o cheiro da manhã. Orvalha-me o dia. Há sempre uma brisa fresca quando abro a janela ainda ensonada. Inspiro. Encho o peito de ar. Espreguiço-me à janela todos os dias. Gosto de espreguiçar-me à janela, parece que os músculos esticam melhor, nutridos pela energia matinal.
Mas os meus dedos não se espreguiçam comigo. Mantêm-se deitados na cama quente, sonolentos, indiferentes à manhã que tenta despertá-los.
Também gosto das tardes. Gosto dos inícios das tardes. O Sol quente, a pique. Os girassóis quase incandescentes. As cigarras, quando é tempo delas. O meio do dia, com todo o tempo ainda pela frente.
E gosto dos fins das tardes. O regresso a casa, às famílias, aos ninhos. A algazarra da passarada. Os vôos felizes das andorinhas. O pôr do Sol silencioso. O gin tónico. O recolher. O cantar dos grilos. Meter a chave à porta ao fim do dia, descalçar-me. Descalçar-me...
Aquele namoro entre o Sol e a Lua, que, atrevida, começa a espreitar. Volto a abrir a janela ao anoitecer. Descalça, abro a janela. Inspiro, ouço, sinto. O cheiro da cidade é diferente, à noite. A brisa matinal deslocou-se para uma outra margem, outro rio, num outro país. Voltará daqui a algumas horas. O cheiro do anoitecer é mais adocicado, mais quente. O dia também está cansado.
Anoitece.
Os meus dedos despertam ao anoitecer. Correm para o teclado enquanto eu corro para um duche relaxante. Agarram-se às letras, às palavras, procuram metáforas e exclamações. Conquistam verbos e adjectivos. Descobrem vírgulas e reticências...
A noite é viciante para os meus dedos. Há contos e imagens que querem escrever. Não sei se será das estrelas, se da Lua. Parecem pirilampos cintilantes, saltitantes, fervilhantes. Os meus dedos querem falar. Pedem-me para abrir o tampo do computador, fora de horas. Querem conversa, espaço de liberdade. Alimentam-se do luar, da noite escura, da dança dos morcegos. Escutam os rouxinóis, que também adormecem tarde. Desafiam os mochos e corujas que, de olhos espantados, espreitam cada linha. Nas cabeças dos meus dedos nascem histórias, desejos, vidas que desconheço.
Vou dormir. Os meus dedos vão continuar por aqui. A querer contar histórias.
Agradam-me as manhãs. Quem é da Rádio gosta das manhãs. As primeiras horas do Sol, brilhante, radiante. As rugas na testa, que se franze com tamanha luminosidade. A manhã é um gigante. As pálpebras incomodadas, como estores cobrindo meia janela. O azul, o branco, o verde clarinho, o beige, o cinza, o acinzentado, o azulado, o esverdeado, o amarelo, o baunilha, o amarelado, um ligeiro castanho avermelhado, o rosa, o rosa acastanhado, o rosa avermelhado, e outra vez o branco e o azul, tudo mesclado, misturado, matizado... Não sei como há quem use óculos escuros para filtrar todas estas cores da manhã. Devia ser proibido escurecer a manhã.
E o cheiro? Então se chove, aquele cheiro da manhã molhada. A alma humedece apenas com o cheiro da manhã. Orvalha-me o dia. Há sempre uma brisa fresca quando abro a janela ainda ensonada. Inspiro. Encho o peito de ar. Espreguiço-me à janela todos os dias. Gosto de espreguiçar-me à janela, parece que os músculos esticam melhor, nutridos pela energia matinal.
Mas os meus dedos não se espreguiçam comigo. Mantêm-se deitados na cama quente, sonolentos, indiferentes à manhã que tenta despertá-los.
Também gosto das tardes. Gosto dos inícios das tardes. O Sol quente, a pique. Os girassóis quase incandescentes. As cigarras, quando é tempo delas. O meio do dia, com todo o tempo ainda pela frente.
E gosto dos fins das tardes. O regresso a casa, às famílias, aos ninhos. A algazarra da passarada. Os vôos felizes das andorinhas. O pôr do Sol silencioso. O gin tónico. O recolher. O cantar dos grilos. Meter a chave à porta ao fim do dia, descalçar-me. Descalçar-me...
Aquele namoro entre o Sol e a Lua, que, atrevida, começa a espreitar. Volto a abrir a janela ao anoitecer. Descalça, abro a janela. Inspiro, ouço, sinto. O cheiro da cidade é diferente, à noite. A brisa matinal deslocou-se para uma outra margem, outro rio, num outro país. Voltará daqui a algumas horas. O cheiro do anoitecer é mais adocicado, mais quente. O dia também está cansado.
Anoitece.
Os meus dedos despertam ao anoitecer. Correm para o teclado enquanto eu corro para um duche relaxante. Agarram-se às letras, às palavras, procuram metáforas e exclamações. Conquistam verbos e adjectivos. Descobrem vírgulas e reticências...
A noite é viciante para os meus dedos. Há contos e imagens que querem escrever. Não sei se será das estrelas, se da Lua. Parecem pirilampos cintilantes, saltitantes, fervilhantes. Os meus dedos querem falar. Pedem-me para abrir o tampo do computador, fora de horas. Querem conversa, espaço de liberdade. Alimentam-se do luar, da noite escura, da dança dos morcegos. Escutam os rouxinóis, que também adormecem tarde. Desafiam os mochos e corujas que, de olhos espantados, espreitam cada linha. Nas cabeças dos meus dedos nascem histórias, desejos, vidas que desconheço.
Vou dormir. Os meus dedos vão continuar por aqui. A querer contar histórias.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Da falta de leitura
"O velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médico o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito, dá-me preguiça. Então, o médico acrescentava: ah, pois fique sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas."
Valter Hugo Mãe, "O filho de mil homens"
Valter Hugo Mãe, "O filho de mil homens"
Libreria Acqua Alta, Veneza
domingo, 6 de maio de 2012
O Perigeu
Para quem, como eu, não sabia por que motivo científico a Lua está hoje tão imensa, reproduzo o aqui a explicação dos cientistas do Observatório Astronómico de Lisboa (no site do Observatório).
"Nesta noite a Lua Cheia está maior e mais brilhante que o habitual. Esta “Super Lua” é provocada pela ocorrência simultânea da fase de Lua Cheia, com a Lua no perigeu (ponto da órbita da Lua, em que a esta se encontra mais próxima da Terra).
A melhor ocasião para observar esta "Super Lua Cheia" foi o momento do nascimento da Lua, quando esta apareceu no horizonte, em Lisboa pelas 20:09 horas, Porto pelas 20:12 horas. A Lua parece maior quando está perto do horizonte e aparece por entre edifícios ou árvores.
A melhor ocasião para observar esta "Super Lua Cheia" foi o momento do nascimento da Lua, quando esta apareceu no horizonte, em Lisboa pelas 20:09 horas, Porto pelas 20:12 horas. A Lua parece maior quando está perto do horizonte e aparece por entre edifícios ou árvores.
Este facto torna aparentemente a Lua cheia ainda maior do que já é: 14% maior e 30% mais brilhante.
Há um mito, de associar esta fase da Lua ao azar, aos desastres naturais, etc…, embora cientificamente não haja qualquer relação entre ambos. O fenómeno somente influenciará a intensidade das marés, em especial no Oceano Atlântico, mas sem consequências significativas.
Neste perigeu a Lua estará a uma distância de aproximadamente de 357 mil km da Terra.
Este fenómeno é cíclico. O último registou-se a 19 de Março de 2011, o próximo ocorrerá a 23 Junho de 2013 e em 2014 acontecerá a 10 de Agosto."
Há um mito, de associar esta fase da Lua ao azar, aos desastres naturais, etc…, embora cientificamente não haja qualquer relação entre ambos. O fenómeno somente influenciará a intensidade das marés, em especial no Oceano Atlântico, mas sem consequências significativas.
Neste perigeu a Lua estará a uma distância de aproximadamente de 357 mil km da Terra.
Este fenómeno é cíclico. O último registou-se a 19 de Março de 2011, o próximo ocorrerá a 23 Junho de 2013 e em 2014 acontecerá a 10 de Agosto."
sexta-feira, 4 de maio de 2012
O efeito psicológico de um relógio adiantado
Vivemos à pressa. Passamos a vida a correr. E passamos pela vida a correr.
É sempre tudo de fugida, um toca e foge, uma manhã que já passou, é uma inconstância, um aperto, o dia que é sempre curto, a tarde que já se fez noite, o relógio que parece sempre acelerado.
Sempre sem tempo.
Andamos apressados nas ruas, andamos apressados nas estradas, buzinamos por falta de paciência quando o da frente não arranca, insultamos o semáforo que, cruel, cai vermelho mesmo no exacto momento em que o queremos cruzar como se só ficasse vermelho uma vez por dia.
Reclamamos quando esperamos pelo elevador, irritamo-nos se a nossa fila de supermercado não anda (achamos sempre que a do lado mingua mais depressa), incomoda-nos o tempo de espera em qualquer balcão de atendimento, vociferamos quando ficamos pendurados ao telefone a ouvir música irritante à espera que nos atendam, ululamos quando a pessoa à nossa frente no multibanco paga contas, levanta dinheiro e ainda pede um extracto final.
Reclamamos porque perdemos tempo. E reclamamos porque não temos mais tempo a perder. Mas depois não temos tempo para fazermos o que queríamos ter feito com o tempo que tínhamos para isso.
O tempo...
O tempo provoca em nós actos irracionais. Em mim, pelo menos, provoca.
Todos os meus relógios estão adiantados. Todos. Cinco minutos o de pulso. Quatro minutos o do carro. Dez minutos o do forno da cozinha. O da mesa de cabeceira, quando toca de manhã, está quinze minutos adiantado. Já chegou a estar onze, mas onze não é um número redondo. Era-me mais difícil fazer as contas de cabeça (para me mentalizar da dimensão do meu atraso) enquanto me vestia, ouvia o noticiário na rádio, preparava o pequeno almoço e espreitava os jornais online. Optei pelos quinze minutos adiantados por ser um número mais fácil. No fundo, é mais um quarto de hora. Sei sempre que tenho um quarto de hora extra, além do tempo real que o relógio sentencia.
O efeito psicológico de um relógio adiantado é completamente estúpido. Adianto o relógio para ganhar tempo. Mas, afinal, saio sempre à mesma hora. À hora que devia sair, fintando o meu próprio relógio. Haverá coisa mais estúpida?
Acreditamos todos os dias que no dia seguinte teremos tempo para fazermos o que não conseguimos fazer hoje. Como se o dia de amanhã tivesse mais horas que o dia de hoje.
O relógio de sol não se consegue adiantar para ganhar tempo.
Têm pressa de quê, as pessoas? Pressa para quê? Quem é que marca as horas, afinal?
É sempre tudo de fugida, um toca e foge, uma manhã que já passou, é uma inconstância, um aperto, o dia que é sempre curto, a tarde que já se fez noite, o relógio que parece sempre acelerado.
Sempre sem tempo.
Andamos apressados nas ruas, andamos apressados nas estradas, buzinamos por falta de paciência quando o da frente não arranca, insultamos o semáforo que, cruel, cai vermelho mesmo no exacto momento em que o queremos cruzar como se só ficasse vermelho uma vez por dia.
Reclamamos quando esperamos pelo elevador, irritamo-nos se a nossa fila de supermercado não anda (achamos sempre que a do lado mingua mais depressa), incomoda-nos o tempo de espera em qualquer balcão de atendimento, vociferamos quando ficamos pendurados ao telefone a ouvir música irritante à espera que nos atendam, ululamos quando a pessoa à nossa frente no multibanco paga contas, levanta dinheiro e ainda pede um extracto final.
Reclamamos porque perdemos tempo. E reclamamos porque não temos mais tempo a perder. Mas depois não temos tempo para fazermos o que queríamos ter feito com o tempo que tínhamos para isso.
O tempo...
O tempo provoca em nós actos irracionais. Em mim, pelo menos, provoca.
Todos os meus relógios estão adiantados. Todos. Cinco minutos o de pulso. Quatro minutos o do carro. Dez minutos o do forno da cozinha. O da mesa de cabeceira, quando toca de manhã, está quinze minutos adiantado. Já chegou a estar onze, mas onze não é um número redondo. Era-me mais difícil fazer as contas de cabeça (para me mentalizar da dimensão do meu atraso) enquanto me vestia, ouvia o noticiário na rádio, preparava o pequeno almoço e espreitava os jornais online. Optei pelos quinze minutos adiantados por ser um número mais fácil. No fundo, é mais um quarto de hora. Sei sempre que tenho um quarto de hora extra, além do tempo real que o relógio sentencia.
O efeito psicológico de um relógio adiantado é completamente estúpido. Adianto o relógio para ganhar tempo. Mas, afinal, saio sempre à mesma hora. À hora que devia sair, fintando o meu próprio relógio. Haverá coisa mais estúpida?
Acreditamos todos os dias que no dia seguinte teremos tempo para fazermos o que não conseguimos fazer hoje. Como se o dia de amanhã tivesse mais horas que o dia de hoje.
O relógio de sol não se consegue adiantar para ganhar tempo.
Têm pressa de quê, as pessoas? Pressa para quê? Quem é que marca as horas, afinal?
terça-feira, 1 de maio de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Poesia Japonesa 3 - Sabedoria
A segunda lição é que os Japoneses são excessivamente organizados. Achei piada quando comecei a ouvir a descrição, até pelo que já aqui confessei. Mas à medida que ia ouvindo pormenores, sentia-me uma principiante em matérias de organização.
Contou a minha Professora de Poesia Japonesa (hei-de falar acerca dela num post específico) que os Japoneses são excessivamente organizados - e sublinha a palavra "excessivamente".
Organizam tudo, planeiam tudo, pensam em tudo, analisam todas as hipóteses, ponderam custos e benefícios, comparam tudo o que é comparável e o que não o é. As mais pequenas decisões domésticas podem ser verdadeira ciência.
Contou ela que os feriados nacionais, por exemplo, são planeados de um ano para o outro. Isto é, as famílias decidem este ano o que vão fazer no feriado de Junho ou Outubro do ano que vem. Como têm poucos dias de férias, os feriados são autênticas celebrações nacionais. E preparam meticulosamente esse programa, para onde vão, com quem vão, o que levam, qual o percurso, etc.
Há, nessa medida, Poetas Japoneses que demoram anos a escrever um Poema. Anos a escrever um conjunto de Poesias coerentes. Anos, décadas até, a reflectir a poesia, tal a obsessão pela métrica, pela carga simbólica, pela mensagem, pela envolvência, pelo ritmo, pelas sílabas, pela cadência, pelos versos, pela estrutura, pelo conteúdo, pelos elementos que têm de constar no texto, pelo respeito pelas regras dos Mestres de Poesia.
Um mundo mágico ancestral, em que a sabedoria da idade é valorizada como uma fortuna. As rugas e os cabelos grisalhos são tesouros. As mãos, porventura trémulas, escrevem palavras certas. Idade. Respeito. Sabedoria.
sábado, 28 de abril de 2012
Poesia Japonesa 1 - Aventura
Estou a fazer um curso de Poesia Japonesa.
Inscrevi-me num impulso. Consciente de que o meu tempo é curto, entre a rádio, o doutoramento, as aulas a que assisto, as aulas que dou, as conferências e seminários, o volley, a vida, os livros, os mimos, fui inconsciente no impulso: "não posso perder, hei-de arranjar tempo para isto".
As aulas são maravilhosas, uma aventura, uma descoberta, um mundo novo. É como entrar num filme ou num romance, é como ser personagem de um livro. Tudo é diferente.
Subo o elevador até ao quarto andar, onde vou ter aulas. Olho-me ao espelho. Estou mal encarada. Aquela luz de cima, também não favorece. Que olheiras... Sim, sinto-me cansada. Pestanejo mais perto do espelho. Que figurinha. Ainda bem que subo sozinha.
Depois dos primeiros segundos em que me desagrada o que vejo ao espelho, descolo do meu mundo. Começo a transformar-me. Poesia Japonesa? Só pode ser muito bom... Olho-me desconfiada novamente, agora mais longe do espelho fugindo do foco de luz na cabeça, já com um sorriso de entusiasmo pela proximidade da aula. Parece que já me vejo oriental. A minha imagem reflectida no espelho já é outra.
O meu trajecto de dois minutos no elevador é a minha câmara de transformação. Faço ali a minha expurga das notícias da política, da economia e da crise. Mato ali, naqueles segundos, os meus políticos, os meus Ministros, os meus Deputados e apago num ápice os números negros da economia que tenho que saber de cor.
A porta do elevador abre-se. Saio, confiante. Há um burburinho discreto no hall. Entro na sala. Estão umas vinte e poucas pessoas, algumas sentadas, outras ainda de pé. Olho em volta. Olham-se todos uns aos outros. Há jovens universitários, alguns porventura desempregados, há dois casais de namorados (que bonito, que poético), há meia dúzia de senhoras com ar de professoras, um ou outro senhor grisalhado, alguns reformados, há um rapaz vestido de negro cheio de piercings, há gente, há pessoas. Olhares. Curiosidade. Sento-me na primeira fila, para ouvir tudo, beber tudo, aprender tudo, apreender tudo.
Poesia Japonesa. Meto-me em cada uma...
Inscrevi-me num impulso. Consciente de que o meu tempo é curto, entre a rádio, o doutoramento, as aulas a que assisto, as aulas que dou, as conferências e seminários, o volley, a vida, os livros, os mimos, fui inconsciente no impulso: "não posso perder, hei-de arranjar tempo para isto".
As aulas são maravilhosas, uma aventura, uma descoberta, um mundo novo. É como entrar num filme ou num romance, é como ser personagem de um livro. Tudo é diferente.
Subo o elevador até ao quarto andar, onde vou ter aulas. Olho-me ao espelho. Estou mal encarada. Aquela luz de cima, também não favorece. Que olheiras... Sim, sinto-me cansada. Pestanejo mais perto do espelho. Que figurinha. Ainda bem que subo sozinha.
Depois dos primeiros segundos em que me desagrada o que vejo ao espelho, descolo do meu mundo. Começo a transformar-me. Poesia Japonesa? Só pode ser muito bom... Olho-me desconfiada novamente, agora mais longe do espelho fugindo do foco de luz na cabeça, já com um sorriso de entusiasmo pela proximidade da aula. Parece que já me vejo oriental. A minha imagem reflectida no espelho já é outra.
O meu trajecto de dois minutos no elevador é a minha câmara de transformação. Faço ali a minha expurga das notícias da política, da economia e da crise. Mato ali, naqueles segundos, os meus políticos, os meus Ministros, os meus Deputados e apago num ápice os números negros da economia que tenho que saber de cor.
A porta do elevador abre-se. Saio, confiante. Há um burburinho discreto no hall. Entro na sala. Estão umas vinte e poucas pessoas, algumas sentadas, outras ainda de pé. Olho em volta. Olham-se todos uns aos outros. Há jovens universitários, alguns porventura desempregados, há dois casais de namorados (que bonito, que poético), há meia dúzia de senhoras com ar de professoras, um ou outro senhor grisalhado, alguns reformados, há um rapaz vestido de negro cheio de piercings, há gente, há pessoas. Olhares. Curiosidade. Sento-me na primeira fila, para ouvir tudo, beber tudo, aprender tudo, apreender tudo.
Poesia Japonesa. Meto-me em cada uma...
quarta-feira, 25 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
Metro a metro
Gosto de andar de transportes públicos nas cidades que visito. Penso que aí está a essência das pessoas, do ritmo e do verdadeiro pulsar da cidade. Mesmo quando não tenho tempo para explorar as linhas de autocarro ou o rendilhado do metropolitano procuro fazer a minha observação.
Espreito para dentro dos autocarros, vejo quem lá vai, se estão sentados ou de pé, se ouvem música, se conversam, se dão gargalhadas, se lêem, se lêem jornais ou livros.
Fixo os motoristas dos autocarros. Se estão com ar stressado ou descontraído, se têm bigode ou barriga, se são jovens ou velhos, cabelos curtos ou longos, se têm piercings, se sorriem para quem entra, se esperam por quem, atrasado, corre atrás do autocarro ou lhes fecham a porta na cara.
Gosto de descer até ao Metro. Sempre que posso percorro algumas paragens de Metro. É a hipoderme das cidades. Tenho sempre curiosidade para descobrir se há quem esteja a actuar nos corredores. Um saxofone? Uma guitarra? Uma flauta? Uma voz? Um cantar que ecoa desde lá do fundo, como uma serpente que chega às bilheteiras? Chego a descer as escadas de acesso e entrar no átrio apenas para observar o frenesim das estações, o burburinho das entranhas da cidade.
É um laboratório de comportamento humano. Uma verdadeira escola sociológica.
Espreito para dentro dos autocarros, vejo quem lá vai, se estão sentados ou de pé, se ouvem música, se conversam, se dão gargalhadas, se lêem, se lêem jornais ou livros.
Fixo os motoristas dos autocarros. Se estão com ar stressado ou descontraído, se têm bigode ou barriga, se são jovens ou velhos, cabelos curtos ou longos, se têm piercings, se sorriem para quem entra, se esperam por quem, atrasado, corre atrás do autocarro ou lhes fecham a porta na cara.
Gosto de descer até ao Metro. Sempre que posso percorro algumas paragens de Metro. É a hipoderme das cidades. Tenho sempre curiosidade para descobrir se há quem esteja a actuar nos corredores. Um saxofone? Uma guitarra? Uma flauta? Uma voz? Um cantar que ecoa desde lá do fundo, como uma serpente que chega às bilheteiras? Chego a descer as escadas de acesso e entrar no átrio apenas para observar o frenesim das estações, o burburinho das entranhas da cidade.
É um laboratório de comportamento humano. Uma verdadeira escola sociológica.
sábado, 21 de abril de 2012
Assim-assim
É considerada a capital política da Europa e quase toda a gente que conheço já por ali passou alguma vez. Ninguém vai para Bruxelas de férias. As pessoas vão "a" Bruxelas, que é muito diferente de ir "para" Bruxelas. É sempre um lugar de passagem.
A cidade enche-se entre terça e quinta feira com todos os que trabalham para as instituições europeias - os eurocratas, expressão que os próprios detestam mas os locais adoram, irónicos. A segunda-feira é um vazio, a sexta-feira é mais ou menos, depende. O fim de semana é um autêntico deserto.
Diariamente quase tudo fecha às 18h. Um jantar a horas decentes, para eles, é às 19H/19.30H. Às 21h, na maior parte dos restaurantes, os empregados já olham impacientes para a nossa mesa, para nos apressarem a pedirmos a conta e sairmos dali para fora. Fica no coração da Europa, dali é fácil dar um salto a qualquer outra cidade. Estar em Bruxelas e ir, por exemplo, jantar a Paris é um must do! Ainda não foi desta que pude fazê-lo. Gosto da ideia de centralidade, de tudo estar à mão, perto de vários países e imensas cidades que quero conhecer.
Mas Bruxelas é uma cidade estranha. Misto de bom e de mau. É uma cidade estranha em que não me sinto bem nem mal. Não sei se gosto ou não. Há momentos ou dias em que gosto e acho que conseguiria gostar muito, ao ponto de ali passar uma temporada profissional. Mas há outros momentos ou detalhes que rapidamente me demovem dessa hipótese. Não sei bem explicar. É um assim-assim. Talvez sim, talvez não.
Dizem que o tempo é sempre cinzento, é quase sempre verdade. Faz-me falta o sol.
Dizem que quase não há verdadeiros belgas em Bruxelas. Não sei se me cruzei com algum, gostava de perceber a diferenças.
Há um cheiro estranho, diferente do cheiro de Lisboa. O cheiro das pessoas é bastante diferente, menos arejado. Há cheiros de náusea, adocicados, enjoativos, de fugir. Mas as ruas cheiram a chuva, a terra molhada.
Há bicicletas, centenas de pessoas a andar de bicicletas, como se a chuva e o frio não perturbassem. Gostava de poder pedalar em Bruxelas.
E há esplanadas com muita gente a beber cerveja ao fim da tarde como se fosse sempre fim-de-semana.
E há tulipas nos jardins.
Ninguém pisa ou danifica as tulipas de Bruxelas. Ninguém arranca as tulipas amarelas que enchem as alamedas. E há brancas ali mais à frente. E vermelhas no canteiro ali à esquina. Um mar de tulipas coloridas, organizadas. Mas também ninguém pára para as contemplar, apenas os turistas ou temporários como eu.
Detesto a estátua do menino a fazer xixi - tem algum jeito?
Não há mar. Isso é mau. Não gosto de Bruxelas, assim. Onde iria ver o mar? Onde iria ver a espuma e as ondas e o horizonte e as algas e as conchas e a areia e o azul e o verde? E o som das ondas a baterem nas rochas? Onde iria sentir o cheiro do mar?
Tem o Magritte...
Mas o café é mesmo muito mau.
Não se come bem nem mal. Às vezes come-se bem, já comi muito bem em Bruxelas (ostras também). Mas também já comi horrivelmente. Sempre caro, para os nossos padrões. Gosto de cerveja. Gosto de provar as várias cervejas que lá existem. Gosto de me perder a ver a ementa de cervejas e provar as diferenças.
Adoro chocolates, será porventura um dos meus vícios. Até nisso, a cidade é estranha. Comer um chocolate artesanal numa chocolataria tradicional pode ser a mais maravilhosa e pecadora experiência. O cheiro à entrada de cada chocolataria, as cores, os aromas, os tipos de cobertura, as misturas com as frutas, os açucares, o cacau puro de todas as partes do mundo, as fontes que pingam chocolate e onde apetece enfiar os dedos e libertar a língua.
Quase gostava de ter uma chocolataria em Bruxelas. Uma chocolataria com livraria de poesia, tudo no mesmo espaço. Muitos sofás e almofadas pelo chão, luz acolhedora, aberta até tarde, uma lareira na sala grande, janelas altas até ao tecto, fotografias grandes nas paredes, música a sair de um gira-discos. E estantes de livros de poesia e contos mágicos intervaladas com fontes de chocolate. Fios de chocolate espesso, castanho, intenso, aveludado a caírem sobre poemas talhados na pedra. Venderia bombons de Sophia, Pessoa, Ruy Belo, Ramos Rosa... - "um bom-bom Sophia com recheio de frutos silvestres, s'il vous plaît!"
Ah, sim... Acho que adoraria ter uma chocolataria em Bruxelas...
A cidade enche-se entre terça e quinta feira com todos os que trabalham para as instituições europeias - os eurocratas, expressão que os próprios detestam mas os locais adoram, irónicos. A segunda-feira é um vazio, a sexta-feira é mais ou menos, depende. O fim de semana é um autêntico deserto.
Diariamente quase tudo fecha às 18h. Um jantar a horas decentes, para eles, é às 19H/19.30H. Às 21h, na maior parte dos restaurantes, os empregados já olham impacientes para a nossa mesa, para nos apressarem a pedirmos a conta e sairmos dali para fora. Fica no coração da Europa, dali é fácil dar um salto a qualquer outra cidade. Estar em Bruxelas e ir, por exemplo, jantar a Paris é um must do! Ainda não foi desta que pude fazê-lo. Gosto da ideia de centralidade, de tudo estar à mão, perto de vários países e imensas cidades que quero conhecer.
Mas Bruxelas é uma cidade estranha. Misto de bom e de mau. É uma cidade estranha em que não me sinto bem nem mal. Não sei se gosto ou não. Há momentos ou dias em que gosto e acho que conseguiria gostar muito, ao ponto de ali passar uma temporada profissional. Mas há outros momentos ou detalhes que rapidamente me demovem dessa hipótese. Não sei bem explicar. É um assim-assim. Talvez sim, talvez não.
Dizem que o tempo é sempre cinzento, é quase sempre verdade. Faz-me falta o sol.
Dizem que quase não há verdadeiros belgas em Bruxelas. Não sei se me cruzei com algum, gostava de perceber a diferenças.
Há um cheiro estranho, diferente do cheiro de Lisboa. O cheiro das pessoas é bastante diferente, menos arejado. Há cheiros de náusea, adocicados, enjoativos, de fugir. Mas as ruas cheiram a chuva, a terra molhada.
Há bicicletas, centenas de pessoas a andar de bicicletas, como se a chuva e o frio não perturbassem. Gostava de poder pedalar em Bruxelas.
E há esplanadas com muita gente a beber cerveja ao fim da tarde como se fosse sempre fim-de-semana.
E há tulipas nos jardins.
Ninguém pisa ou danifica as tulipas de Bruxelas. Ninguém arranca as tulipas amarelas que enchem as alamedas. E há brancas ali mais à frente. E vermelhas no canteiro ali à esquina. Um mar de tulipas coloridas, organizadas. Mas também ninguém pára para as contemplar, apenas os turistas ou temporários como eu.
Detesto a estátua do menino a fazer xixi - tem algum jeito?
Não há mar. Isso é mau. Não gosto de Bruxelas, assim. Onde iria ver o mar? Onde iria ver a espuma e as ondas e o horizonte e as algas e as conchas e a areia e o azul e o verde? E o som das ondas a baterem nas rochas? Onde iria sentir o cheiro do mar?
Tem o Magritte...
Mas o café é mesmo muito mau.
Não se come bem nem mal. Às vezes come-se bem, já comi muito bem em Bruxelas (ostras também). Mas também já comi horrivelmente. Sempre caro, para os nossos padrões. Gosto de cerveja. Gosto de provar as várias cervejas que lá existem. Gosto de me perder a ver a ementa de cervejas e provar as diferenças.
Adoro chocolates, será porventura um dos meus vícios. Até nisso, a cidade é estranha. Comer um chocolate artesanal numa chocolataria tradicional pode ser a mais maravilhosa e pecadora experiência. O cheiro à entrada de cada chocolataria, as cores, os aromas, os tipos de cobertura, as misturas com as frutas, os açucares, o cacau puro de todas as partes do mundo, as fontes que pingam chocolate e onde apetece enfiar os dedos e libertar a língua.
Quase gostava de ter uma chocolataria em Bruxelas. Uma chocolataria com livraria de poesia, tudo no mesmo espaço. Muitos sofás e almofadas pelo chão, luz acolhedora, aberta até tarde, uma lareira na sala grande, janelas altas até ao tecto, fotografias grandes nas paredes, música a sair de um gira-discos. E estantes de livros de poesia e contos mágicos intervaladas com fontes de chocolate. Fios de chocolate espesso, castanho, intenso, aveludado a caírem sobre poemas talhados na pedra. Venderia bombons de Sophia, Pessoa, Ruy Belo, Ramos Rosa... - "um bom-bom Sophia com recheio de frutos silvestres, s'il vous plaît!"
Ah, sim... Acho que adoraria ter uma chocolataria em Bruxelas...
segunda-feira, 16 de abril de 2012
De avião
Gosto tanto de viajar. Sinto sempre um nervoso miudinho quando me preparo para sair. Adoro andar de avião, não é isso que me provoca a borboleta na barriga. É a descoberta, a aventura, a novidade.
Vou para uma cidade que já conheço, já lá fui várias vezes. Será mais uma viagem em trabalho por isso não terei grande margem para passeios. Mas é sempre uma aventura.
Gosto de olhar os rostos, os olhos, fixar os olhares das pessoas com quem me cruzo. Gosto de lhes procurar a expressão - em que pensam as pessoas, que histórias estão por detrás daqueles rostos fechados, gosto de provocar sorrisos a quem estabelece contacto visual comigo. Que vidas terão? O que os trouxe ali? Estarão de passagem, como eu? Serão mesmo de lá? Quem os espera no avião à chegada?
Gosto de ver como andam as pessoas para cá e para lá, umas atarefadas, outras descontraídas. Gosto de observar os que parecem perdidos em aeroportos, em cidades novas, em ruas estranhas à procura de uma resposta, de uma saída.
Gosto de ouvir o som das cidades, o burburinho das vozes, o ruído de quem passa, um som de fundo numa outra língua.
Amanhã cresço mais um bocadinho.
Vou para uma cidade que já conheço, já lá fui várias vezes. Será mais uma viagem em trabalho por isso não terei grande margem para passeios. Mas é sempre uma aventura.
Gosto de olhar os rostos, os olhos, fixar os olhares das pessoas com quem me cruzo. Gosto de lhes procurar a expressão - em que pensam as pessoas, que histórias estão por detrás daqueles rostos fechados, gosto de provocar sorrisos a quem estabelece contacto visual comigo. Que vidas terão? O que os trouxe ali? Estarão de passagem, como eu? Serão mesmo de lá? Quem os espera no avião à chegada?
Gosto de ver como andam as pessoas para cá e para lá, umas atarefadas, outras descontraídas. Gosto de observar os que parecem perdidos em aeroportos, em cidades novas, em ruas estranhas à procura de uma resposta, de uma saída.
Gosto de ouvir o som das cidades, o burburinho das vozes, o ruído de quem passa, um som de fundo numa outra língua.
Amanhã cresço mais um bocadinho.
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Manual de sobrevivência para o dia de hoje
Beijar 1: tocar levemente com os lábios sobretudo no rosto ou na mão, geralmente de pessoas, para cumprimentar, agradecer, agradecer ou em sinal de amizade, amor ou respeito.
Beijar 2: pressionar, com a boca, a boca de outra pessoa ou outra parte do corpo, em sinal de paixão, de amor.
Beijar 3: tocar com os lábios em alguma coisa, sobretudo em sinal de devoção.
Beijar 4: tocar levemente, suavemente.
Beijinho: a melhor parte de alguma coisa.
Beijo 1: toque com os lábios em alguém ou alguma coisa, em sinal de respeito, afecto, desejo, ou simplesmente como cumprimento.
Beijo 2: contacto leve, semelhante ao toque suave dos lábios em alguma coisa.
Beijocar: dar beijos, por vezes repetidamente e geralmente com ruído.
Beijoqueiro: que dá muitos beijos, que gosta de beijocar
(In Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa)
Beijar 2: pressionar, com a boca, a boca de outra pessoa ou outra parte do corpo, em sinal de paixão, de amor.
Beijar 3: tocar com os lábios em alguma coisa, sobretudo em sinal de devoção.
Beijar 4: tocar levemente, suavemente.
Beijinho: a melhor parte de alguma coisa.
Beijo 1: toque com os lábios em alguém ou alguma coisa, em sinal de respeito, afecto, desejo, ou simplesmente como cumprimento.
Beijo 2: contacto leve, semelhante ao toque suave dos lábios em alguma coisa.
Beijocar: dar beijos, por vezes repetidamente e geralmente com ruído.
Beijoqueiro: que dá muitos beijos, que gosta de beijocar
(In Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, Academia das Ciências de Lisboa)
Beijar, beijar, beijar
Eu beijo. Tu beijas. Ele beija. Nós beijamos. Vós beijais. Eles beijam. E somos todos felizes. Dia Mundial do Beijo. Celebremos!
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Outra coisa
Sinto que ando sempre atrás de alguma coisa. Às vezes canso-me de correr atrás de alguma coisa. A natureza humana (ou serei só eu?) é estranha. Nunca estamos satisfeitos. Eu, pelo menos, não estou nunca satisfeita. Que coisa? Alguma. Não sei, uma qualquer. Outra coisa diferente. Uma insatisfação. Uma procura. Um incómodo de quem está à espera que aconteça alguma coisa. E algo se passa. Passa-se sempre algo. Vem sempre algo porque a vida não pára. Mas volto ao mesmo. Deixo passar. Não era aquilo de que estava à espera. Há-de vir a seguir, a "tal coisa". Que não sei qual é. Também não era isto que eu queria escrever hoje. Era outra coisa.
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