E dá voltas e voltas. E sobe. E a música embala. Giro. Girando. Ondulando. E desce. E curva. Gira. E as crianças riem. E o chocolate quente. O gorro de lã. A neve. E o frio. E a música de corda. E as vozes nas ruas. E ele sobe. E gira. E dá mais uma volta. Cheira a chocolate. E as luvas. E o nariz vermelho mordido pelo frio. E as gargalhadas. E as luzes nas montras. E mais uma volta. A caixa de música que se cala. O vendedor de caixas aproxima-se do balcão. As crianças calam-se. O vendedor, de avental verde. Sorri. Levanta a caixa com a mão esquerda. Gira o pulso. Firme, firme. Dá à roda mais uma vez. Mão direita firme. E mais outra e outra ainda. A caixa de música volta a tocar. Música mais rápida. As luzes mudam de cor. O avental verde afasta-se. As crianças riem. O chão gelado. E a tenda a vender crêpes. E a outra dos queijos. E o casal de pé a comer "escargots". Falam francês. Neve. Vidros salpicados. O carrossel parou. A música de corda também. O avental verde. Roda. Roda. Roda. Roda. Música. Cachecol. Nariz frio. Frio. Cheira a chocolate. Un chocolat chaud, s'il vous plaît! Não sinto as moedas. Dedos rijos. O vapor da minha respiração. Neve. Merci. Música. Comprei um carrossel.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
À espera
Passo os dias à espera. À espera que algo aconteça.
À espera que a água aqueça para o banho. À espera que páre de chover. À espera de um telefonema. À espera de uma resposta. À espera de uma entrevista. À espera de taxi. À espera que me atendam ao balcão. À espera do café quente que depois da espera quase vem frio e desmaiado. À espera nas filas de trânsito. À espera para o início de uma reunião. À espera do avião. À tua espera. À espera.
Tantas horas de espera. Todas as horas juntas de espera dão muito tempo. Tempo cheio de espera. Tempo de espera. Tempo de(s)espera.
Os dias de espera todos juntos davam outra vida.
Passo os dias à minha espera.
À espera que a água aqueça para o banho. À espera que páre de chover. À espera de um telefonema. À espera de uma resposta. À espera de uma entrevista. À espera de taxi. À espera que me atendam ao balcão. À espera do café quente que depois da espera quase vem frio e desmaiado. À espera nas filas de trânsito. À espera para o início de uma reunião. À espera do avião. À tua espera. À espera.
Tantas horas de espera. Todas as horas juntas de espera dão muito tempo. Tempo cheio de espera. Tempo de espera. Tempo de(s)espera.
Os dias de espera todos juntos davam outra vida.
Passo os dias à minha espera.
![]() |
| Coombs |
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Amiquê?
Uma das modernices mais populares é o pedido de amizade no Facebook.
“O não-sei-quantos enviou-te um pedido de amizade”. E se eu aceitar, com apenas
um clique, somos “amigos”. Já. Amigos instantâneos. Não é preciso esperar uns
minutos. É imediato. Nem é necessário sequer juntar água ou descongelar no
micro-ondas. “O não-sei-quantos agora é teu amigo”. Zás-trás! Mais um “amigo”.
Às vezes o pedido de amizade modernaço e instantâneo vem
acompanhado por uma mensagem pessoal. Há dias recebi uma mensagem de uma pessoa
que me pedia que aceitasse o “pedido de amisade” que tinha acabado de enviar.
Li, reli. Pedido de “amisade”? “Amisade”? Com “s”?!
Não posso ser amiga de quem não sabe escrever amizade…
Não posso ser amiga de quem não sabe escrever amizade…
Quem troca o “z” pelo “s” na amizade não sabe do que fala. Quem
troca o “z” pelo “s” na amizade há-de trocar-se também nos afectos. Quem troca
o “z” pelo “s” na amizade é bem capaz de trocar “um-amigo” por “um-umbigo”.
As letras (as palavras) fazem a diferença. Ditas e escritas.
Os afectos também. E a amizade não é apenas retórica. Ponto final parágrafo.
sábado, 17 de novembro de 2012
Ontem era para ter estado calada
Ontem era para ter estado de folga. Deitei-me tarde, já de madrugada,
com a expectativa de que no dia seguinte não iria trabalhar, apesar de ser dia
de semana. Relaxa-se de maneira diferente. A almofada tem outro cheiro, o colchão abraça-me melhor e os lençóis são mais suaves.
Dormi bem, acordei descontraída. Estava a precisar de uma
boa noite de sono. Mas uns telefonemas e mensagens em cima do meio-dia
terminaram com a minha folga e com a minha boa disposição. Tinha que ir
trabalhar a seguir ao almoço.
Fiquei amuada e rezingona.
A folga deixou de ser folga. O dia passou a ser ainda mais
cinzento. O meu dia passou a ser o dia de folga que tinha acabado de o ser e que
tinha acabado de se transformar na mais irritante sexta-feira à tarde de chuva
e trabalho.
Não jantei. Trabalhei até tarde na redacção. Continuava
rezingona e amuada.
Recebi um telefonema de uma amiga, à noite. Desabafei todos
os meus azares: de quase ter estado de folga, de quase ter tido um fim-de-semana
prolongado, de ter deixado de estar de folga, de estar ainda a trabalhar, de não
ter sequer jantado. E ainda por cima estava a chover.
- “Estou cansada. Farta!”
Silêncio no outro lado.
A minha amiga é jornalista. Está desempregada.
Silêncio no outro lado.
- “Já viste a tua sorte?”
Silêncio neste lado.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Morse especial
"Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. (...)
Gostava tanto que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo."
António Lobo Antunes, "Migalhas"
Gostava tanto que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo."
António Lobo Antunes, "Migalhas"
![]() |
| "A Catedral" - Auguste Rodin |
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Primeira aula
Incentivada pelo entusiasmo que ganhei com o curso de Poesia Japonesa (e com os livros de Haiku que tenho devorado), perdi a cabeça e atirei-me para uma nova aventura! Comecei ontem a aprender Japonês, propriamente dito. Estou a frequentar um Curso de Língua e Cultura Japonesas.
Ontem fui à primeira aula. Somos poucos, uns sete ou oito, contando comigo.
Estava quentinho na sala, silencioso e acolhedor. Fui recebida com uma vénia. Uma senhora japonesa que sorriu quando entrei na sala e curvou-se ligeiramente, olhando para baixo. Hesitei, não sabia se tinha de fazer o mesmo... Disse apenas boa tarde. Sorri. Mas não baixei a cabeça.
Sentei-me na primeira fila. Abri o caderno novo - sem linhas, só folhas brancas - tirei a esferográfica e, em segundos, esqueci a Merkl, que tinha estado a acompanhar todo o dia, e o Passos Coelho e a crise e a política.
Respirei fundo, como quem oxigena o cérebro. Rodei os ombros para trás, mexi levemente o pescoço. Mudei o "chip". Olhei para ela, à minha frente, enquanto ainda entravam outros alunos.
A minha professora chama-se Yuko. Yuko Kase. Magra, pele branca, cabelo negro, baixa, um metro de sessenta talvez. Vinha de cabelo apanhado com um gancho no alto da cabeça.
Trazia uma saia colorida comprida de roda, abaixo do joelho. Meias grossas de lã, botas castanhas-mel pelo meio da canela. Uma camisola de gola alta cinzenta e um casaquinho de malha também colorido, verde vivo, quase verde bandeira, também de lã, abotoado até ao pescoço.
Dedos finos, mãos delicadas, gestos suaves. Sem jóias. Sem anéis. Sem brincos. Sem colares. E sorriso fácil. Olhinhos de japonesinha. Gosto da Professora Yuko.
Sinto que se abre uma nova janela para mim. Respiro fundo. Gosto desta janela.
Ontem fui à primeira aula. Somos poucos, uns sete ou oito, contando comigo.
Estava quentinho na sala, silencioso e acolhedor. Fui recebida com uma vénia. Uma senhora japonesa que sorriu quando entrei na sala e curvou-se ligeiramente, olhando para baixo. Hesitei, não sabia se tinha de fazer o mesmo... Disse apenas boa tarde. Sorri. Mas não baixei a cabeça.
Sentei-me na primeira fila. Abri o caderno novo - sem linhas, só folhas brancas - tirei a esferográfica e, em segundos, esqueci a Merkl, que tinha estado a acompanhar todo o dia, e o Passos Coelho e a crise e a política.
Respirei fundo, como quem oxigena o cérebro. Rodei os ombros para trás, mexi levemente o pescoço. Mudei o "chip". Olhei para ela, à minha frente, enquanto ainda entravam outros alunos.
A minha professora chama-se Yuko. Yuko Kase. Magra, pele branca, cabelo negro, baixa, um metro de sessenta talvez. Vinha de cabelo apanhado com um gancho no alto da cabeça.
Trazia uma saia colorida comprida de roda, abaixo do joelho. Meias grossas de lã, botas castanhas-mel pelo meio da canela. Uma camisola de gola alta cinzenta e um casaquinho de malha também colorido, verde vivo, quase verde bandeira, também de lã, abotoado até ao pescoço.
Dedos finos, mãos delicadas, gestos suaves. Sem jóias. Sem anéis. Sem brincos. Sem colares. E sorriso fácil. Olhinhos de japonesinha. Gosto da Professora Yuko.
Sinto que se abre uma nova janela para mim. Respiro fundo. Gosto desta janela.
domingo, 11 de novembro de 2012
Valsa de Outono
Entrou pela janela e quase não fez ruído, como uma bailarina em palco que nunca se ouve quando toca no chão após o salto. Pousou delicadamente no soalho de madeira e esperou que alguém a visse, que alguém com ela se metesse. Ali ficou, aquecendo-se ao sol de Domingo, tranquila, em silêncio algumas horas. Descansava depois de ter bailado no céu, ao ritmo do vento, uma valsa de Outono.
Observei, desde manhã, como as folhas hoje bailavam nos ares. O céu azul de veludo enquadrava o cenário. Algumas nuvens brancas ao longe, poucas. O palco é o ar, sem barreiras, sem espaço, sem pontos nem contra-pontos. A orquestra é o vento que as leva pela mão.
O ar sopra-lhes por baixo, elas ganham altitude, rodopiam, viram-se, cruzam-se, entrelaçam-se. O vento vira. O ar transforma-se. A dança vira também. E montam uma coreografia criativa sem ensaios. E sobem e descem. E tocam o chão, desafiam quem passeia a pé, escondem-se nos canteiros e nas bermas e nos passeios. Perseguem-se e depois fogem. E o vento sopra do lado de lá e voltam a subir e baralham os pássaros. E tocam-se no ar. Leves, airosas, brincalhonas, atrevidas. E o vento sopra do lado de cá e dão mais uma volta, e outra e outra ainda.
Em silêncio, ao sol. E sobem mais alto e descem em espiral. Uma dança quase oriental, serpenteando. O céu salpicado de tons de castanho, amarelo, quase laranja. Parecem serpentinas vibrantes. Um ritual da natureza.
Como escolhem as folhas de Outono os seus pares?
Uma cansou-se. Entrou-me em casa. Só a vi quando, ao anoitecer, fui fechar a janela. Ali estava, no soalho de madeira, descansando.
Perdeste o teu par?
Observei, desde manhã, como as folhas hoje bailavam nos ares. O céu azul de veludo enquadrava o cenário. Algumas nuvens brancas ao longe, poucas. O palco é o ar, sem barreiras, sem espaço, sem pontos nem contra-pontos. A orquestra é o vento que as leva pela mão.
O ar sopra-lhes por baixo, elas ganham altitude, rodopiam, viram-se, cruzam-se, entrelaçam-se. O vento vira. O ar transforma-se. A dança vira também. E montam uma coreografia criativa sem ensaios. E sobem e descem. E tocam o chão, desafiam quem passeia a pé, escondem-se nos canteiros e nas bermas e nos passeios. Perseguem-se e depois fogem. E o vento sopra do lado de lá e voltam a subir e baralham os pássaros. E tocam-se no ar. Leves, airosas, brincalhonas, atrevidas. E o vento sopra do lado de cá e dão mais uma volta, e outra e outra ainda.
Em silêncio, ao sol. E sobem mais alto e descem em espiral. Uma dança quase oriental, serpenteando. O céu salpicado de tons de castanho, amarelo, quase laranja. Parecem serpentinas vibrantes. Um ritual da natureza.
Como escolhem as folhas de Outono os seus pares?
Uma cansou-se. Entrou-me em casa. Só a vi quando, ao anoitecer, fui fechar a janela. Ali estava, no soalho de madeira, descansando.
Perdeste o teu par?
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Tentação Japonesa
Hoje de manhã fui buscar à prateleira o meu caderninho de Poesia Japonesa. Vou regressar às aulas para fazer o nível 2 do curso. É estranho como há pequenos detalhes que fazem os nossos dias tão mais felizes.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Aos ditadores
Cospem verbos. Vomitam palavras que nem conhecem. Espumam insultos. Salivam raivas. Chutam ódios. Batem. Agridem. Ácido. Fecho os olhos. Tapo os ouvidos. Sai, sai, sai daqui! Saiam! Saiam todos. Caras feias. Olhos raiados de podridão. Parasitas. Ocos. Veias eriçadas que querem sair daqueles corpos moribundos. Maldade. Inveja. Poder nojento. Poderzinho autoritário. Sangue podre. Nojo. Ferrugem nas artérias. Mofo. Bolor. Rugas de maldade. Mau hálito. Bafo de tédio. Infelizes. Cadáveres de gente. Almas tristes. Insignificantes. Complexados. Pequeninos. Mentecaptos. Vazios. Mentirosos. Falsos. Desapareçam. Evaporem-se. Vão brincar aos poderzinhos para o crematório. Desapareçam, ditadores! Morram, morram todos. Matem-se uns aos outros. Pestilentos. Morram, velhacos. Gritaria. Párem! Caiam. Acéfalos. Medíocres. Estúpidos. O mundo não vos merece. Adeus.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Fumo
Cheiro(-te n)essa saudade como lenha numa fogueira
Por dentro
Quente
Um tronco que flutua
Oco
Frio
O rio faz o seu caminho sem olhar para trás
Com a certeza do
Rumo
Cheira a lenha queimada
Nevoeiro
Fumo
Duas margens separadas
Coexistem
Não uma sem a outra
Como a saudade
Consigo cheirar a saudade
Cheiro(-te ness)a saudade
Por dentro
Quente
Um tronco que flutua
Oco
Frio
O rio faz o seu caminho sem olhar para trás
Com a certeza do
Rumo
Cheira a lenha queimada
Nevoeiro
Fumo
Duas margens separadas
Coexistem
Não uma sem a outra
Como a saudade
Consigo cheirar a saudade
Cheiro(-te ness)a saudade
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Às segundas
Às segundas quero sempre mudar o mundo.
Planeio na almofada da noite anterior a revolução que estou decidida a fazer daí a poucas horas. Vou acordar mais cedo. Quero apanhar o sol assim que nasça, quero respirar o primeiro ar fresco da manhã, quero agarrar a vida. Quero fazer aquela história que anda há tempos na minha cabeça, quero marcar o almoço prometido e sempre adiado, quero responder às mensagens pendentes, quero ver o filme que gravei há semanas, quero ler mais vinte, trinta páginas que ontem.
Às segundas quero mudar o mundo.
Depois passa.
Já é quase terça.
Planeio na almofada da noite anterior a revolução que estou decidida a fazer daí a poucas horas. Vou acordar mais cedo. Quero apanhar o sol assim que nasça, quero respirar o primeiro ar fresco da manhã, quero agarrar a vida. Quero fazer aquela história que anda há tempos na minha cabeça, quero marcar o almoço prometido e sempre adiado, quero responder às mensagens pendentes, quero ver o filme que gravei há semanas, quero ler mais vinte, trinta páginas que ontem.
Às segundas quero mudar o mundo.
Depois passa.
Já é quase terça.
domingo, 28 de outubro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
terça-feira, 23 de outubro de 2012
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Pecados capitais
Em apenas dois dias ouvi da boca de dois homens dois pecados
capitais, no meu manual de pecados.
Um, quando elogiava o cheiro do meu perfume assim que entrei
no carro, disse-me que nunca usa perfume. Fixei-o como se tivesse acabado de dizer um palavrão.
- “Nunca?! Mas nunca, como?!” – perguntei-lhe incrédula.
- “Simplesmente
nunca. Nem tenho um único frasco de perfume em casa”, respondeu-me com um
sorriso. “Acho que a última – se calhar a única – vez que usei perfume foi no
meu baptismo: a água de colónia que a minha mãe me pôs!”
Riu-se. Sozinho.
Silêncio.
Apeteceu-me sair do carro naquele instante.
Outro, quando falávamos de comida, de petiscos, de prazeres
à mesa, falei-lhe num bom vinho tinto para acompanhar, disse-me com a maior das
naturalidades que não gosta de vinho, não bebe vinho.
- “Mas não bebes vinho, como? No dia-a-dia? Durante o
trabalho?”
- “Não, não, nunca bebo vinho. Nem em ocasiões especiais nem
em festas.”
Silêncio.
- “Mas por princípio?!”
- “Não, não gosto nem do cheiro”.
Hesitei.
- “És muçulmano?”
- “Não, não” – ri-se. “Só não gosto mesmo de vinho.”
Riu-se. Sozinho.
Silêncio.
- “Mas podes beber tu.”
![]() |
| Pintura de Jack Vettriano |
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Nos 90 de Agustina
Recebeu-me na sua casa do Porto, sentada na poltrona verde no canto da sala. O gato preto refastelado ocupava-lhe o colo farto. Entrei. Rasgou um sorriso.
"Gosta de gatos?"
Foi, afinal, ela a disparar a primeira pergunta.
"Adoro!"
"Gosta de gatos?"
Foi, afinal, ela a disparar a primeira pergunta.
"Adoro!"
"Então pode entrar e sentar-se. Vamos lá conversar!"
Foi uma das entrevistas que mais me marcou até hoje.
Parabéns Agustina!
Foi uma das entrevistas que mais me marcou até hoje.
Parabéns Agustina!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Bestas no altar
Não sou frequentadora de Igrejas mas fui a uma missa há uns
dias para assinalar uma data especialmente difícil para a minha família. Não
era uma Igreja qualquer, era a Sé de uma capital de distrito.
Dois ou três minutos depois da hora prevista lá veio o
Padre. Entrou sozinho, vestes brancas, verdes e douradas. Não olhou para quem
estava. Não viu se eram mulheres ou homens, não viu se havia crianças ou
velhos. Não viu se havia gente nova ou apenas os rostos habituais.
Não vou abordar aqui questões religiosas, de crença, devoção
ou dúvida. Vou debruçar-me apenas nas questões de cidadania, civismo, educação,
enfim, vida em comunidade. Respeito.
Não sei o nome dele, não sei se é Bispo ou se pode vir a ser
Papa. Sei que aquele Padre é um tipo arrogante, antipático, distante, convencido
e intolerante.
A Igreja estava quase vazia. Tirando as pessoas da minha família,
estariam na Igreja umas oito ou dez pessoas. E era a principal Missa do dia, às
6 da tarde.
Despejou o discurso, como quem lê uma receita em voz alta
para si mesmo. Mal se percebia o que dizia. A homilia não tinha nada a ver com
nada. Podia ter sido dita naquele dia ou num outro dia qualquer. Podia ter sido
dita para aquela “plateia” ou para outra qualquer.
O Padre não fala às pessoas. Não fala com as pessoas. Não
fala para as pessoas. O discurso do Padre (da Igreja, diria) não chega às
pessoas. Não fala de nada que interesse às pessoas.
Juro que fiz um esforço para tentar perceber o alcance das
passagens que leu, se haveria algum paralelismo com o momento angustiante que as
pessoas atravessam, as dificuldades, os sacrifícios. Mas não. Nada. As metáforas
ou excertos que leu não traduziam nada. É como abrir “ao calhas” a lista telefónica
e ler nomes e números telefónicos de rajada. Foi isso, aquela missa.
O nome da pessoa por quem se rezava naquela missa foi dito
como quem podia estar a dizer “adeus e até logo”. Nada. Leu o nome como quem lê
o nome de um comprimido numa caixa da farmácia.
Um nome lido em três segundos. Um nome na boca de um Padre embirrante
para confortar uma família. Um nome que, para ser lido, tem de incluir dinheiro
num envelopinho. E mais o cestinho das moedas que circula de banco de madeira em
banco de madeira, e que serve para extorquir os trocos das almas desencantadas ali
sentadas a ouvir o embirrantão.
Na hora de comungar, formou-se uma pequena fila de seis senhoras.
E um rapaz, o último da fila. Quando o Padre se preparava para virar costas,
vinha ainda uma senhora velhota na passadeira central da Igreja. Curvada, a
caminho, lentamente, bengalando.
Comungou. E não se livrou do raspanete:
“Para a próxima venha mais cedo. Escuso de estar eu aqui à
espera!” – disse o Padre.
A senhora não respondeu, claro. Voltou ao seu lugar, curvada,
com a hóstia na boca e a vergonha na cara, por ter sido repreendida
publicamente pelo “Senhor Padre”.
Para a próxima venha mais cedo?! Que besta! Se fosse eu
ter-lhe-ia dito: “para a próxima não venho.”
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Ainda Eva
Já tinha escrito sobre Eva aqui no Diário Metafísico. Por estes dias Eva foi à televisão. Pelos piores motivos. E, afinal, não tem 80 anos de rugas, como eu pensava que teria. Mas 99. Noventa e nove anos...
É impossível ficar indiferente. É impossível saber de Eva sem ficar com um nó na garganta.
Angústia. Indignação. Revolta.
Que país é este que mata nas ruas os seus velhos? Que país é este que lhes permite que andem de mão estendida sem que nada aconteça?
Vergonha. Tristeza.
Má sorte não ser mãe de Ministro.

É impossível ficar indiferente. É impossível saber de Eva sem ficar com um nó na garganta.
Angústia. Indignação. Revolta.
Que país é este que mata nas ruas os seus velhos? Que país é este que lhes permite que andem de mão estendida sem que nada aconteça?
Vergonha. Tristeza.
Má sorte não ser mãe de Ministro.

sábado, 6 de outubro de 2012
Cheiro, esse
Cheiro o vinho como se o bebesse
Cheiro a fruta como se a comesse
Cheiro o campo como se nele corresse
Cheiro o mar como se nele vivesse
Cheiro o livro como se nele escrevesse
Cheiro a chuva como se nela descesse
Cheiro a lenha como se me aquecesse
Cheiro memórias como se nelas envelhecesse
Cheiro-te roupa como se me envolvesse
Cheiro-te a pele como se a percorresse
Cheiro-te o corpo
[de olhos fechados]
como se me protegesse
Cheiro-te o peito como se nele ardesse
Cheiro-te os lábios como se os mordesse
Cheiro-te os dedos como se neles crescesse
Cheiro-te o cabelo como se nele mexesse
Cheiro-te o acordar como se nele me perdesse
[como se me humedecesses]
Cheiro a saudade como se nela me escondesse
Cheiro o presente como se nele rangesse
Cheiro o futuro como se nele tremesse
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Adormecendo ao piano
E para terminar este Dia Internacional da Música, fica aqui uma das minhas músicas preferidas. Humility, Wim Mertens. Acompanha-me sempre. Para um anoitecer mais tranquilo.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Eva
Primeiro, ao longe, parecia uma criança de tão pequena. Estava
no meio da estrada com qualquer coisa nas mãos. Eram umas oito da noite e eu
seguia de carro. As luzes e as cores cintilantes dos painéis publicitários
tornavam aquela silhueta difusa, a uns metros de mim, à contraluz. O vulto
estava parado. Pequenino. Um vulto pequenino, como que escondido.
O sinal ficou vermelho. Parei. Deu dois, três passos. Dois,
três passinhos que nem de gente eram. Devagarinho. Devagarinho. Devagarinho. Aproximou-se
da janela.
- “Menina…”, quase gemeu.
Olhou para baixo para o alcatrão. Engoli em seco. Fixei-a. Trazia
na mão direita um chapéu virado ao contrário. Um chapéu de homem, de flanela, aos
quadrados castanhos. Agarrava com uma mão na pala e a outra por baixo, no
fundo.
Olhou para mim, quase a medo. Olhos pequeninos, tão
pequeninos, assustados, que se escondiam na vergonha das mãos estendidas.
Rugas. Oitenta anos de rugas.
Baixinha, um metro e pouco. Curvada. Ela de pé, à altura do
meu rosto, sentada. Frágil. Cheia de dores. E frio.
No fundo do chapéu que trazia na mão, em vez do forro, duas
fotografias a cores de 15 por 20. Um menino. Uma menina. Sorridentes. Morenos.
Ela com um ganchinho. Ele desdentado. “Os meus netinhos”, apontou com o
indicador esquerdo, deformado pelas artroses. Teriam uns seis, dez anos. E
reparei, então, que havia uma terceira fotografia. Tipo passe. Uma senhora dos
seus trinta e poucos. Roupa escura. Óculos. Cabelo curtinho, encaracolado, pelo
pescoço. “A minha filha, que Deus já a levou por ser tão boa”.

Tinha um xaile escuro – roxo, cinzento, não sei bem, cheio
de borbotos – que lhe cobria a cabeça e protegia os ombros. Casaco de malha em
cima da blusa de lã. E mais um lenço, pareceu-me ver. Uma saia comprida. O
queixo, de onde sobressaíam uns desmaiados pêlos brancos, tremia-lhe. Fixou-me
nos olhos.
“Oh, menina…” – repetia.
“É para os meus netinhos”, espere, mas tem fome?, “É para os
ajudar”, a senhora tem mais filhos?, “A minha filha, que Deus Nosso Senhor a
guarde…”, tem casa? onde vive?, “na João Crisóstomo”, quer que a leve a casa?,
“sozinha”, mas quer que a leve? “os meninos, coitadinhos”, já jantou?, “aquela
senhora disse que me trazia jantar”, .
Fiquei sem saber o que fazer. E agora? O que faço? Agarro
nela, levo-a? Trago-a? Deixo-a? O que faço? Ligo à Segurança Social? À Santa
Casa? Ao Ministro? O que faço?
- Como se chama?
- Eva.
- Que nome tão bonito…
Olhou para mim, como se não soubesse o que era um elogio, um
mimo.
A fila de carros atrás de mim estava parada. O sinal estava
verde. Ninguém buzinou.
- Vá para casa, querida…
- Tenho que ficar até às dez.
- Porquê?
- Pode a senhora vir com o jantar, coitada.
Toquei-lhe as mãos. Apertei-as. Estavam geladas.
[Também eu]
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Retrato
"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
Cecília Meireles
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Hoje fala-se de Rádio
Já houve quem lhe ditasse a morte. Há, aliás, quem a cada
ano, moda, época, era, dia, sei lá, lhe dite a morte. Há quem franza o nariz
quando, à pergunta “é jornalista onde”?, lhes respondo na Rádio. Na Rádio com
letra maiúscula.
A Rádio é um mundo de emoções.
A Rádio é plena. A Rádio é
companhia, é informação, é formação, é aprendizagem, é crescimento, é memória, é história, é estória, é rua, é mundo, é presença, é rapidez, é intensidade, é palavra, é som, é
sentimento, é voz, é silêncio, é permanente, é animação, é festa, é
entretenimento, é vida, é verdade, é amiga, é agora, é aqui, é já, é sempre.
Hoje, quarta-feira, decorre a Rádio em Congresso. Um dia inteiro com um programa repleto de maluquinhos da e pela Rádio que se juntam para falar da menina dos seus olhos.
A minha menina.
A Rádio é sorriso. É paixão. É bichinho. É vibrante. É contagiosa. É pele. É nossa. É minha.
Silêncio. Porque vai falar-se de Rádio.
domingo, 23 de setembro de 2012
Hirundine
No dia em que chegou o Outono fui espreitar o ninho. Já era
noite e quase chuviscava. Olhei para cima. Ninguém. Estava vazio. Apenas as
palhas castanhas e o barro. Sorri. “Já partiram”.
Abri a porta de casa,
pensativa. “Onde estarão, por esta hora, com este frio e ameaça de trovoada?” Esfrego os braços para cima e para baixo com a palma das mãos rija.
Arrefeceu mesmo. Entro em casa despenteada. “Foste espreitá-las? A última
partiu na passada quinta-feira”, disse a minha mãe. Sorrimos as duas. Silêncio.
Saudade.
Partiram dois dias antes do Outono.
Quem as terá avisado que o Outono chegaria já com trovoada?
Terão sido apanhadas pelos relâmpagos? Talvez não. Voam em média 500 km por
dia, por isso se partiram quinta-feira, por esta hora já percorreram mais de mil
quilómetros. Já estão bem longe, no calor do Norte de África.
“A última partiu sozinha” – insistiu a minha mãe. “Se calhar
perde-se das outras…”
Não, ficou a fechar tudo. Para o ano está cá outra vez.
Leva-me na tua asa, Hirundine.
* Hirundine é a origem latina da palavra andorinha
sábado, 22 de setembro de 2012
15.49
Hoje às 15.49h começa o equinócio de Outono.
Quero Outonar.
Outonando na esplanada.
Acalmando.
Sentindo o Outono no gerúndio.
Contemplando as folhas.
Cheirando as cores.
Amarelando.
Alaranjando.
Acastanhando.

Vendo veios suaves.
Ouvindo as folhas cair.
Ouvir o que dizem.
O que sentem as folhas ao cair?
Tocando-lhes.
Sentindo o Outono nas mãos.
Folhas pairando.
Folhas parando.
Soltando folhas.
Libertando amarras.
Caindo.
Em mim.
Quero Outonar.
Outonando na esplanada.
Acalmando.
Sentindo o Outono no gerúndio.
Contemplando as folhas.
Cheirando as cores.
Amarelando.
Alaranjando.
Acastanhando.

Vendo veios suaves.
Ouvindo as folhas cair.
Ouvir o que dizem.
O que sentem as folhas ao cair?
Tocando-lhes.
Sentindo o Outono nas mãos.
Folhas pairando.
Folhas parando.
Soltando folhas.
Libertando amarras.
Caindo.
Em mim.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
La muerte es toda una hija de puta
A casa parecia estar sempre cheia de gente. A Abuela Elena enchia a casa com a sua voz. Falava alto como pouca gente sabe fazê-lo sem gritar. Ainda vinha a descer a rua ou a subir as escadas do prédio, e já se ouvia a Elena. Uma lenga-lenga castelllana, sempre a reclamar com alguém ou com alguma coisa. Ou porque demorámos a abrir a porta, ou porque deixámos a janela aberta, ou porque a mesa estava suja ou porque qualquer coisa.
Quando eu e os meus primos dormíamos lá em casa, tínhamos sempre serviço de despertar personalizado. Às 8 ou 9 da manhã, no máximo, independentemente de nos termos deitado de madrugada (a noite de Madrid é exigente!), entrava no quarto, batia palmas, tipo castanholas, abria as janelas e chamava-nos tudo e mais alguma coisa, carinhosamente. "Venga hijos de puta! A acordar! Pero como duermen tanto?!"
Estremunhados, ensonados, por muito que nos quiséssemos revoltar, acordávamos à gargalhada.
Era a única pessoa a quem eu gostava de ouvir chamar-me "cabrona". "Que cabrona, como come!"
Era uma mulher inspiradora. Uma batalhadora. Venceu um cancro há muitos anos, que lhe roubou dezenas de quilos, que lhe trouxe dor, rugas e cabelos brancos. Mas ainda mais o sentimento de vitória. "El hijo puta no me va a pegar!". E não a apanhou. Vencia tudo, a grande Elena.
Elena, já nos oitentas, continuava a dançar "à espanhola" com salero, batia as palmas das mãos em concha com ritmo, inclinava ligeiramente a cabeça, olhava por cima do ombro, para ver quem a mirava a bailar, batia o pé com firmeza no chão ao som da música, franzia a testa como uma verdadeira dançarina de sevilhanas. Vaidosa, caprichosa, cheia de personalidade e génio. Cheia de vida. Na véspera de morrer, ainda cantava. Enchia sempre a nossa vida, a nossa casa, os nossos dias. Ria-se e gozava de todos, com todos. E tinha um coração generoso, de manteiga.
Elena. Abuela Elena. A última vez que a vi, dormia. Quase sorria, serena. Não quis missa. "Los curas son todos unos hijos de puta!". Fez-se-lhe a vontade. Pena que não disse que não queria morrer. Devia ter dito: "la muerte es toda una hija de puta!". Porque é.
Hasta luego, Abuela Elena...
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Amigando
Não é fácil fazermos amigos.
Os nossos amigos são feitos nos tempos da escola, quando não
há preconceitos nem segundas intenções. São feitos no bairro, quando corremos,
brincamos e começamos a descobrir o mundo juntos. Os nossos amigos são feitos
na faculdade, quando apanhamos os primeiros embates da vida.
Até aí não conhecemos inimigos propriamente ditos. Há gente
de quem não gostamos, é certo, mas não há inimigos. Esses só aparecem na nossa
vida mais tarde, quando começamos a trabalhar. Aí conhecemos a competição, a
inveja, a maldade, enfim, o mundo real.
O trabalho raramente nos traz amigos. Raramente. Não é fácil
mas às vezes traz.
Mas a culpa é toda nossa.
Não estamos disponíveis para fazer novos amigos. Somos desconfiados
das intenções dos outros e o pretexto de não termos tempo é sempre uma boa desculpa.
Se um homem quer ser amigo de uma mulher, desconfiamos das
suas intenções: “sei bem o que ele quer”. Se uma mulher quer aproximar-se de um
homem, “olha, olha…” (olhos arregalados e sorriso malandro). Se uma mulher quer
ser amiga de outra mulher, a desconfiança pelo menos quintuplica. “Olha-me
esta! O que é que esta quer?”. Desconfiança e maldade que não tínhamos nos
tempos da escola, do bairro, da faculdade. Porque estávamos disponíveis para a
amizade.
Construímos redes de contactos virtuais, construímos uma
imagem que queremos projectar, construímos networking, construímos ideias,
construímos negócios, estudamos teambuilding para as empresas mas esquecemos
que também temos que construir a amizade. Disponibilidade para a amizade, vontade
e acção.
Tenho uma amiga recente. Não custou nada. E estou tão feliz
por isso.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Terceiro sem título (não sei escolher títulos apelativos)
E chegaste e voltaste a escrever em mim e nem uma palavra
sobre os meus apelos. Sei que me leste. Sei que leste, curiosa, os meus textos.
As linhas que escrevi com dificuldade sem os teus dedos. E nem uma palavra, nem
um pedido de desculpa pela ausência, nem um sinal de remorso. Voltaste como se
não tivesses partido, como se não me tivesses deixado sozinho. Do mal, o menos:
já arrumaste aquela odiosa mala de viagem. Acabaram-se as tuas férias? Queres-me
teu, outra vez? Voltaste para ficar?
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Noventa e um
A idade é uma soma de letras que pesa toneladas. O meu Avô
fez ontem 91 anos. Noventa e um por extenso ainda parece mais. 91 anos… Quase
comecei a escrever que 91 é imenso, uma vida, um quase século, uma quase
barbaridade. Mas parei a tempo. Não é. 91 anos passam num estalar de dedos. “Passou
num instante”, diz-me ele. Acredito.
Os noventa.
Noventa vem de nove. Mas também podia vir de novo: dos que
aprendem a viver de novo. Com as dores do corpo minguante. Com ranger dos
ossos. Com o sangue preguiçoso. Com as pernas que não reagem. Com o cheiro da
pele que está velha, branca e flácida. Com o desprezo dos [outros] novos. Com a
cabeça lúcida em contagem decrescente. Com a falta de tempo dos outros. Com o
espelho que lhe cospe impropérios.
Aos noventa, o que se pensa? O que se faz? Que planos? Que
vida?
Há uns dias li um texto no Público, da Alexandra Lucas Coelho, que se chamava simplesmente “Dona Cléo”. A Dona Cléo tem 96 anos, vive
no Rio de Janeiro, e diz-se que é a maior “lusitanista” brasileira. Diz que leu
Os Lusíadas numa tarde. Diz que uma das secções de autores portugueses mais
pequena da sua biblioteca é a de Gil Vicente “com umas três prateleiras”. Diz
que aos doze anos já sabia 200 poemas. Diz que passeou em Lisboa com Cardoso
Pires e Abelaira. Diz-se admiradora incondicional de Sophia. Não diz, mas tem
96 anos. Noventa e seis. Extensos.
Hei-de, aos noventa, lembrar-me de Dona Cléo. Acho que vou
chegar lá, aos noventa por extenso. E penso – estupidamente – que falta muito tempo.
Não falta. Passam num instante, disse-me o meu Avô.
domingo, 12 de agosto de 2012
Segundo post desesperado sem título
Querida Ana Catarina,
Continuas, portanto, a ignorar-me. Sei que me leste e, conhecendo-te como conheço, deves estar incomodada com o que leste. Não respondeste. Não me consegues ser indiferente, apesar de manifestares indiferença. Conheço-te bem, esse é o meu trunfo. Mas, ainda assim, continuas a ignorar-me.
Suspiro (consigo suspirar sem dificuldade, não preciso dos teus dedos para isso).
Essa praia, esses dias na praia, o que te trazem? E essa languidez com que estendes no sofá essa pele bronzeada, o que te traz? Não era melhor escreveres? Não era melhor para ti? (Para mim?)
Noto-te hoje particularmente agitada. Andas numa correria desde que acordaste.
Essa mala... Outra vez essa mala de viagem... Negra, como antevejo os meus próximos dias.
Vais viajar outra vez?
Levas-me contigo, desta vez?
Suspiro.
Ou, pelo menos, deixa-me os teus dedos.
Continuas, portanto, a ignorar-me. Sei que me leste e, conhecendo-te como conheço, deves estar incomodada com o que leste. Não respondeste. Não me consegues ser indiferente, apesar de manifestares indiferença. Conheço-te bem, esse é o meu trunfo. Mas, ainda assim, continuas a ignorar-me.
Suspiro (consigo suspirar sem dificuldade, não preciso dos teus dedos para isso).
Essa praia, esses dias na praia, o que te trazem? E essa languidez com que estendes no sofá essa pele bronzeada, o que te traz? Não era melhor escreveres? Não era melhor para ti? (Para mim?)
Noto-te hoje particularmente agitada. Andas numa correria desde que acordaste.
Essa mala... Outra vez essa mala de viagem... Negra, como antevejo os meus próximos dias.
Vais viajar outra vez?
Levas-me contigo, desta vez?
Suspiro.
Ou, pelo menos, deixa-me os teus dedos.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Sem título (apenas um post com um apelo desesperado)
Querida Ana Catarina,
Escrevo-te com alguma dificuldade, pois sem os teus dedos sinto-me amputado e é mais difícil sequenciar as letras, os pontos e as vírgulas. Sei que tens estado de férias. Foste para o estrangeiro e mal me ligaste. Apenas um ou outro texto, minimalistas, disfarçados com o peso das imagens. Falta de tempo, nem sempre a internet disponível, até compreendo. Mas entretanto regressaste a casa. Já passaram três semanas e, desde então, nem um olhar, nem uma linha, nem uma letra.
Todos os blogues meus amigos foram de férias com os seus dedos humanos, condição vital de sobrevivência, mas tu deixaste-me aqui. Sozinho. Sem dedos. Resisiti uns dias, umas semanas mas, francamente, já me parece um pouco excessivo. Já nem te peço que me leves de férias (que, mesmo assim, penso que seria de elementar justiça). Mas peço-te que me dês alguma atenção agora no teu regresso.
Por isso, se não te importas, devolve-me os dedos. Sei que são teus mas preciso mais deles que tu, que tens boca e até podes falar.
Todos os blogues meus amigos foram de férias com os seus dedos humanos, condição vital de sobrevivência, mas tu deixaste-me aqui. Sozinho. Sem dedos. Resisiti uns dias, umas semanas mas, francamente, já me parece um pouco excessivo. Já nem te peço que me leves de férias (que, mesmo assim, penso que seria de elementar justiça). Mas peço-te que me dês alguma atenção agora no teu regresso.
Por isso, se não te importas, devolve-me os dedos. Sei que são teus mas preciso mais deles que tu, que tens boca e até podes falar.
Com amor, sim apesar de tudo, ainda com amor,
O teu Diário Metafísico (sem dedos)
sexta-feira, 20 de julho de 2012
A desfazer histórias
O melhor das férias? Ler um livro num ápice, em dois dias, coisa que já não fazia há muito tempo. Mergulhar na história com uma intensidade tal que vejo os rostos das personagens aqui, à minha frente. Entro-lhes em casa. E elas na minha. Conheço-lhes as divisões, a sala de estar, o espelho onde se arranjam, o som da fechadura da porta, a vista da janela do quarto, o café onde se juntam com os amigos. Conheço-lhes a vida.
Ler, principalmente de seguida, tem esta enorme vantagem: tudo é mais real, mais próximo, mais verdade. Deixamos a nossa realidade lá fora, antes da primeira página e entramos. E ali estamos, em silêncio, a assistirmos à vida delas, as personagens. Chego a sussurrar "que parva, esta gaja" ou "não vás por aí, Humberto!". Não me ouvem, continuam na vida delas como se eu não tivesse falado.
Viro mais uma página. E outra, e outra e passaram mais duas horas. No palco do meu livro todas aquelas vidas continuam em sobressalto. E eu, deitada, à sombra a assistir aos seus tormentos. A observá-los atentamente: como se movem na sala, como dormem juntos, como se falam...
Gosto do teu quadro, Aleixo! Agressivo, mas marcante. As cores, o rosto dela, gosto até do cão deitado, tal como está, meio disforme. Não tentes mudar. Deixa como está, Aleixo. Guilherme? Pára! Olha que fecho o livro e não pintas mais hoje!
Ler, principalmente de seguida, tem esta enorme vantagem: tudo é mais real, mais próximo, mais verdade. Deixamos a nossa realidade lá fora, antes da primeira página e entramos. E ali estamos, em silêncio, a assistirmos à vida delas, as personagens. Chego a sussurrar "que parva, esta gaja" ou "não vás por aí, Humberto!". Não me ouvem, continuam na vida delas como se eu não tivesse falado.
Viro mais uma página. E outra, e outra e passaram mais duas horas. No palco do meu livro todas aquelas vidas continuam em sobressalto. E eu, deitada, à sombra a assistir aos seus tormentos. A observá-los atentamente: como se movem na sala, como dormem juntos, como se falam...
Gosto do teu quadro, Aleixo! Agressivo, mas marcante. As cores, o rosto dela, gosto até do cão deitado, tal como está, meio disforme. Não tentes mudar. Deixa como está, Aleixo. Guilherme? Pára! Olha que fecho o livro e não pintas mais hoje!
A vida deles. E eu ali mesmo à sua frente. A invadi-los. A comentá-los. A modificá-los. E eles vivem no meu livro.
Tão presente e tão real, que consigo imaginar-lhes o timbre de voz, quase o sotaque. Da Maria dos Remédios palpita-me o cheiro das suas roupas, o corte de cabelo. E aqueles brincos, sem dúvida Maria dos Remédios, ficam-te mal.
Ler é um luxo. Um prazer sem limites. Ouves-me, Humberto? Por que não olhas para mim quando te falo? Humberto? Vou desfazer a tua história. O que é real, afinal? O que vale? A tua história? Ou a minha visão da tua história? Baixa o som do rádio, por favor, estou a falar contigo.
PS: O livro em causa: "Bolor", de Augusto Abelaira

"Bolor: mãos que preparam, mãos que fazem e desfazem
Ir desfazendo sempre a história à medida que a escrevo?",
Augusto Abelaira
Tão presente e tão real, que consigo imaginar-lhes o timbre de voz, quase o sotaque. Da Maria dos Remédios palpita-me o cheiro das suas roupas, o corte de cabelo. E aqueles brincos, sem dúvida Maria dos Remédios, ficam-te mal.
Ler é um luxo. Um prazer sem limites. Ouves-me, Humberto? Por que não olhas para mim quando te falo? Humberto? Vou desfazer a tua história. O que é real, afinal? O que vale? A tua história? Ou a minha visão da tua história? Baixa o som do rádio, por favor, estou a falar contigo.
PS: O livro em causa: "Bolor", de Augusto Abelaira

"Bolor: mãos que preparam, mãos que fazem e desfazem
Ir desfazendo sempre a história à medida que a escrevo?",
Augusto Abelaira
sábado, 14 de julho de 2012
A meu favor tenho
"A meu favor tenho o teu olhar
Testemunhando por mim
Perante juízes terríveis:
a morte, os amigos, os inimigos.
E aqueles que me assaltam
À noite na solidão do quarto
Refugiam-se em fundos sítios dentro de mim
Quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto.
Protege-me com ele, com o teu olhar,
Dos demónios da noite e da aflições do dia,
Fala em voz alta, não deixes que adormeça
Afasta de mim o pecado da infelicidade."
Manuel António Pina, in "Algo Parecido Com Isto,
Da Mesma Substância"
quinta-feira, 5 de julho de 2012
Vergonha maior
Cada centímetro de muro é um quilómetro de vergonha...
Impressionada com tamanha brutalidade... O peso da história, aqui em Berlim, é muito mais cruel. Como foi tudo isto possível?
Aqui estou, em silêncio, incomodada, perplexa, junto ao muro verdadeiro da vergonha maior desta Alemanha.
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