terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
[In] Fusão
É a tua ou a minha pele que se levanta?
Tens o sangue em erupção.
O meu? Ou o teu?
Beija-me.
Esses lábios são os meus.
Dá-me a mão.
Aperta-me os poros.
Sinto o teu coração a bater aqui dentro.
É o teu.
Baralhas-me.
Sente-me agora os mamilos.
Essa tua língua...
Essa é a tua.
Agarra-me, não me saias de dentro.
Tens o pé a escaldar.
É a mão.
Estás tão quente.
És tu.
Falta-me o ar.
E a mim.
Não me dês espaço. Nem ar.
Escorregamos.
Cheiro a tua pele suada.
É saliva.
Beija-me, amor.
Que calor.
Morde-me o lábio devagar.
Divagar.
É teu, este queixo ou meu?
Não sei.
Sussurra-me.
Namoro-te a orelha.
Ouves-me?
Não sei. Sinto-te.
O meu pescoço vermelho.
Estou tonta.
Não me caias.
As tuas coxas respiram.
Ofegantes.
Estremeço.
Tu também?
Estremeço.
Sentes-me a cintura.
Sinto-te.
Por dentro.
Estremeço.
Deslizo-me.
Por dentro, meu amor.
És tu?
Acho que sou eu.
Beija-me.
Com todos os teus lábios.
E os meus.
Onde estás?
Em ti.
Em mim.
Beija-nos, então.
Por dentro.
Tens o sangue em erupção.
O meu? Ou o teu?
Beija-me.
Esses lábios são os meus.
Dá-me a mão.
Aperta-me os poros.
Sinto o teu coração a bater aqui dentro.
É o teu.
Baralhas-me.
Sente-me agora os mamilos.
Essa tua língua...
Essa é a tua.
Agarra-me, não me saias de dentro.
Tens o pé a escaldar.
É a mão.
Estás tão quente.
És tu.
Falta-me o ar.
E a mim.
Não me dês espaço. Nem ar.
Escorregamos.
Cheiro a tua pele suada.
É saliva.
Beija-me, amor.
Que calor.
Morde-me o lábio devagar.
Divagar.
É teu, este queixo ou meu?
Não sei.
Sussurra-me.
Namoro-te a orelha.
Ouves-me?
Não sei. Sinto-te.
O meu pescoço vermelho.
Estou tonta.
Não me caias.
As tuas coxas respiram.
Ofegantes.
Estremeço.
Tu também?
Estremeço.
Sentes-me a cintura.
Sinto-te.
Por dentro.
Estremeço.
Deslizo-me.
Por dentro, meu amor.
És tu?
Acho que sou eu.
Beija-me.
Com todos os teus lábios.
E os meus.
Onde estás?
Em ti.
Em mim.
Beija-nos, então.
Por dentro.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Todo Cambia
A argentiníssima, "La Negra", Mercedes Sosa.
Todo cambia.
Tudo muda…
Porque a vida é feita de mudança.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Não me ouças apenas
Olha para cima. O que vês?
Tens que abrir os olhos, ou não vais conseguir ver.
Abre-os, vá. Devagar.
Não tenhas medo. Estou aqui. Ouves a minha voz? Sou eu.
Vou aproximar-me do teu ouvido.
Olá.
Sou eu.
Hoje saiu o sol.
Há uns dias seguidos amanhecia o nevoeiro em vez do sol. Mas hoje o nevoeiro ficou na cama, preguiçoso de domingos. O sol aqueceu o rio, que estava mais azul que ontem.
Sentes a brisa? Este ar fresco de limão.
Abre os olhos, vá.
Não te assustes, vou tocar-te na mão.
Sentes a minha mão? Nem sorris?
Sinto-te a pele.
Já estamos de mãos dadas.
Dedos. Pele. Carne e osso.
Anda, abre os olhos para mim. Se não para mim, para o céu. Ou para o sol, que hoje não há nevoeiro.
Quero olhar-te por dentro. As pálpebras são como as capas dos livros, para serem abertas. Anda.
Deixa-te disso, dos olhos fechados.
Respira.
Tens que abrir os olhos, ou não vais conseguir ver.
Abre-os, vá. Devagar.
Não tenhas medo. Estou aqui. Ouves a minha voz? Sou eu.
Vou aproximar-me do teu ouvido.
Olá.
Sou eu.
Hoje saiu o sol.
Há uns dias seguidos amanhecia o nevoeiro em vez do sol. Mas hoje o nevoeiro ficou na cama, preguiçoso de domingos. O sol aqueceu o rio, que estava mais azul que ontem.
Sentes a brisa? Este ar fresco de limão.
Abre os olhos, vá.
Não te assustes, vou tocar-te na mão.
Sentes a minha mão? Nem sorris?
Sinto-te a pele.
Já estamos de mãos dadas.
Dedos. Pele. Carne e osso.
Anda, abre os olhos para mim. Se não para mim, para o céu. Ou para o sol, que hoje não há nevoeiro.
Quero olhar-te por dentro. As pálpebras são como as capas dos livros, para serem abertas. Anda.
Deixa-te disso, dos olhos fechados.
Respira.
Olha para mim.
Não me ouças apenas.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Retratos de mim
Excertos do Prefácio que escrevi para o Catálogo da Exposição de Fotografia "Metáforas do Eu", de Francisco Mendes*.
«A Lua rodeada
de carrinhos de brincar e uma pista de comboios. A Lua de fato e gravata a
ensinar idioma cósmico às baleias. A Lua a correr na areia da praia com as
estrelas-do-mar. A Lua com as crateras sujas de terra preta a lavrar alfaces e
a regar couves. A Lua, de bengala e cartola, a fazer truques de magia à porta
do jardim-de-infância.
Ele quis
fotografar a Lua, o Eu da Lua.
E falou-lhe
dessa hipótese numa noite em que ela estava cheia. A Lua escutou-o em silêncio.
Ele, alto e esguio, ainda assim teve de esticar o pescoço para poder vê-la mais
de perto. As estrelas ali ao lado cintilavam de curiosidade. E ele explicava à
Lua cheia o que queria fotografar nela.
- “Primeiro
quero fotografar o teu interior, o que tu és ou o que tu achas que és. A
fotografia do ser. (Ele tratava a Lua por tu.) Em segundo lugar quero captar o
que revelas aos outros ou o que demonstras para o exterior. No fundo, o que tu
achas que os outros pensam que tu és, o que eles vêem em ti. É a fotografia do
ver. (E ela, atenta, escutava-o em silêncio. Cheia, brilhante. As estrelas cada
vez mais curiosas.) E, finalmente, quero fotografar a tua aspiração, aquilo que
tu verdadeiramente queres ser, o que sonhas ser. A fotografia do querer”.
A Lua respirou
fundo.
Enquanto ele falava ela já se imaginava de todas as maneiras. A Lua
amarrada com cordas grossas, tapada pelo brilho do Sol luminoso. A Lua vestida
de prata a entrar na Igreja para casar com Saturno, de fraque escuro. A Lua, de
cabelos soltos ao vento, a lançar papagaios de papel. A Lua a representar um papel
principal numa peça de teatro.
Ele
aguardou pela resposta da Lua. Perdeu noites de sono. E esperou…
Naquela noite
a Lua bateu-lhe à janela. Ele estava ansioso e deixou-a entrar com um sorriso.
Mas a Lua estava minguante. Ele percebeu a resposta. Não. Justificou que não
faria sentido, que ninguém entenderia aquele protagonismo de um mero satélite
da Terra. Ele rebateu, tentou demovê-la, persuadi-la do contrário. Até que a
Lua lhe apresentou o argumento decisivo. “Tu queres três retratos”. (A Lua
também o tratava por tu.) “Mas lembra-te que eu tenho quatro faces".
Ele
compreendeu. Fechou a janela. Voltou para a cama. E decidiu fotografar pessoas.»
| Francisco Mendes, Metáforas do Eu |
(...)
«Ele não ia
fotografar apenas pessoas. Ele ia fotografar as nossas águas furtadas. Nossas.
Minhas. Tuas. Tu. Eu. A três dimensões, isto é, em dimensão verdadeira, sem
rede, sem subterfúgios, só ele e nós. Eu. Identidade.
Habituados
a uma sociedade de modelos mais simples e maniqueístas, na permanente
dialéctica entre o bom e o mau, entre o justo e o não justo, entre a virtude e
a falência dela, entre o Sol e a Lua, entre a luz e as trevas, vemo-nos
confrontados aqui com uma terceira dimensão que torna tudo mais complexo. E
completo.
Na Antiguidade
Clássica, na Grécia antiga, enquanto as sereias libertavam sons e notas
musicais, numa harmonia infinita, também as figuras femininas que iluminavam a
esfera da viagem dos sábios pelo conhecimento cantavam continuamente um
tríptico: o passado, o presente e o futuro. Láquesis, Cloto e Átropos,
respectivamente. Sem quaisquer cortes, sem que se distinguisse qual a voz do
passado, a do presente ou a do futuro. Três vozes como se fosse uma só, porque
somos sempre passado, presente e futuro.»
| Francisco Mendes, Metáforas do Eu |
(...)
«Essa pergunta,
no fundo, fazemo-la todos os dias. Fá-la-emos até ao fim. Quando estivermos à
porta do céu ou do inferno para o julgamento das almas, alguém há-de
perguntar-nos: “E tu, quem és?”
“Quem sou?!”
Ouviremos um silêncio branco.
Nada.
“Quem sou…”
E aquele buraco negro de som.
[silêncio. pausa. branco. susto. silêncio. eu.]
“Quem sou eu”,
repetiremos para dentro sussurrando.
E ninguém para
nos ajudar. E ninguém para responder por nós. Apenas nós e o nosso silêncio.
Que responderemos? Na nossa mais profunda solidão, na nossa mais genuína
sinceridade, na nossa mais crua e visceral nudez de mundo, o que responderemos?
O que sou, o que vejo, ou o que quero…»
Ana Catarina
Santos
* Fotografias de Francisco Mendes
Exposição "Metáforas do Eu" - Projecto Zoom ID (responsabilidade social)
Em exibição no Espaço Cultural das Mercês, Príncipe Real
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Próxima paragem
Entrei num autocarro sem destino. Ou antes, tinha destino, eu é que não reparei qual era. Nunca o tinha feito. Aliás, há bastante tempo que não andava de autocarro.
Naquela tarde sentei-me no banco de uma paragem para ajeitar a bota e acabei por ficar ali, abrigada, à espera que a chuva parasse. Estava frio, além da chuva. Mais ninguém na paragem. Acabei de ajeitar a bota e assim que levanto o corpo e a cabeça, estava uma porta de um autocarro aberta à minha frente. E um sorriso do condutor da porta aberta e do cabelo encaracolado e do bluetooth no ouvido e do pullover azul. "Entre, entre que ainda se constipa", disse o sorriso. É claro que entrei. Sorriso com sorriso se paga. Às tantas ainda me constipava mesmo.
Paguei o bilhete com umas moedas. O sorriso agradeceu. A máquina arrancou sem pressas. Dei uns passos, escolhi vagamente o meu lugar, passei os olhos por quem me fixava e sentei-me. Estava quentinho lá dentro. Soube-me bem aquele atrevimento. Ir sem destino. Ir. E depois logo se vê. "Vou até à última paragem e se ficar demasiado longe, regresso na mesma volta". Nada que me preocupasse. Tinha tempo e tinha a percepção da finitude da jornada.
Abstraí-me.
O bom de não sermos nós a conduzir. Fixar as pessoas que entram e saem, atarefadas. A mulher com os sacos de plástico na mão e o guarda-chuva a pingar. Os dois rapazes de olhos presos aos telemóveis. A janela embaciada, os caracóis negros da rapariga colados ao vidro. E aquele prédio que não parecia tão amarelo mostarda, aquelas águas furtadas, os telhados, as varandinhas, aquela floreira, o Rio visto daqui.
Passei por zonas da cidade que não conhecia. O destino desconhecido.
Os que saem, os que entram, os que descem com passo firme, os que sabem para onde vão, os que mandam parar (stop - campainha - luz vermelha intermitente - próxima paragem - stop - parar - intermitente), os que seguem, os que esperam de pé.
É admirável.
As pessoas escolhem a paragem do seu destino. Saem nesta e não na outra porque sabem que a seguinte não lhes presta. Não hesitam entre uma saída e outra. Conhecem as consequências da saída que há-de vir. Mas só é assim nos transportes públicos. Nos outros comboios da vida nunca conhecemos a paragem seguinte.
"Ficamos por aqui? Mudamos? Saio nesta? Espero a próxima? E se a próxima ficar demasiado longe? E se esta for a última? Dá para voltar para trás? Qual é a próxima saída? Como escolher a certa? Quanto tempo até à próxima paragem? Há tempo para tomar a decisão? Esta ou a próxima que não sei quando é ou sequer se é?"
E de repente, um sorriso: "E a menina afinal para onde vai?"
Autocarro vazio. Só um sorriso. Dois, agora.
E, afinal, não me constipei.
Naquela tarde sentei-me no banco de uma paragem para ajeitar a bota e acabei por ficar ali, abrigada, à espera que a chuva parasse. Estava frio, além da chuva. Mais ninguém na paragem. Acabei de ajeitar a bota e assim que levanto o corpo e a cabeça, estava uma porta de um autocarro aberta à minha frente. E um sorriso do condutor da porta aberta e do cabelo encaracolado e do bluetooth no ouvido e do pullover azul. "Entre, entre que ainda se constipa", disse o sorriso. É claro que entrei. Sorriso com sorriso se paga. Às tantas ainda me constipava mesmo.
Paguei o bilhete com umas moedas. O sorriso agradeceu. A máquina arrancou sem pressas. Dei uns passos, escolhi vagamente o meu lugar, passei os olhos por quem me fixava e sentei-me. Estava quentinho lá dentro. Soube-me bem aquele atrevimento. Ir sem destino. Ir. E depois logo se vê. "Vou até à última paragem e se ficar demasiado longe, regresso na mesma volta". Nada que me preocupasse. Tinha tempo e tinha a percepção da finitude da jornada.
Abstraí-me.
O bom de não sermos nós a conduzir. Fixar as pessoas que entram e saem, atarefadas. A mulher com os sacos de plástico na mão e o guarda-chuva a pingar. Os dois rapazes de olhos presos aos telemóveis. A janela embaciada, os caracóis negros da rapariga colados ao vidro. E aquele prédio que não parecia tão amarelo mostarda, aquelas águas furtadas, os telhados, as varandinhas, aquela floreira, o Rio visto daqui.
Passei por zonas da cidade que não conhecia. O destino desconhecido.
Os que saem, os que entram, os que descem com passo firme, os que sabem para onde vão, os que mandam parar (stop - campainha - luz vermelha intermitente - próxima paragem - stop - parar - intermitente), os que seguem, os que esperam de pé.
É admirável.
As pessoas escolhem a paragem do seu destino. Saem nesta e não na outra porque sabem que a seguinte não lhes presta. Não hesitam entre uma saída e outra. Conhecem as consequências da saída que há-de vir. Mas só é assim nos transportes públicos. Nos outros comboios da vida nunca conhecemos a paragem seguinte.
"Ficamos por aqui? Mudamos? Saio nesta? Espero a próxima? E se a próxima ficar demasiado longe? E se esta for a última? Dá para voltar para trás? Qual é a próxima saída? Como escolher a certa? Quanto tempo até à próxima paragem? Há tempo para tomar a decisão? Esta ou a próxima que não sei quando é ou sequer se é?"
E de repente, um sorriso: "E a menina afinal para onde vai?"
Autocarro vazio. Só um sorriso. Dois, agora.
E, afinal, não me constipei.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Nus na noite
O pescoço adormecido na almofada treme ligeiramente à passagem da saliva. Os poros dilatados, deleitados, ajeitam-se para me deixar entrar. Percorre para lá e para cá, nas veias, um sangue selvagem. Respiração funda. Tronco firme, ligeiramente suado. A pele brilhante das pálpebras fechadas. Abertas. Pestanas. Uma mistura de cheiros. A alfazema da cama lavada. A pele, o suor, a saliva, o calor. O beijo, o aperto, o ar húmido, o incerto. O lençol a mais, a cama curta, as mãos inteiras, os lábios todos. Os lábios. A boca. Suave, suave. E os poros que dilatam. O sangue como um vinho aveludado vermelho rubi. Intenso, pleno, maduro, rubi. A chuva, ou o som dela. Um pingo. Outro. Outro. A respiração. A pele, os poros, a alma, os poros da alma. As formas que se pegam, as curvas que se cruzam, as pernas que se entalam. O mundo inteiro aqui. Os poros do mundo nus na noite de veludo. Eu e tu, nós, nus nos poros do mundo.
![]() |
| "Naked man and woman", Picasso (1967) |
sábado, 5 de janeiro de 2013
República
Nomes que pululam na minha cabeça
Górgias, Ménon, Fedro.
Fédon, Equécrates, Cármides, Lísis.
Teeteto, Polemarco, Trasímaco de Calcedónia.
Adimanto, irmão de Platão.
Sócrates, Nicérato, filho de Nicías
Lisías e Eutidemo, Céfalo.
Demóstenes, Eratóstenes,
Glaucón, irmão de Platão.
Carmantidas e Clitofonte
Sócrates.
Péricleas, Polidamas, Isménias de Tebas.
Pireu, Téages, Dionísio de Siracusa.
Batalha de Mégara, Mês de Thargelion (Junho).
Potone, irmã de Platão.
Timeu de Locros, Hermócrates e Crítias.
Lacques, Eutifron,
Philosophos, amigo do saber.
Philodoxos, amigo da opinião.
Contos de Alcínoo, Alquimos,
Er, Arménio, Panfília, Crátilo.
Antifonte, meio-irmão de Platão.
Orfeu, Ájax, Agamémnom, Ulisses.
Láquesis, Cloto, Átropos.
Letes, Ameles, Ananke.
Dikaios, virtude.
Dikaiosyne, totalidade das virtudes.
Megas agon, grande combate.
Sim. Estou a reler a República, de Platão.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Primários
Vivemos rodeados de símbolos e simbolismos. Não estou a falar de regras ou imposições nem sequer de religião. Estou a falar de símbolos que não estão escritos em lado nenhum, ninguém sabe muito bem a sua origem, de onde nasceram ou porquê. Alguém diz que é suposto agirmos de determinada maneira e tudo continua assim, sem mudança ou contestação.
Entre os símbolos e as regras há ainda os rituais que aparentemente trazem sorte. Condutas ou convenções sociais, comunitárias, familiares que, tal como os símbolos, não estão escritos em lado nenhum e também ninguém sabe muito bem justificá-los.
Na passagem de ano, com a entrada do ano novo, esse nosso lado mais primário assalta-nos de forma violenta. Toda a gente vai a correr comprar cuecas azuis. Cuecas azuis?! Sim, cuecas azuis. É suposto brindarmos o início do ano com cuecas azuis. Isso faz algum sentido?! Até dizem que devemos deitar fora as cuecas velhas. Mesmo para o lixo. Primários!
Toda a gente toma doze passas à meia-noite. Doze passas. Porquê, passas? Bom, passas. Adiante.
Toda a gente se cumprimenta e abraça quem está ao seu lado. Há quem suba a cadeiras ou bancos, há quem salte ao pé-coxinho com o pé direito no chão, há quem salte com os pés juntos. Primários. Todos.
Eu também.
Lá celebrei o novo ano com as belas das cuecas azuis (oferecidas, porque dizem que compradas não têm tanto efeito - primária!). Lá comi as doze passas e pedi os doze desejos - primária! Lá abracei e beijei quem estava ao meu lado, com um sorriso como se o mundo fosse acabar.
Chuviscava, alguém ao meu lado disse: "viva a chuva! A chuva veio para abençoar o ano novo!" Sorri.
Tomei champanhe à meia-noite. Mais um ritual. Não me apetecia champanhe, ali, à chuva, mas tive de beber como quem bebe a última água no deserto. E bebi com satisfação. Primária!
E mais. Passei a meia-noite debaixo de uma laranjeira. Como digo, chuviscava. Havia laranjeiras naquela Praça onde ecoariam as badaladas. Muitas laranjeiras aparadas com cuidado, quase esculpidas, carregadinhas de laranjas. Laranjeiras com enfeites de Natal. Lindas! As laranjas misturavam-se com o branco cintilante das luzinhas de Natal, que as cobriam como fios de prata.
As belas laranjeiras na Praça central da cidade cheia de gente e sorrisos e reboliço serviam de bom abrigo quando a chuva aumentava de intensidade. "A flor de laranjeira abençoa os casamentos, há-de abençoar o novo ano", alguém disse entre a chuva. Sorri.
Queremos mesmo acreditar que algo mais faça por nós mais do que nós próprios conseguimos fazer. Primários. Tão primários... Mas, pelo sim pelo não, venha de lá a flor de laranjeira.
Entre os símbolos e as regras há ainda os rituais que aparentemente trazem sorte. Condutas ou convenções sociais, comunitárias, familiares que, tal como os símbolos, não estão escritos em lado nenhum e também ninguém sabe muito bem justificá-los.
Na passagem de ano, com a entrada do ano novo, esse nosso lado mais primário assalta-nos de forma violenta. Toda a gente vai a correr comprar cuecas azuis. Cuecas azuis?! Sim, cuecas azuis. É suposto brindarmos o início do ano com cuecas azuis. Isso faz algum sentido?! Até dizem que devemos deitar fora as cuecas velhas. Mesmo para o lixo. Primários!
Toda a gente toma doze passas à meia-noite. Doze passas. Porquê, passas? Bom, passas. Adiante.
Toda a gente se cumprimenta e abraça quem está ao seu lado. Há quem suba a cadeiras ou bancos, há quem salte ao pé-coxinho com o pé direito no chão, há quem salte com os pés juntos. Primários. Todos.
Eu também.
Lá celebrei o novo ano com as belas das cuecas azuis (oferecidas, porque dizem que compradas não têm tanto efeito - primária!). Lá comi as doze passas e pedi os doze desejos - primária! Lá abracei e beijei quem estava ao meu lado, com um sorriso como se o mundo fosse acabar.
Chuviscava, alguém ao meu lado disse: "viva a chuva! A chuva veio para abençoar o ano novo!" Sorri.
Tomei champanhe à meia-noite. Mais um ritual. Não me apetecia champanhe, ali, à chuva, mas tive de beber como quem bebe a última água no deserto. E bebi com satisfação. Primária!
E mais. Passei a meia-noite debaixo de uma laranjeira. Como digo, chuviscava. Havia laranjeiras naquela Praça onde ecoariam as badaladas. Muitas laranjeiras aparadas com cuidado, quase esculpidas, carregadinhas de laranjas. Laranjeiras com enfeites de Natal. Lindas! As laranjas misturavam-se com o branco cintilante das luzinhas de Natal, que as cobriam como fios de prata.
As belas laranjeiras na Praça central da cidade cheia de gente e sorrisos e reboliço serviam de bom abrigo quando a chuva aumentava de intensidade. "A flor de laranjeira abençoa os casamentos, há-de abençoar o novo ano", alguém disse entre a chuva. Sorri.
Queremos mesmo acreditar que algo mais faça por nós mais do que nós próprios conseguimos fazer. Primários. Tão primários... Mas, pelo sim pelo não, venha de lá a flor de laranjeira.
| Fotografia Ana Catarina Santos, Sevilha, 2013 |
quarta-feira, 26 de dezembro de 2012
Parvo
Do amor. Da tempestade que abana todos os poros, dos sonhos invadidos, da pele molhada, da impaciência, da agitação, da falta de senso, do sono esquisito, da fome de agarrar, dos nervos, do esperar, do sorrir sem porquê, do acordar aquecido, do crepitar dentro, do olhar baralhado, da mão suada, do nariz detective, dos lábios mordidos. Do amor. Parvo.
| Eros and Psyche - statue Antonio Canova |
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Abriguei-me
Abriguei-me junto ao mar, mar salgado, meu amigo de sempre, que me ouve sem me interromper, que me atenta sem me repreender, que me abraça sem cobranças, que me acalma sem me aconselhar, que me faz sorrir sem que me aperceba. Meu amigo salgado, abrigo doce.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Cemitério de Guarda-Chuvas
Uma vareta para um lado, outra para outro, e outra ainda cravada
no intervalo das pedras da calçada. A chuva de prata confunde-se com o metal. Um
bocado de pano escuro, talvez castanho, encharcado. Vvvvvvvvvvvvvvvvv… Vvvvvvvvv... Abana, abana ao
vento, suspenso entre as varetas.
Chove tanto… A rua é um rio. A passadeira mal
se vê na tarde escura.
Mais um chapéu pelos ares. Parece um balão sem fio preso
na mão do menino. Os limpa pára-brisas para lá, para cá, para lá, para cá. Tchuc-tchuc-tchuc-tchuc…
Os vidros embaciados deixam ver os faróis vermelhos, reluzentes, no
carro da frente. A cortina de água bate nos vidros. Olha ali outro! Outro chapéu-de-chuva
abandonado! Os braços de prata inertes no chão, cada um para seu lado. Está meio aberto e o pano rasgado é azul-turquesa [deve ser de senhora]. O cabo
de madeira é em tons de mel e tem algo dourado [é de senhora, com toda a certeza]. Ali
jaz, ao frio, à chuva, ao vento. Sozinho, abandonado, molhado, perdido, esquecido
para sempre. Morto e não enterrado. Devia haver lápides: “aqui jaz o
guarda-chuva que chegou a ser feliz em muitas mãos. Eterna saudade.”
A rua é um cemitério de guarda-chuvas. Chove. Pedaços de guarda-chuvas sem dono espalhados pelas pedras da calçada. Chove. Chove mesmo muito. O prateado, o cinzento, o azul-turquesa, os faróis vermelhos sumidos. Tchuc-tchuc-tchuc-tchuc… Os carros em fila passam por eles, indiferentes. Poças de água no cemitério dos guarda-chuvas.
Por que abandonam as pessoas os seus chapéus de chuva outrora queridos? Eles, que
sempre protegeram as pessoas da chuva. Eles, que nunca lhes falharam. E à
primeira que lhes falham, as pessoas largam-nos na rua. Largam-nos da mão. Literalmente. Desumanos!
“Aqui jaz o teu guarda-chuva triste e abandonado”
[espera, não chores, ele já vem, já sei que queres ir para
casa, tens saudades daquelas mãos, mas tens que ter calma, não posso parar o
carro assim sem mais nem menos, compreendes?, sei que esta não é a tua rua, nunca te vi por
aqui, não chores por favor, queres que te faça um chá?]
Um cemitério de guarda-chuvas sem flores nem jeito nenhum.
As pessoas deviam levar os seus guarda-chuvas doentes para
casa. Deviam tratar deles com carinho. Uma compressa humedecida em água morna, mercurocromo
nas feridas, uma gaze na pega de madeira, ligaduras nas varetas contorcidas e pensos
ou adesivos no tecido rasgado. Deviam levar-lhes flores com cartõezinhos. “Boas
melhoras!” E não pára de chover.
[chá de quê?]
| Fotografia: Ana Catarina Santos |
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Comprei um carrossel
E dá voltas e voltas. E sobe. E a música embala. Giro. Girando. Ondulando. E desce. E curva. Gira. E as crianças riem. E o chocolate quente. O gorro de lã. A neve. E o frio. E a música de corda. E as vozes nas ruas. E ele sobe. E gira. E dá mais uma volta. Cheira a chocolate. E as luvas. E o nariz vermelho mordido pelo frio. E as gargalhadas. E as luzes nas montras. E mais uma volta. A caixa de música que se cala. O vendedor de caixas aproxima-se do balcão. As crianças calam-se. O vendedor, de avental verde. Sorri. Levanta a caixa com a mão esquerda. Gira o pulso. Firme, firme. Dá à roda mais uma vez. Mão direita firme. E mais outra e outra ainda. A caixa de música volta a tocar. Música mais rápida. As luzes mudam de cor. O avental verde afasta-se. As crianças riem. O chão gelado. E a tenda a vender crêpes. E a outra dos queijos. E o casal de pé a comer "escargots". Falam francês. Neve. Vidros salpicados. O carrossel parou. A música de corda também. O avental verde. Roda. Roda. Roda. Roda. Música. Cachecol. Nariz frio. Frio. Cheira a chocolate. Un chocolat chaud, s'il vous plaît! Não sinto as moedas. Dedos rijos. O vapor da minha respiração. Neve. Merci. Música. Comprei um carrossel.
sexta-feira, 30 de novembro de 2012
À espera
Passo os dias à espera. À espera que algo aconteça.
À espera que a água aqueça para o banho. À espera que páre de chover. À espera de um telefonema. À espera de uma resposta. À espera de uma entrevista. À espera de taxi. À espera que me atendam ao balcão. À espera do café quente que depois da espera quase vem frio e desmaiado. À espera nas filas de trânsito. À espera para o início de uma reunião. À espera do avião. À tua espera. À espera.
Tantas horas de espera. Todas as horas juntas de espera dão muito tempo. Tempo cheio de espera. Tempo de espera. Tempo de(s)espera.
Os dias de espera todos juntos davam outra vida.
Passo os dias à minha espera.
À espera que a água aqueça para o banho. À espera que páre de chover. À espera de um telefonema. À espera de uma resposta. À espera de uma entrevista. À espera de taxi. À espera que me atendam ao balcão. À espera do café quente que depois da espera quase vem frio e desmaiado. À espera nas filas de trânsito. À espera para o início de uma reunião. À espera do avião. À tua espera. À espera.
Tantas horas de espera. Todas as horas juntas de espera dão muito tempo. Tempo cheio de espera. Tempo de espera. Tempo de(s)espera.
Os dias de espera todos juntos davam outra vida.
Passo os dias à minha espera.
![]() |
| Coombs |
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Amiquê?
Uma das modernices mais populares é o pedido de amizade no Facebook.
“O não-sei-quantos enviou-te um pedido de amizade”. E se eu aceitar, com apenas
um clique, somos “amigos”. Já. Amigos instantâneos. Não é preciso esperar uns
minutos. É imediato. Nem é necessário sequer juntar água ou descongelar no
micro-ondas. “O não-sei-quantos agora é teu amigo”. Zás-trás! Mais um “amigo”.
Às vezes o pedido de amizade modernaço e instantâneo vem
acompanhado por uma mensagem pessoal. Há dias recebi uma mensagem de uma pessoa
que me pedia que aceitasse o “pedido de amisade” que tinha acabado de enviar.
Li, reli. Pedido de “amisade”? “Amisade”? Com “s”?!
Não posso ser amiga de quem não sabe escrever amizade…
Não posso ser amiga de quem não sabe escrever amizade…
Quem troca o “z” pelo “s” na amizade não sabe do que fala. Quem
troca o “z” pelo “s” na amizade há-de trocar-se também nos afectos. Quem troca
o “z” pelo “s” na amizade é bem capaz de trocar “um-amigo” por “um-umbigo”.
As letras (as palavras) fazem a diferença. Ditas e escritas.
Os afectos também. E a amizade não é apenas retórica. Ponto final parágrafo.
sábado, 17 de novembro de 2012
Ontem era para ter estado calada
Ontem era para ter estado de folga. Deitei-me tarde, já de madrugada,
com a expectativa de que no dia seguinte não iria trabalhar, apesar de ser dia
de semana. Relaxa-se de maneira diferente. A almofada tem outro cheiro, o colchão abraça-me melhor e os lençóis são mais suaves.
Dormi bem, acordei descontraída. Estava a precisar de uma
boa noite de sono. Mas uns telefonemas e mensagens em cima do meio-dia
terminaram com a minha folga e com a minha boa disposição. Tinha que ir
trabalhar a seguir ao almoço.
Fiquei amuada e rezingona.
A folga deixou de ser folga. O dia passou a ser ainda mais
cinzento. O meu dia passou a ser o dia de folga que tinha acabado de o ser e que
tinha acabado de se transformar na mais irritante sexta-feira à tarde de chuva
e trabalho.
Não jantei. Trabalhei até tarde na redacção. Continuava
rezingona e amuada.
Recebi um telefonema de uma amiga, à noite. Desabafei todos
os meus azares: de quase ter estado de folga, de quase ter tido um fim-de-semana
prolongado, de ter deixado de estar de folga, de estar ainda a trabalhar, de não
ter sequer jantado. E ainda por cima estava a chover.
- “Estou cansada. Farta!”
Silêncio no outro lado.
A minha amiga é jornalista. Está desempregada.
Silêncio no outro lado.
- “Já viste a tua sorte?”
Silêncio neste lado.
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Morse especial
"Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. (...)
Gostava tanto que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo."
António Lobo Antunes, "Migalhas"
Gostava tanto que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo."
António Lobo Antunes, "Migalhas"
![]() |
| "A Catedral" - Auguste Rodin |
quinta-feira, 15 de novembro de 2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Primeira aula
Incentivada pelo entusiasmo que ganhei com o curso de Poesia Japonesa (e com os livros de Haiku que tenho devorado), perdi a cabeça e atirei-me para uma nova aventura! Comecei ontem a aprender Japonês, propriamente dito. Estou a frequentar um Curso de Língua e Cultura Japonesas.
Ontem fui à primeira aula. Somos poucos, uns sete ou oito, contando comigo.
Estava quentinho na sala, silencioso e acolhedor. Fui recebida com uma vénia. Uma senhora japonesa que sorriu quando entrei na sala e curvou-se ligeiramente, olhando para baixo. Hesitei, não sabia se tinha de fazer o mesmo... Disse apenas boa tarde. Sorri. Mas não baixei a cabeça.
Sentei-me na primeira fila. Abri o caderno novo - sem linhas, só folhas brancas - tirei a esferográfica e, em segundos, esqueci a Merkl, que tinha estado a acompanhar todo o dia, e o Passos Coelho e a crise e a política.
Respirei fundo, como quem oxigena o cérebro. Rodei os ombros para trás, mexi levemente o pescoço. Mudei o "chip". Olhei para ela, à minha frente, enquanto ainda entravam outros alunos.
A minha professora chama-se Yuko. Yuko Kase. Magra, pele branca, cabelo negro, baixa, um metro de sessenta talvez. Vinha de cabelo apanhado com um gancho no alto da cabeça.
Trazia uma saia colorida comprida de roda, abaixo do joelho. Meias grossas de lã, botas castanhas-mel pelo meio da canela. Uma camisola de gola alta cinzenta e um casaquinho de malha também colorido, verde vivo, quase verde bandeira, também de lã, abotoado até ao pescoço.
Dedos finos, mãos delicadas, gestos suaves. Sem jóias. Sem anéis. Sem brincos. Sem colares. E sorriso fácil. Olhinhos de japonesinha. Gosto da Professora Yuko.
Sinto que se abre uma nova janela para mim. Respiro fundo. Gosto desta janela.
Ontem fui à primeira aula. Somos poucos, uns sete ou oito, contando comigo.
Estava quentinho na sala, silencioso e acolhedor. Fui recebida com uma vénia. Uma senhora japonesa que sorriu quando entrei na sala e curvou-se ligeiramente, olhando para baixo. Hesitei, não sabia se tinha de fazer o mesmo... Disse apenas boa tarde. Sorri. Mas não baixei a cabeça.
Sentei-me na primeira fila. Abri o caderno novo - sem linhas, só folhas brancas - tirei a esferográfica e, em segundos, esqueci a Merkl, que tinha estado a acompanhar todo o dia, e o Passos Coelho e a crise e a política.
Respirei fundo, como quem oxigena o cérebro. Rodei os ombros para trás, mexi levemente o pescoço. Mudei o "chip". Olhei para ela, à minha frente, enquanto ainda entravam outros alunos.
A minha professora chama-se Yuko. Yuko Kase. Magra, pele branca, cabelo negro, baixa, um metro de sessenta talvez. Vinha de cabelo apanhado com um gancho no alto da cabeça.
Trazia uma saia colorida comprida de roda, abaixo do joelho. Meias grossas de lã, botas castanhas-mel pelo meio da canela. Uma camisola de gola alta cinzenta e um casaquinho de malha também colorido, verde vivo, quase verde bandeira, também de lã, abotoado até ao pescoço.
Dedos finos, mãos delicadas, gestos suaves. Sem jóias. Sem anéis. Sem brincos. Sem colares. E sorriso fácil. Olhinhos de japonesinha. Gosto da Professora Yuko.
Sinto que se abre uma nova janela para mim. Respiro fundo. Gosto desta janela.
domingo, 11 de novembro de 2012
Valsa de Outono
Entrou pela janela e quase não fez ruído, como uma bailarina em palco que nunca se ouve quando toca no chão após o salto. Pousou delicadamente no soalho de madeira e esperou que alguém a visse, que alguém com ela se metesse. Ali ficou, aquecendo-se ao sol de Domingo, tranquila, em silêncio algumas horas. Descansava depois de ter bailado no céu, ao ritmo do vento, uma valsa de Outono.
Observei, desde manhã, como as folhas hoje bailavam nos ares. O céu azul de veludo enquadrava o cenário. Algumas nuvens brancas ao longe, poucas. O palco é o ar, sem barreiras, sem espaço, sem pontos nem contra-pontos. A orquestra é o vento que as leva pela mão.
O ar sopra-lhes por baixo, elas ganham altitude, rodopiam, viram-se, cruzam-se, entrelaçam-se. O vento vira. O ar transforma-se. A dança vira também. E montam uma coreografia criativa sem ensaios. E sobem e descem. E tocam o chão, desafiam quem passeia a pé, escondem-se nos canteiros e nas bermas e nos passeios. Perseguem-se e depois fogem. E o vento sopra do lado de lá e voltam a subir e baralham os pássaros. E tocam-se no ar. Leves, airosas, brincalhonas, atrevidas. E o vento sopra do lado de cá e dão mais uma volta, e outra e outra ainda.
Em silêncio, ao sol. E sobem mais alto e descem em espiral. Uma dança quase oriental, serpenteando. O céu salpicado de tons de castanho, amarelo, quase laranja. Parecem serpentinas vibrantes. Um ritual da natureza.
Como escolhem as folhas de Outono os seus pares?
Uma cansou-se. Entrou-me em casa. Só a vi quando, ao anoitecer, fui fechar a janela. Ali estava, no soalho de madeira, descansando.
Perdeste o teu par?
Observei, desde manhã, como as folhas hoje bailavam nos ares. O céu azul de veludo enquadrava o cenário. Algumas nuvens brancas ao longe, poucas. O palco é o ar, sem barreiras, sem espaço, sem pontos nem contra-pontos. A orquestra é o vento que as leva pela mão.
O ar sopra-lhes por baixo, elas ganham altitude, rodopiam, viram-se, cruzam-se, entrelaçam-se. O vento vira. O ar transforma-se. A dança vira também. E montam uma coreografia criativa sem ensaios. E sobem e descem. E tocam o chão, desafiam quem passeia a pé, escondem-se nos canteiros e nas bermas e nos passeios. Perseguem-se e depois fogem. E o vento sopra do lado de lá e voltam a subir e baralham os pássaros. E tocam-se no ar. Leves, airosas, brincalhonas, atrevidas. E o vento sopra do lado de cá e dão mais uma volta, e outra e outra ainda.
Em silêncio, ao sol. E sobem mais alto e descem em espiral. Uma dança quase oriental, serpenteando. O céu salpicado de tons de castanho, amarelo, quase laranja. Parecem serpentinas vibrantes. Um ritual da natureza.
Como escolhem as folhas de Outono os seus pares?
Uma cansou-se. Entrou-me em casa. Só a vi quando, ao anoitecer, fui fechar a janela. Ali estava, no soalho de madeira, descansando.
Perdeste o teu par?
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
Tentação Japonesa
Hoje de manhã fui buscar à prateleira o meu caderninho de Poesia Japonesa. Vou regressar às aulas para fazer o nível 2 do curso. É estranho como há pequenos detalhes que fazem os nossos dias tão mais felizes.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Aos ditadores
Cospem verbos. Vomitam palavras que nem conhecem. Espumam insultos. Salivam raivas. Chutam ódios. Batem. Agridem. Ácido. Fecho os olhos. Tapo os ouvidos. Sai, sai, sai daqui! Saiam! Saiam todos. Caras feias. Olhos raiados de podridão. Parasitas. Ocos. Veias eriçadas que querem sair daqueles corpos moribundos. Maldade. Inveja. Poder nojento. Poderzinho autoritário. Sangue podre. Nojo. Ferrugem nas artérias. Mofo. Bolor. Rugas de maldade. Mau hálito. Bafo de tédio. Infelizes. Cadáveres de gente. Almas tristes. Insignificantes. Complexados. Pequeninos. Mentecaptos. Vazios. Mentirosos. Falsos. Desapareçam. Evaporem-se. Vão brincar aos poderzinhos para o crematório. Desapareçam, ditadores! Morram, morram todos. Matem-se uns aos outros. Pestilentos. Morram, velhacos. Gritaria. Párem! Caiam. Acéfalos. Medíocres. Estúpidos. O mundo não vos merece. Adeus.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Fumo
Cheiro(-te n)essa saudade como lenha numa fogueira
Por dentro
Quente
Um tronco que flutua
Oco
Frio
O rio faz o seu caminho sem olhar para trás
Com a certeza do
Rumo
Cheira a lenha queimada
Nevoeiro
Fumo
Duas margens separadas
Coexistem
Não uma sem a outra
Como a saudade
Consigo cheirar a saudade
Cheiro(-te ness)a saudade
Por dentro
Quente
Um tronco que flutua
Oco
Frio
O rio faz o seu caminho sem olhar para trás
Com a certeza do
Rumo
Cheira a lenha queimada
Nevoeiro
Fumo
Duas margens separadas
Coexistem
Não uma sem a outra
Como a saudade
Consigo cheirar a saudade
Cheiro(-te ness)a saudade
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
segunda-feira, 29 de outubro de 2012
Às segundas
Às segundas quero sempre mudar o mundo.
Planeio na almofada da noite anterior a revolução que estou decidida a fazer daí a poucas horas. Vou acordar mais cedo. Quero apanhar o sol assim que nasça, quero respirar o primeiro ar fresco da manhã, quero agarrar a vida. Quero fazer aquela história que anda há tempos na minha cabeça, quero marcar o almoço prometido e sempre adiado, quero responder às mensagens pendentes, quero ver o filme que gravei há semanas, quero ler mais vinte, trinta páginas que ontem.
Às segundas quero mudar o mundo.
Depois passa.
Já é quase terça.
Planeio na almofada da noite anterior a revolução que estou decidida a fazer daí a poucas horas. Vou acordar mais cedo. Quero apanhar o sol assim que nasça, quero respirar o primeiro ar fresco da manhã, quero agarrar a vida. Quero fazer aquela história que anda há tempos na minha cabeça, quero marcar o almoço prometido e sempre adiado, quero responder às mensagens pendentes, quero ver o filme que gravei há semanas, quero ler mais vinte, trinta páginas que ontem.
Às segundas quero mudar o mundo.
Depois passa.
Já é quase terça.
domingo, 28 de outubro de 2012
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
terça-feira, 23 de outubro de 2012
segunda-feira, 22 de outubro de 2012
Pecados capitais
Em apenas dois dias ouvi da boca de dois homens dois pecados
capitais, no meu manual de pecados.
Um, quando elogiava o cheiro do meu perfume assim que entrei
no carro, disse-me que nunca usa perfume. Fixei-o como se tivesse acabado de dizer um palavrão.
- “Nunca?! Mas nunca, como?!” – perguntei-lhe incrédula.
- “Simplesmente
nunca. Nem tenho um único frasco de perfume em casa”, respondeu-me com um
sorriso. “Acho que a última – se calhar a única – vez que usei perfume foi no
meu baptismo: a água de colónia que a minha mãe me pôs!”
Riu-se. Sozinho.
Silêncio.
Apeteceu-me sair do carro naquele instante.
Outro, quando falávamos de comida, de petiscos, de prazeres
à mesa, falei-lhe num bom vinho tinto para acompanhar, disse-me com a maior das
naturalidades que não gosta de vinho, não bebe vinho.
- “Mas não bebes vinho, como? No dia-a-dia? Durante o
trabalho?”
- “Não, não, nunca bebo vinho. Nem em ocasiões especiais nem
em festas.”
Silêncio.
- “Mas por princípio?!”
- “Não, não gosto nem do cheiro”.
Hesitei.
- “És muçulmano?”
- “Não, não” – ri-se. “Só não gosto mesmo de vinho.”
Riu-se. Sozinho.
Silêncio.
- “Mas podes beber tu.”
![]() |
| Pintura de Jack Vettriano |
terça-feira, 16 de outubro de 2012
Nos 90 de Agustina
Recebeu-me na sua casa do Porto, sentada na poltrona verde no canto da sala. O gato preto refastelado ocupava-lhe o colo farto. Entrei. Rasgou um sorriso.
"Gosta de gatos?"
Foi, afinal, ela a disparar a primeira pergunta.
"Adoro!"
"Gosta de gatos?"
Foi, afinal, ela a disparar a primeira pergunta.
"Adoro!"
"Então pode entrar e sentar-se. Vamos lá conversar!"
Foi uma das entrevistas que mais me marcou até hoje.
Parabéns Agustina!
Foi uma das entrevistas que mais me marcou até hoje.
Parabéns Agustina!

sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Bestas no altar
Não sou frequentadora de Igrejas mas fui a uma missa há uns
dias para assinalar uma data especialmente difícil para a minha família. Não
era uma Igreja qualquer, era a Sé de uma capital de distrito.
Dois ou três minutos depois da hora prevista lá veio o
Padre. Entrou sozinho, vestes brancas, verdes e douradas. Não olhou para quem
estava. Não viu se eram mulheres ou homens, não viu se havia crianças ou
velhos. Não viu se havia gente nova ou apenas os rostos habituais.
Não vou abordar aqui questões religiosas, de crença, devoção
ou dúvida. Vou debruçar-me apenas nas questões de cidadania, civismo, educação,
enfim, vida em comunidade. Respeito.
Não sei o nome dele, não sei se é Bispo ou se pode vir a ser
Papa. Sei que aquele Padre é um tipo arrogante, antipático, distante, convencido
e intolerante.
A Igreja estava quase vazia. Tirando as pessoas da minha família,
estariam na Igreja umas oito ou dez pessoas. E era a principal Missa do dia, às
6 da tarde.
Despejou o discurso, como quem lê uma receita em voz alta
para si mesmo. Mal se percebia o que dizia. A homilia não tinha nada a ver com
nada. Podia ter sido dita naquele dia ou num outro dia qualquer. Podia ter sido
dita para aquela “plateia” ou para outra qualquer.
O Padre não fala às pessoas. Não fala com as pessoas. Não
fala para as pessoas. O discurso do Padre (da Igreja, diria) não chega às
pessoas. Não fala de nada que interesse às pessoas.
Juro que fiz um esforço para tentar perceber o alcance das
passagens que leu, se haveria algum paralelismo com o momento angustiante que as
pessoas atravessam, as dificuldades, os sacrifícios. Mas não. Nada. As metáforas
ou excertos que leu não traduziam nada. É como abrir “ao calhas” a lista telefónica
e ler nomes e números telefónicos de rajada. Foi isso, aquela missa.
O nome da pessoa por quem se rezava naquela missa foi dito
como quem podia estar a dizer “adeus e até logo”. Nada. Leu o nome como quem lê
o nome de um comprimido numa caixa da farmácia.
Um nome lido em três segundos. Um nome na boca de um Padre embirrante
para confortar uma família. Um nome que, para ser lido, tem de incluir dinheiro
num envelopinho. E mais o cestinho das moedas que circula de banco de madeira em
banco de madeira, e que serve para extorquir os trocos das almas desencantadas ali
sentadas a ouvir o embirrantão.
Na hora de comungar, formou-se uma pequena fila de seis senhoras.
E um rapaz, o último da fila. Quando o Padre se preparava para virar costas,
vinha ainda uma senhora velhota na passadeira central da Igreja. Curvada, a
caminho, lentamente, bengalando.
Comungou. E não se livrou do raspanete:
“Para a próxima venha mais cedo. Escuso de estar eu aqui à
espera!” – disse o Padre.
A senhora não respondeu, claro. Voltou ao seu lugar, curvada,
com a hóstia na boca e a vergonha na cara, por ter sido repreendida
publicamente pelo “Senhor Padre”.
Para a próxima venha mais cedo?! Que besta! Se fosse eu
ter-lhe-ia dito: “para a próxima não venho.”
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Ainda Eva
Já tinha escrito sobre Eva aqui no Diário Metafísico. Por estes dias Eva foi à televisão. Pelos piores motivos. E, afinal, não tem 80 anos de rugas, como eu pensava que teria. Mas 99. Noventa e nove anos...
É impossível ficar indiferente. É impossível saber de Eva sem ficar com um nó na garganta.
Angústia. Indignação. Revolta.
Que país é este que mata nas ruas os seus velhos? Que país é este que lhes permite que andem de mão estendida sem que nada aconteça?
Vergonha. Tristeza.
Má sorte não ser mãe de Ministro.

É impossível ficar indiferente. É impossível saber de Eva sem ficar com um nó na garganta.
Angústia. Indignação. Revolta.
Que país é este que mata nas ruas os seus velhos? Que país é este que lhes permite que andem de mão estendida sem que nada aconteça?
Vergonha. Tristeza.
Má sorte não ser mãe de Ministro.

sábado, 6 de outubro de 2012
Cheiro, esse
Cheiro o vinho como se o bebesse
Cheiro a fruta como se a comesse
Cheiro o campo como se nele corresse
Cheiro o mar como se nele vivesse
Cheiro o livro como se nele escrevesse
Cheiro a chuva como se nela descesse
Cheiro a lenha como se me aquecesse
Cheiro memórias como se nelas envelhecesse
Cheiro-te roupa como se me envolvesse
Cheiro-te a pele como se a percorresse
Cheiro-te o corpo
[de olhos fechados]
como se me protegesse
Cheiro-te o peito como se nele ardesse
Cheiro-te os lábios como se os mordesse
Cheiro-te os dedos como se neles crescesse
Cheiro-te o cabelo como se nele mexesse
Cheiro-te o acordar como se nele me perdesse
[como se me humedecesses]
Cheiro a saudade como se nela me escondesse
Cheiro o presente como se nele rangesse
Cheiro o futuro como se nele tremesse
terça-feira, 2 de outubro de 2012
Adormecendo ao piano
E para terminar este Dia Internacional da Música, fica aqui uma das minhas músicas preferidas. Humility, Wim Mertens. Acompanha-me sempre. Para um anoitecer mais tranquilo.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Eva
Primeiro, ao longe, parecia uma criança de tão pequena. Estava
no meio da estrada com qualquer coisa nas mãos. Eram umas oito da noite e eu
seguia de carro. As luzes e as cores cintilantes dos painéis publicitários
tornavam aquela silhueta difusa, a uns metros de mim, à contraluz. O vulto
estava parado. Pequenino. Um vulto pequenino, como que escondido.
O sinal ficou vermelho. Parei. Deu dois, três passos. Dois,
três passinhos que nem de gente eram. Devagarinho. Devagarinho. Devagarinho. Aproximou-se
da janela.
- “Menina…”, quase gemeu.
Olhou para baixo para o alcatrão. Engoli em seco. Fixei-a. Trazia
na mão direita um chapéu virado ao contrário. Um chapéu de homem, de flanela, aos
quadrados castanhos. Agarrava com uma mão na pala e a outra por baixo, no
fundo.
Olhou para mim, quase a medo. Olhos pequeninos, tão
pequeninos, assustados, que se escondiam na vergonha das mãos estendidas.
Rugas. Oitenta anos de rugas.
Baixinha, um metro e pouco. Curvada. Ela de pé, à altura do
meu rosto, sentada. Frágil. Cheia de dores. E frio.
No fundo do chapéu que trazia na mão, em vez do forro, duas
fotografias a cores de 15 por 20. Um menino. Uma menina. Sorridentes. Morenos.
Ela com um ganchinho. Ele desdentado. “Os meus netinhos”, apontou com o
indicador esquerdo, deformado pelas artroses. Teriam uns seis, dez anos. E
reparei, então, que havia uma terceira fotografia. Tipo passe. Uma senhora dos
seus trinta e poucos. Roupa escura. Óculos. Cabelo curtinho, encaracolado, pelo
pescoço. “A minha filha, que Deus já a levou por ser tão boa”.

Tinha um xaile escuro – roxo, cinzento, não sei bem, cheio
de borbotos – que lhe cobria a cabeça e protegia os ombros. Casaco de malha em
cima da blusa de lã. E mais um lenço, pareceu-me ver. Uma saia comprida. O
queixo, de onde sobressaíam uns desmaiados pêlos brancos, tremia-lhe. Fixou-me
nos olhos.
“Oh, menina…” – repetia.
“É para os meus netinhos”, espere, mas tem fome?, “É para os
ajudar”, a senhora tem mais filhos?, “A minha filha, que Deus Nosso Senhor a
guarde…”, tem casa? onde vive?, “na João Crisóstomo”, quer que a leve a casa?,
“sozinha”, mas quer que a leve? “os meninos, coitadinhos”, já jantou?, “aquela
senhora disse que me trazia jantar”, .
Fiquei sem saber o que fazer. E agora? O que faço? Agarro
nela, levo-a? Trago-a? Deixo-a? O que faço? Ligo à Segurança Social? À Santa
Casa? Ao Ministro? O que faço?
- Como se chama?
- Eva.
- Que nome tão bonito…
Olhou para mim, como se não soubesse o que era um elogio, um
mimo.
A fila de carros atrás de mim estava parada. O sinal estava
verde. Ninguém buzinou.
- Vá para casa, querida…
- Tenho que ficar até às dez.
- Porquê?
- Pode a senhora vir com o jantar, coitada.
Toquei-lhe as mãos. Apertei-as. Estavam geladas.
[Também eu]
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Retrato
"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
Cecília Meireles
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Hoje fala-se de Rádio
Já houve quem lhe ditasse a morte. Há, aliás, quem a cada
ano, moda, época, era, dia, sei lá, lhe dite a morte. Há quem franza o nariz
quando, à pergunta “é jornalista onde”?, lhes respondo na Rádio. Na Rádio com
letra maiúscula.
A Rádio é um mundo de emoções.
A Rádio é plena. A Rádio é
companhia, é informação, é formação, é aprendizagem, é crescimento, é memória, é história, é estória, é rua, é mundo, é presença, é rapidez, é intensidade, é palavra, é som, é
sentimento, é voz, é silêncio, é permanente, é animação, é festa, é
entretenimento, é vida, é verdade, é amiga, é agora, é aqui, é já, é sempre.
Hoje, quarta-feira, decorre a Rádio em Congresso. Um dia inteiro com um programa repleto de maluquinhos da e pela Rádio que se juntam para falar da menina dos seus olhos.
A minha menina.
A Rádio é sorriso. É paixão. É bichinho. É vibrante. É contagiosa. É pele. É nossa. É minha.
Silêncio. Porque vai falar-se de Rádio.
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