segunda-feira, 1 de abril de 2013

Peixinhos da horta em Hiroshima

Há um silêncio estranho na cidade. Aqui ouvem-se mais os corvos.
Também vi muitos corvos, enormes, em Kyoto. Mas aqui, lá de cima, gritam mais alto. Ou o silêncio aqui em baixo é mais forte.
Escrevo numa esplanada junto ao Rio Motoyasu-gawa e sinto que tudo nesta zona tem uma carga dramática. Estou no Parque da Paz, em Hiroshima, junto ao Memorial da Bomba Atómica. 

As pessoas agem com respeito. Como se não quisessem interromper uma oração, uma reflexão. As pessoas em Hiroshima cumprimentam-se. Sorriem. Em silêncio.
Por que gritam os corvos? Shiuh!
Na esplanada os empregados correm para servir os clientes. Correm literalmente, para não fazerem ninguém esperar. E pedem desculpa por tudo e por nada.
Hiroshima é uma cidade estranha. Incomoda-me a memória. Aviva-me a história que ditou milhares de mortos e milhares de vivos estropiados. E por isso vêem aqui milhões de turistas, como eu. Hiroshima teve a minha visita pelas piores razões. Vem no mapa não por ser quem é, mas por ter sido tratada como foi. 

Mais um sorriso dócil que passa e me cumprimenta. São amáveis, os de Hiroshima.
Ouço, com cadência certa, sinos. Tocam ao longe, no parque, assinalando a memória.
A cidade tenta combater a memória de cinzas de todas as maneiras. É colorida, as fachadas dos prédios são amarelas, laranja, vermelhas. Por todo o lado há placas e cartazes coloridos com os lema da cidade, repetindo para que se torne verdade que Hiroshima vale a pena, que aqui há sentimento, alegria, que há cor e vida, não apenas memória de cinzas de uma destruição em massa. "Love the city", "Color your life in Hiroshima", "Be happy", "Make love not war in Hiroshima!", vou lendo aqui e ali. 

Interrompem-me a escrita.
- "Can I take a photo?"
- "What?"
- "Photo. You. Ye, ye, ye, ye..."
Ri-se. E baixa a cabeça. Quase pede desculpa.
- "Sorry. Ok?"
E curva-se à minha frente com uma máquina fotográfica na mão.
- "Sure!"
(Avisaram-me que isto podia acontecer fora das grandes cidades. Tiram fotografias aos turistas e pedem para ser fotografados ao lado deles.)
Sorrio para a foto na esplanada. Está sol. O meu cabelo brilha. Os meus olhos também.
Clic.
- "Another, please?"
Agora com o telemóvel.
- "Yes, sure!"
Sorrio. Um vento sereno no meu cabelo.
Clic.
- "Thank you, thank you! Beautiful, beautiful!"
Sorrio. O empregado de mesa aproxima-se. 
O rapaz percebeu. Não quer incomodar.
- "Sorry. Sorry. Sorry..."
Três vezes.
Sorrio mais ainda.
- "It's ok!"

Gosto dos de Hiroshima.
Sol na esplanada. O Rio Motoyasu-gawa sereno. As cerejeiras em flor ao longo de todo o Rio. 
Cheira bem, o prato. Chegaram os meus peixinhos da horta de Hiroshima. 
"Tempura", expliquei-lhe, "é uma palavra portuguesa". 
- "What? I don't understand."
- "Tempura", insisti apontando para o prato.
Não percebeu que estava a tentar explicar-lhe que tempura tem origem no português "tempero".  
E repetia, sorrindo e apontando para o prato já à minha frente: "Yes, tempura. Good, good". 
- "Never mind. This tempura is delicious!".
Que maravilhosos peixinhos da horta!




domingo, 24 de março de 2013

Quase como na primeira vez

Estou a poucas horas de cumprir um grande sonho. Há muito, muito tempo que sonho com esta viagem. Sinto-me como se fosse viajar pela primeira vez. Nervosa, ansiosa, só sorrisos.

A minha primeira viagem de avião foi a Cuba. Ainda era tudo Fidel, só Fidel. Viajei na companhia Air Cubana que, à data, era a mais barata. Uma alegria. Cantar, rir, falar, medo, nervos, sono, magia, ar, céu, amigos, altura, sem rede.

Ninguém dormiu. Estava uma animação naquele avião que não podia imaginar. Ainda foi no tempo em que se fumava no avião e, como boa companhia de bandeira, as simpáticas hospedeiras cubanas ofereciam charutos a quem quisesse. Não pedi, nem fumei. Mas parece que ainda hoje sinto a nuvem de fumaça dos cubanos entrenhada em mim. Não me incomoda, não protestei e até achei piada.

Além de charutos as hospedeiras vestidas de azul, branco e vermelho também ofereciam rum. Um rum "da casa", muito manhoso, em copos de plástico. Esse, não rejeitei.

A ferrugem que se via junto às janelas serviu para os meus amigos me atormentarem toda a viagem. E gritavam "vamos cair, vamos cair!" de cada vez que uma turbulência interrompia as nossas gargalhadas. Eu olhava pela janela e só me fixava na ferrugem junto ao vidro. "E se há ferrugem também no motor!", perguntava-me querendo manter o sorriso exterior.


"Un Ron más?"
"Si, gracias. Como no?"

(O Rum era horrível, amarelo, quase detergente. Também acho que foi a primeira vez que bebi Rum. Pelo menos amarelo com sabor a Super Pop Limão.)

Foi uma viagem inesquecível a todos os níveis, a bordo da mítica Air Cubana. Habana abraçou-me com todo o calor e alegria e ainda hoje guardo Cuba no coração.

Lembro-me que a ansiedade que tinha na véspera de embarcar para Cuba é muito semelhante à que sinto hoje. Não tem a ver com o receio de andar pela primeira vez de avião, que à data. Tem a ver com a alegria da partida, com a aventura, com o fazer as malas eufórica, com o desconhecido, com o improviso, com o enriquecimento pessoal, com o crescer, com o sentir a vida.

Sinto, por estas horas, a mesma euforia. Tão feliz...

A tentação do Oriente acompanha-me há demasiado tempo para tê-la subestimado sucessivamente. Estou ansiosa por aterrar na terra do Sol Nascente.


quarta-feira, 20 de março de 2013

Hanami Matsuri

Hanami Matsuri – o festival das flores de cerejeira

O Hanami Festival significa “contemplar ou apreciar” as flores de cerejeira, ou Sakura como é chamado no Japão. Nesta época, entre fim de Março e meados de Abril ou Maio, dependendo da região, várias espécies de cerejeiras florescem por todo Japão, geralmente em Parques, Templos e outras áreas de lazer. Aqui agrupam-se milhares de pessoas para apreciar esse espectáculo, não só dos japoneses, mas milhares de turistas estrangeiros que visitam o arquipélago nesta época do ano.

Neste Festival, o foco principal é o Sakura, símbolo da Primavera no Japão e realizam-se inúmeras atividades, envolvendo esse tema. A principal atividade é com certeza, o tradicional piquenique sob as árvores repletas de flores da cerejeira. Essa tradição já existe há séculos e é praticada pela maioria das famílias japonesas durante e Equinócio da Primavera no Japão (Shunbun no Hi). 

Hanami no Parque Gyouen, em Shinjuku


É, por isso, comum haver uma sobrelotação dos espaços verdes e muita dificuldade para encontrar bons lugares para se fazer um piquenique. Tanto, que alguns parques até aceitam reservas das famílias, que muitas vezes o fazem com bastante antecedência. Outras famílias chegam a madrugar para chegar cedo aos parques e assim garantir um lugar agradável para reunir a família.

O momento em que as flores de cerejeira florescem é muito especial para o povo do Japão, pois duram apenas de uma semana a 10 dias. Por isso, durante o Hanami, os japoneses chegam de manhã e costumam ficar até escurecer, para aproveitar ao máximo a beleza das flores. São apenas dez dias, pois ao fim desse tempo elas cairão das árvores e as pétalas hão-de espalhar-se pelo chão, formando um imenso tapete rosa ou branco.

Cerejeiras no Japão

Existem mais de cem espécies de Sakurá no Japão, que variam de acordo com a cor das flores, folhas, tempo de floração e formação da árvore. E tal como existem cerejeiras de várias espécies, também o real significado do Hanami varia de pessoa para pessoa e de família para família. O mais poético é o simbolismo da flor com a brevidade da vida, devido à sua efemeridade.

Os amigos e as famílias reúnem-se para contemplar as flores e também para falarem sobre a vida. Tiram o dia para relaxar e saborear comidas típicas japonesas como oniguiri, sushi entre outros, levados de casa, além de bebidas que vão desde chás à bebidas alcoólicas como cerveja e e saquê. 

Festival Hanami


História do Hanami

Segundo a lenda, a tradição do Hanami já existe há milénios. Começou durante o Período Nara, quando a dinastia Tang da China influenciava o Japão em muitos aspectos. Um deles seria o costume de apreciar as flores. No período Heian (794-1191), além do Sakura, outra floração também muito apreciada eram as flores da árvore de Ume.

A contemplação das flores de Sakura também tinham um simbolismo religioso. As pessoas acreditavam na existência de deuses dentro das árvores e faziam oferendas às raízes das árvores de Sakura para pedir sorte e boas colheitas.

O Sakura também foi considerado o símbolo do amor antigamente, onde as mulheres enfeitavam os cabelos com um galho de Sakura ou decoravam o quintal das suas casas com as flores para mostrar que estavam em busca de um amor.


Sakura


Se, originalmente, a contemplação das flores se destinava à elite da corte imperial, com o passar dos anos, essa prática estendeu-se a artistas, poetas e músicos que contemplavam a maravilhosa floração de Sakura em busca de inspiração para suas artes. Com isso, a Sakura também ganhou um significado poético e filosofal devido à sua breve floração que dura cerca de apenas dez dias.

Há inúmeros poemas escritos sob as cerejeiras. Elogiam as flores delicadas e estabelecem metáforas e comparações com a própria vida humana: luminosa e bela, embora efêmera e transitória. A flor é comparada à brevidade da nossa própria existência.


Texto sem autor identificado. Texto e fotos retirados do site Japão em Foco.
20 Março 2013.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sacana implacável


Ir velar um corpo é sempre uma missão estranha. Velar um corpo. A expressão é antiga, quase popular, mas comporta em si mesma uma enorme carga dramática. Velar, de velório. Velar, de vela acesa ao lado de um corpo.

Velar até podia ser bonito: velar, de vela, de barco à vela, de mar, de como quem ganha vento e invade o mar, soltando amarras da terra. Velar. Volar. Voar. Em paz.

Mas não. Os velórios que frequento não são leves. E são cada vez mais frequentes.

A idade é proporcional ao número de pessoas que velamos. Cada vez vou a mais funerais. Não que morra mais gente, mas que a minha gente tem mais idade, e eu tenho mais idade, e as pessoas com mais idade morrem mais.

Lá fui velar o corpo de uma pessoa que nunca tinha visto. Ir velar um corpo que a mim não me diz nada, mas que diz muito a uma pessoa que a mim me diz muito.

A morte é sempre uma sacana implacável que ataca quem lhe apetece. Lá se saciou mais uma vez, luxuriante.

A família entre o aperto da perda e o conforto da presença dos outros. A pessoa que me diz muito [abraço-te] que perdeu a pessoa que eu não conhecia [abraço-te muito] agradecia incomodado, tímido, entre o aperto da perda e o conforto da presença dos outros. Que não devíamos ter ido, que andamos a apanhar chuva, que são tantos quilómetros, que somos malucos, que não fazia falta, que se fazia tarde, que era melhor irmos andado, que – por favor – regressássemos devagar.

Não me aproximei do morto, apenas da pessoa para quem o morto era importante. Nem sequer lhe vi o rosto, a não ser na fotografia à entrada da igreja. Não quero conhecer já morta uma pessoa que não conheci viva. Não vou poder cumprimentá-la nem procurar-lhe o olhar, ver-lhe os dentes no sorriso.

Não avancei para além da penúltima fila de bancos da igreja. Só vi o corpo ao longe. Mas consegui ver-lhe a calvície. O alto da cabeça de um morto. Uma cabeça morta. Sem um único cabelo morto. Um senhor calvo. A morte não poupa sequer os calvos.

Dei por mim a imaginar-lhe a vida e a construir histórias. Quem seria, como seria, quem deixaria, que me contaria, que lhe perguntaria, como seria a sua gargalhada, o seu tom de voz.

O melhor do mundo é conhecer as pessoas e as suas histórias. Vivas. Neste caso, cheguei tarde de mais. Ouvi falar muito de si. Gostava de o ter conhecido antes.





sexta-feira, 8 de março de 2013

Um dia não são dias

Amanhã também podem oferecer-me flores. Depois de amanhã também podem oferecer-me poemas, homenagens e chocolates. E também podem continuar a falar de igualdade. É que logo à meia-noite nada muda. Hoje, amanhã e depois (e depois, e depois) continuo a ser Mulher.

Fotografia de Chelak Maxim

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

[In] Fusão

É a tua ou a minha pele que se levanta?
Tens o sangue em erupção.
O meu? Ou o teu?
Beija-me.
Esses lábios são os meus.
Dá-me a mão.
Aperta-me os poros.
Sinto o teu coração a bater aqui dentro.
É o teu.
Baralhas-me.
Sente-me agora os mamilos.
Essa tua língua...
Essa é a tua.
Agarra-me, não me saias de dentro.
Tens o pé a escaldar.
É a mão.
Estás tão quente.
És tu.
Falta-me o ar.
E a mim.
Não me dês espaço. Nem ar.
Escorregamos.
Cheiro a tua pele suada.
É saliva.
Beija-me, amor.
Que calor.
Morde-me o lábio devagar.
Divagar.
É teu, este queixo ou meu?
Não sei.
Sussurra-me.
Namoro-te a orelha.
Ouves-me?
Não sei. Sinto-te.
O meu pescoço vermelho.
Estou tonta.
Não me caias.
As tuas coxas respiram.
Ofegantes.
Estremeço.
Tu também?
Estremeço.
Sentes-me a cintura.
Sinto-te.
Por dentro.
Estremeço.
Deslizo-me.
Por dentro, meu amor.
És tu?
Acho que sou eu.
Beija-me.
Com todos os teus lábios.
E os meus.
Onde estás?
Em ti.
Em mim.
Beija-nos, então.
Por dentro.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Todo Cambia



A argentiníssima, "La Negra", Mercedes Sosa.
Todo cambia.
Tudo muda…
Porque a vida é feita de mudança.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Não me ouças apenas

Olha para cima. O que vês?
Tens que abrir os olhos, ou não vais conseguir ver.
Abre-os, vá. Devagar.
Não tenhas medo. Estou aqui. Ouves a minha voz? Sou eu.
Vou aproximar-me do teu ouvido.
Olá.
Sou eu.
Hoje saiu o sol.
Há uns dias seguidos amanhecia o nevoeiro em vez do sol. Mas hoje o nevoeiro ficou na cama, preguiçoso de domingos. O sol aqueceu o rio, que estava mais azul que ontem.
Sentes a brisa? Este ar fresco de limão.
Abre os olhos, vá.
Não te assustes, vou tocar-te na mão.
Sentes a minha mão? Nem sorris?
Sinto-te a pele.
Já estamos de mãos dadas.
Dedos. Pele. Carne e osso.
Anda, abre os olhos para mim. Se não para mim, para o céu. Ou para o sol, que hoje não há nevoeiro.
Quero olhar-te por dentro. As pálpebras são como as capas dos livros, para serem abertas. Anda.
Deixa-te disso, dos olhos fechados.
Respira.
Olha para mim. 
Não me ouças apenas.



segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Retratos de mim

Excertos do Prefácio que escrevi para o Catálogo da Exposição de Fotografia "Metáforas do Eu", de Francisco Mendes*.



«A Lua rodeada de carrinhos de brincar e uma pista de comboios. A Lua de fato e gravata a ensinar idioma cósmico às baleias. A Lua a correr na areia da praia com as estrelas-do-mar. A Lua com as crateras sujas de terra preta a lavrar alfaces e a regar couves. A Lua, de bengala e cartola, a fazer truques de magia à porta do jardim-de-infância.

Ele quis fotografar a Lua, o Eu da Lua.

E falou-lhe dessa hipótese numa noite em que ela estava cheia. A Lua escutou-o em silêncio. Ele, alto e esguio, ainda assim teve de esticar o pescoço para poder vê-la mais de perto. As estrelas ali ao lado cintilavam de curiosidade. E ele explicava à Lua cheia o que queria fotografar nela.

- “Primeiro quero fotografar o teu interior, o que tu és ou o que tu achas que és. A fotografia do ser. (Ele tratava a Lua por tu.) Em segundo lugar quero captar o que revelas aos outros ou o que demonstras para o exterior. No fundo, o que tu achas que os outros pensam que tu és, o que eles vêem em ti. É a fotografia do ver. (E ela, atenta, escutava-o em silêncio. Cheia, brilhante. As estrelas cada vez mais curiosas.) E, finalmente, quero fotografar a tua aspiração, aquilo que tu verdadeiramente queres ser, o que sonhas ser. A fotografia do querer”.

A Lua respirou fundo. 

Enquanto ele falava ela já se imaginava de todas as maneiras. A Lua amarrada com cordas grossas, tapada pelo brilho do Sol luminoso. A Lua vestida de prata a entrar na Igreja para casar com Saturno, de fraque escuro. A Lua, de cabelos soltos ao vento, a lançar papagaios de papel. A Lua a representar um papel principal numa peça de teatro.

            Ele aguardou pela resposta da Lua. Perdeu noites de sono. E esperou…

Naquela noite a Lua bateu-lhe à janela. Ele estava ansioso e deixou-a entrar com um sorriso. Mas a Lua estava minguante. Ele percebeu a resposta. Não. Justificou que não faria sentido, que ninguém entenderia aquele protagonismo de um mero satélite da Terra. Ele rebateu, tentou demovê-la, persuadi-la do contrário. Até que a Lua lhe apresentou o argumento decisivo. “Tu queres três retratos”. (A Lua também o tratava por tu.) “Mas lembra-te que eu tenho quatro faces".

            Ele compreendeu. Fechou a janela. Voltou para a cama. E decidiu fotografar pessoas.»


Francisco Mendes, Metáforas do Eu



(...) 
«Ele não ia fotografar apenas pessoas. Ele ia fotografar as nossas águas furtadas. Nossas. Minhas. Tuas. Tu. Eu. A três dimensões, isto é, em dimensão verdadeira, sem rede, sem subterfúgios, só ele e nós. Eu. Identidade.

            Habituados a uma sociedade de modelos mais simples e maniqueístas, na permanente dialéctica entre o bom e o mau, entre o justo e o não justo, entre a virtude e a falência dela, entre o Sol e a Lua, entre a luz e as trevas, vemo-nos confrontados aqui com uma terceira dimensão que torna tudo mais complexo. E completo.

Na Antiguidade Clássica, na Grécia antiga, enquanto as sereias libertavam sons e notas musicais, numa harmonia infinita, também as figuras femininas que iluminavam a esfera da viagem dos sábios pelo conhecimento cantavam continuamente um tríptico: o passado, o presente e o futuro. Láquesis, Cloto e Átropos, respectivamente. Sem quaisquer cortes, sem que se distinguisse qual a voz do passado, a do presente ou a do futuro. Três vozes como se fosse uma só, porque somos sempre passado, presente e futuro.»


Francisco Mendes, Metáforas do Eu


(...)
«Essa pergunta, no fundo, fazemo-la todos os dias. Fá-la-emos até ao fim. Quando estivermos à porta do céu ou do inferno para o julgamento das almas, alguém há-de perguntar-nos: “E tu, quem és?”
“Quem sou?!”
Ouviremos um silêncio branco. Nada.
“Quem sou…”
E aquele buraco negro de som.

[silêncio. pausa. branco. susto. silêncio. eu.]

“Quem sou eu”, repetiremos para dentro sussurrando.
E ninguém para nos ajudar. E ninguém para responder por nós. Apenas nós e o nosso silêncio. Que responderemos? Na nossa mais profunda solidão, na nossa mais genuína sinceridade, na nossa mais crua e visceral nudez de mundo, o que responderemos? O que sou, o que vejo, ou o que quero…»



Ana Catarina Santos




* Fotografias de Francisco Mendes
Exposição "Metáforas do Eu" - Projecto Zoom ID (responsabilidade social)
Em exibição no Espaço Cultural das Mercês, Príncipe Real



quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Próxima paragem

Entrei num autocarro sem destino. Ou antes, tinha destino, eu é que não reparei qual era. Nunca o tinha feito. Aliás, há bastante tempo que não andava de autocarro.

Naquela tarde sentei-me no banco de uma paragem para ajeitar a bota e acabei por ficar ali, abrigada, à espera que a chuva parasse. Estava frio, além da chuva. Mais ninguém na paragem. Acabei de ajeitar a bota e assim que levanto o corpo e a cabeça, estava uma porta de um autocarro aberta à minha frente. E um sorriso do condutor da porta aberta e do cabelo encaracolado e do bluetooth no ouvido e do pullover azul. "Entre, entre que ainda se constipa", disse o sorriso. É claro que entrei. Sorriso com sorriso se paga. Às tantas ainda me constipava mesmo.

Paguei o bilhete com umas moedas. O sorriso agradeceu. A máquina arrancou sem pressas. Dei uns passos, escolhi vagamente o meu lugar, passei os olhos por quem me fixava e sentei-me. Estava quentinho lá dentro. Soube-me bem aquele atrevimento. Ir sem destino. Ir. E depois logo se vê. "Vou até à última paragem e se ficar demasiado longe, regresso na mesma volta". Nada que me preocupasse. Tinha tempo e tinha a percepção da finitude da jornada.

Abstraí-me.

O bom de não sermos nós a conduzir. Fixar as pessoas que entram e saem, atarefadas. A mulher com os sacos de plástico na mão e o guarda-chuva a pingar. Os dois rapazes de olhos presos aos telemóveis. A janela embaciada, os caracóis negros da rapariga colados ao vidro. E aquele prédio que não parecia tão amarelo mostarda, aquelas águas furtadas, os telhados, as varandinhas, aquela floreira, o Rio visto daqui.
Passei por zonas da cidade que não conhecia. O destino desconhecido.
Os que saem, os que entram, os que descem com passo firme, os que sabem para onde vão, os que mandam parar (stop - campainha - luz vermelha intermitente - próxima paragem - stop - parar - intermitente), os que seguem, os que esperam de pé.

É admirável.

As pessoas escolhem a paragem do seu destino. Saem nesta e não na outra porque sabem que a seguinte não lhes presta. Não hesitam entre uma saída e outra. Conhecem as consequências da saída que há-de vir. Mas só é assim nos transportes públicos. Nos outros comboios da vida nunca conhecemos a paragem seguinte.

"Ficamos por aqui? Mudamos? Saio nesta? Espero a próxima? E se a próxima ficar demasiado longe? E se esta for a última? Dá para voltar para trás? Qual é a próxima saída? Como escolher a certa? Quanto tempo até à próxima paragem? Há tempo para tomar a decisão? Esta ou a próxima que não sei quando é ou sequer se é?"

E de repente, um sorriso: "E a menina afinal para onde vai?"
Autocarro vazio. Só um sorriso. Dois, agora.

E, afinal, não me constipei.



sábado, 12 de janeiro de 2013

Nus na noite

O pescoço adormecido na almofada treme ligeiramente à passagem da saliva. Os poros dilatados, deleitados, ajeitam-se para me deixar entrar. Percorre para lá e para cá, nas veias, um sangue selvagem. Respiração funda. Tronco firme, ligeiramente suado. A pele brilhante das pálpebras fechadas. Abertas. Pestanas. Uma mistura de cheiros. A alfazema da cama lavada. A pele, o suor, a saliva, o calor. O beijo, o aperto, o ar húmido, o incerto. O lençol a mais, a cama curta, as mãos inteiras, os lábios todos. Os lábios. A boca. Suave, suave. E os poros que dilatam. O sangue como um vinho aveludado vermelho rubi. Intenso, pleno, maduro, rubi. A chuva, ou o som dela. Um pingo. Outro. Outro. A respiração. A pele, os poros, a alma, os poros da alma. As formas que se pegam, as curvas que se cruzam, as pernas que se entalam. O mundo inteiro aqui. Os poros do mundo nus na noite de veludo. Eu e tu, nós, nus nos poros do mundo.

"Naked man and woman", Picasso (1967)


sábado, 5 de janeiro de 2013

República


Nomes que pululam na minha cabeça

Górgias, Ménon, Fedro.
Fédon, Equécrates, Cármides, Lísis.
Teeteto, Polemarco, Trasímaco de Calcedónia.
Adimanto, irmão de Platão.
Sócrates, Nicérato, filho de Nicías
Lisías e Eutidemo, Céfalo.
Demóstenes, Eratóstenes,
Glaucón, irmão de Platão.
Carmantidas e Clitofonte
Sócrates.
Péricleas, Polidamas, Isménias de Tebas.
Pireu, Téages, Dionísio de Siracusa.
Batalha de Mégara, Mês de Thargelion (Junho).
Potone, irmã de Platão.
Timeu de Locros, Hermócrates e Crítias.
Lacques, Eutifron,
Philosophos, amigo do saber.
Philodoxos, amigo da opinião.
Contos de Alcínoo, Alquimos,
Er, Arménio, Panfília, Crátilo.
Antifonte, meio-irmão de Platão.
Orfeu, Ájax, Agamémnom, Ulisses.
Láquesis, Cloto, Átropos.
Letes, Ameles, Ananke.
Dikaios, virtude.
Dikaiosyne, totalidade das virtudes.
Megas agon, grande combate.

Sim. Estou a reler a República, de Platão.


quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Primários

Vivemos rodeados de símbolos e simbolismos. Não estou a falar de regras ou imposições nem sequer de religião. Estou a falar de símbolos que não estão escritos em lado nenhum, ninguém sabe muito bem a sua origem, de onde nasceram ou porquê. Alguém diz que é suposto agirmos de determinada maneira e tudo continua assim, sem mudança ou contestação.
Entre os símbolos e as regras há ainda os rituais que aparentemente trazem sorte. Condutas ou convenções sociais, comunitárias, familiares que, tal como os símbolos, não estão escritos em lado nenhum e também ninguém sabe muito bem justificá-los.

Na passagem de ano, com a entrada do ano novo, esse nosso lado mais primário assalta-nos de forma violenta. Toda a gente vai a correr comprar cuecas azuis. Cuecas azuis?! Sim, cuecas azuis. É suposto brindarmos o início do ano com cuecas azuis. Isso faz algum sentido?! Até dizem que devemos deitar fora as cuecas velhas. Mesmo para o lixo. Primários!

Toda a gente toma doze passas à meia-noite. Doze passas. Porquê, passas? Bom, passas. Adiante.

Toda a gente se cumprimenta e abraça quem está ao seu lado. Há quem suba a cadeiras ou bancos, há quem salte ao pé-coxinho com o pé direito no chão, há quem salte com os pés juntos. Primários. Todos.

Eu também.

Lá celebrei o novo ano com as belas das cuecas azuis (oferecidas, porque dizem que compradas não têm tanto efeito - primária!). Lá comi as doze passas e pedi os doze desejos - primária! Lá abracei e beijei quem estava ao meu lado, com um sorriso como se o mundo fosse acabar.

Chuviscava, alguém ao meu lado disse: "viva a chuva! A chuva veio para abençoar o ano novo!" Sorri.

Tomei champanhe à meia-noite. Mais um ritual. Não me apetecia champanhe, ali, à chuva, mas tive de beber como quem bebe a última água no deserto. E bebi com satisfação. Primária!

E mais. Passei a meia-noite debaixo de uma laranjeira. Como digo, chuviscava. Havia laranjeiras naquela Praça onde ecoariam as badaladas. Muitas laranjeiras aparadas com cuidado, quase esculpidas, carregadinhas de laranjas. Laranjeiras com enfeites de Natal. Lindas! As laranjas misturavam-se com o branco cintilante das luzinhas de Natal, que as cobriam como fios de prata.

As belas laranjeiras na Praça central da cidade cheia de gente e sorrisos e reboliço serviam de bom abrigo quando a chuva aumentava de intensidade. "A flor de laranjeira abençoa os casamentos, há-de abençoar o novo ano", alguém disse entre a chuva. Sorri.

Queremos mesmo acreditar que algo mais faça por nós mais do que nós próprios conseguimos fazer. Primários. Tão primários... Mas, pelo sim pelo não, venha de lá a flor de laranjeira.

Fotografia Ana Catarina Santos, Sevilha, 2013


quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Parvo


Do amor. Da tempestade que abana todos os poros, dos sonhos invadidos, da pele molhada, da impaciência, da agitação, da falta de senso, do sono esquisito, da fome de agarrar, dos nervos, do esperar, do sorrir sem porquê, do acordar aquecido, do crepitar dentro, do olhar baralhado, da mão suada, do nariz detective, dos lábios mordidos. Do amor. Parvo.

Eros and Psyche - statue Antonio Canova

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Abriguei-me

Abriguei-me junto ao mar, mar salgado, meu amigo de sempre, que me ouve sem me interromper, que me atenta sem me repreender, que me abraça sem cobranças, que me acalma sem me aconselhar, que me faz sorrir sem que me aperceba. Meu amigo salgado, abrigo doce.







sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Cemitério de Guarda-Chuvas


Uma vareta para um lado, outra para outro, e outra ainda cravada no intervalo das pedras da calçada. A chuva de prata confunde-se com o metal. Um bocado de pano escuro, talvez castanho, encharcado. Vvvvvvvvvvvvvvvvv… Vvvvvvvvv... Abana, abana ao vento, suspenso entre as varetas. 
Chove tanto… A rua é um rio. A passadeira mal se vê na tarde escura. 
Mais um chapéu pelos ares. Parece um balão sem fio preso na mão do menino. Os limpa pára-brisas para lá, para cá, para lá, para cá. Tchuc-tchuc-tchuc-tchuc…

Os vidros embaciados deixam ver os faróis vermelhos, reluzentes, no carro da frente. A cortina de água bate nos vidros. Olha ali outro! Outro chapéu-de-chuva abandonado! Os braços de prata inertes no chão, cada um para seu lado. Está meio aberto e o pano rasgado é azul-turquesa [deve ser de senhora]. O cabo de madeira é em tons de mel e tem algo dourado [é de senhora, com toda a certeza]. Ali jaz, ao frio, à chuva, ao vento. Sozinho, abandonado, molhado, perdido, esquecido para sempre. Morto e não enterrado. Devia haver lápides: “aqui jaz o guarda-chuva que chegou a ser feliz em muitas mãos. Eterna saudade.”

A rua é um cemitério de guarda-chuvas. Chove. Pedaços de guarda-chuvas sem dono espalhados pelas pedras da calçada. Chove. Chove mesmo muito. O prateado, o cinzento, o azul-turquesa, os faróis vermelhos sumidos. Tchuc-tchuc-tchuc-tchuc… Os carros em fila passam por eles, indiferentes. Poças de água no cemitério dos guarda-chuvas.

Por que abandonam as pessoas os seus chapéus de chuva outrora queridos? Eles, que sempre protegeram as pessoas da chuva. Eles, que nunca lhes falharam. E à primeira que lhes falham, as pessoas largam-nos na rua. Largam-nos da mão. Literalmente. Desumanos!

“Aqui jaz o teu guarda-chuva triste e abandonado”
[espera, não chores, ele já vem, já sei que queres ir para casa, tens saudades daquelas mãos, mas tens que ter calma, não posso parar o carro assim sem mais nem menos, compreendes?, sei que esta não é a tua rua, nunca te vi por aqui, não chores por favor, queres que te faça um chá?]

Um cemitério de guarda-chuvas sem flores nem jeito nenhum.

As pessoas deviam levar os seus guarda-chuvas doentes para casa. Deviam tratar deles com carinho. Uma compressa humedecida em água morna, mercurocromo nas feridas, uma gaze na pega de madeira, ligaduras nas varetas contorcidas e pensos ou adesivos no tecido rasgado. Deviam levar-lhes flores com cartõezinhos. “Boas melhoras!” E não pára de chover. 
[chá de quê?]

Fotografia: Ana Catarina Santos

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Comprei um carrossel

E dá voltas e voltas. E sobe. E a música embala. Giro. Girando. Ondulando. E desce. E curva. Gira. E as crianças riem. E o chocolate quente. O gorro de lã. A neve. E o frio. E a música de corda. E as vozes nas ruas. E ele sobe. E gira. E dá mais uma volta. Cheira a chocolate. E as luvas. E o nariz vermelho mordido pelo frio. E as gargalhadas. E as luzes nas montras. E mais uma volta. A caixa de música que se cala. O vendedor de caixas aproxima-se do balcão. As crianças calam-se. O vendedor, de avental verde. Sorri. Levanta a caixa com a mão esquerda. Gira o pulso. Firme, firme. Dá à roda mais uma vez. Mão direita firme. E mais outra e outra ainda. A caixa de música volta a tocar. Música mais rápida. As luzes mudam de cor. O avental verde afasta-se. As crianças riem. O chão gelado. E a tenda a vender crêpes. E a outra dos queijos. E o casal de pé a comer "escargots". Falam francês. Neve. Vidros salpicados. O carrossel parou. A música de corda também. O avental verde. Roda. Roda. Roda. Roda. Música. Cachecol. Nariz frio. Frio. Cheira a chocolate. Un chocolat chaud, s'il vous plaît! Não sinto as moedas. Dedos rijos. O vapor da minha respiração. Neve. Merci. Música. Comprei um carrossel.




sexta-feira, 30 de novembro de 2012

À espera

Passo os dias à espera. À espera que algo aconteça.
À espera que a água aqueça para o banho. À espera que páre de chover. À espera de um telefonema. À espera de uma resposta. À espera de uma entrevista. À espera de taxi. À espera que me atendam ao balcão. À espera do café quente que depois da espera quase vem frio e desmaiado. À espera nas filas de trânsito. À espera para o início de uma reunião. À espera do avião. À tua espera. À espera.
Tantas horas de espera. Todas as horas juntas de espera dão muito tempo. Tempo cheio de espera. Tempo de espera. Tempo de(s)espera.
Os dias de espera todos juntos davam outra vida.
Passo os dias à minha espera.


Coombs







sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Amiquê?

Uma das modernices mais populares é o pedido de amizade no Facebook. “O não-sei-quantos enviou-te um pedido de amizade”. E se eu aceitar, com apenas um clique, somos “amigos”. Já. Amigos instantâneos. Não é preciso esperar uns minutos. É imediato. Nem é necessário sequer juntar água ou descongelar no micro-ondas. “O não-sei-quantos agora é teu amigo”. Zás-trás! Mais um “amigo”.
Às vezes o pedido de amizade modernaço e instantâneo vem acompanhado por uma mensagem pessoal. Há dias recebi uma mensagem de uma pessoa que me pedia que aceitasse o “pedido de amisade” que tinha acabado de enviar. Li, reli. Pedido de “amisade”? “Amisade”? Com “s”?!
Não posso ser amiga de quem não sabe escrever amizade…
Quem troca o “z” pelo “s” na amizade não sabe do que fala. Quem troca o “z” pelo “s” na amizade há-de trocar-se também nos afectos. Quem troca o “z” pelo “s” na amizade é bem capaz de trocar “um-amigo” por “um-umbigo”.
As letras (as palavras) fazem a diferença. Ditas e escritas. Os afectos também. E a amizade não é apenas retórica. Ponto final parágrafo.


sábado, 17 de novembro de 2012

Ontem era para ter estado calada


Ontem era para ter estado de folga. Deitei-me tarde, já de madrugada, com a expectativa de que no dia seguinte não iria trabalhar, apesar de ser dia de semana. Relaxa-se de maneira diferente. A almofada tem outro cheiro, o colchão abraça-me melhor e os lençóis são mais suaves. 
Dormi bem, acordei descontraída. Estava a precisar de uma boa noite de sono. Mas uns telefonemas e mensagens em cima do meio-dia terminaram com a minha folga e com a minha boa disposição. Tinha que ir trabalhar a seguir ao almoço. 
Fiquei amuada e rezingona.
A folga deixou de ser folga. O dia passou a ser ainda mais cinzento. O meu dia passou a ser o dia de folga que tinha acabado de o ser e que tinha acabado de se transformar na mais irritante sexta-feira à tarde de chuva e trabalho.
Não jantei. Trabalhei até tarde na redacção. Continuava rezingona e amuada.
Recebi um telefonema de uma amiga, à noite. Desabafei todos os meus azares: de quase ter estado de folga, de quase ter tido um fim-de-semana prolongado, de ter deixado de estar de folga, de estar ainda a trabalhar, de não ter sequer jantado. E ainda por cima estava a chover.
- “Estou cansada. Farta!”
Silêncio no outro lado.
A minha amiga é jornalista. Está desempregada.
Silêncio no outro lado.
- “Já viste a tua sorte?”
Silêncio neste lado.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Morse especial

"Não digas nada, dá-me só a mão. Palavra de honra que não é preciso dizer nada, a mão chega. Parece-te estranho que a mão chegue, não é, mas chega. (...)
Gostava tanto que ma apertasses três vezes, depois eu apertava três vezes, depois tu apertavas quatro vezes, depois eu apertava-te quatro vezes e ficávamos que tempos assim, num morse de namorados. Fantasias. Desejos. Se calhar sou uma pessoa carente. Se calhar nem sequer sou carente, sou só parvo."

António Lobo Antunes, "Migalhas"


"A Catedral" - Auguste Rodin


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Il pleut. Alors on danse.

Il pleut.
Alors on danse.
Je danse.
Et toi?

Jack Vettriano

Quero. Preciso.

Quero.
Preciso.
Só hoje.
Chega-te mais para cá.
Só até adormecer.
Aí, aí mesmo...
Preciso de relaxar.
Só até adorm...





terça-feira, 13 de novembro de 2012

Primeira aula

Incentivada pelo entusiasmo que ganhei com o curso de Poesia Japonesa (e com os livros de Haiku que tenho devorado), perdi a cabeça e atirei-me para uma nova aventura! Comecei ontem a aprender Japonês, propriamente dito. Estou a frequentar um Curso de Língua e Cultura Japonesas.
Ontem fui à primeira aula. Somos poucos, uns sete ou oito, contando comigo.
Estava quentinho na sala, silencioso e acolhedor. Fui recebida com uma vénia. Uma senhora japonesa que sorriu quando entrei na sala e curvou-se ligeiramente, olhando para baixo. Hesitei, não sabia se tinha de fazer o mesmo... Disse apenas boa tarde. Sorri. Mas não baixei a cabeça.
Sentei-me na primeira fila. Abri o caderno novo - sem linhas, só folhas brancas - tirei a esferográfica e, em segundos, esqueci a Merkl, que tinha estado a acompanhar todo o dia, e o Passos Coelho e a crise e a política.
Respirei fundo, como quem oxigena o cérebro. Rodei os ombros para trás, mexi levemente o pescoço. Mudei o "chip". Olhei para ela, à minha frente, enquanto ainda entravam outros alunos.
A minha professora chama-se Yuko. Yuko Kase. Magra, pele branca, cabelo negro, baixa, um metro de sessenta talvez. Vinha de cabelo apanhado com um gancho no alto da cabeça.
Trazia uma saia colorida comprida de roda, abaixo do joelho. Meias grossas de lã, botas castanhas-mel pelo meio da canela. Uma camisola de gola alta cinzenta e um casaquinho de malha também colorido, verde vivo, quase verde bandeira, também de lã, abotoado até ao pescoço.
Dedos finos, mãos delicadas, gestos suaves. Sem jóias. Sem anéis. Sem brincos. Sem colares. E sorriso fácil. Olhinhos de japonesinha. Gosto da Professora Yuko.
Sinto que se abre uma nova janela para mim. Respiro fundo. Gosto desta janela.



domingo, 11 de novembro de 2012

Valsa de Outono

Entrou pela janela e quase não fez ruído, como uma bailarina em palco que nunca se ouve quando toca no chão após o salto. Pousou delicadamente no soalho de madeira e esperou que alguém a visse, que alguém com ela se metesse. Ali ficou, aquecendo-se ao sol de Domingo, tranquila, em silêncio algumas horas. Descansava depois de ter bailado no céu, ao ritmo do vento, uma valsa de Outono.
Observei, desde manhã, como as folhas hoje bailavam nos ares. O céu azul de veludo enquadrava o cenário. Algumas nuvens brancas ao longe, poucas. O palco é o ar, sem barreiras, sem espaço, sem pontos nem contra-pontos. A orquestra é o vento que as leva pela mão.
O ar sopra-lhes por baixo, elas ganham altitude, rodopiam, viram-se, cruzam-se, entrelaçam-se. O vento vira. O ar transforma-se. A dança vira também. E montam uma coreografia criativa sem ensaios. E sobem e descem. E tocam o chão, desafiam quem passeia a pé, escondem-se nos canteiros e nas bermas e nos passeios. Perseguem-se e depois fogem. E o vento sopra do lado de lá e voltam a subir e baralham os pássaros. E tocam-se no ar. Leves, airosas, brincalhonas, atrevidas. E o vento sopra do lado de cá e dão mais uma volta, e outra e outra ainda.
Em silêncio, ao sol. E sobem mais alto e descem em espiral. Uma dança quase oriental, serpenteando. O céu salpicado de tons de castanho, amarelo, quase laranja. Parecem serpentinas vibrantes. Um ritual da natureza.
Como escolhem as folhas de Outono os seus pares?
Uma cansou-se. Entrou-me em casa. Só a vi quando, ao anoitecer, fui fechar a janela. Ali estava, no soalho de madeira, descansando.
Perdeste o teu par?


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Tentação Japonesa

Hoje de manhã fui buscar à prateleira o meu caderninho de Poesia Japonesa. Vou regressar às aulas para fazer o nível 2 do curso. É estranho como há pequenos detalhes que fazem os nossos dias tão mais felizes.




quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Aos ditadores

Cospem verbos. Vomitam palavras que nem conhecem. Espumam insultos. Salivam raivas. Chutam ódios. Batem. Agridem. Ácido. Fecho os olhos. Tapo os ouvidos. Sai, sai, sai daqui! Saiam! Saiam todos. Caras feias. Olhos raiados de podridão. Parasitas. Ocos. Veias eriçadas que querem sair daqueles corpos moribundos. Maldade. Inveja. Poder nojento. Poderzinho autoritário. Sangue podre. Nojo. Ferrugem nas artérias. Mofo. Bolor. Rugas de maldade. Mau hálito. Bafo de tédio. Infelizes. Cadáveres de gente. Almas tristes. Insignificantes. Complexados. Pequeninos. Mentecaptos. Vazios. Mentirosos. Falsos. Desapareçam. Evaporem-se. Vão brincar aos poderzinhos para o crematório. Desapareçam, ditadores! Morram, morram todos. Matem-se uns aos outros. Pestilentos. Morram, velhacos. Gritaria. Párem! Caiam. Acéfalos. Medíocres. Estúpidos. O mundo não vos merece. Adeus.


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Fumo

Cheiro(-te n)essa saudade como lenha numa fogueira
Por dentro
Quente

Um tronco que flutua
Oco
Frio

O rio faz o seu caminho sem olhar para trás
Com a certeza do
Rumo

Cheira a lenha queimada
Nevoeiro
Fumo

Duas margens separadas
Coexistem
Não uma sem a outra

Como a saudade
Consigo cheirar a saudade
Cheiro(-te ness)a saudade





quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Até que eu te deteste

Não vás já.
Mudou a hora.
Mudou a cor da manhã, verás.
Mudei os lençóis, cheira.
Cheira-me.
Mudou a Lua, olha.
Fica mais um pouco
Até que eu te deteste.

Fotografia de Maxim Chelak

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Às segundas

Às segundas quero sempre mudar o mundo.
Planeio na almofada da noite anterior a revolução que estou decidida a fazer daí a poucas horas. Vou acordar mais cedo. Quero apanhar o sol assim que nasça, quero respirar o primeiro ar fresco da manhã, quero agarrar a vida. Quero fazer aquela história que anda há tempos na minha cabeça, quero marcar o almoço prometido e sempre adiado, quero responder às mensagens pendentes, quero ver o filme que gravei há semanas, quero ler mais vinte, trinta páginas que ontem.
Às segundas quero mudar o mundo.
Depois passa.
Já é quase terça.






domingo, 28 de outubro de 2012

Redormir

Gosto de Domingos com mais uma hora de sono.
Podemos repetir para a semana?
Redormimos mais uma hora.
Redormir.

Wake-Up Romantic Lady Be, Peak's Woods

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Noites de Outono


O pior das noites de Outono?
Não ver a outra margem.
Não ver as estrelas.
E tu, que não chegas.

Dead River Fog, fotografia de bgreenlee









terça-feira, 23 de outubro de 2012

Equilíbrio


Equilíbrio.
Estar na balança.
Uns dias lá, outros cá. Mais lá que cá.
Entre o que se quer e o que se tem. O que se quer.
Entre o que se tem e o que não se tem. O que não se tem.
Entre o que és e o que queres ser.
Ser.
Entre o que se pode e o que se sonha.
Sonha.





segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Pecados capitais


Em apenas dois dias ouvi da boca de dois homens dois pecados capitais, no meu manual de pecados.

Um, quando elogiava o cheiro do meu perfume assim que entrei no carro, disse-me que nunca usa perfume. Fixei-o como se tivesse acabado de dizer um palavrão. 
- “Nunca?! Mas nunca, como?!” – perguntei-lhe incrédula. 
- “Simplesmente nunca. Nem tenho um único frasco de perfume em casa”, respondeu-me com um sorriso. “Acho que a última – se calhar a única – vez que usei perfume foi no meu baptismo: a água de colónia que a minha mãe me pôs!” 
Riu-se. Sozinho.
Silêncio.
Apeteceu-me sair do carro naquele instante.

Outro, quando falávamos de comida, de petiscos, de prazeres à mesa, falei-lhe num bom vinho tinto para acompanhar, disse-me com a maior das naturalidades que não gosta de vinho, não bebe vinho.
- “Mas não bebes vinho, como? No dia-a-dia? Durante o trabalho?”
- “Não, não, nunca bebo vinho. Nem em ocasiões especiais nem em festas.”
Silêncio.
- “Mas por princípio?!”
- “Não, não gosto nem do cheiro”.
Hesitei.
- “És muçulmano?”
- “Não, não” – ri-se. “Só não gosto mesmo de vinho.”
Riu-se. Sozinho.
Silêncio.
- “Mas podes beber tu.”


Pintura de Jack Vettriano



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Nos 90 de Agustina

Recebeu-me na sua casa do Porto, sentada na poltrona verde no canto da sala. O gato preto refastelado ocupava-lhe o colo farto. Entrei. Rasgou um sorriso.
"Gosta de gatos?"
Foi, afinal, ela a disparar a primeira pergunta.
"Adoro!"
"Então pode entrar e sentar-se. Vamos lá conversar!"
Foi uma das entrevistas que mais me marcou até hoje. 
Parabéns Agustina!


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Bestas no altar

Não sou frequentadora de Igrejas mas fui a uma missa há uns dias para assinalar uma data especialmente difícil para a minha família. Não era uma Igreja qualquer, era a Sé de uma capital de distrito.

Dois ou três minutos depois da hora prevista lá veio o Padre. Entrou sozinho, vestes brancas, verdes e douradas. Não olhou para quem estava. Não viu se eram mulheres ou homens, não viu se havia crianças ou velhos. Não viu se havia gente nova ou apenas os rostos habituais.

Não vou abordar aqui questões religiosas, de crença, devoção ou dúvida. Vou debruçar-me apenas nas questões de cidadania, civismo, educação, enfim, vida em comunidade. Respeito.

Não sei o nome dele, não sei se é Bispo ou se pode vir a ser Papa. Sei que aquele Padre é um tipo arrogante, antipático, distante, convencido e intolerante.

A Igreja estava quase vazia. Tirando as pessoas da minha família, estariam na Igreja umas oito ou dez pessoas. E era a principal Missa do dia, às 6 da tarde.

Despejou o discurso, como quem lê uma receita em voz alta para si mesmo. Mal se percebia o que dizia. A homilia não tinha nada a ver com nada. Podia ter sido dita naquele dia ou num outro dia qualquer. Podia ter sido dita para aquela “plateia” ou para outra qualquer.

O Padre não fala às pessoas. Não fala com as pessoas. Não fala para as pessoas. O discurso do Padre (da Igreja, diria) não chega às pessoas. Não fala de nada que interesse às pessoas.

Juro que fiz um esforço para tentar perceber o alcance das passagens que leu, se haveria algum paralelismo com o momento angustiante que as pessoas atravessam, as dificuldades, os sacrifícios. Mas não. Nada. As metáforas ou excertos que leu não traduziam nada. É como abrir “ao calhas” a lista telefónica e ler nomes e números telefónicos de rajada. Foi isso, aquela missa.

O nome da pessoa por quem se rezava naquela missa foi dito como quem podia estar a dizer “adeus e até logo”. Nada. Leu o nome como quem lê o nome de um comprimido numa caixa da farmácia.

Um nome lido em três segundos. Um nome na boca de um Padre embirrante para confortar uma família. Um nome que, para ser lido, tem de incluir dinheiro num envelopinho. E mais o cestinho das moedas que circula de banco de madeira em banco de madeira, e que serve para extorquir os trocos das almas desencantadas ali sentadas a ouvir o embirrantão.

Na hora de comungar, formou-se uma pequena fila de seis senhoras. E um rapaz, o último da fila. Quando o Padre se preparava para virar costas, vinha ainda uma senhora velhota na passadeira central da Igreja. Curvada, a caminho, lentamente, bengalando.

Comungou. E não se livrou do raspanete:
“Para a próxima venha mais cedo. Escuso de estar eu aqui à espera!” – disse o Padre.

A senhora não respondeu, claro. Voltou ao seu lugar, curvada, com a hóstia na boca e a vergonha na cara, por ter sido repreendida publicamente pelo “Senhor Padre”.

Para a próxima venha mais cedo?! Que besta! Se fosse eu ter-lhe-ia dito: “para a próxima não venho.”

Por isso a Igreja estava vazia.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Ainda Eva

Já tinha escrito sobre Eva aqui no Diário Metafísico. Por estes dias Eva foi à televisão. Pelos piores motivos.  E, afinal, não tem 80 anos de rugas, como eu pensava que teria. Mas 99. Noventa e nove anos...
É impossível ficar indiferente. É impossível saber de Eva sem ficar com um nó na garganta.
Angústia. Indignação. Revolta.
Que país é este que mata nas ruas os seus velhos? Que país é este que lhes permite que andem de mão estendida sem que nada aconteça?
Vergonha. Tristeza.
Má sorte não ser mãe de Ministro.






sábado, 6 de outubro de 2012

Cheiro, esse


Cheiro o vinho como se o bebesse
Cheiro a fruta como se a comesse
Cheiro o campo como se nele corresse
Cheiro o mar como se nele vivesse

Cheiro o livro como se nele escrevesse
Cheiro a chuva como se nela descesse
Cheiro a lenha como se me aquecesse
Cheiro memórias como se nelas envelhecesse

Cheiro-te roupa como se me envolvesse
Cheiro-te a pele como se a percorresse
Cheiro-te o corpo
[de olhos fechados]
     como se me protegesse
Cheiro-te o peito como se nele ardesse

Cheiro-te os lábios como se os mordesse
Cheiro-te os dedos como se neles crescesse
Cheiro-te o cabelo como se nele mexesse
Cheiro-te o acordar como se nele me perdesse
                          [como se me humedecesses]

Cheiro a saudade como se nela me escondesse
Cheiro o presente como se nele rangesse
Cheiro o futuro como se nele tremesse 






terça-feira, 2 de outubro de 2012

Ar. Ir.


Às vezes gostava de ter ar, em vez de massa.
Às vezes gostava de ter hélio, em vez de oxigénio.
Às vezes gostava de ser um balão e apenas deixar-me ir.