quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Eu não sou
Eu não sou chefe de Estado nem de Governo. Não tenho cargos nem tive. Não sou ninguém importante nem ex-nada. Não tenho motorista nem uso pins na lapela. Mas adorava poder estar naquele Estádio em Joanesburgo a viver este momento histórico. Já que não pude entrevistá-lo, ao menos estaria ali a sorrir, emocionada, por ele. Por nós.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Da privacidade
O Natal tem coisas maravilhosas. Mas também tem outras péssimas. Todos os dias fico surpreendida com as fotografias orgulhosamente colocadas em redes sociais e blogues, escancarando a intimidade da decoração de algumas Árvores de Natal de gosto duvidoso. Há recantos domésticos que eu, sinceramente, preferia não ter visto.
É como ter de ver, no Verão, algumas das pessoas que vejo todo o ano de fato e gravata com os pés refastelados em chinelos de enfiar no dedo.
É Natal, sim... Devemos ser solidários e tal... Mas não exageremos...
É como ter de ver, no Verão, algumas das pessoas que vejo todo o ano de fato e gravata com os pés refastelados em chinelos de enfiar no dedo.
É Natal, sim... Devemos ser solidários e tal... Mas não exageremos...
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Vermelho da Cor do Céu - TSF
Neste Dia Internacional das Pessoas com Deficiência partilho convosco o meu pequeno contributo para acabar com o preconceito. "Vermelho da Cor do Céu" foi uma das Grandes Reportagens que mais gostei de fazer (com o grande sonoplasta Luis Borges Cândido). E foi seguramente das que mais me marcou. Ouçam. Com os olhos fechados e com a luz apagada.
Vermelho da Cor do Céu - TSF
Como é o mundo de quem nunca viu?A Reportagem TSF coloca a venda nos olhos, segura a bengala e entra no mundo de quem não vê com os olhos. Mercedes gostava de saber como são as pessoas, como são os seus rostos. Tiago queria ver com olhos um cavalo a correr, porque parado já o viu com as mãos. Alcides não sabe de que cor são os seus olhos porque é como se não existissem. Susana e Rodrigo, casados sem nunca se terem visto, nunca acendem as luzes na casa onde vivem. Ângelo vê com os dedos obras de Picasso e imagina as formas e um mundo que nem Picasso imaginou. Para uns o Sol é azul, da cor do céu. Para outros, as estrelas são candeeiros pendurados no tecto do céu. Para outros ainda, o céu é vermelho ou azul ou sem qualquer cor.
«Vermelho da Cor do Céu» é uma grande reportagem de Ana Catarina Santos, com sonoplastia de Luís Borges.
Vermelho da Cor do Céu - TSF
Como é o mundo de quem nunca viu?A Reportagem TSF coloca a venda nos olhos, segura a bengala e entra no mundo de quem não vê com os olhos. Mercedes gostava de saber como são as pessoas, como são os seus rostos. Tiago queria ver com olhos um cavalo a correr, porque parado já o viu com as mãos. Alcides não sabe de que cor são os seus olhos porque é como se não existissem. Susana e Rodrigo, casados sem nunca se terem visto, nunca acendem as luzes na casa onde vivem. Ângelo vê com os dedos obras de Picasso e imagina as formas e um mundo que nem Picasso imaginou. Para uns o Sol é azul, da cor do céu. Para outros, as estrelas são candeeiros pendurados no tecto do céu. Para outros ainda, o céu é vermelho ou azul ou sem qualquer cor.
«Vermelho da Cor do Céu» é uma grande reportagem de Ana Catarina Santos, com sonoplastia de Luís Borges.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Rua dos dias de voam
Não é a placa que forra a esquina da minha rua, mas bem podia ser. Os meus dias voam e nem dou por eles. Passam por mim a voar. Os meus dias voam por mim, através de mim.
Ouvi esta tarde um senhor a lamentar-se que ainda ontem tinha vinte anos e num estalar de dedos passaram outros quarenta.
- "Quarenta, menina. Passaram quarenta anos e nem dei por eles."
Fixei-o. E ele continuava a desabafar ao balcão para quem o quisesse ouvir, enquanto lhe saía o vapor do café escaldado dos lábios:
- "Até aos vinte parecia que tinha tempo para tudo. A partir daí deixei de controlar o tempo. Como é que é possível?! Como é que já passaram estes anos todos?!"
Virei o espelho daquela conversa para mim.
A vida de hoje não me dá tempo para vivê-la. Corro na vida em vez de passear por ela. Corro na vida em vez de passear com ela. A passo lento.
Os dias não esperam por mim.
Ouvi esta tarde um senhor a lamentar-se que ainda ontem tinha vinte anos e num estalar de dedos passaram outros quarenta.
- "Quarenta, menina. Passaram quarenta anos e nem dei por eles."
Fixei-o. E ele continuava a desabafar ao balcão para quem o quisesse ouvir, enquanto lhe saía o vapor do café escaldado dos lábios:
- "Até aos vinte parecia que tinha tempo para tudo. A partir daí deixei de controlar o tempo. Como é que é possível?! Como é que já passaram estes anos todos?!"
Virei o espelho daquela conversa para mim.
A vida de hoje não me dá tempo para vivê-la. Corro na vida em vez de passear por ela. Corro na vida em vez de passear com ela. A passo lento.
Os dias não esperam por mim.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Merak. Ou "curiosidades" em turco.
- Laranja em turco diz-se “Portakala”. Quando dizemos que
vimos de Portugal, temos de pronunciar bem a palavra ou entendem que somos
naturais de “laranja”.
- Chá em turco diz-se “Çay”. Lê-se tchai, parecido com o som
em português.
- A borra do café turco que fica na chávena, depois de
tomado o café, serve para os turcos lerem a sina. Viram a chávena de cabeça
para baixo e a borra que ficar no pires é lida como quem lê a palma da mão.
- Os turcos acreditam que se não fossem eles não haveria o hábito
de beber café no Ocidente, uma vez que dizem que foram eles que introduziram o
café na Europa.
- O pistacho quase podia ser o alimento nacional. Tudo tem
pistachos! Os pistachos são servidos sempre sem sal e acompanham quase sempre as
reuniões de trabalho. Imensos alimentos têm recheio de pistacho, carne com
pistacho, puré de pistacho, peixe do Mar Negro com pistacho, sobremesas de pistacho, chocolate de pistacho, etc.
- Em Istambul há eléctricos como em Lisboa, mas em vez de
serem amarelos são vermelhos. Hoje em dia são praticamente apenas turísticos e é fácil
encontrá-los na Praça Taksim.
- O alfabeto turco não é árabe. É uma variante do alfabeto latino.
Tem 29 letras, das quais 8 são consoantes, mas não existem as letras Q, W e X.
- Os turcos adoram flores. Por todo o lado se compram e
vendem flores. A Turquia é um dos maiores produtores de flores. Além da
quantidade há muita variedade: dizem ter mais de 9 mil espécies de flores
diferentes. Até vi rosas verdes à venda na Praça Taksim!
- Os turcos são fanáticos por futebol e adoram desportos de
uma maneira geral.
- Istambul é a única cidade do mundo dividida em dois
continentes – uma parte na Europa e outra parte na Ásia – apenas separadas pelo
Bósforo.
- São Nicolau (St. Nicholas – o “Pai Natal”) nasceu no Sul da
Turquia.
- Ataturk é venerado e adorado em todo o País. Por todo o
lado há imagens (santinhos) do “pai fundador” da Turquia, num culto da
personalidade excessivo.
- Em Istambul vendem-se na rua deliciosas maçarocas de milho
assado na brasa por menos de um euro (2 Liras Turcas).
- O trânsito é caótico. Há quem faça marcha-atrás ou inversão
do sentido de marcha em plena auto-estrada, apenas para tentar fugir ao trânsito.
- Os turcos têm por hábito mastigar “cravinho” (especiaria)
depois das refeições. Dizem que serve para melhorar o processo digestivo e para
promover a higiene oral. Não é raro os turcos oferecerem “cravinhos” aos seus
convidados no final das refeições.
- A capital é Ankara mas Istambul é a maior cidade, onde vivem
cerca de 15 milhões de pessoas.
- A média de idade na Turquia é de 31 anos.
- A origem da palavra “Turquia” é “Türk”, que significa “forte”.
- O lema nacional da Turquia é “Paz em casa, Paz no Mundo”.
- Na Turquia ninguém deve beijar-se em público. Os namorados,
noivos, casais, não devem beijar-se na boca nas ruas. Antigamente era proibido
por lei. Hoje já não é assim mas ainda há quem censure esse comportamento. Em
Istambul essa “regra” é mais flexível. E não é aplicável aos turistas.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Menina do Mar
"Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos na água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia branca. Tu és da terra e se fosses ao fundo do mar morrias afogado. Mas eu sou uma menina do mar."
"- Bom dia - disse o rapaz.
E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.
- Trago-te aqui uma flor da terra - disse; chama-se uma rosa.
- É linda, é linda - disse a Menina do Mar, dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.
- Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice de rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:
- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz."
"Menina do Mar", Sophia de Melo Breyner Adresen - excertos
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Montanha Mágica
Conheci um japonês no metropolitano de Madrid. Estava
vestido de negro, usava óculos de massa escura, lentes rectangulares, calças
escuras, creio que cinzentas. Devia ter uns trinta anos. Se bem que adivinhar a
idade num oriental é sempre uma tarefa complicada.
[- E por que não poderia ser um
chinês? Ou de outra nacionalidade?
- É japonês. De certeza absoluta.
- Como é que sabes? Ele nem sequer falou…
- Pediu licença para se sentar. Baixou a
cabeça quando fez a pergunta. Não olhou ninguém directamente nos olhos. Sentou-se
discretamente. Ocupou o lugar sem se encostar em nada. Ninguém deu por ele. E pôs-se
a ler.]
Era um livro japonês. Os caracteres de cima para baixo e da
direita para a esquerda. Não resisti e fixei o livro. Ele percebeu que eu
estava curiosa. Continuou a ler. Não tirei os olhos do livro e acho que até
sorri. Tenho livros do género lá em casa, desde que no ano passado me inscrevi
no curso de língua japonesa. Ele lia. Eu fixava as páginas. Ele mudava de página.
Eu procurava detectar algo que me fosse familiar. E ele de olhos presos ao
livro. Eu espreitava pelo canto do olho, insistente. Até que ele ajeitou o
livro para que eu pudesse vê-lo melhor.
[- Apanhou-te!
- Sim, mas eu também não estava propriamente a
ser discreta.
- E falaram? Comunicaram? Ele olhou-te nos
olhos?
- Falámos.
- Sobre o quê? Que livro era?]
Fechou o livro e mostrou-me a capa. Era um livro de capa
mole, amarelado, discreto. Um palmo de livro, quase de bolso. Apontou com o
dedo indicador para os caracteres que estavam no topo da página. Tinha o dedo
magro, muito branco, de unha aparada e limpa. Ouviu-se uma voz baixinha e
hesitante. “Magic” – apontou para um quadradinho riscado. “Mountain”, indicou
outro conjunto de traços. Sorriu timidamente. Sorri-lhe também.
Falámos sobre o Japão, sobre Tóquio, sobre o bairro de Roppongi,
sobre o mercado do peixe, sobre os jardins de pedra, sobre os templos de
Quioto, sobre o Templo Dourado, o meu preferido. E falámos sobre Portugal, e sobre
Sintra, e para onde ele ia a seguir a Madrid, e de onde tinha vindo. Disse-me
que já tinha visitado Lisboa e até tinha ido à “Loca”.
- À Loca?!
- Loca Cape.
- Ah, Roca Cape…
O Cabo da Roca. O simbólico ponto mais ocidental da Europa
continental. Fechou o livro. “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann.
Livros. Japão. Perguntei-lhe se gostava de Murakami.
- Mais ou menos. Ele escreve melhor em inglês do que em
japonês. No resto do mundo é mais reconhecido e conceituado do que no Japão. É
bom, mas não está no meu top five. Escreve melhor em inglês.
- E quem está no teu top?
Disse-me o nome de um japonês que não consigo reproduzir. Devia
ter apontado no meu bloco de notas, mas não o fiz. Pedi-lhe que repetisse. Não
percebi. Não consigo agora lembrar-me do nome ou sequer reproduzir a sonoridade.
Disse-lhe que não conhecia, que nunca tinha ouvido falar.
- E também o Mishima. Esse sim, está no top dos dois ou três
melhores. O Murakami está entre os dez, mas fora do pódium.
- Ah, o Mishima conheço. Já li alguns dele. É excelente!
A carruagem do metro parou. Procuramos ambos o letreiro na
estação para comprovarmos que não tínhamos perdido a paragem. Estávamos em Mar
de Cristal, na linha 8. Faltavam umas duas ou três paragens.
[- Estás
encantada a falar do japonês. Era giro?
- Não. Nada disso.
- Apaixonaste-te pelo japonês?
Ri-se e atira o corpo para trás.
- Que disparate! Tu conheces-me. Sabes que não
me agradam particularmente os orientais. Era simpático, só isso.
- Só isso?
- E interessante.
- Humm…]
Continuámos a conversar.
- E não achas que Thomas Mann é uma leitura um pouco pesada para se
ler no metro?, inquiri.
- Para mim não – respondeu prontamente.
- Não?
- Se fosse Hegel ou Kant talvez te dissesse que sim.
Arregalei os olhos, fixando-o de frente. Ele olhava-me de
raspão nos olhos mas não me fixava.
- Gostas de filosofia?
- Sim. Gosto de filosofia, não de filósofos. Mas, na
verdade, ainda estou à procura do meu caminho.
[- My way, disse-o em inglês.
- My way…
Silêncio. Pausa.
- Ele está a ler a Montanha Mágica, do Thomas
Mann, à procura do seu caminho.]
A carruagem do metropolitano parou. Gente a sair e a entrar.
Nuevos Ministérios. Era a minha paragem. E a dele. Levantámo-nos. Saíamos ali. Uma
hesitação.
[- Como se
despediram?
- Normal.
- Normal como?]
Dou-lhe dois beijos? Um cartão de visita? Trocamos números
de telefone? Ou nada? Hesitei. E ele também.
[- Mas
afinal como se despediram?! Ficaste com o contacto dele?]
- Adeus. Que tenhas um bom dia. - disse-me vagamente sorrindo.
- Adeus. Tu também.
- Que tudo te corra bem.
- E a ti. E espero que encontres o teu caminho.
- E tu o teu.
Um aceno de mão do lado de lá. Um aceno de mão do lado de cá.
A uns passos de distância. Um jovem japonês parado, de pé, a olhar-me de frente.
Algumas pessoas atravessaram-se pelo meio, a correr para o metro, enquanto
soava o sinal de que as portas iam fechar-se no instante seguinte. O japonês
parado. A mão direita no ar, parada. O livro na outra mão, caído junto à anca.
Procurei a placa que me indicasse a saída. O meu caminho.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Ao vapor
Hoje não me apetece sair do duche. Aqui na minha cápsula, na minha concha, estou aconchegada. Água quente escorrendo pela nuca. Olhos fechados. Respiração
lenta. Vapor por todo o lado. Nada se vê, nada se mexe, nada se ouve. Nem
liguei o rádio. Silêncio. Só se ouve o som da água a cair. Tchchchchchchch… O
chuveiro, lá no alto, abundante. Água dura. Como uma cascata no meu crânio cansado.
Percorro o meu dia de olhos fechados. Falo para dentro
enquanto o duche me alivia. “Devia ter feito isto ou aquilo. Simpático, aquele
almoço. Bolas, esqueci-me de ligar a alguém.”
Organizo o meu cérebro amolecido
pela água quase a escaldar. Derreto as minhas defesas.
Sinto calor. Talvez esteja a transpirar. A pele das costas já deve estar quase escalfada.
Sabe tão bem. Estou em banho-maria. É quase um casulo, de tão bom. Puxo os ombros para trás, rodo o pescoço, olhos fechados,
estico os braços tacteando a água que me foge dos dedos.
Hoje não me
apetece sair daqui. Tchchchchchchch… Eu e o chuveiro.
As paredes molhadas. O espelho embaciado não me olha
espantado, como pela manhã. Nem sequer o espelho me vê. A pele amolece. Ao vapor. Eu também.
Quebro. Hoje não me apetece sair do duche.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Trato o Outubro por tu
Trato o Outubro por tu. Conheço-lhe os truques todos. Gosto do Outubro porque me desafia. Quando arrumo os algodões lá vem ele meter-se comigo à janela.
- Bom dia! Trago-te os primeiros pingos.
- Bom dia, Ó Tu…
Digo isto para o picar. Detesta que o trate só por “Ó-Tu”.
- O meu nome é Outubro. Ou-tu-bro, entendeu? Com dois "u's".
Rio-me. Ele irrita-se. E, nesse caso, chuvisca.
Temos longas conversas, eu e o Outubro.
Trato-o sempre por tu, não que ele me tivesse dito para o
fazer. Habituei-me a tratá-lo assim e não me imagino a tratá-lo doutra maneira. Ele, porém, não. Nunca se sentiu à vontade para me tratar por tu. Já insisti mas ele resiste.
É um artista, este Outubro. Faz-se difícil. É para manter uma certa distância e
fintar-me sem ficar com problemas de consciência. Conheço-o de ginjeira!
- Tiraste a gabardine para quê? Hoje estou de esplanada. Vais
querer mesmo sair de gabardine?
Ri-se, o pirata. Ri-se de mim.
O Outubro sabe que eu gosto de prolongar os Setembros. Nunca
lhe escondi que o Setembro é o meu favorito. Fica amuado e ciumento com isso, o
meu querido Outubro.
- Anda cá, deixa-te de fitas… Fica aqui. Traz tu a manta,
que eu levo o vinho tinto.
Mas ele insiste nas voltas vadias.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Meia dose
- Bom dia!
- Bom dia. Em que posso ser-lhe útil?
- Queria meia dose de amor.
- Como?
- Meia dose de amor, se faz favor.
- Meia dose?
- Sim, por favor. Para embrulhar.
- Meia dose não vendemos.
- Não?
- Não. Só dose inteira.
- Uma dose inteira de amor?
- Sim. Só vendemos doses completas.
- Humm… Mas isso assim não me dá jeito.
- Ora essa... Porquê?
- Porque vai sobrar. Não dou conta disso tudo.
- Claro que dá!
- Não, não. É imenso…
- Olhe que estou aqui há muitos anos e nunca nenhum freguês me
pediu só meia dose de amor.
- Pois, mas uma dose inteira é muito para mim. Não consigo mesmo.
Desculpe.
- Não tem nada que pedir desculpa. É assim mesmo. Estamos cá
para isso.
- Obrigada. Até logo!
- Adeusinho.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Ao Poeta António Ramos Rosa
O senhor é um bandido. Morrer numa altura destas, seu atrevido?! E logo agora que eu precisava tanto de si. Eu, não. Nós! Nós precisamos de si. Nós todos! Mais do que nunca. É em tempos de crise e incerteza que mais precisamos de homens como o senhor.
Nunca consegui tratá-lo por tu. Bem sei, bem sei, que sempre insistia para que o tratasse com menos formalismo. Mas não consigo. Nunca consegui. Desde o primeiro dia que lhe guardo um enorme respeito e adoração, como sabe. Como, de resto, lhe disse várias vezes olhos nos olhos.
Gostei de si logo na primeira vez que o ouvi dito (e bem dito), entoado e encorpado pela voz aveludada e cheia do nosso querido Fernando Alves (bendito). Gostei tanto, tanto, de si logo naquele primeiro dia.
O senhor é, de facto, um grande Poeta... Que letras, que intensidade, que poder, que força, que artesão da palavra, que escrita, que arte, que poesia... Que maravilha... Que grande Poeta o senhor Ramos Rosa me saiu, sim senhor...
(Não insista, Poeta, não consigo mesmo tratá-lo por tu.)
Todas as noites, no beijo nocturno que me dá quando leio os seus versos, o senhor sussurra-me a vida. A vida toda nas suas letras. Um sussurro bom mesmo, mesmo antes de dormir.
Não adormeço bem se não vou lá espreitá-lo e dizer - nem que seja - um até amanhã. Às vezes acordo-o no meio das minhas insónias.
- "Desculpe, senhor Poeta... Não devia acordá-lo assim sem mais nem menos, a meio da noite, mas não resisto."
Quando acordo pela madrugada ou estou demasiado agitada, bato-lhe ao livro.
Truz-truz.
- "Pode serenar-me?"
Tenho sempre de ir lá roubar-lhe um beijo de boa noite. Tenho de tocar as suas letras e pedir, baixinho, que me aconchegue na cama. Tenho de passá-lo pelos olhos para colorir os meus sonhos. Tenho de cheirar-lhe a escrita para florir de alfazema os meus lençóis.
E agora, vai-se embora, seu bandido? Sempre a brincar com os sentimentos dos outros. Vá, deixe-se de fitas e não saia daqui. Deixe-se disso...
Venha cá. Fique aqui, meu querido Poeta. É urgente que fique...
Os Poetas não morrem. O senhor será sempre o meu Ramos Rosa. O senhor será sempre o meu Nobel da minha academia sueca da mesa de cabeceira. O senhor será sempre o mais querido dos meus Poetas. O meu querido algarvio...
Venha, vá... Está na minha hora de dormir. Vá, já é tardíssimo... Chegue aqui... Ande cá, seu teimoso. Vá... Logo hoje, que estou tão agitada. Preciso tanto de si.
Truz-truz
- "Senhor Poeta? Está aí?"
Nunca consegui tratá-lo por tu. Bem sei, bem sei, que sempre insistia para que o tratasse com menos formalismo. Mas não consigo. Nunca consegui. Desde o primeiro dia que lhe guardo um enorme respeito e adoração, como sabe. Como, de resto, lhe disse várias vezes olhos nos olhos.
Gostei de si logo na primeira vez que o ouvi dito (e bem dito), entoado e encorpado pela voz aveludada e cheia do nosso querido Fernando Alves (bendito). Gostei tanto, tanto, de si logo naquele primeiro dia.
O senhor é, de facto, um grande Poeta... Que letras, que intensidade, que poder, que força, que artesão da palavra, que escrita, que arte, que poesia... Que maravilha... Que grande Poeta o senhor Ramos Rosa me saiu, sim senhor...
(Não insista, Poeta, não consigo mesmo tratá-lo por tu.)
Todas as noites, no beijo nocturno que me dá quando leio os seus versos, o senhor sussurra-me a vida. A vida toda nas suas letras. Um sussurro bom mesmo, mesmo antes de dormir.
Não adormeço bem se não vou lá espreitá-lo e dizer - nem que seja - um até amanhã. Às vezes acordo-o no meio das minhas insónias.
- "Desculpe, senhor Poeta... Não devia acordá-lo assim sem mais nem menos, a meio da noite, mas não resisto."
Quando acordo pela madrugada ou estou demasiado agitada, bato-lhe ao livro.
Truz-truz.
- "Pode serenar-me?"
Tenho sempre de ir lá roubar-lhe um beijo de boa noite. Tenho de tocar as suas letras e pedir, baixinho, que me aconchegue na cama. Tenho de passá-lo pelos olhos para colorir os meus sonhos. Tenho de cheirar-lhe a escrita para florir de alfazema os meus lençóis.
E agora, vai-se embora, seu bandido? Sempre a brincar com os sentimentos dos outros. Vá, deixe-se de fitas e não saia daqui. Deixe-se disso...
Venha cá. Fique aqui, meu querido Poeta. É urgente que fique...
Os Poetas não morrem. O senhor será sempre o meu Ramos Rosa. O senhor será sempre o meu Nobel da minha academia sueca da mesa de cabeceira. O senhor será sempre o mais querido dos meus Poetas. O meu querido algarvio...
Venha, vá... Está na minha hora de dormir. Vá, já é tardíssimo... Chegue aqui... Ande cá, seu teimoso. Vá... Logo hoje, que estou tão agitada. Preciso tanto de si.
Truz-truz
- "Senhor Poeta? Está aí?"
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
S
Encontrei um S na rua. Mas não era um S qualquer. Era um S
grande que brilhava imenso na calçada, ao sol. Um S prateado, bem torneado, com
um tracinho em cada ponta. Como quem sabe exactamente até onde pode ir. Sabe que aquele seu S termina ali. Um S bem definido. Achatado reluzindo ao sol.
Um S perdido. Andaria à procura do quê, aquele S?
Bem, na verdade, não sei se aquele S estaria perdido. Podia apenas
querer estar ali. Parado a aquecer-se ao sol. Se andasse perdido, porventura, estaria
desesperado. Pediria ajuda a quem passa, gritaria pelo O e pelo outro S. Mas não. Aquele S
talvez não estivesse perdido. Pareceu-me um S cheio de si, ali sozinho, ao sol.
Teria andado colado a algum pescoço? Pendurado num fio? Podia ter-se cansado da
pele humana, talvez até do suor. “Ai, esta pele deste pescoço dá-me calor.
Vou-me embora!” Talvez não gostasse do cheiro da pele da pessoa que o trazia. Talvez
os S’s sejam demasiados sensíveis ao cheiro. Fartou-se. Foi à vida dele.
Estaria junto a outras letras? Seria a primeira de várias
letras de um nome? Sim, porque aquele S, tão robusto, não me parece que seja S
para ficar no meio ou no fim de um nome. É um S com ar de maiúscula. Um S com pose de inicial.
Agachei-me junto ao S para o ver mais de perto. Um S de
prata, cheio de si, cheio de pose. Sozinho na praça forrada a calçada portuguesa. Era
bonito, o raio do S...
- “Estás a olhar para o quê?”, desafiou-me.
- “Estás só?”, perguntei-lhe a medo.
- “Não. Vês aqui algum ó?”
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Gerúndios de Setembro
Setembro é o primeiro dos gerúndios nos meses do ano.
Setembro é gerúndio. É ir fazendo. É ir entrando. É ir recomeçando. É Setembro.
Setembrando. Com calma. Sentindo a temperatura a baixar. Com tranquilidade. Apertando
os dias. Com sabores mais quentes. Vestindo as primeiras malhas. Olhando o pôr-do-sol de frente. Cantando. Espreitando as
estrelas mais cedo. Sorrindo. Setembro. Com tempo. Temperando.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Regresso-te
E com o fim de Agosto regresso-te.
Primeiro foi a crise política que me afastou… Depois da
crise, foi o Verão que me sequestrou. As horas na praia até à noite, os pés
descalços na areia quente, o corpo triunfante no mar fresco, a pele estaladiça
e salgada, a dormência dos dias sem relógio.
Agora regresso-te. Cheia de mim. Para te dar.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Prova superada
Estive nos últimos dez dias na Bulgária a participar num
Campeonato Mundial Desportivo, os World Sport Games. São uma espécie de Jogos
Olímpicos com todas as modalidades especificamente destinado a pessoas cuja
actividade profissional principal não é o desporto. Estavam mais de três mil
atletas de todos os cantos do mundo: uns médicos, outros advogados, outros mecânicos,
outros bancários, alguns gestores, jornalistas, educadores
de infância, informáticos, etc.
Na maior parte dos casos são pessoas que já foram atletas de
alta competição e por motivos financeiros, pessoais ou outros deixaram de estar
ao mais alto nível competitivo mas continuam a articular a actividade profissional
e o desporto com total entrega, dedicação e glória.
Só pode participar nesta prova quem, na época anterior, foi
Campeão Nacional no seu país de origem, em cada modalidade. Foi o nosso caso. Fui
com a minha equipa de voleibol de praia ao Mundial que decorreu entre 1 e 10 de
Junho em Varna, Mar Negro, Bulgária.
Não regresso com a Taça nem com as Medalhas do pódio. Trago,
sim, mais um capítulo escrito na minha vida. Esforçar-me mais ainda quando acho
que já não consigo. Dar mais um passo quando as pernas parecem não responder. Saltar
quando não sei se consigo sequer manter-me em pé. Gritar com alma a cada ponto
conquistado. Sentir as gotas de suor na pele a libertarem-me a vontade. Acreditar
quando já ninguém acredita.
A resistência não é física. As medalhas não são de metal. O
pódio não é de madeira. Superar-me a mim própria é a minha melhor vitória.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
O(xi)génio
Fui ao Museu Rainha Sofia em Madrid. Não propriamente apenas ao Museu ou por causa da colecção permanente, riquíssima aliás. Já ali estive noutras ocasiões, perdida perante o majestoso Guernica de Picasso ou curiosa perante a monumental sequência de obras sobre o papel da Mulher na Arte. O Rainha Sofia, ali mesmo junto ao Parque do Retiro, merece sempre uma visita.
Mas desta vez fui de propósito por causa dele. Aquele homem de bigode afiado e olhar tresloucado que tanto me prende. Não percebo nada de arte, ou gosto ou não gosto. E eu gosto de Salvador Dali.
A Exposição é temporária e está acessível apenas até ao próximo dia 2 de Setembro 2013. E é imperdível. Vale a pena uma visita a Madrid só para conhecer esta Exposição: "Dali - todas as sugestões poéticas e todas as possibilidades plásticas".
O bom desta Exposição começa no lado de fora do Museu. É uma festa! A Arte e a Cultura chamam milhares de pessoas ao Museu. Há famílias inteiras nas filas, há jovens e velhos, há quem partilhe chapéus e águas frescas, há quem brinque, há quem saltite nos degraus, há quem pinte, há quem represente pequenos trechos de peças de teatro, há caricaturas, há música. Há uma alegria que faz com quem nem se dê pelo tempo passar.
Se é verdade que as enormes filas à primeira vista assustam um pouco, também é um facto que a fila diminui rapidamente. E em meia hora ou, no máximo, 45 minutos estamos dentro do Museu.
Uma vez lá dentro, com ou sem áudio-guia, faz-se outra festa. O edifício é lindíssimo, arejado, cheio de luz, fresco, corredores longos e inspiradores. Três pisos com muita informação, tudo bem organizado, dividido por colecções, com sugestões de percursos assinalados no chão, locais para descansar, elevadores de vidros transparentes que nos oferecem vistas de Madrid, exteriores ao Museu.
Sigo as pistas que me levam à colecção de Dali, como uma criança a entrar num castelo encantado. Há magia. Dali entra em mim como um balão de oxigénio para a mente e para os sentidos. Oxigénio. Inspiro. Sinto-o. Génio Salvador Dali.
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| Museu Rainha Sofia, fotografia Ana Catarina Santos |
Mas desta vez fui de propósito por causa dele. Aquele homem de bigode afiado e olhar tresloucado que tanto me prende. Não percebo nada de arte, ou gosto ou não gosto. E eu gosto de Salvador Dali.
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| Museu Rainha Sofia, fotografia Ana Catarina Santos |
A Exposição é temporária e está acessível apenas até ao próximo dia 2 de Setembro 2013. E é imperdível. Vale a pena uma visita a Madrid só para conhecer esta Exposição: "Dali - todas as sugestões poéticas e todas as possibilidades plásticas".
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| Museu Rainha Sofia - exterior, fotografia Ana Catarina Santos |
O bom desta Exposição começa no lado de fora do Museu. É uma festa! A Arte e a Cultura chamam milhares de pessoas ao Museu. Há famílias inteiras nas filas, há jovens e velhos, há quem partilhe chapéus e águas frescas, há quem brinque, há quem saltite nos degraus, há quem pinte, há quem represente pequenos trechos de peças de teatro, há caricaturas, há música. Há uma alegria que faz com quem nem se dê pelo tempo passar.
Se é verdade que as enormes filas à primeira vista assustam um pouco, também é um facto que a fila diminui rapidamente. E em meia hora ou, no máximo, 45 minutos estamos dentro do Museu.
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| Museu Rainha Sofia - exterior, fotografia Ana Catarina Santos |
Uma vez lá dentro, com ou sem áudio-guia, faz-se outra festa. O edifício é lindíssimo, arejado, cheio de luz, fresco, corredores longos e inspiradores. Três pisos com muita informação, tudo bem organizado, dividido por colecções, com sugestões de percursos assinalados no chão, locais para descansar, elevadores de vidros transparentes que nos oferecem vistas de Madrid, exteriores ao Museu.
Sigo as pistas que me levam à colecção de Dali, como uma criança a entrar num castelo encantado. Há magia. Dali entra em mim como um balão de oxigénio para a mente e para os sentidos. Oxigénio. Inspiro. Sinto-o. Génio Salvador Dali.
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| Museu Rainha Sofia - Pormenor da Assinatura de Salvador Dali Fotografia Ana Catarina Santos |
Deseo
Deseo
Sólo tu corazón caliente,
y nada más.
Mi paraíso un campo
sin ruiseñor
ni liras,
con un río discreto
y una fuentecilla.
Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.
Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de otra,
en un campo
de miradas rotas.
Un reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.
Y tu corazón caliente,
nada más.
Sólo tu corazón caliente,
y nada más.
Mi paraíso un campo
sin ruiseñor
ni liras,
con un río discreto
y una fuentecilla.
Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.
Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de otra,
en un campo
de miradas rotas.
Un reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.
Y tu corazón caliente,
nada más.
Federico García Lorca
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| Salvador Dali |
terça-feira, 21 de maio de 2013
Palhaços, eles
De dez em dez metros, em alguns casos talvez de vinte em vinte,
vi pessoas a pedir dinheiro nas ruas. Umas de braço estendido, outras esperando
apenas, olhando para baixo, sem interpelarem quem passa. Pessoas de braço
estendido. Madrid sente nas veias o desemprego e a pobreza. Tanta gente a pedir
esmola…
Vi um palhaço triste. Não estava a actuar para as crianças. Nem
estava a fazer ninguém rir. Estava triste. Um homem vestido de palhaço, a pedir
esmola.
Estava sentado no banco alto de madeira, com um pé no chão e
outro na trave do banco de pinho claro. Sapatos vermelhos, tamanho 52 talvez.
Sapatos grandes, de palhaço.
Tinha a cara pintada de branco, como os palhaços. Um nariz
vermelho de palhaço. Uma peruca com caracóis verdes, amarelos e azuis, de
palhaço. Olhos meigos. Rugas no rosto.
No chão, junto ao banco de madeira, mostrava um cartaz
escrito em papelão. “Tengo hambre”. Hoje não consigo fazer-vos rir. Tenho fome. Dá-me um sorriso.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Por las calles de Madrid
Estive em Madrid e, mais uma vez, “renovei votos” com a
cidade. Adoro a energia que transmite, a alegria das avenidas, a naturalidade
das pessoas, o falar alto, o tratarem-te por tu, as mulheres arranjadas, os
narizes orgulhosos, as gargalhas, os cigarros acesos como se fossem a extensão natural
das mãos, as ruas cheias de gente, a luminosidade.
Mas Madrid tem, agora, outras pessoas. Ou talvez sejam as
mesmas, mas sem gargalharem e gesticularem de caña na mão encostadas à barra de
tapas. Madrid tem mais, muito mais, pessoas que estão sem-abrigo. Nunca vi
tanta gente a dormir na rua como vi por estes dias em Madrid. A crise tem
rostos, não existe apenas nos mapas estatísticos dos gabinetes.
Não gosto de olhar quem dorme na rua, olhos nos olhos. Sinto-me
uma invasora. É como se estivesse a espreitar para dentro de casa de alguém. Não
paro para olhar. Mas, de soslaio, à medida que percorria as ruas do centro, de
dez em dez metros lá estava um monte de mantas, sacos, papelão. E pessoas. Várias.
Espalhadas pela cidade. Pessoas. Vi casais. Vi pessoas sozinhas. Como eu, como
tu. Pessoas sem tecto. Pessoas sem casa.
Numa das esquinas junto à Praça Callao, em plena Gran Via, passei
por ela várias vezes. Uma pessoa a quem nunca vi o rosto. Não sei se mulher ou
homem, não sei se nova ou velha. Uma pessoa. Por baixo das mantas enxovalhadas vi a ponta
de um par de chinelos de plástico que pareciam ser um número pequeno – um 36 ou
37, talvez. E vi uma caixa de madeira que, outrora, teria transportado fruta fresca para um mercado. Servia de mesa-de-cabeceira. Estava virada ao contrário. Por baixo da caixa, havia alguns
objectos pessoais. Ao lado, encostada à parede, estava uma vassoura com um
pano amarelo enrolado, terminando com um nó.
Aquela pessoa vive ali, não tinha apenas passado ali aquela
noite. Aquela pessoa não tem casa, mas já teve e quer voltar a ter. Que ironia…
A crise que empurrou aquela pessoa para a rua é a mesma que mantém incomportáveis
os preços das casas e blindado o acesso ao crédito.
Bendita a opção de, uma vez na rua, ter ido viver para a avenida
mais cara da cidade. Um metro quadrado na Gran Via ronda os seis mil euros. Aquela
pessoa deitada juntamente com os respectivos pertences, ocupariam uns bons doze
mil euros.
Todos os sem-abrigo de Espanha deviam rumar à Gran Via! Todos!
Ocupariam cada metro quadrado daquela avenida de ouro, para envergonharem os
políticos, os banqueiros, os especuladores, os ladrões que passam nos Mercedes,
fumando charutos pagos com a miséria dos outros.
Todos os sem-abrigo à Gran Via! Todos os sem-tecto à Gran Via! Afinal, um T0 na Gran Via custa apenas doze mil euros. A avenida-postal de
Madrid transformar-se-ia numa manta de retalhos de pessoas que foram postas na
rua. Já que estão (estamos) na rua, ao menos que estejam(os) na mais cara.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
39 dias depois
Já passou demasiado tempo desde a última vez que nos vimos. 1
de Abril. Parece mentira… De cada vez que nos encontramos, renovamos promessas.
Que vamos ver-nos mais vezes, que temos de marcar – não, não é preciso marcar,
basta aparecermos, será sempre uma alegria; que temos de conversar mais,
conviver mais. É sempre assim. E, vê bem, passaram 39 dias. Como é possível?
Mas é bom, mesmo passado esse tempo, chegar aqui para te reencontrar,
sem aviso prévio, e sentir-te de braços abertos e sorriso escancarado. Gosto mesmo
de estar aqui contigo.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Peixinhos da horta em Hiroshima
Há um silêncio estranho na cidade. Aqui ouvem-se mais os corvos.
Gosto dos de Hiroshima.
Sol na esplanada. O Rio Motoyasu-gawa sereno. As cerejeiras em flor ao longo de todo o Rio.
Também vi muitos corvos, enormes, em Kyoto. Mas aqui, lá de cima, gritam mais alto. Ou o silêncio aqui em baixo é mais forte.
Escrevo numa esplanada junto ao Rio Motoyasu-gawa e sinto que tudo nesta zona tem uma carga dramática. Estou no Parque da Paz, em Hiroshima, junto ao Memorial da Bomba Atómica.
As pessoas agem com respeito. Como se não quisessem interromper uma oração, uma reflexão. As pessoas em Hiroshima cumprimentam-se. Sorriem. Em silêncio.
Por que gritam os corvos? Shiuh!
Na esplanada os empregados correm para servir os clientes. Correm literalmente, para não fazerem ninguém esperar. E pedem desculpa por tudo e por nada.
Hiroshima é uma cidade estranha. Incomoda-me a memória. Aviva-me a história que ditou milhares de mortos e milhares de vivos estropiados. E por isso vêem aqui milhões de turistas, como eu. Hiroshima teve a minha visita pelas piores razões. Vem no mapa não por ser quem é, mas por ter sido tratada como foi.
Mais um sorriso dócil que passa e me cumprimenta. São amáveis, os de Hiroshima.
Ouço, com cadência certa, sinos. Tocam ao longe, no parque, assinalando a memória.
A cidade tenta combater a memória de cinzas de todas as maneiras. É colorida, as fachadas dos prédios são amarelas, laranja, vermelhas. Por todo o lado há placas e cartazes coloridos com os lema da cidade, repetindo para que se torne verdade que Hiroshima vale a pena, que aqui há sentimento, alegria, que há cor e vida, não apenas memória de cinzas de uma destruição em massa. "Love the city", "Color your life in Hiroshima", "Be happy", "Make love not war in Hiroshima!", vou lendo aqui e ali.
Interrompem-me a escrita.
- "Can I take a photo?"
- "What?"
- "Photo. You. Ye, ye, ye, ye..."
Ri-se. E baixa a cabeça. Quase pede desculpa.
- "Sorry. Ok?"
E curva-se à minha frente com uma máquina fotográfica na mão.
- "Sure!"
(Avisaram-me que isto podia acontecer fora das grandes cidades. Tiram fotografias aos turistas e pedem para ser fotografados ao lado deles.)
Sorrio para a foto na esplanada. Está sol. O meu cabelo brilha. Os meus olhos também.
Clic.
- "Another, please?"
Agora com o telemóvel.
- "Yes, sure!"
Sorrio. Um vento sereno no meu cabelo.
Clic.
- "Thank you, thank you! Beautiful, beautiful!"
Sorrio. O empregado de mesa aproxima-se.
- "Can I take a photo?"
- "What?"
- "Photo. You. Ye, ye, ye, ye..."
Ri-se. E baixa a cabeça. Quase pede desculpa.
- "Sorry. Ok?"
E curva-se à minha frente com uma máquina fotográfica na mão.
- "Sure!"
(Avisaram-me que isto podia acontecer fora das grandes cidades. Tiram fotografias aos turistas e pedem para ser fotografados ao lado deles.)
Sorrio para a foto na esplanada. Está sol. O meu cabelo brilha. Os meus olhos também.
Clic.
- "Another, please?"
Agora com o telemóvel.
- "Yes, sure!"
Sorrio. Um vento sereno no meu cabelo.
Clic.
- "Thank you, thank you! Beautiful, beautiful!"
Sorrio. O empregado de mesa aproxima-se.
O rapaz percebeu. Não quer incomodar.
- "Sorry. Sorry. Sorry..."
Três vezes.
Sorrio mais ainda.
- "It's ok!"
- "Sorry. Sorry. Sorry..."
Três vezes.
Sorrio mais ainda.
- "It's ok!"
Gosto dos de Hiroshima.
Sol na esplanada. O Rio Motoyasu-gawa sereno. As cerejeiras em flor ao longo de todo o Rio.
Cheira bem, o prato. Chegaram os meus peixinhos da horta de Hiroshima.
"Tempura", expliquei-lhe, "é uma palavra portuguesa".
- "What? I don't understand."
- "Tempura", insisti apontando para o prato.
Não percebeu que estava a tentar explicar-lhe que tempura tem origem no português "tempero".
- "Tempura", insisti apontando para o prato.
Não percebeu que estava a tentar explicar-lhe que tempura tem origem no português "tempero".
E repetia, sorrindo e apontando para o prato já à minha frente: "Yes, tempura. Good, good".
- "Never mind. This tempura is delicious!".
Que maravilhosos peixinhos da horta!
Que maravilhosos peixinhos da horta!
domingo, 24 de março de 2013
Quase como na primeira vez
Estou a poucas horas de cumprir um grande sonho. Há muito, muito tempo que sonho com esta viagem. Sinto-me como se fosse viajar pela primeira vez. Nervosa, ansiosa, só sorrisos.
A minha primeira viagem de avião foi a Cuba. Ainda era tudo Fidel, só Fidel. Viajei na companhia Air Cubana que, à data, era a mais barata. Uma alegria. Cantar, rir, falar, medo, nervos, sono, magia, ar, céu, amigos, altura, sem rede.
Ninguém dormiu. Estava uma animação naquele avião que não podia imaginar. Ainda foi no tempo em que se fumava no avião e, como boa companhia de bandeira, as simpáticas hospedeiras cubanas ofereciam charutos a quem quisesse. Não pedi, nem fumei. Mas parece que ainda hoje sinto a nuvem de fumaça dos cubanos entrenhada em mim. Não me incomoda, não protestei e até achei piada.
Além de charutos as hospedeiras vestidas de azul, branco e vermelho também ofereciam rum. Um rum "da casa", muito manhoso, em copos de plástico. Esse, não rejeitei.
A ferrugem que se via junto às janelas serviu para os meus amigos me atormentarem toda a viagem. E gritavam "vamos cair, vamos cair!" de cada vez que uma turbulência interrompia as nossas gargalhadas. Eu olhava pela janela e só me fixava na ferrugem junto ao vidro. "E se há ferrugem também no motor!", perguntava-me querendo manter o sorriso exterior.
"Un Ron más?"
"Si, gracias. Como no?"
(O Rum era horrível, amarelo, quase detergente. Também acho que foi a primeira vez que bebi Rum. Pelo menos amarelo com sabor a Super Pop Limão.)
Foi uma viagem inesquecível a todos os níveis, a bordo da mítica Air Cubana. Habana abraçou-me com todo o calor e alegria e ainda hoje guardo Cuba no coração.
Lembro-me que a ansiedade que tinha na véspera de embarcar para Cuba é muito semelhante à que sinto hoje. Não tem a ver com o receio de andar pela primeira vez de avião, que à data. Tem a ver com a alegria da partida, com a aventura, com o fazer as malas eufórica, com o desconhecido, com o improviso, com o enriquecimento pessoal, com o crescer, com o sentir a vida.
Sinto, por estas horas, a mesma euforia. Tão feliz...
A tentação do Oriente acompanha-me há demasiado tempo para tê-la subestimado sucessivamente. Estou ansiosa por aterrar na terra do Sol Nascente.
A minha primeira viagem de avião foi a Cuba. Ainda era tudo Fidel, só Fidel. Viajei na companhia Air Cubana que, à data, era a mais barata. Uma alegria. Cantar, rir, falar, medo, nervos, sono, magia, ar, céu, amigos, altura, sem rede.
Ninguém dormiu. Estava uma animação naquele avião que não podia imaginar. Ainda foi no tempo em que se fumava no avião e, como boa companhia de bandeira, as simpáticas hospedeiras cubanas ofereciam charutos a quem quisesse. Não pedi, nem fumei. Mas parece que ainda hoje sinto a nuvem de fumaça dos cubanos entrenhada em mim. Não me incomoda, não protestei e até achei piada.
Além de charutos as hospedeiras vestidas de azul, branco e vermelho também ofereciam rum. Um rum "da casa", muito manhoso, em copos de plástico. Esse, não rejeitei.
A ferrugem que se via junto às janelas serviu para os meus amigos me atormentarem toda a viagem. E gritavam "vamos cair, vamos cair!" de cada vez que uma turbulência interrompia as nossas gargalhadas. Eu olhava pela janela e só me fixava na ferrugem junto ao vidro. "E se há ferrugem também no motor!", perguntava-me querendo manter o sorriso exterior.
"Un Ron más?"
"Si, gracias. Como no?"
(O Rum era horrível, amarelo, quase detergente. Também acho que foi a primeira vez que bebi Rum. Pelo menos amarelo com sabor a Super Pop Limão.)
Foi uma viagem inesquecível a todos os níveis, a bordo da mítica Air Cubana. Habana abraçou-me com todo o calor e alegria e ainda hoje guardo Cuba no coração.
Lembro-me que a ansiedade que tinha na véspera de embarcar para Cuba é muito semelhante à que sinto hoje. Não tem a ver com o receio de andar pela primeira vez de avião, que à data. Tem a ver com a alegria da partida, com a aventura, com o fazer as malas eufórica, com o desconhecido, com o improviso, com o enriquecimento pessoal, com o crescer, com o sentir a vida.
Sinto, por estas horas, a mesma euforia. Tão feliz...
A tentação do Oriente acompanha-me há demasiado tempo para tê-la subestimado sucessivamente. Estou ansiosa por aterrar na terra do Sol Nascente.
quarta-feira, 20 de março de 2013
Hanami Matsuri
Hanami Matsuri – o festival das flores de cerejeira
O Hanami Festival significa “contemplar ou apreciar” as flores de cerejeira, ou Sakura como é chamado no Japão. Nesta época, entre fim de Março e meados de Abril ou Maio, dependendo da região, várias espécies de cerejeiras florescem por todo Japão, geralmente em Parques, Templos e outras áreas de lazer. Aqui agrupam-se milhares de pessoas para apreciar esse espectáculo, não só dos japoneses, mas milhares de turistas estrangeiros que visitam o arquipélago nesta época do ano.
Neste Festival, o foco principal é o Sakura, símbolo da Primavera no Japão e realizam-se inúmeras atividades, envolvendo esse tema. A principal atividade é com certeza, o tradicional piquenique sob as árvores repletas de flores da cerejeira. Essa tradição já existe há séculos e é praticada pela maioria das famílias japonesas durante e Equinócio da Primavera no Japão (Shunbun no Hi).
É, por isso, comum haver uma sobrelotação dos espaços verdes e muita dificuldade para encontrar bons lugares para se fazer um piquenique. Tanto, que alguns parques até aceitam reservas das famílias, que muitas vezes o fazem com bastante antecedência. Outras famílias chegam a madrugar para chegar cedo aos parques e assim garantir um lugar agradável para reunir a família.
O momento em que as flores de cerejeira florescem é muito especial para o povo do Japão, pois duram apenas de uma semana a 10 dias. Por isso, durante o Hanami, os japoneses chegam de manhã e costumam ficar até escurecer, para aproveitar ao máximo a beleza das flores. São apenas dez dias, pois ao fim desse tempo elas cairão das árvores e as pétalas hão-de espalhar-se pelo chão, formando um imenso tapete rosa ou branco.
Existem mais de cem espécies de Sakurá no Japão, que variam de acordo com a cor das flores, folhas, tempo de floração e formação da árvore. E tal como existem cerejeiras de várias espécies, também o real significado do Hanami varia de pessoa para pessoa e de família para família. O mais poético é o simbolismo da flor com a brevidade da vida, devido à sua efemeridade.
Os amigos e as famílias reúnem-se para contemplar as flores e também para falarem sobre a vida. Tiram o dia para relaxar e saborear comidas típicas japonesas como oniguiri, sushi entre outros, levados de casa, além de bebidas que vão desde chás à bebidas alcoólicas como cerveja e e saquê.
História do Hanami
Segundo a lenda, a tradição do Hanami já existe há milénios. Começou durante o Período Nara, quando a dinastia Tang da China influenciava o Japão em muitos aspectos. Um deles seria o costume de apreciar as flores. No período Heian (794-1191), além do Sakura, outra floração também muito apreciada eram as flores da árvore de Ume.
A contemplação das flores de Sakura também tinham um simbolismo religioso. As pessoas acreditavam na existência de deuses dentro das árvores e faziam oferendas às raízes das árvores de Sakura para pedir sorte e boas colheitas.
O Sakura também foi considerado o símbolo do amor antigamente, onde as mulheres enfeitavam os cabelos com um galho de Sakura ou decoravam o quintal das suas casas com as flores para mostrar que estavam em busca de um amor.
Se, originalmente, a contemplação das flores se destinava à elite da corte imperial, com o passar dos anos, essa prática estendeu-se a artistas, poetas e músicos que contemplavam a maravilhosa floração de Sakura em busca de inspiração para suas artes. Com isso, a Sakura também ganhou um significado poético e filosofal devido à sua breve floração que dura cerca de apenas dez dias.
Há inúmeros poemas escritos sob as cerejeiras. Elogiam as flores delicadas e estabelecem metáforas e comparações com a própria vida humana: luminosa e bela, embora efêmera e transitória. A flor é comparada à brevidade da nossa própria existência.
Texto sem autor identificado. Texto e fotos retirados do site Japão em Foco.
20 Março 2013.
O Hanami Festival significa “contemplar ou apreciar” as flores de cerejeira, ou Sakura como é chamado no Japão. Nesta época, entre fim de Março e meados de Abril ou Maio, dependendo da região, várias espécies de cerejeiras florescem por todo Japão, geralmente em Parques, Templos e outras áreas de lazer. Aqui agrupam-se milhares de pessoas para apreciar esse espectáculo, não só dos japoneses, mas milhares de turistas estrangeiros que visitam o arquipélago nesta época do ano.
Neste Festival, o foco principal é o Sakura, símbolo da Primavera no Japão e realizam-se inúmeras atividades, envolvendo esse tema. A principal atividade é com certeza, o tradicional piquenique sob as árvores repletas de flores da cerejeira. Essa tradição já existe há séculos e é praticada pela maioria das famílias japonesas durante e Equinócio da Primavera no Japão (Shunbun no Hi).
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| Hanami no Parque Gyouen, em Shinjuku |
É, por isso, comum haver uma sobrelotação dos espaços verdes e muita dificuldade para encontrar bons lugares para se fazer um piquenique. Tanto, que alguns parques até aceitam reservas das famílias, que muitas vezes o fazem com bastante antecedência. Outras famílias chegam a madrugar para chegar cedo aos parques e assim garantir um lugar agradável para reunir a família.
O momento em que as flores de cerejeira florescem é muito especial para o povo do Japão, pois duram apenas de uma semana a 10 dias. Por isso, durante o Hanami, os japoneses chegam de manhã e costumam ficar até escurecer, para aproveitar ao máximo a beleza das flores. São apenas dez dias, pois ao fim desse tempo elas cairão das árvores e as pétalas hão-de espalhar-se pelo chão, formando um imenso tapete rosa ou branco.
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| Cerejeiras no Japão |
Existem mais de cem espécies de Sakurá no Japão, que variam de acordo com a cor das flores, folhas, tempo de floração e formação da árvore. E tal como existem cerejeiras de várias espécies, também o real significado do Hanami varia de pessoa para pessoa e de família para família. O mais poético é o simbolismo da flor com a brevidade da vida, devido à sua efemeridade.
Os amigos e as famílias reúnem-se para contemplar as flores e também para falarem sobre a vida. Tiram o dia para relaxar e saborear comidas típicas japonesas como oniguiri, sushi entre outros, levados de casa, além de bebidas que vão desde chás à bebidas alcoólicas como cerveja e e saquê.
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| Festival Hanami |
História do Hanami
Segundo a lenda, a tradição do Hanami já existe há milénios. Começou durante o Período Nara, quando a dinastia Tang da China influenciava o Japão em muitos aspectos. Um deles seria o costume de apreciar as flores. No período Heian (794-1191), além do Sakura, outra floração também muito apreciada eram as flores da árvore de Ume.
O Sakura também foi considerado o símbolo do amor antigamente, onde as mulheres enfeitavam os cabelos com um galho de Sakura ou decoravam o quintal das suas casas com as flores para mostrar que estavam em busca de um amor.
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| Sakura |
Há inúmeros poemas escritos sob as cerejeiras. Elogiam as flores delicadas e estabelecem metáforas e comparações com a própria vida humana: luminosa e bela, embora efêmera e transitória. A flor é comparada à brevidade da nossa própria existência.
Texto sem autor identificado. Texto e fotos retirados do site Japão em Foco.
20 Março 2013.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Sacana implacável
Ir velar um corpo é sempre uma missão estranha. Velar um
corpo. A expressão é antiga, quase popular, mas comporta em si mesma uma enorme
carga dramática. Velar, de velório. Velar, de vela acesa ao lado de um corpo.
Velar até podia ser bonito: velar, de vela, de barco à vela,
de mar, de como quem ganha vento e invade o mar, soltando amarras da terra. Velar.
Volar. Voar. Em paz.
Mas não. Os velórios que frequento não são leves. E são cada
vez mais frequentes.
A idade é proporcional ao número de pessoas que velamos. Cada
vez vou a mais funerais. Não que morra mais gente, mas que a minha gente tem
mais idade, e eu tenho mais idade, e as pessoas com mais idade morrem mais.
Lá fui velar o corpo de uma pessoa que nunca tinha visto. Ir
velar um corpo que a mim não me diz nada, mas que diz muito a uma pessoa que a
mim me diz muito.
A morte é sempre uma sacana implacável que ataca quem lhe
apetece. Lá se saciou mais uma vez, luxuriante.
A família entre o aperto da perda e o conforto da presença
dos outros. A pessoa que me diz muito [abraço-te] que perdeu a pessoa que eu não
conhecia [abraço-te muito] agradecia incomodado, tímido, entre o aperto da
perda e o conforto da presença dos outros. Que não devíamos ter ido, que andamos
a apanhar chuva, que são tantos quilómetros, que somos malucos, que não fazia
falta, que se fazia tarde, que era melhor irmos andado, que – por favor – regressássemos
devagar.
Não me aproximei do morto, apenas da pessoa para quem o
morto era importante. Nem sequer lhe vi o rosto, a não ser na fotografia à
entrada da igreja. Não quero conhecer já morta uma pessoa que não conheci viva.
Não vou poder cumprimentá-la nem procurar-lhe o olhar, ver-lhe os dentes no
sorriso.
Não avancei para além da penúltima fila de bancos da igreja.
Só vi o corpo ao longe. Mas consegui ver-lhe a calvície. O alto da cabeça de um
morto. Uma cabeça morta. Sem um único cabelo morto. Um senhor calvo. A morte não
poupa sequer os calvos.
Dei por mim a imaginar-lhe a vida e a construir histórias. Quem
seria, como seria, quem deixaria, que me contaria, que lhe perguntaria, como
seria a sua gargalhada, o seu tom de voz.
O melhor do mundo é conhecer as pessoas e as suas histórias. Vivas. Neste caso,
cheguei tarde de mais. Ouvi falar muito de si. Gostava de o ter conhecido antes.
sexta-feira, 8 de março de 2013
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013
[In] Fusão
É a tua ou a minha pele que se levanta?
Tens o sangue em erupção.
O meu? Ou o teu?
Beija-me.
Esses lábios são os meus.
Dá-me a mão.
Aperta-me os poros.
Sinto o teu coração a bater aqui dentro.
É o teu.
Baralhas-me.
Sente-me agora os mamilos.
Essa tua língua...
Essa é a tua.
Agarra-me, não me saias de dentro.
Tens o pé a escaldar.
É a mão.
Estás tão quente.
És tu.
Falta-me o ar.
E a mim.
Não me dês espaço. Nem ar.
Escorregamos.
Cheiro a tua pele suada.
É saliva.
Beija-me, amor.
Que calor.
Morde-me o lábio devagar.
Divagar.
É teu, este queixo ou meu?
Não sei.
Sussurra-me.
Namoro-te a orelha.
Ouves-me?
Não sei. Sinto-te.
O meu pescoço vermelho.
Estou tonta.
Não me caias.
As tuas coxas respiram.
Ofegantes.
Estremeço.
Tu também?
Estremeço.
Sentes-me a cintura.
Sinto-te.
Por dentro.
Estremeço.
Deslizo-me.
Por dentro, meu amor.
És tu?
Acho que sou eu.
Beija-me.
Com todos os teus lábios.
E os meus.
Onde estás?
Em ti.
Em mim.
Beija-nos, então.
Por dentro.
Tens o sangue em erupção.
O meu? Ou o teu?
Beija-me.
Esses lábios são os meus.
Dá-me a mão.
Aperta-me os poros.
Sinto o teu coração a bater aqui dentro.
É o teu.
Baralhas-me.
Sente-me agora os mamilos.
Essa tua língua...
Essa é a tua.
Agarra-me, não me saias de dentro.
Tens o pé a escaldar.
É a mão.
Estás tão quente.
És tu.
Falta-me o ar.
E a mim.
Não me dês espaço. Nem ar.
Escorregamos.
Cheiro a tua pele suada.
É saliva.
Beija-me, amor.
Que calor.
Morde-me o lábio devagar.
Divagar.
É teu, este queixo ou meu?
Não sei.
Sussurra-me.
Namoro-te a orelha.
Ouves-me?
Não sei. Sinto-te.
O meu pescoço vermelho.
Estou tonta.
Não me caias.
As tuas coxas respiram.
Ofegantes.
Estremeço.
Tu também?
Estremeço.
Sentes-me a cintura.
Sinto-te.
Por dentro.
Estremeço.
Deslizo-me.
Por dentro, meu amor.
És tu?
Acho que sou eu.
Beija-me.
Com todos os teus lábios.
E os meus.
Onde estás?
Em ti.
Em mim.
Beija-nos, então.
Por dentro.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Todo Cambia
A argentiníssima, "La Negra", Mercedes Sosa.
Todo cambia.
Tudo muda…
Porque a vida é feita de mudança.
domingo, 3 de fevereiro de 2013
Não me ouças apenas
Olha para cima. O que vês?
Tens que abrir os olhos, ou não vais conseguir ver.
Abre-os, vá. Devagar.
Não tenhas medo. Estou aqui. Ouves a minha voz? Sou eu.
Vou aproximar-me do teu ouvido.
Olá.
Sou eu.
Hoje saiu o sol.
Há uns dias seguidos amanhecia o nevoeiro em vez do sol. Mas hoje o nevoeiro ficou na cama, preguiçoso de domingos. O sol aqueceu o rio, que estava mais azul que ontem.
Sentes a brisa? Este ar fresco de limão.
Abre os olhos, vá.
Não te assustes, vou tocar-te na mão.
Sentes a minha mão? Nem sorris?
Sinto-te a pele.
Já estamos de mãos dadas.
Dedos. Pele. Carne e osso.
Anda, abre os olhos para mim. Se não para mim, para o céu. Ou para o sol, que hoje não há nevoeiro.
Quero olhar-te por dentro. As pálpebras são como as capas dos livros, para serem abertas. Anda.
Deixa-te disso, dos olhos fechados.
Respira.
Tens que abrir os olhos, ou não vais conseguir ver.
Abre-os, vá. Devagar.
Não tenhas medo. Estou aqui. Ouves a minha voz? Sou eu.
Vou aproximar-me do teu ouvido.
Olá.
Sou eu.
Hoje saiu o sol.
Há uns dias seguidos amanhecia o nevoeiro em vez do sol. Mas hoje o nevoeiro ficou na cama, preguiçoso de domingos. O sol aqueceu o rio, que estava mais azul que ontem.
Sentes a brisa? Este ar fresco de limão.
Abre os olhos, vá.
Não te assustes, vou tocar-te na mão.
Sentes a minha mão? Nem sorris?
Sinto-te a pele.
Já estamos de mãos dadas.
Dedos. Pele. Carne e osso.
Anda, abre os olhos para mim. Se não para mim, para o céu. Ou para o sol, que hoje não há nevoeiro.
Quero olhar-te por dentro. As pálpebras são como as capas dos livros, para serem abertas. Anda.
Deixa-te disso, dos olhos fechados.
Respira.
Olha para mim.
Não me ouças apenas.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Retratos de mim
Excertos do Prefácio que escrevi para o Catálogo da Exposição de Fotografia "Metáforas do Eu", de Francisco Mendes*.
«A Lua rodeada
de carrinhos de brincar e uma pista de comboios. A Lua de fato e gravata a
ensinar idioma cósmico às baleias. A Lua a correr na areia da praia com as
estrelas-do-mar. A Lua com as crateras sujas de terra preta a lavrar alfaces e
a regar couves. A Lua, de bengala e cartola, a fazer truques de magia à porta
do jardim-de-infância.
Ele quis
fotografar a Lua, o Eu da Lua.
E falou-lhe
dessa hipótese numa noite em que ela estava cheia. A Lua escutou-o em silêncio.
Ele, alto e esguio, ainda assim teve de esticar o pescoço para poder vê-la mais
de perto. As estrelas ali ao lado cintilavam de curiosidade. E ele explicava à
Lua cheia o que queria fotografar nela.
- “Primeiro
quero fotografar o teu interior, o que tu és ou o que tu achas que és. A
fotografia do ser. (Ele tratava a Lua por tu.) Em segundo lugar quero captar o
que revelas aos outros ou o que demonstras para o exterior. No fundo, o que tu
achas que os outros pensam que tu és, o que eles vêem em ti. É a fotografia do
ver. (E ela, atenta, escutava-o em silêncio. Cheia, brilhante. As estrelas cada
vez mais curiosas.) E, finalmente, quero fotografar a tua aspiração, aquilo que
tu verdadeiramente queres ser, o que sonhas ser. A fotografia do querer”.
A Lua respirou
fundo.
Enquanto ele falava ela já se imaginava de todas as maneiras. A Lua
amarrada com cordas grossas, tapada pelo brilho do Sol luminoso. A Lua vestida
de prata a entrar na Igreja para casar com Saturno, de fraque escuro. A Lua, de
cabelos soltos ao vento, a lançar papagaios de papel. A Lua a representar um papel
principal numa peça de teatro.
Ele
aguardou pela resposta da Lua. Perdeu noites de sono. E esperou…
Naquela noite
a Lua bateu-lhe à janela. Ele estava ansioso e deixou-a entrar com um sorriso.
Mas a Lua estava minguante. Ele percebeu a resposta. Não. Justificou que não
faria sentido, que ninguém entenderia aquele protagonismo de um mero satélite
da Terra. Ele rebateu, tentou demovê-la, persuadi-la do contrário. Até que a
Lua lhe apresentou o argumento decisivo. “Tu queres três retratos”. (A Lua
também o tratava por tu.) “Mas lembra-te que eu tenho quatro faces".
Ele
compreendeu. Fechou a janela. Voltou para a cama. E decidiu fotografar pessoas.»
| Francisco Mendes, Metáforas do Eu |
(...)
«Ele não ia
fotografar apenas pessoas. Ele ia fotografar as nossas águas furtadas. Nossas.
Minhas. Tuas. Tu. Eu. A três dimensões, isto é, em dimensão verdadeira, sem
rede, sem subterfúgios, só ele e nós. Eu. Identidade.
Habituados
a uma sociedade de modelos mais simples e maniqueístas, na permanente
dialéctica entre o bom e o mau, entre o justo e o não justo, entre a virtude e
a falência dela, entre o Sol e a Lua, entre a luz e as trevas, vemo-nos
confrontados aqui com uma terceira dimensão que torna tudo mais complexo. E
completo.
Na Antiguidade
Clássica, na Grécia antiga, enquanto as sereias libertavam sons e notas
musicais, numa harmonia infinita, também as figuras femininas que iluminavam a
esfera da viagem dos sábios pelo conhecimento cantavam continuamente um
tríptico: o passado, o presente e o futuro. Láquesis, Cloto e Átropos,
respectivamente. Sem quaisquer cortes, sem que se distinguisse qual a voz do
passado, a do presente ou a do futuro. Três vozes como se fosse uma só, porque
somos sempre passado, presente e futuro.»
| Francisco Mendes, Metáforas do Eu |
(...)
«Essa pergunta,
no fundo, fazemo-la todos os dias. Fá-la-emos até ao fim. Quando estivermos à
porta do céu ou do inferno para o julgamento das almas, alguém há-de
perguntar-nos: “E tu, quem és?”
“Quem sou?!”
Ouviremos um silêncio branco.
Nada.
“Quem sou…”
E aquele buraco negro de som.
[silêncio. pausa. branco. susto. silêncio. eu.]
“Quem sou eu”,
repetiremos para dentro sussurrando.
E ninguém para
nos ajudar. E ninguém para responder por nós. Apenas nós e o nosso silêncio.
Que responderemos? Na nossa mais profunda solidão, na nossa mais genuína
sinceridade, na nossa mais crua e visceral nudez de mundo, o que responderemos?
O que sou, o que vejo, ou o que quero…»
Ana Catarina
Santos
* Fotografias de Francisco Mendes
Exposição "Metáforas do Eu" - Projecto Zoom ID (responsabilidade social)
Em exibição no Espaço Cultural das Mercês, Príncipe Real
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Próxima paragem
Entrei num autocarro sem destino. Ou antes, tinha destino, eu é que não reparei qual era. Nunca o tinha feito. Aliás, há bastante tempo que não andava de autocarro.
Naquela tarde sentei-me no banco de uma paragem para ajeitar a bota e acabei por ficar ali, abrigada, à espera que a chuva parasse. Estava frio, além da chuva. Mais ninguém na paragem. Acabei de ajeitar a bota e assim que levanto o corpo e a cabeça, estava uma porta de um autocarro aberta à minha frente. E um sorriso do condutor da porta aberta e do cabelo encaracolado e do bluetooth no ouvido e do pullover azul. "Entre, entre que ainda se constipa", disse o sorriso. É claro que entrei. Sorriso com sorriso se paga. Às tantas ainda me constipava mesmo.
Paguei o bilhete com umas moedas. O sorriso agradeceu. A máquina arrancou sem pressas. Dei uns passos, escolhi vagamente o meu lugar, passei os olhos por quem me fixava e sentei-me. Estava quentinho lá dentro. Soube-me bem aquele atrevimento. Ir sem destino. Ir. E depois logo se vê. "Vou até à última paragem e se ficar demasiado longe, regresso na mesma volta". Nada que me preocupasse. Tinha tempo e tinha a percepção da finitude da jornada.
Abstraí-me.
O bom de não sermos nós a conduzir. Fixar as pessoas que entram e saem, atarefadas. A mulher com os sacos de plástico na mão e o guarda-chuva a pingar. Os dois rapazes de olhos presos aos telemóveis. A janela embaciada, os caracóis negros da rapariga colados ao vidro. E aquele prédio que não parecia tão amarelo mostarda, aquelas águas furtadas, os telhados, as varandinhas, aquela floreira, o Rio visto daqui.
Passei por zonas da cidade que não conhecia. O destino desconhecido.
Os que saem, os que entram, os que descem com passo firme, os que sabem para onde vão, os que mandam parar (stop - campainha - luz vermelha intermitente - próxima paragem - stop - parar - intermitente), os que seguem, os que esperam de pé.
É admirável.
As pessoas escolhem a paragem do seu destino. Saem nesta e não na outra porque sabem que a seguinte não lhes presta. Não hesitam entre uma saída e outra. Conhecem as consequências da saída que há-de vir. Mas só é assim nos transportes públicos. Nos outros comboios da vida nunca conhecemos a paragem seguinte.
"Ficamos por aqui? Mudamos? Saio nesta? Espero a próxima? E se a próxima ficar demasiado longe? E se esta for a última? Dá para voltar para trás? Qual é a próxima saída? Como escolher a certa? Quanto tempo até à próxima paragem? Há tempo para tomar a decisão? Esta ou a próxima que não sei quando é ou sequer se é?"
E de repente, um sorriso: "E a menina afinal para onde vai?"
Autocarro vazio. Só um sorriso. Dois, agora.
E, afinal, não me constipei.
Naquela tarde sentei-me no banco de uma paragem para ajeitar a bota e acabei por ficar ali, abrigada, à espera que a chuva parasse. Estava frio, além da chuva. Mais ninguém na paragem. Acabei de ajeitar a bota e assim que levanto o corpo e a cabeça, estava uma porta de um autocarro aberta à minha frente. E um sorriso do condutor da porta aberta e do cabelo encaracolado e do bluetooth no ouvido e do pullover azul. "Entre, entre que ainda se constipa", disse o sorriso. É claro que entrei. Sorriso com sorriso se paga. Às tantas ainda me constipava mesmo.
Paguei o bilhete com umas moedas. O sorriso agradeceu. A máquina arrancou sem pressas. Dei uns passos, escolhi vagamente o meu lugar, passei os olhos por quem me fixava e sentei-me. Estava quentinho lá dentro. Soube-me bem aquele atrevimento. Ir sem destino. Ir. E depois logo se vê. "Vou até à última paragem e se ficar demasiado longe, regresso na mesma volta". Nada que me preocupasse. Tinha tempo e tinha a percepção da finitude da jornada.
Abstraí-me.
O bom de não sermos nós a conduzir. Fixar as pessoas que entram e saem, atarefadas. A mulher com os sacos de plástico na mão e o guarda-chuva a pingar. Os dois rapazes de olhos presos aos telemóveis. A janela embaciada, os caracóis negros da rapariga colados ao vidro. E aquele prédio que não parecia tão amarelo mostarda, aquelas águas furtadas, os telhados, as varandinhas, aquela floreira, o Rio visto daqui.
Passei por zonas da cidade que não conhecia. O destino desconhecido.
Os que saem, os que entram, os que descem com passo firme, os que sabem para onde vão, os que mandam parar (stop - campainha - luz vermelha intermitente - próxima paragem - stop - parar - intermitente), os que seguem, os que esperam de pé.
É admirável.
As pessoas escolhem a paragem do seu destino. Saem nesta e não na outra porque sabem que a seguinte não lhes presta. Não hesitam entre uma saída e outra. Conhecem as consequências da saída que há-de vir. Mas só é assim nos transportes públicos. Nos outros comboios da vida nunca conhecemos a paragem seguinte.
"Ficamos por aqui? Mudamos? Saio nesta? Espero a próxima? E se a próxima ficar demasiado longe? E se esta for a última? Dá para voltar para trás? Qual é a próxima saída? Como escolher a certa? Quanto tempo até à próxima paragem? Há tempo para tomar a decisão? Esta ou a próxima que não sei quando é ou sequer se é?"
E de repente, um sorriso: "E a menina afinal para onde vai?"
Autocarro vazio. Só um sorriso. Dois, agora.
E, afinal, não me constipei.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Nus na noite
O pescoço adormecido na almofada treme ligeiramente à passagem da saliva. Os poros dilatados, deleitados, ajeitam-se para me deixar entrar. Percorre para lá e para cá, nas veias, um sangue selvagem. Respiração funda. Tronco firme, ligeiramente suado. A pele brilhante das pálpebras fechadas. Abertas. Pestanas. Uma mistura de cheiros. A alfazema da cama lavada. A pele, o suor, a saliva, o calor. O beijo, o aperto, o ar húmido, o incerto. O lençol a mais, a cama curta, as mãos inteiras, os lábios todos. Os lábios. A boca. Suave, suave. E os poros que dilatam. O sangue como um vinho aveludado vermelho rubi. Intenso, pleno, maduro, rubi. A chuva, ou o som dela. Um pingo. Outro. Outro. A respiração. A pele, os poros, a alma, os poros da alma. As formas que se pegam, as curvas que se cruzam, as pernas que se entalam. O mundo inteiro aqui. Os poros do mundo nus na noite de veludo. Eu e tu, nós, nus nos poros do mundo.
![]() |
| "Naked man and woman", Picasso (1967) |
sábado, 5 de janeiro de 2013
República
Nomes que pululam na minha cabeça
Górgias, Ménon, Fedro.
Fédon, Equécrates, Cármides, Lísis.
Teeteto, Polemarco, Trasímaco de Calcedónia.
Adimanto, irmão de Platão.
Sócrates, Nicérato, filho de Nicías
Lisías e Eutidemo, Céfalo.
Demóstenes, Eratóstenes,
Glaucón, irmão de Platão.
Carmantidas e Clitofonte
Sócrates.
Péricleas, Polidamas, Isménias de Tebas.
Pireu, Téages, Dionísio de Siracusa.
Batalha de Mégara, Mês de Thargelion (Junho).
Potone, irmã de Platão.
Timeu de Locros, Hermócrates e Crítias.
Lacques, Eutifron,
Philosophos, amigo do saber.
Philodoxos, amigo da opinião.
Contos de Alcínoo, Alquimos,
Er, Arménio, Panfília, Crátilo.
Antifonte, meio-irmão de Platão.
Orfeu, Ájax, Agamémnom, Ulisses.
Láquesis, Cloto, Átropos.
Letes, Ameles, Ananke.
Dikaios, virtude.
Dikaiosyne, totalidade das virtudes.
Megas agon, grande combate.
Sim. Estou a reler a República, de Platão.
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