quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Pára
Inventaram o pára-choques para protegermos a chapa dos embates.
Inventaram o pára-chuva para protegermos os cabelos dos pingos.
Inventaram o pára-brisas para podermos abrir os olhos na viagem.
Inventaram o paradeiro para podermos desfrutar a espera.
Inventaram o parapeito para podermos olhar as estrelas à janela.
Inventaram o parágrafo para podermos aplicar os pontos finais.
Inventaram o paradoxo para podermos hesitar e reflectir.
Até inventaram o paraíso, a promessa pintada do que há-de vir.
Como é que ninguém ainda inventou um pára-dor?
Nem ao menos um amortece-dor?
Inventaram o pára-chuva para protegermos os cabelos dos pingos.
Inventaram o pára-brisas para podermos abrir os olhos na viagem.
Inventaram o paradeiro para podermos desfrutar a espera.
Inventaram o parapeito para podermos olhar as estrelas à janela.
Inventaram o parágrafo para podermos aplicar os pontos finais.
Inventaram o paradoxo para podermos hesitar e reflectir.
Até inventaram o paraíso, a promessa pintada do que há-de vir.
Como é que ninguém ainda inventou um pára-dor?
Nem ao menos um amortece-dor?
![]() |
| Mi e Dor de Toamna Culoare Vita Vie Soalere Cald Si Picture |
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Opened door*
Quando a porta a que tanto batemos finalmente se abre não devemos perguntar porquê: porquê agora ou porquê eu ou será que é mesmo para mim. Abriu. Nada a declarar. Devemos simplesmente entrar a correr. Passar pela porta até aí fechada. Entrar. Antes que se feche outra vez.
* Texto inspirado numa sequência de diálogos da série The Good Wife
![]() |
| Monica Zúñiga |
* Texto inspirado numa sequência de diálogos da série The Good Wife
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Lista de espera
Entrou com pés de lã, como se apenas tivesse entrado uma sombra.
- Boa tarde, sussurrou baixinho.
- Olá, boa tarde. Diga.
Uma pausa. A chuva a bater na janela com mais força. Ambos os olhares apontam para lá.
- Diga, menina - insiste a mulher ao balcão.
- Precisava que me marcasse uma hora para sonhar.
- Para esta semana já não dá.
- Nem no Domingo?
- Boa tarde, sussurrou baixinho.
- Olá, boa tarde. Diga.
Uma pausa. A chuva a bater na janela com mais força. Ambos os olhares apontam para lá.
- Diga, menina - insiste a mulher ao balcão.
- Precisava que me marcasse uma hora para sonhar.
- Para esta semana já não dá.
- Nem no Domingo?
![]() |
| Enchanted Dolls - Marina Bychkova |
segunda-feira, 20 de janeiro de 2014
Jura
Cada vez que ouço a palavra "juro" penso sempre, à primeira impressão, que as pessoas que a dizem estão a mentir ou, pelo menos, a roçar a mentira.
As crianças dizem "juro" para garantirem aos pais e aos professores desconfiados, porventura com motivos, que não fizeram nada de errado. Mas os adultos não deviam dizer "juro" a não ser em Tribunal ou perante a Constituição da República.
Quando, a meio de uma conversa, me dizem "juro" ou me perguntam "jura?" apetece-me virar as costas. Jurar? Mas jurar porquê? A palavra não chega? Não acreditam no que se está a dizer?
Jurar o que se está a dizer é oferecer uma garantia caso o que se disse antes não seja verdade. É uma garantia verbal ao que a mesma pessoa acabou de dizer. Dita pela mesma pessoa. É um reforço de verdade como se a verdade existisse apenas em meias doses. É, portanto, uma irónica contradição.
Quando, a meio de uma conversa, me dizem "juro" ou me perguntam "jura?" apetece-me virar as costas. Jurar? Mas jurar porquê? A palavra não chega? Não acreditam no que se está a dizer?
Jurar o que se está a dizer é oferecer uma garantia caso o que se disse antes não seja verdade. É uma garantia verbal ao que a mesma pessoa acabou de dizer. Dita pela mesma pessoa. É um reforço de verdade como se a verdade existisse apenas em meias doses. É, portanto, uma irónica contradição.
- “Comprei isto por mil euros.”
- “Por mil euros? Só?! Não pode ser.”
- “Juro!”
Se não dissesse “juro” a outra pessoa não acreditaria? Só passou a acreditar depois de ter ouvido a palavra mágica? Uma palavra de valor reforçado que, no limite, pode também servir para reforçar uma mentira caso a primeira seja mentira também.
Qual a origem de "jurar"?
De juro ou juros? Bem sei que não, mas se fosse isso seria mesmo mau. Devia sempre ser evitado.
Se "jurar" vier de juridict, aceito que se aplique às questões ligadas à Justiça. Jurar dizer a verdade, apenas a verdade e nada mais do que a verdade. A justiça vive de rituais que devem ser preservados.
Mas, na verdade, a origem etimológica da palavra é do latim jurāre, ou seja dizer de forma única e definitiva.
Mas terá mais força uma palavra única como:
“Amo-te”
Ou uma frase de “valor reforçado” como:
“Juro que te amo”?
- “Por mil euros? Só?! Não pode ser.”
- “Juro!”
Se não dissesse “juro” a outra pessoa não acreditaria? Só passou a acreditar depois de ter ouvido a palavra mágica? Uma palavra de valor reforçado que, no limite, pode também servir para reforçar uma mentira caso a primeira seja mentira também.
Qual a origem de "jurar"?
De juro ou juros? Bem sei que não, mas se fosse isso seria mesmo mau. Devia sempre ser evitado.
Se "jurar" vier de juridict, aceito que se aplique às questões ligadas à Justiça. Jurar dizer a verdade, apenas a verdade e nada mais do que a verdade. A justiça vive de rituais que devem ser preservados.
Mas, na verdade, a origem etimológica da palavra é do latim jurāre, ou seja dizer de forma única e definitiva.
Mas terá mais força uma palavra única como:
“Amo-te”
Ou uma frase de “valor reforçado” como:
“Juro que te amo”?
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
Não se conhecem
Não se conhecem, nunca se viram. Cruzam-se casualmente.
Ele repara na mulher que tem à sua frente. Ela ainda não o viu. Ele fica siderado. Não tira os olhos dela. Ela vê um homem à sua frente. Não propriamente um homem. Vê uns olhos de homem parados, brilhantes, fixados em si.
Estão de frente um para o outro, porque aquele era o rumo que cada um seguia.
Ele caminha na direcção dela. Ela repara que ele o fixa. Olha-o, discretamente, ainda de longe. Ele não pára de a olhar e procura que ela se fixe nele. Ela desvia o olhar, inibida, enquanto caminha. Mas ela sabe que ele continua a fixá-la.
Nenhum desvia o trajecto. Vão-se aproximando. Nada existe à sua volta, nem trânsito, nem carros, nem lojas, nem árvores, nem outras pessoas. Só um e outro, quase em câmara lenta. Só os olhos de um e os olhos de outro.
Ele abranda o passo. Ar suspenso. Estão a segundos de se cruzarem.
Ela volta a olhá-lo. Um metro separa-os. Já quase sentem o cheiro um do outro. Ele cede e rende-se. Sorri, perdido. Ela responde com um leve trejeito de lábios. Um quase, quase sorriso.
Menos de um metro. Ela mexe no cabelo. Ele pára à sua frente.
- Se fosse num filme, agora oferecia-te uma flor.
![]() |
| Robot android woman holding a red rose (at Shutterstock) |
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Say something
Say something, I'm giving up on you
I'll be the one, if you want me to
Anywhere, I would've followed you
Say something, I'm giving up on you
And I am feeling so small
It was over my head
I know nothing at all
And I will stumble and fall
I'm still learning to love
Just starting to crawl
Say something, I'm giving up on you
I'm sorry that I couldn't get to you
Anywhere, I would've followed you
Say something, I'm giving up on you
And I will swallow my pride
You're the one that I love
And I'm saying goodbye
Say something, I'm giving up on you
And I'm sorry that I couldn't get to you
And anywhere, I would have followed you
Oh-oh-oh-oh say something, I'm giving up on you
Say something, I'm giving up on you
Say something
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Promessas
Não sou de grandes promessas. Aliás, nem grandes nem pequenas. Não sou de promessas, simplesmente.
O início do ano provoca-nos atitudes ritualizadas de prometermos a cada passa que engolimos, distraídos, à passagem das badaladas da meia-noite, um objectivo. Também não aprecio propriamente passas de uva. Gosto de uvas e de vinho, mas não especialmente de passas. Talvez isso justifique que nem sempre coma as doze na passagem de ano.
Na verdade, também não penso previamente nos doze desejos ou “promessas” que é suposto fazermos à meia-noite. Se calha a ter passas à mão, à meia-noite, como algumas. Se ninguém as tiver, não dou pela falta.
Doze badaladas. Gritos, champanhe, abraços, sorrisos. E o pensamento sincronizado com a data.
O início do ano provoca-nos atitudes ritualizadas de prometermos a cada passa que engolimos, distraídos, à passagem das badaladas da meia-noite, um objectivo. Também não aprecio propriamente passas de uva. Gosto de uvas e de vinho, mas não especialmente de passas. Talvez isso justifique que nem sempre coma as doze na passagem de ano.
Na verdade, também não penso previamente nos doze desejos ou “promessas” que é suposto fazermos à meia-noite. Se calha a ter passas à mão, à meia-noite, como algumas. Se ninguém as tiver, não dou pela falta.
Doze badaladas. Gritos, champanhe, abraços, sorrisos. E o pensamento sincronizado com a data.
Às vezes, confesso, penso num ou noutro desejo. Mas na verdade, penso em pessoas. Sim, à meia-noite pensei em pessoas. Mas continuo todo o ano a pensar nelas. Para mim, é fim de ano todo o ano.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
Caminharemos
Tenho sempre a sensação que me olhas de lado sempre que regresso depois de uns dias sem passar por aqui. Passaram poucos dias, aliás. Nem compreendo esse olhar de soslaio... Devias estar feliz, isso sim! Há blogues que acabam na viragem do ano, sabes disso, não sabes? Devias dar-te por satisfeito porque, obviamente, vais continuar em grande actividade em 2014.
Nunca vi um Diário com tamanha necessidade de atenção. Fiteiro!
Já sabes que por estes dias foi Natal, foi o Fim de Ano, as reuniões familiares, os jantares de amigos, e houve os fritos e os chocolates e o fogo de artifício e as passas. Não é que não me lembrasse de ti quase todos os dias, cheia de vontade de te tocar e de te contar tantas coisas. Mas, olha, não deu! Aqui estou a redimir-me. Desculpa. Prometo dar-te (ainda) mais atenção este ano.
Feliz Ano novo, querido Metafísico! Caminharemos juntos, também, em 2014.
Nunca vi um Diário com tamanha necessidade de atenção. Fiteiro!
Já sabes que por estes dias foi Natal, foi o Fim de Ano, as reuniões familiares, os jantares de amigos, e houve os fritos e os chocolates e o fogo de artifício e as passas. Não é que não me lembrasse de ti quase todos os dias, cheia de vontade de te tocar e de te contar tantas coisas. Mas, olha, não deu! Aqui estou a redimir-me. Desculpa. Prometo dar-te (ainda) mais atenção este ano.
Feliz Ano novo, querido Metafísico! Caminharemos juntos, também, em 2014.
sábado, 21 de dezembro de 2013
A Gente Vai Continuar
Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
quinta-feira, 19 de dezembro de 2013
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Eu não sou
Eu não sou chefe de Estado nem de Governo. Não tenho cargos nem tive. Não sou ninguém importante nem ex-nada. Não tenho motorista nem uso pins na lapela. Mas adorava poder estar naquele Estádio em Joanesburgo a viver este momento histórico. Já que não pude entrevistá-lo, ao menos estaria ali a sorrir, emocionada, por ele. Por nós.
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
Da privacidade
O Natal tem coisas maravilhosas. Mas também tem outras péssimas. Todos os dias fico surpreendida com as fotografias orgulhosamente colocadas em redes sociais e blogues, escancarando a intimidade da decoração de algumas Árvores de Natal de gosto duvidoso. Há recantos domésticos que eu, sinceramente, preferia não ter visto.
É como ter de ver, no Verão, algumas das pessoas que vejo todo o ano de fato e gravata com os pés refastelados em chinelos de enfiar no dedo.
É Natal, sim... Devemos ser solidários e tal... Mas não exageremos...
É como ter de ver, no Verão, algumas das pessoas que vejo todo o ano de fato e gravata com os pés refastelados em chinelos de enfiar no dedo.
É Natal, sim... Devemos ser solidários e tal... Mas não exageremos...
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Vermelho da Cor do Céu - TSF
Neste Dia Internacional das Pessoas com Deficiência partilho convosco o meu pequeno contributo para acabar com o preconceito. "Vermelho da Cor do Céu" foi uma das Grandes Reportagens que mais gostei de fazer (com o grande sonoplasta Luis Borges Cândido). E foi seguramente das que mais me marcou. Ouçam. Com os olhos fechados e com a luz apagada.
Vermelho da Cor do Céu - TSF
Como é o mundo de quem nunca viu?A Reportagem TSF coloca a venda nos olhos, segura a bengala e entra no mundo de quem não vê com os olhos. Mercedes gostava de saber como são as pessoas, como são os seus rostos. Tiago queria ver com olhos um cavalo a correr, porque parado já o viu com as mãos. Alcides não sabe de que cor são os seus olhos porque é como se não existissem. Susana e Rodrigo, casados sem nunca se terem visto, nunca acendem as luzes na casa onde vivem. Ângelo vê com os dedos obras de Picasso e imagina as formas e um mundo que nem Picasso imaginou. Para uns o Sol é azul, da cor do céu. Para outros, as estrelas são candeeiros pendurados no tecto do céu. Para outros ainda, o céu é vermelho ou azul ou sem qualquer cor.
«Vermelho da Cor do Céu» é uma grande reportagem de Ana Catarina Santos, com sonoplastia de Luís Borges.
Vermelho da Cor do Céu - TSF
Como é o mundo de quem nunca viu?A Reportagem TSF coloca a venda nos olhos, segura a bengala e entra no mundo de quem não vê com os olhos. Mercedes gostava de saber como são as pessoas, como são os seus rostos. Tiago queria ver com olhos um cavalo a correr, porque parado já o viu com as mãos. Alcides não sabe de que cor são os seus olhos porque é como se não existissem. Susana e Rodrigo, casados sem nunca se terem visto, nunca acendem as luzes na casa onde vivem. Ângelo vê com os dedos obras de Picasso e imagina as formas e um mundo que nem Picasso imaginou. Para uns o Sol é azul, da cor do céu. Para outros, as estrelas são candeeiros pendurados no tecto do céu. Para outros ainda, o céu é vermelho ou azul ou sem qualquer cor.
«Vermelho da Cor do Céu» é uma grande reportagem de Ana Catarina Santos, com sonoplastia de Luís Borges.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
quinta-feira, 21 de novembro de 2013
Rua dos dias de voam
Não é a placa que forra a esquina da minha rua, mas bem podia ser. Os meus dias voam e nem dou por eles. Passam por mim a voar. Os meus dias voam por mim, através de mim.
Ouvi esta tarde um senhor a lamentar-se que ainda ontem tinha vinte anos e num estalar de dedos passaram outros quarenta.
- "Quarenta, menina. Passaram quarenta anos e nem dei por eles."
Fixei-o. E ele continuava a desabafar ao balcão para quem o quisesse ouvir, enquanto lhe saía o vapor do café escaldado dos lábios:
- "Até aos vinte parecia que tinha tempo para tudo. A partir daí deixei de controlar o tempo. Como é que é possível?! Como é que já passaram estes anos todos?!"
Virei o espelho daquela conversa para mim.
A vida de hoje não me dá tempo para vivê-la. Corro na vida em vez de passear por ela. Corro na vida em vez de passear com ela. A passo lento.
Os dias não esperam por mim.
Ouvi esta tarde um senhor a lamentar-se que ainda ontem tinha vinte anos e num estalar de dedos passaram outros quarenta.
- "Quarenta, menina. Passaram quarenta anos e nem dei por eles."
Fixei-o. E ele continuava a desabafar ao balcão para quem o quisesse ouvir, enquanto lhe saía o vapor do café escaldado dos lábios:
- "Até aos vinte parecia que tinha tempo para tudo. A partir daí deixei de controlar o tempo. Como é que é possível?! Como é que já passaram estes anos todos?!"
Virei o espelho daquela conversa para mim.
A vida de hoje não me dá tempo para vivê-la. Corro na vida em vez de passear por ela. Corro na vida em vez de passear com ela. A passo lento.
Os dias não esperam por mim.
terça-feira, 12 de novembro de 2013
Merak. Ou "curiosidades" em turco.
- Laranja em turco diz-se “Portakala”. Quando dizemos que
vimos de Portugal, temos de pronunciar bem a palavra ou entendem que somos
naturais de “laranja”.
- Chá em turco diz-se “Çay”. Lê-se tchai, parecido com o som
em português.
- A borra do café turco que fica na chávena, depois de
tomado o café, serve para os turcos lerem a sina. Viram a chávena de cabeça
para baixo e a borra que ficar no pires é lida como quem lê a palma da mão.
- Os turcos acreditam que se não fossem eles não haveria o hábito
de beber café no Ocidente, uma vez que dizem que foram eles que introduziram o
café na Europa.
- O pistacho quase podia ser o alimento nacional. Tudo tem
pistachos! Os pistachos são servidos sempre sem sal e acompanham quase sempre as
reuniões de trabalho. Imensos alimentos têm recheio de pistacho, carne com
pistacho, puré de pistacho, peixe do Mar Negro com pistacho, sobremesas de pistacho, chocolate de pistacho, etc.
- Em Istambul há eléctricos como em Lisboa, mas em vez de
serem amarelos são vermelhos. Hoje em dia são praticamente apenas turísticos e é fácil
encontrá-los na Praça Taksim.
- O alfabeto turco não é árabe. É uma variante do alfabeto latino.
Tem 29 letras, das quais 8 são consoantes, mas não existem as letras Q, W e X.
- Os turcos adoram flores. Por todo o lado se compram e
vendem flores. A Turquia é um dos maiores produtores de flores. Além da
quantidade há muita variedade: dizem ter mais de 9 mil espécies de flores
diferentes. Até vi rosas verdes à venda na Praça Taksim!
- Os turcos são fanáticos por futebol e adoram desportos de
uma maneira geral.
- Istambul é a única cidade do mundo dividida em dois
continentes – uma parte na Europa e outra parte na Ásia – apenas separadas pelo
Bósforo.
- São Nicolau (St. Nicholas – o “Pai Natal”) nasceu no Sul da
Turquia.
- Ataturk é venerado e adorado em todo o País. Por todo o
lado há imagens (santinhos) do “pai fundador” da Turquia, num culto da
personalidade excessivo.
- Em Istambul vendem-se na rua deliciosas maçarocas de milho
assado na brasa por menos de um euro (2 Liras Turcas).
- O trânsito é caótico. Há quem faça marcha-atrás ou inversão
do sentido de marcha em plena auto-estrada, apenas para tentar fugir ao trânsito.
- Os turcos têm por hábito mastigar “cravinho” (especiaria)
depois das refeições. Dizem que serve para melhorar o processo digestivo e para
promover a higiene oral. Não é raro os turcos oferecerem “cravinhos” aos seus
convidados no final das refeições.
- A capital é Ankara mas Istambul é a maior cidade, onde vivem
cerca de 15 milhões de pessoas.
- A média de idade na Turquia é de 31 anos.
- A origem da palavra “Turquia” é “Türk”, que significa “forte”.
- O lema nacional da Turquia é “Paz em casa, Paz no Mundo”.
- Na Turquia ninguém deve beijar-se em público. Os namorados,
noivos, casais, não devem beijar-se na boca nas ruas. Antigamente era proibido
por lei. Hoje já não é assim mas ainda há quem censure esse comportamento. Em
Istambul essa “regra” é mais flexível. E não é aplicável aos turistas.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Menina do Mar
"Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos na água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia branca. Tu és da terra e se fosses ao fundo do mar morrias afogado. Mas eu sou uma menina do mar."
"- Bom dia - disse o rapaz.
E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.
- Trago-te aqui uma flor da terra - disse; chama-se uma rosa.
- É linda, é linda - disse a Menina do Mar, dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.
- Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice de rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:
- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz."
"Menina do Mar", Sophia de Melo Breyner Adresen - excertos
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
Montanha Mágica
Conheci um japonês no metropolitano de Madrid. Estava
vestido de negro, usava óculos de massa escura, lentes rectangulares, calças
escuras, creio que cinzentas. Devia ter uns trinta anos. Se bem que adivinhar a
idade num oriental é sempre uma tarefa complicada.
[- E por que não poderia ser um
chinês? Ou de outra nacionalidade?
- É japonês. De certeza absoluta.
- Como é que sabes? Ele nem sequer falou…
- Pediu licença para se sentar. Baixou a
cabeça quando fez a pergunta. Não olhou ninguém directamente nos olhos. Sentou-se
discretamente. Ocupou o lugar sem se encostar em nada. Ninguém deu por ele. E pôs-se
a ler.]
Era um livro japonês. Os caracteres de cima para baixo e da
direita para a esquerda. Não resisti e fixei o livro. Ele percebeu que eu
estava curiosa. Continuou a ler. Não tirei os olhos do livro e acho que até
sorri. Tenho livros do género lá em casa, desde que no ano passado me inscrevi
no curso de língua japonesa. Ele lia. Eu fixava as páginas. Ele mudava de página.
Eu procurava detectar algo que me fosse familiar. E ele de olhos presos ao
livro. Eu espreitava pelo canto do olho, insistente. Até que ele ajeitou o
livro para que eu pudesse vê-lo melhor.
[- Apanhou-te!
- Sim, mas eu também não estava propriamente a
ser discreta.
- E falaram? Comunicaram? Ele olhou-te nos
olhos?
- Falámos.
- Sobre o quê? Que livro era?]
Fechou o livro e mostrou-me a capa. Era um livro de capa
mole, amarelado, discreto. Um palmo de livro, quase de bolso. Apontou com o
dedo indicador para os caracteres que estavam no topo da página. Tinha o dedo
magro, muito branco, de unha aparada e limpa. Ouviu-se uma voz baixinha e
hesitante. “Magic” – apontou para um quadradinho riscado. “Mountain”, indicou
outro conjunto de traços. Sorriu timidamente. Sorri-lhe também.
Falámos sobre o Japão, sobre Tóquio, sobre o bairro de Roppongi,
sobre o mercado do peixe, sobre os jardins de pedra, sobre os templos de
Quioto, sobre o Templo Dourado, o meu preferido. E falámos sobre Portugal, e sobre
Sintra, e para onde ele ia a seguir a Madrid, e de onde tinha vindo. Disse-me
que já tinha visitado Lisboa e até tinha ido à “Loca”.
- À Loca?!
- Loca Cape.
- Ah, Roca Cape…
O Cabo da Roca. O simbólico ponto mais ocidental da Europa
continental. Fechou o livro. “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann.
Livros. Japão. Perguntei-lhe se gostava de Murakami.
- Mais ou menos. Ele escreve melhor em inglês do que em
japonês. No resto do mundo é mais reconhecido e conceituado do que no Japão. É
bom, mas não está no meu top five. Escreve melhor em inglês.
- E quem está no teu top?
Disse-me o nome de um japonês que não consigo reproduzir. Devia
ter apontado no meu bloco de notas, mas não o fiz. Pedi-lhe que repetisse. Não
percebi. Não consigo agora lembrar-me do nome ou sequer reproduzir a sonoridade.
Disse-lhe que não conhecia, que nunca tinha ouvido falar.
- E também o Mishima. Esse sim, está no top dos dois ou três
melhores. O Murakami está entre os dez, mas fora do pódium.
- Ah, o Mishima conheço. Já li alguns dele. É excelente!
A carruagem do metro parou. Procuramos ambos o letreiro na
estação para comprovarmos que não tínhamos perdido a paragem. Estávamos em Mar
de Cristal, na linha 8. Faltavam umas duas ou três paragens.
[- Estás
encantada a falar do japonês. Era giro?
- Não. Nada disso.
- Apaixonaste-te pelo japonês?
Ri-se e atira o corpo para trás.
- Que disparate! Tu conheces-me. Sabes que não
me agradam particularmente os orientais. Era simpático, só isso.
- Só isso?
- E interessante.
- Humm…]
Continuámos a conversar.
- E não achas que Thomas Mann é uma leitura um pouco pesada para se
ler no metro?, inquiri.
- Para mim não – respondeu prontamente.
- Não?
- Se fosse Hegel ou Kant talvez te dissesse que sim.
Arregalei os olhos, fixando-o de frente. Ele olhava-me de
raspão nos olhos mas não me fixava.
- Gostas de filosofia?
- Sim. Gosto de filosofia, não de filósofos. Mas, na
verdade, ainda estou à procura do meu caminho.
[- My way, disse-o em inglês.
- My way…
Silêncio. Pausa.
- Ele está a ler a Montanha Mágica, do Thomas
Mann, à procura do seu caminho.]
A carruagem do metropolitano parou. Gente a sair e a entrar.
Nuevos Ministérios. Era a minha paragem. E a dele. Levantámo-nos. Saíamos ali. Uma
hesitação.
[- Como se
despediram?
- Normal.
- Normal como?]
Dou-lhe dois beijos? Um cartão de visita? Trocamos números
de telefone? Ou nada? Hesitei. E ele também.
[- Mas
afinal como se despediram?! Ficaste com o contacto dele?]
- Adeus. Que tenhas um bom dia. - disse-me vagamente sorrindo.
- Adeus. Tu também.
- Que tudo te corra bem.
- E a ti. E espero que encontres o teu caminho.
- E tu o teu.
Um aceno de mão do lado de lá. Um aceno de mão do lado de cá.
A uns passos de distância. Um jovem japonês parado, de pé, a olhar-me de frente.
Algumas pessoas atravessaram-se pelo meio, a correr para o metro, enquanto
soava o sinal de que as portas iam fechar-se no instante seguinte. O japonês
parado. A mão direita no ar, parada. O livro na outra mão, caído junto à anca.
Procurei a placa que me indicasse a saída. O meu caminho.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Ao vapor
Hoje não me apetece sair do duche. Aqui na minha cápsula, na minha concha, estou aconchegada. Água quente escorrendo pela nuca. Olhos fechados. Respiração
lenta. Vapor por todo o lado. Nada se vê, nada se mexe, nada se ouve. Nem
liguei o rádio. Silêncio. Só se ouve o som da água a cair. Tchchchchchchch… O
chuveiro, lá no alto, abundante. Água dura. Como uma cascata no meu crânio cansado.
Percorro o meu dia de olhos fechados. Falo para dentro
enquanto o duche me alivia. “Devia ter feito isto ou aquilo. Simpático, aquele
almoço. Bolas, esqueci-me de ligar a alguém.”
Organizo o meu cérebro amolecido
pela água quase a escaldar. Derreto as minhas defesas.
Sinto calor. Talvez esteja a transpirar. A pele das costas já deve estar quase escalfada.
Sabe tão bem. Estou em banho-maria. É quase um casulo, de tão bom. Puxo os ombros para trás, rodo o pescoço, olhos fechados,
estico os braços tacteando a água que me foge dos dedos.
Hoje não me
apetece sair daqui. Tchchchchchchch… Eu e o chuveiro.
As paredes molhadas. O espelho embaciado não me olha
espantado, como pela manhã. Nem sequer o espelho me vê. A pele amolece. Ao vapor. Eu também.
Quebro. Hoje não me apetece sair do duche.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Trato o Outubro por tu
Trato o Outubro por tu. Conheço-lhe os truques todos. Gosto do Outubro porque me desafia. Quando arrumo os algodões lá vem ele meter-se comigo à janela.
- Bom dia! Trago-te os primeiros pingos.
- Bom dia, Ó Tu…
Digo isto para o picar. Detesta que o trate só por “Ó-Tu”.
- O meu nome é Outubro. Ou-tu-bro, entendeu? Com dois "u's".
Rio-me. Ele irrita-se. E, nesse caso, chuvisca.
Temos longas conversas, eu e o Outubro.
Trato-o sempre por tu, não que ele me tivesse dito para o
fazer. Habituei-me a tratá-lo assim e não me imagino a tratá-lo doutra maneira. Ele, porém, não. Nunca se sentiu à vontade para me tratar por tu. Já insisti mas ele resiste.
É um artista, este Outubro. Faz-se difícil. É para manter uma certa distância e
fintar-me sem ficar com problemas de consciência. Conheço-o de ginjeira!
- Tiraste a gabardine para quê? Hoje estou de esplanada. Vais
querer mesmo sair de gabardine?
Ri-se, o pirata. Ri-se de mim.
O Outubro sabe que eu gosto de prolongar os Setembros. Nunca
lhe escondi que o Setembro é o meu favorito. Fica amuado e ciumento com isso, o
meu querido Outubro.
- Anda cá, deixa-te de fitas… Fica aqui. Traz tu a manta,
que eu levo o vinho tinto.
Mas ele insiste nas voltas vadias.
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Meia dose
- Bom dia!
- Bom dia. Em que posso ser-lhe útil?
- Queria meia dose de amor.
- Como?
- Meia dose de amor, se faz favor.
- Meia dose?
- Sim, por favor. Para embrulhar.
- Meia dose não vendemos.
- Não?
- Não. Só dose inteira.
- Uma dose inteira de amor?
- Sim. Só vendemos doses completas.
- Humm… Mas isso assim não me dá jeito.
- Ora essa... Porquê?
- Porque vai sobrar. Não dou conta disso tudo.
- Claro que dá!
- Não, não. É imenso…
- Olhe que estou aqui há muitos anos e nunca nenhum freguês me
pediu só meia dose de amor.
- Pois, mas uma dose inteira é muito para mim. Não consigo mesmo.
Desculpe.
- Não tem nada que pedir desculpa. É assim mesmo. Estamos cá
para isso.
- Obrigada. Até logo!
- Adeusinho.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Ao Poeta António Ramos Rosa
O senhor é um bandido. Morrer numa altura destas, seu atrevido?! E logo agora que eu precisava tanto de si. Eu, não. Nós! Nós precisamos de si. Nós todos! Mais do que nunca. É em tempos de crise e incerteza que mais precisamos de homens como o senhor.
Nunca consegui tratá-lo por tu. Bem sei, bem sei, que sempre insistia para que o tratasse com menos formalismo. Mas não consigo. Nunca consegui. Desde o primeiro dia que lhe guardo um enorme respeito e adoração, como sabe. Como, de resto, lhe disse várias vezes olhos nos olhos.
Gostei de si logo na primeira vez que o ouvi dito (e bem dito), entoado e encorpado pela voz aveludada e cheia do nosso querido Fernando Alves (bendito). Gostei tanto, tanto, de si logo naquele primeiro dia.
O senhor é, de facto, um grande Poeta... Que letras, que intensidade, que poder, que força, que artesão da palavra, que escrita, que arte, que poesia... Que maravilha... Que grande Poeta o senhor Ramos Rosa me saiu, sim senhor...
(Não insista, Poeta, não consigo mesmo tratá-lo por tu.)
Todas as noites, no beijo nocturno que me dá quando leio os seus versos, o senhor sussurra-me a vida. A vida toda nas suas letras. Um sussurro bom mesmo, mesmo antes de dormir.
Não adormeço bem se não vou lá espreitá-lo e dizer - nem que seja - um até amanhã. Às vezes acordo-o no meio das minhas insónias.
- "Desculpe, senhor Poeta... Não devia acordá-lo assim sem mais nem menos, a meio da noite, mas não resisto."
Quando acordo pela madrugada ou estou demasiado agitada, bato-lhe ao livro.
Truz-truz.
- "Pode serenar-me?"
Tenho sempre de ir lá roubar-lhe um beijo de boa noite. Tenho de tocar as suas letras e pedir, baixinho, que me aconchegue na cama. Tenho de passá-lo pelos olhos para colorir os meus sonhos. Tenho de cheirar-lhe a escrita para florir de alfazema os meus lençóis.
E agora, vai-se embora, seu bandido? Sempre a brincar com os sentimentos dos outros. Vá, deixe-se de fitas e não saia daqui. Deixe-se disso...
Venha cá. Fique aqui, meu querido Poeta. É urgente que fique...
Os Poetas não morrem. O senhor será sempre o meu Ramos Rosa. O senhor será sempre o meu Nobel da minha academia sueca da mesa de cabeceira. O senhor será sempre o mais querido dos meus Poetas. O meu querido algarvio...
Venha, vá... Está na minha hora de dormir. Vá, já é tardíssimo... Chegue aqui... Ande cá, seu teimoso. Vá... Logo hoje, que estou tão agitada. Preciso tanto de si.
Truz-truz
- "Senhor Poeta? Está aí?"
Nunca consegui tratá-lo por tu. Bem sei, bem sei, que sempre insistia para que o tratasse com menos formalismo. Mas não consigo. Nunca consegui. Desde o primeiro dia que lhe guardo um enorme respeito e adoração, como sabe. Como, de resto, lhe disse várias vezes olhos nos olhos.
Gostei de si logo na primeira vez que o ouvi dito (e bem dito), entoado e encorpado pela voz aveludada e cheia do nosso querido Fernando Alves (bendito). Gostei tanto, tanto, de si logo naquele primeiro dia.
O senhor é, de facto, um grande Poeta... Que letras, que intensidade, que poder, que força, que artesão da palavra, que escrita, que arte, que poesia... Que maravilha... Que grande Poeta o senhor Ramos Rosa me saiu, sim senhor...
(Não insista, Poeta, não consigo mesmo tratá-lo por tu.)
Todas as noites, no beijo nocturno que me dá quando leio os seus versos, o senhor sussurra-me a vida. A vida toda nas suas letras. Um sussurro bom mesmo, mesmo antes de dormir.
Não adormeço bem se não vou lá espreitá-lo e dizer - nem que seja - um até amanhã. Às vezes acordo-o no meio das minhas insónias.
- "Desculpe, senhor Poeta... Não devia acordá-lo assim sem mais nem menos, a meio da noite, mas não resisto."
Quando acordo pela madrugada ou estou demasiado agitada, bato-lhe ao livro.
Truz-truz.
- "Pode serenar-me?"
Tenho sempre de ir lá roubar-lhe um beijo de boa noite. Tenho de tocar as suas letras e pedir, baixinho, que me aconchegue na cama. Tenho de passá-lo pelos olhos para colorir os meus sonhos. Tenho de cheirar-lhe a escrita para florir de alfazema os meus lençóis.
E agora, vai-se embora, seu bandido? Sempre a brincar com os sentimentos dos outros. Vá, deixe-se de fitas e não saia daqui. Deixe-se disso...
Venha cá. Fique aqui, meu querido Poeta. É urgente que fique...
Os Poetas não morrem. O senhor será sempre o meu Ramos Rosa. O senhor será sempre o meu Nobel da minha academia sueca da mesa de cabeceira. O senhor será sempre o mais querido dos meus Poetas. O meu querido algarvio...
Venha, vá... Está na minha hora de dormir. Vá, já é tardíssimo... Chegue aqui... Ande cá, seu teimoso. Vá... Logo hoje, que estou tão agitada. Preciso tanto de si.
Truz-truz
- "Senhor Poeta? Está aí?"
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
S
Encontrei um S na rua. Mas não era um S qualquer. Era um S
grande que brilhava imenso na calçada, ao sol. Um S prateado, bem torneado, com
um tracinho em cada ponta. Como quem sabe exactamente até onde pode ir. Sabe que aquele seu S termina ali. Um S bem definido. Achatado reluzindo ao sol.
Um S perdido. Andaria à procura do quê, aquele S?
Bem, na verdade, não sei se aquele S estaria perdido. Podia apenas
querer estar ali. Parado a aquecer-se ao sol. Se andasse perdido, porventura, estaria
desesperado. Pediria ajuda a quem passa, gritaria pelo O e pelo outro S. Mas não. Aquele S
talvez não estivesse perdido. Pareceu-me um S cheio de si, ali sozinho, ao sol.
Teria andado colado a algum pescoço? Pendurado num fio? Podia ter-se cansado da
pele humana, talvez até do suor. “Ai, esta pele deste pescoço dá-me calor.
Vou-me embora!” Talvez não gostasse do cheiro da pele da pessoa que o trazia. Talvez
os S’s sejam demasiados sensíveis ao cheiro. Fartou-se. Foi à vida dele.
Estaria junto a outras letras? Seria a primeira de várias
letras de um nome? Sim, porque aquele S, tão robusto, não me parece que seja S
para ficar no meio ou no fim de um nome. É um S com ar de maiúscula. Um S com pose de inicial.
Agachei-me junto ao S para o ver mais de perto. Um S de
prata, cheio de si, cheio de pose. Sozinho na praça forrada a calçada portuguesa. Era
bonito, o raio do S...
- “Estás a olhar para o quê?”, desafiou-me.
- “Estás só?”, perguntei-lhe a medo.
- “Não. Vês aqui algum ó?”
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Gerúndios de Setembro
Setembro é o primeiro dos gerúndios nos meses do ano.
Setembro é gerúndio. É ir fazendo. É ir entrando. É ir recomeçando. É Setembro.
Setembrando. Com calma. Sentindo a temperatura a baixar. Com tranquilidade. Apertando
os dias. Com sabores mais quentes. Vestindo as primeiras malhas. Olhando o pôr-do-sol de frente. Cantando. Espreitando as
estrelas mais cedo. Sorrindo. Setembro. Com tempo. Temperando.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Regresso-te
E com o fim de Agosto regresso-te.
Primeiro foi a crise política que me afastou… Depois da
crise, foi o Verão que me sequestrou. As horas na praia até à noite, os pés
descalços na areia quente, o corpo triunfante no mar fresco, a pele estaladiça
e salgada, a dormência dos dias sem relógio.
Agora regresso-te. Cheia de mim. Para te dar.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Prova superada
Estive nos últimos dez dias na Bulgária a participar num
Campeonato Mundial Desportivo, os World Sport Games. São uma espécie de Jogos
Olímpicos com todas as modalidades especificamente destinado a pessoas cuja
actividade profissional principal não é o desporto. Estavam mais de três mil
atletas de todos os cantos do mundo: uns médicos, outros advogados, outros mecânicos,
outros bancários, alguns gestores, jornalistas, educadores
de infância, informáticos, etc.
Na maior parte dos casos são pessoas que já foram atletas de
alta competição e por motivos financeiros, pessoais ou outros deixaram de estar
ao mais alto nível competitivo mas continuam a articular a actividade profissional
e o desporto com total entrega, dedicação e glória.
Só pode participar nesta prova quem, na época anterior, foi
Campeão Nacional no seu país de origem, em cada modalidade. Foi o nosso caso. Fui
com a minha equipa de voleibol de praia ao Mundial que decorreu entre 1 e 10 de
Junho em Varna, Mar Negro, Bulgária.
Não regresso com a Taça nem com as Medalhas do pódio. Trago,
sim, mais um capítulo escrito na minha vida. Esforçar-me mais ainda quando acho
que já não consigo. Dar mais um passo quando as pernas parecem não responder. Saltar
quando não sei se consigo sequer manter-me em pé. Gritar com alma a cada ponto
conquistado. Sentir as gotas de suor na pele a libertarem-me a vontade. Acreditar
quando já ninguém acredita.
A resistência não é física. As medalhas não são de metal. O
pódio não é de madeira. Superar-me a mim própria é a minha melhor vitória.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
O(xi)génio
Fui ao Museu Rainha Sofia em Madrid. Não propriamente apenas ao Museu ou por causa da colecção permanente, riquíssima aliás. Já ali estive noutras ocasiões, perdida perante o majestoso Guernica de Picasso ou curiosa perante a monumental sequência de obras sobre o papel da Mulher na Arte. O Rainha Sofia, ali mesmo junto ao Parque do Retiro, merece sempre uma visita.
Mas desta vez fui de propósito por causa dele. Aquele homem de bigode afiado e olhar tresloucado que tanto me prende. Não percebo nada de arte, ou gosto ou não gosto. E eu gosto de Salvador Dali.
A Exposição é temporária e está acessível apenas até ao próximo dia 2 de Setembro 2013. E é imperdível. Vale a pena uma visita a Madrid só para conhecer esta Exposição: "Dali - todas as sugestões poéticas e todas as possibilidades plásticas".
O bom desta Exposição começa no lado de fora do Museu. É uma festa! A Arte e a Cultura chamam milhares de pessoas ao Museu. Há famílias inteiras nas filas, há jovens e velhos, há quem partilhe chapéus e águas frescas, há quem brinque, há quem saltite nos degraus, há quem pinte, há quem represente pequenos trechos de peças de teatro, há caricaturas, há música. Há uma alegria que faz com quem nem se dê pelo tempo passar.
Se é verdade que as enormes filas à primeira vista assustam um pouco, também é um facto que a fila diminui rapidamente. E em meia hora ou, no máximo, 45 minutos estamos dentro do Museu.
Uma vez lá dentro, com ou sem áudio-guia, faz-se outra festa. O edifício é lindíssimo, arejado, cheio de luz, fresco, corredores longos e inspiradores. Três pisos com muita informação, tudo bem organizado, dividido por colecções, com sugestões de percursos assinalados no chão, locais para descansar, elevadores de vidros transparentes que nos oferecem vistas de Madrid, exteriores ao Museu.
Sigo as pistas que me levam à colecção de Dali, como uma criança a entrar num castelo encantado. Há magia. Dali entra em mim como um balão de oxigénio para a mente e para os sentidos. Oxigénio. Inspiro. Sinto-o. Génio Salvador Dali.
![]() |
| Museu Rainha Sofia, fotografia Ana Catarina Santos |
Mas desta vez fui de propósito por causa dele. Aquele homem de bigode afiado e olhar tresloucado que tanto me prende. Não percebo nada de arte, ou gosto ou não gosto. E eu gosto de Salvador Dali.
![]() |
| Museu Rainha Sofia, fotografia Ana Catarina Santos |
A Exposição é temporária e está acessível apenas até ao próximo dia 2 de Setembro 2013. E é imperdível. Vale a pena uma visita a Madrid só para conhecer esta Exposição: "Dali - todas as sugestões poéticas e todas as possibilidades plásticas".
![]() |
| Museu Rainha Sofia - exterior, fotografia Ana Catarina Santos |
O bom desta Exposição começa no lado de fora do Museu. É uma festa! A Arte e a Cultura chamam milhares de pessoas ao Museu. Há famílias inteiras nas filas, há jovens e velhos, há quem partilhe chapéus e águas frescas, há quem brinque, há quem saltite nos degraus, há quem pinte, há quem represente pequenos trechos de peças de teatro, há caricaturas, há música. Há uma alegria que faz com quem nem se dê pelo tempo passar.
Se é verdade que as enormes filas à primeira vista assustam um pouco, também é um facto que a fila diminui rapidamente. E em meia hora ou, no máximo, 45 minutos estamos dentro do Museu.
![]() |
| Museu Rainha Sofia - exterior, fotografia Ana Catarina Santos |
Uma vez lá dentro, com ou sem áudio-guia, faz-se outra festa. O edifício é lindíssimo, arejado, cheio de luz, fresco, corredores longos e inspiradores. Três pisos com muita informação, tudo bem organizado, dividido por colecções, com sugestões de percursos assinalados no chão, locais para descansar, elevadores de vidros transparentes que nos oferecem vistas de Madrid, exteriores ao Museu.
Sigo as pistas que me levam à colecção de Dali, como uma criança a entrar num castelo encantado. Há magia. Dali entra em mim como um balão de oxigénio para a mente e para os sentidos. Oxigénio. Inspiro. Sinto-o. Génio Salvador Dali.
![]() |
| Museu Rainha Sofia - Pormenor da Assinatura de Salvador Dali Fotografia Ana Catarina Santos |
Deseo
Deseo
Sólo tu corazón caliente,
y nada más.
Mi paraíso un campo
sin ruiseñor
ni liras,
con un río discreto
y una fuentecilla.
Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.
Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de otra,
en un campo
de miradas rotas.
Un reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.
Y tu corazón caliente,
nada más.
Sólo tu corazón caliente,
y nada más.
Mi paraíso un campo
sin ruiseñor
ni liras,
con un río discreto
y una fuentecilla.
Sin la espuela del viento
sobre la fronda,
ni la estrella que quiere
ser hoja.
Una enorme luz
que fuera
luciérnaga
de otra,
en un campo
de miradas rotas.
Un reposo claro
y allí nuestros besos,
lunares sonoros
del eco,
se abrirían muy lejos.
Y tu corazón caliente,
nada más.
Federico García Lorca
![]() |
| Salvador Dali |
terça-feira, 21 de maio de 2013
Palhaços, eles
De dez em dez metros, em alguns casos talvez de vinte em vinte,
vi pessoas a pedir dinheiro nas ruas. Umas de braço estendido, outras esperando
apenas, olhando para baixo, sem interpelarem quem passa. Pessoas de braço
estendido. Madrid sente nas veias o desemprego e a pobreza. Tanta gente a pedir
esmola…
Vi um palhaço triste. Não estava a actuar para as crianças. Nem
estava a fazer ninguém rir. Estava triste. Um homem vestido de palhaço, a pedir
esmola.
Estava sentado no banco alto de madeira, com um pé no chão e
outro na trave do banco de pinho claro. Sapatos vermelhos, tamanho 52 talvez.
Sapatos grandes, de palhaço.
Tinha a cara pintada de branco, como os palhaços. Um nariz
vermelho de palhaço. Uma peruca com caracóis verdes, amarelos e azuis, de
palhaço. Olhos meigos. Rugas no rosto.
No chão, junto ao banco de madeira, mostrava um cartaz
escrito em papelão. “Tengo hambre”. Hoje não consigo fazer-vos rir. Tenho fome. Dá-me um sorriso.
quinta-feira, 16 de maio de 2013
Por las calles de Madrid
Estive em Madrid e, mais uma vez, “renovei votos” com a
cidade. Adoro a energia que transmite, a alegria das avenidas, a naturalidade
das pessoas, o falar alto, o tratarem-te por tu, as mulheres arranjadas, os
narizes orgulhosos, as gargalhas, os cigarros acesos como se fossem a extensão natural
das mãos, as ruas cheias de gente, a luminosidade.
Mas Madrid tem, agora, outras pessoas. Ou talvez sejam as
mesmas, mas sem gargalharem e gesticularem de caña na mão encostadas à barra de
tapas. Madrid tem mais, muito mais, pessoas que estão sem-abrigo. Nunca vi
tanta gente a dormir na rua como vi por estes dias em Madrid. A crise tem
rostos, não existe apenas nos mapas estatísticos dos gabinetes.
Não gosto de olhar quem dorme na rua, olhos nos olhos. Sinto-me
uma invasora. É como se estivesse a espreitar para dentro de casa de alguém. Não
paro para olhar. Mas, de soslaio, à medida que percorria as ruas do centro, de
dez em dez metros lá estava um monte de mantas, sacos, papelão. E pessoas. Várias.
Espalhadas pela cidade. Pessoas. Vi casais. Vi pessoas sozinhas. Como eu, como
tu. Pessoas sem tecto. Pessoas sem casa.
Numa das esquinas junto à Praça Callao, em plena Gran Via, passei
por ela várias vezes. Uma pessoa a quem nunca vi o rosto. Não sei se mulher ou
homem, não sei se nova ou velha. Uma pessoa. Por baixo das mantas enxovalhadas vi a ponta
de um par de chinelos de plástico que pareciam ser um número pequeno – um 36 ou
37, talvez. E vi uma caixa de madeira que, outrora, teria transportado fruta fresca para um mercado. Servia de mesa-de-cabeceira. Estava virada ao contrário. Por baixo da caixa, havia alguns
objectos pessoais. Ao lado, encostada à parede, estava uma vassoura com um
pano amarelo enrolado, terminando com um nó.
Aquela pessoa vive ali, não tinha apenas passado ali aquela
noite. Aquela pessoa não tem casa, mas já teve e quer voltar a ter. Que ironia…
A crise que empurrou aquela pessoa para a rua é a mesma que mantém incomportáveis
os preços das casas e blindado o acesso ao crédito.
Bendita a opção de, uma vez na rua, ter ido viver para a avenida
mais cara da cidade. Um metro quadrado na Gran Via ronda os seis mil euros. Aquela
pessoa deitada juntamente com os respectivos pertences, ocupariam uns bons doze
mil euros.
Todos os sem-abrigo de Espanha deviam rumar à Gran Via! Todos!
Ocupariam cada metro quadrado daquela avenida de ouro, para envergonharem os
políticos, os banqueiros, os especuladores, os ladrões que passam nos Mercedes,
fumando charutos pagos com a miséria dos outros.
Todos os sem-abrigo à Gran Via! Todos os sem-tecto à Gran Via! Afinal, um T0 na Gran Via custa apenas doze mil euros. A avenida-postal de
Madrid transformar-se-ia numa manta de retalhos de pessoas que foram postas na
rua. Já que estão (estamos) na rua, ao menos que estejam(os) na mais cara.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
39 dias depois
Já passou demasiado tempo desde a última vez que nos vimos. 1
de Abril. Parece mentira… De cada vez que nos encontramos, renovamos promessas.
Que vamos ver-nos mais vezes, que temos de marcar – não, não é preciso marcar,
basta aparecermos, será sempre uma alegria; que temos de conversar mais,
conviver mais. É sempre assim. E, vê bem, passaram 39 dias. Como é possível?
Mas é bom, mesmo passado esse tempo, chegar aqui para te reencontrar,
sem aviso prévio, e sentir-te de braços abertos e sorriso escancarado. Gosto mesmo
de estar aqui contigo.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Peixinhos da horta em Hiroshima
Há um silêncio estranho na cidade. Aqui ouvem-se mais os corvos.
Gosto dos de Hiroshima.
Sol na esplanada. O Rio Motoyasu-gawa sereno. As cerejeiras em flor ao longo de todo o Rio.
Também vi muitos corvos, enormes, em Kyoto. Mas aqui, lá de cima, gritam mais alto. Ou o silêncio aqui em baixo é mais forte.
Escrevo numa esplanada junto ao Rio Motoyasu-gawa e sinto que tudo nesta zona tem uma carga dramática. Estou no Parque da Paz, em Hiroshima, junto ao Memorial da Bomba Atómica.
As pessoas agem com respeito. Como se não quisessem interromper uma oração, uma reflexão. As pessoas em Hiroshima cumprimentam-se. Sorriem. Em silêncio.
Por que gritam os corvos? Shiuh!
Na esplanada os empregados correm para servir os clientes. Correm literalmente, para não fazerem ninguém esperar. E pedem desculpa por tudo e por nada.
Hiroshima é uma cidade estranha. Incomoda-me a memória. Aviva-me a história que ditou milhares de mortos e milhares de vivos estropiados. E por isso vêem aqui milhões de turistas, como eu. Hiroshima teve a minha visita pelas piores razões. Vem no mapa não por ser quem é, mas por ter sido tratada como foi.
Mais um sorriso dócil que passa e me cumprimenta. São amáveis, os de Hiroshima.
Ouço, com cadência certa, sinos. Tocam ao longe, no parque, assinalando a memória.
A cidade tenta combater a memória de cinzas de todas as maneiras. É colorida, as fachadas dos prédios são amarelas, laranja, vermelhas. Por todo o lado há placas e cartazes coloridos com os lema da cidade, repetindo para que se torne verdade que Hiroshima vale a pena, que aqui há sentimento, alegria, que há cor e vida, não apenas memória de cinzas de uma destruição em massa. "Love the city", "Color your life in Hiroshima", "Be happy", "Make love not war in Hiroshima!", vou lendo aqui e ali.
Interrompem-me a escrita.
- "Can I take a photo?"
- "What?"
- "Photo. You. Ye, ye, ye, ye..."
Ri-se. E baixa a cabeça. Quase pede desculpa.
- "Sorry. Ok?"
E curva-se à minha frente com uma máquina fotográfica na mão.
- "Sure!"
(Avisaram-me que isto podia acontecer fora das grandes cidades. Tiram fotografias aos turistas e pedem para ser fotografados ao lado deles.)
Sorrio para a foto na esplanada. Está sol. O meu cabelo brilha. Os meus olhos também.
Clic.
- "Another, please?"
Agora com o telemóvel.
- "Yes, sure!"
Sorrio. Um vento sereno no meu cabelo.
Clic.
- "Thank you, thank you! Beautiful, beautiful!"
Sorrio. O empregado de mesa aproxima-se.
- "Can I take a photo?"
- "What?"
- "Photo. You. Ye, ye, ye, ye..."
Ri-se. E baixa a cabeça. Quase pede desculpa.
- "Sorry. Ok?"
E curva-se à minha frente com uma máquina fotográfica na mão.
- "Sure!"
(Avisaram-me que isto podia acontecer fora das grandes cidades. Tiram fotografias aos turistas e pedem para ser fotografados ao lado deles.)
Sorrio para a foto na esplanada. Está sol. O meu cabelo brilha. Os meus olhos também.
Clic.
- "Another, please?"
Agora com o telemóvel.
- "Yes, sure!"
Sorrio. Um vento sereno no meu cabelo.
Clic.
- "Thank you, thank you! Beautiful, beautiful!"
Sorrio. O empregado de mesa aproxima-se.
O rapaz percebeu. Não quer incomodar.
- "Sorry. Sorry. Sorry..."
Três vezes.
Sorrio mais ainda.
- "It's ok!"
- "Sorry. Sorry. Sorry..."
Três vezes.
Sorrio mais ainda.
- "It's ok!"
Gosto dos de Hiroshima.
Sol na esplanada. O Rio Motoyasu-gawa sereno. As cerejeiras em flor ao longo de todo o Rio.
Cheira bem, o prato. Chegaram os meus peixinhos da horta de Hiroshima.
"Tempura", expliquei-lhe, "é uma palavra portuguesa".
- "What? I don't understand."
- "Tempura", insisti apontando para o prato.
Não percebeu que estava a tentar explicar-lhe que tempura tem origem no português "tempero".
- "Tempura", insisti apontando para o prato.
Não percebeu que estava a tentar explicar-lhe que tempura tem origem no português "tempero".
E repetia, sorrindo e apontando para o prato já à minha frente: "Yes, tempura. Good, good".
- "Never mind. This tempura is delicious!".
Que maravilhosos peixinhos da horta!
Que maravilhosos peixinhos da horta!
domingo, 24 de março de 2013
Quase como na primeira vez
Estou a poucas horas de cumprir um grande sonho. Há muito, muito tempo que sonho com esta viagem. Sinto-me como se fosse viajar pela primeira vez. Nervosa, ansiosa, só sorrisos.
A minha primeira viagem de avião foi a Cuba. Ainda era tudo Fidel, só Fidel. Viajei na companhia Air Cubana que, à data, era a mais barata. Uma alegria. Cantar, rir, falar, medo, nervos, sono, magia, ar, céu, amigos, altura, sem rede.
Ninguém dormiu. Estava uma animação naquele avião que não podia imaginar. Ainda foi no tempo em que se fumava no avião e, como boa companhia de bandeira, as simpáticas hospedeiras cubanas ofereciam charutos a quem quisesse. Não pedi, nem fumei. Mas parece que ainda hoje sinto a nuvem de fumaça dos cubanos entrenhada em mim. Não me incomoda, não protestei e até achei piada.
Além de charutos as hospedeiras vestidas de azul, branco e vermelho também ofereciam rum. Um rum "da casa", muito manhoso, em copos de plástico. Esse, não rejeitei.
A ferrugem que se via junto às janelas serviu para os meus amigos me atormentarem toda a viagem. E gritavam "vamos cair, vamos cair!" de cada vez que uma turbulência interrompia as nossas gargalhadas. Eu olhava pela janela e só me fixava na ferrugem junto ao vidro. "E se há ferrugem também no motor!", perguntava-me querendo manter o sorriso exterior.
"Un Ron más?"
"Si, gracias. Como no?"
(O Rum era horrível, amarelo, quase detergente. Também acho que foi a primeira vez que bebi Rum. Pelo menos amarelo com sabor a Super Pop Limão.)
Foi uma viagem inesquecível a todos os níveis, a bordo da mítica Air Cubana. Habana abraçou-me com todo o calor e alegria e ainda hoje guardo Cuba no coração.
Lembro-me que a ansiedade que tinha na véspera de embarcar para Cuba é muito semelhante à que sinto hoje. Não tem a ver com o receio de andar pela primeira vez de avião, que à data. Tem a ver com a alegria da partida, com a aventura, com o fazer as malas eufórica, com o desconhecido, com o improviso, com o enriquecimento pessoal, com o crescer, com o sentir a vida.
Sinto, por estas horas, a mesma euforia. Tão feliz...
A tentação do Oriente acompanha-me há demasiado tempo para tê-la subestimado sucessivamente. Estou ansiosa por aterrar na terra do Sol Nascente.
A minha primeira viagem de avião foi a Cuba. Ainda era tudo Fidel, só Fidel. Viajei na companhia Air Cubana que, à data, era a mais barata. Uma alegria. Cantar, rir, falar, medo, nervos, sono, magia, ar, céu, amigos, altura, sem rede.
Ninguém dormiu. Estava uma animação naquele avião que não podia imaginar. Ainda foi no tempo em que se fumava no avião e, como boa companhia de bandeira, as simpáticas hospedeiras cubanas ofereciam charutos a quem quisesse. Não pedi, nem fumei. Mas parece que ainda hoje sinto a nuvem de fumaça dos cubanos entrenhada em mim. Não me incomoda, não protestei e até achei piada.
Além de charutos as hospedeiras vestidas de azul, branco e vermelho também ofereciam rum. Um rum "da casa", muito manhoso, em copos de plástico. Esse, não rejeitei.
A ferrugem que se via junto às janelas serviu para os meus amigos me atormentarem toda a viagem. E gritavam "vamos cair, vamos cair!" de cada vez que uma turbulência interrompia as nossas gargalhadas. Eu olhava pela janela e só me fixava na ferrugem junto ao vidro. "E se há ferrugem também no motor!", perguntava-me querendo manter o sorriso exterior.
"Un Ron más?"
"Si, gracias. Como no?"
(O Rum era horrível, amarelo, quase detergente. Também acho que foi a primeira vez que bebi Rum. Pelo menos amarelo com sabor a Super Pop Limão.)
Foi uma viagem inesquecível a todos os níveis, a bordo da mítica Air Cubana. Habana abraçou-me com todo o calor e alegria e ainda hoje guardo Cuba no coração.
Lembro-me que a ansiedade que tinha na véspera de embarcar para Cuba é muito semelhante à que sinto hoje. Não tem a ver com o receio de andar pela primeira vez de avião, que à data. Tem a ver com a alegria da partida, com a aventura, com o fazer as malas eufórica, com o desconhecido, com o improviso, com o enriquecimento pessoal, com o crescer, com o sentir a vida.
Sinto, por estas horas, a mesma euforia. Tão feliz...
A tentação do Oriente acompanha-me há demasiado tempo para tê-la subestimado sucessivamente. Estou ansiosa por aterrar na terra do Sol Nascente.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





































