quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Conversa sem guião

Conduzia pela cidade depois de ter dado uma maratona de aulas. Estava com a cabeça num nó. Liguei o rádio do carro e sintonizei a Antena2. A música calma e a conversa sobre livros acompanharam-me junto ao Tejo no regresso a casa.

Duas pessoas falavam de viagens, de Berlim, de São Paulo, de Moçambique. E o homem a querer falar do livro. E ela a querer falar da vida. E ele, então, percebeu e deixou-a fluir. E ela, a escritora Teolinda Gersão, começou a falar sem guião: a chuva que liberta, os contos africanos, a árvore das palavras, o livro dos anjos, as águas livres, as almas livres, as histórias inacabadas como na vida…

Tão bom… Uma conversa à solta. Sem guiões.

E houve uma frase que retive. Disse ela qualquer coisa como “não sei como só tão tarde me dei conta da vida que passou por mim sem que eu desse conta enquanto era cedo.” 

Esta ideia não me sai da cabeça. 











sábado, 22 de fevereiro de 2014

Avessos

Eras para ter vindo, não vieste. 
Eras para ter ficado, saíste.
Era para estar sol, choveu.
Era para ser, não foi.
Há dias em que o mundo parece ao contrário.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Banhos de silêncio

Enche a banheira de água quente. Não fales. Dói-me muito a cabeça hoje. Preciso apenas de te saber aqui. Calado. O silêncio pode ser maravilhoso. A água a correr. O vapor da água quente. O espelho difuso. A banheira que enche. O silêncio. O meu corpo nu projectado no espelho. Embaciado. A minha pele pálida. O teu olhar sereno. Gosto que não me perguntes porquês. Calemo-nos apenas. Um banho de silêncio. Quente.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Vermelho

Tinha o coração tão exaltado 
E o sangue tão desenfreado 
Que o devaneio descontrolado 
Começou a tingir-lhe o cabelo









sábado, 15 de fevereiro de 2014

Prémio

Recebi primeiro um telefonema. No outro lado da linha, uma voz serena e segura. Ouvi mais do que falei. Ia registando palavras soltas: "Manuel António Pina", "Poesia", "Infusão", "Textos de Amor", "Prémio", "2º lugar", "Parabéns". 
Ainda não estava a acreditar. Eu? Um prémio de poesia? 
- "Tem aqui um maravilhoso texto", dizia o Presidente do Júri ao telefone. 

A notícia oficial chegou uns dias depois, por escrito: "Agradecendo a sua participação na edição de 2013 do Concurso Nacional Textos de Amor Manuel António Pina, venho renovar as felicitações pelo 2.º Prémio Nacional obtido com o seu texto "[In] Fusão", de entre cerca de 900 textos que recebemos."

O texto "[In] Fusão" foi escrito aqui, pela primeira vez, neste blogue. 

Há prémios que nos enchem o coração. 



Notícia publicada aqui

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A écharpe do bazar

Na plataforma da despedida já chamavam os últimos passageiros para o embarque. Passos apressados de um lado para o outro, cigarros fumados nervosamente e à pressa, uma criança a chorar, atirando-se para o chão. A chuva batia nos vidros com violência. “Que frio. Ainda bem que tomei aquele café quente”.

Levava o bilhete e o passaporte na mão. Mexia no telemóvel como se estivesse à espera que lhe entrasse uma última mensagem antes de o desligar. “Desligo só quando estiver sentado lá dentro”.
- Boarding pass, please!
Mostrou os documentos. Tinha pela frente onze horas de viagem.

Ouviria música, veria alguns filmes originais sem legendas, leria algumas páginas do livro antes de tombar o pescoço, adormecido.
Encolhido no estreito banco da classe económica voltou a mexer no telefone. “Então, não diz nada? Nem um ‘boa viagem’, nem nada?…”

Ela estava no escritório. Sabia que àquela hora ele estava prestes a descolar. Se tudo corresse bem só voltaria a vê-lo daí a algumas semanas. Não se tinham despedido. Aliás, pouco falaram por estes dias. Torcia para que tudo corresse bem. A Índia é um país de enormes contrastes. Viria mais magro, talvez diferente. O telemóvel vibrou. “Será dele?” Não era. Apagou a mensagem quase sem a ler. Era uma publicidade de descontos de um supermercado. Atirou o telefone para cima da secretária.

Ele apertou o cinto de segurança. Puxou as costas do banco para a frente. Olhou uma última vez o visor. Desligou o telefone.

Ela queria ter ido ao aeroporto. Dar-lhe um beijo.
Ele também queria que ela tivesse ido. Dar-lhe um abraço.
- Vens?
- Voltas?

O avião descolou. Ela olhou para o relógio. Ele respirou fundo. Não se despediram.

As viagens, mesmo as de longo curso, não apagam os lugares de partida. Nem alteram os destinos à chegada.

Traz-me um beijo com especiarias. E uma écharpe de seda. 








quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Da Rádio

Hoje é o Dia da Rádio. No meu caso, até podia ser hoje o Dia dos Namorados. Namoro com a Rádio todos os dias.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pára

Inventaram o pára-choques para protegermos a chapa dos embates.
Inventaram o pára-chuva para protegermos os cabelos dos pingos.
Inventaram o pára-brisas para podermos abrir os olhos na viagem.
Inventaram o paradeiro para podermos desfrutar a espera.
Inventaram o parapeito para podermos olhar as estrelas à janela.
Inventaram o parágrafo para podermos aplicar os pontos finais.
Inventaram o paradoxo para podermos hesitar e reflectir.
Até inventaram o paraíso, a promessa pintada do que há-de vir.
Como é que ninguém ainda inventou um pára-dor?
Nem ao menos um amortece-dor?


Mi e Dor de Toamna Culoare Vita Vie Soalere Cald Si Picture

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Noite

Ela sabia que o dia seguinte era um dia importante. Ela sabia que não poderia chorar. Ela quis chorar por antecipação, para no dia seguinte as lágrimas sossegarem. Ela chorou por antecipação. E choveu toda a noite.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Opened door*

Quando a porta a que tanto batemos finalmente se abre não devemos perguntar porquê: porquê agora ou porquê eu ou será que é mesmo para mim. Abriu. Nada a declarar. Devemos simplesmente entrar a correr. Passar pela porta até aí fechada. Entrar. Antes que se feche outra vez.


Monica Zúñiga

* Texto inspirado numa sequência de diálogos da série The Good Wife


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Lista de espera

Entrou com pés de lã, como se apenas tivesse entrado uma sombra.
- Boa tarde, sussurrou baixinho.
- Olá, boa tarde. Diga.
Uma pausa. A chuva a bater na janela com mais força. Ambos os olhares apontam para lá.
- Diga, menina - insiste a mulher ao balcão.
- Precisava que me marcasse uma hora para sonhar.
- Para esta semana já não dá.
- Nem no Domingo?

Enchanted Dolls - Marina Bychkova

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Jura

Cada vez que ouço a palavra "juro" penso sempre, à primeira impressão, que as pessoas que a dizem estão a mentir ou, pelo menos, a roçar a mentira.

As crianças dizem "juro" para garantirem aos pais e aos professores desconfiados, porventura com motivos, que não fizeram nada de errado. Mas os adultos não deviam dizer "juro" a não ser em Tribunal ou perante a Constituição da República.

Quando, a meio de uma conversa, me dizem "juro" ou me perguntam "jura?" apetece-me virar as costas. Jurar? Mas jurar porquê? A palavra não chega? Não acreditam no que se está a dizer?

Jurar o que se está a dizer é oferecer uma garantia caso o que se disse antes não seja verdade. É uma garantia verbal ao que a mesma pessoa acabou de dizer. Dita pela mesma pessoa. É um reforço de verdade como se a verdade existisse apenas em meias doses. É, portanto, uma irónica contradição.

- “Comprei isto por mil euros.”
- “Por mil euros? Só?! Não pode ser.”
- “Juro!”

Se não dissesse “juro” a outra pessoa não acreditaria? Só passou a acreditar depois de ter ouvido a palavra mágica? Uma palavra de valor reforçado que, no limite, pode também servir para reforçar uma mentira caso a primeira seja mentira também.

Qual a origem de "jurar"?
De juro ou juros? Bem sei que não, mas se fosse isso seria mesmo mau. Devia sempre ser evitado.
Se "jurar" vier de juridict, aceito que se aplique às questões ligadas à Justiça. Jurar dizer a verdade, apenas a verdade e nada mais do que a verdade. A justiça vive de rituais que devem ser preservados.

Mas, na verdade, a origem etimológica da palavra é do latim jurāre, ou seja dizer de forma única e definitiva.

Mas terá mais força uma palavra única como:
“Amo-te”
Ou uma frase de “valor reforçado” como:
“Juro que te amo”? 



quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Na penumbra da noite

o mundo pararia
as ondas rebentariam mudas
o vento adormeceria
as árvores bailariam em pontas

só as estrelas cintilariam
sem ruído
só luz distante

e na penumbra da noite divina
a magia única
da tua respiração
          [a meu lado]


In the mood for love - Wong Kar-Wai





segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Não se conhecem

Não se conhecem, nunca se viram. Cruzam-se casualmente.
Ele repara na mulher que tem à sua frente. Ela ainda não o viu. Ele fica siderado. Não tira os olhos dela. Ela vê um homem à sua frente. Não propriamente um homem. Vê uns olhos de homem parados, brilhantes, fixados em si. 
Estão de frente um para o outro, porque aquele era o rumo que cada um seguia. 
Ele caminha na direcção dela. Ela repara que ele o fixa. Olha-o, discretamente, ainda de longe. Ele não pára de a olhar e procura que ela se fixe nele. Ela desvia o olhar, inibida, enquanto caminha. Mas ela sabe que ele continua a fixá-la. 
Nenhum desvia o trajecto. Vão-se aproximando. Nada existe à sua volta, nem trânsito, nem carros, nem lojas, nem árvores, nem outras pessoas. Só um e outro, quase em câmara lenta. Só os olhos de um e os olhos de outro. 
Ele abranda o passo. Ar suspenso. Estão a segundos de se cruzarem. 
Ela volta a olhá-lo. Um metro separa-os. Já quase sentem o cheiro um do outro. Ele cede e rende-se. Sorri, perdido. Ela responde com um leve trejeito de lábios. Um quase, quase sorriso. 
Menos de um metro. Ela mexe no cabelo. Ele pára à sua frente. 
- Se fosse num filme, agora oferecia-te uma flor.

Robot android woman holding a red rose (at Shutterstock)






sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Say something




Say something, I'm giving up on you
I'll be the one, if you want me to
Anywhere, I would've followed you
Say something, I'm giving up on you

And I am feeling so small
It was over my head
I know nothing at all

And I will stumble and fall
I'm still learning to love
Just starting to crawl

Say something, I'm giving up on you
I'm sorry that I couldn't get to you
Anywhere, I would've followed you
Say something, I'm giving up on you

And I will swallow my pride
You're the one that I love
And I'm saying goodbye

Say something, I'm giving up on you
And I'm sorry that I couldn't get to you
And anywhere, I would have followed you
Oh-oh-oh-oh say something, I'm giving up on you

Say something, I'm giving up on you
Say something

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Promessas

Não sou de grandes promessas. Aliás, nem grandes nem pequenas. Não sou de promessas, simplesmente.

O início do ano provoca-nos atitudes ritualizadas de prometermos a cada passa que engolimos, distraídos, à passagem das badaladas da meia-noite, um objectivo. Também não aprecio propriamente passas de uva. Gosto de uvas e de vinho, mas não especialmente de passas. Talvez isso justifique que nem sempre coma as doze na passagem de ano.

Na verdade, também não penso previamente nos doze desejos ou “promessas” que é suposto fazermos à meia-noite. Se calha a ter passas à mão, à meia-noite, como algumas. Se ninguém as tiver, não dou pela falta.

Doze badaladas. Gritos, champanhe, abraços, sorrisos. E o pensamento sincronizado com a data. 

Às vezes, confesso, penso num ou noutro desejo. Mas na verdade, penso em pessoas. Sim, à meia-noite pensei em pessoas. Mas continuo todo o ano a pensar nelas. Para mim, é fim de ano todo o ano.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Caminharemos

Tenho sempre a sensação que me olhas de lado sempre que regresso depois de uns dias sem passar por aqui. Passaram poucos dias, aliás. Nem compreendo esse olhar de soslaio... Devias estar feliz, isso sim! Há blogues que acabam na viragem do ano, sabes disso, não sabes? Devias dar-te por satisfeito porque, obviamente, vais continuar em grande actividade em 2014.
Nunca vi um Diário com tamanha necessidade de atenção. Fiteiro!
Já sabes que por estes dias foi Natal, foi o Fim de Ano, as reuniões familiares, os jantares de amigos, e houve os fritos e os chocolates e o fogo de artifício e as passas. Não é que não me lembrasse de ti quase todos os dias, cheia de vontade de te tocar e de te contar tantas coisas. Mas, olha, não deu! Aqui estou a redimir-me. Desculpa. Prometo dar-te (ainda) mais atenção este ano.
Feliz Ano novo, querido Metafísico! Caminharemos juntos, também, em 2014.

sábado, 21 de dezembro de 2013

A Gente Vai Continuar




Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar

E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que digo

E o que digo à minha mão se não tenho a tua?
E o que digo aos meus olhos se não te vêm?
E o que digo aos meus braços se não te sentem?
E o que faço com os lábios se não te beijo?

Antonio Canova: Cupid and Psyche

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Eu não sou

Eu não sou chefe de Estado nem de Governo. Não tenho cargos nem tive. Não sou ninguém importante nem ex-nada. Não tenho motorista nem uso pins na lapela. Mas adorava poder estar naquele Estádio em Joanesburgo a viver este momento histórico. Já que não pude entrevistá-lo, ao menos estaria ali a sorrir, emocionada, por ele. Por nós.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Da privacidade

O Natal tem coisas maravilhosas. Mas também tem outras péssimas. Todos os dias fico surpreendida com as fotografias orgulhosamente colocadas em redes sociais e blogues, escancarando a intimidade da decoração de algumas Árvores de Natal de gosto duvidoso. Há recantos domésticos que eu, sinceramente, preferia não ter visto.
É como ter de ver, no Verão, algumas das pessoas que vejo todo o ano de fato e gravata com os pés refastelados em chinelos de enfiar no dedo.
É Natal, sim... Devemos ser solidários e tal... Mas não exageremos...

Há pessoas

"e largou-me o braço devagar, cada dedo, independente dos outros, a soltar-se indo e ficando, há pessoas que demoram tanto tempo a deixar-nos, o corpo vai-se mas os olhos permanecem ali"

António Lobo Antunes, in Não é Meia Noite Quem Quer


Ayako Kanda Mayuka Hayashi, "RX-Ray Couple Portraits"



quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Vermelho da Cor do Céu - TSF

Neste Dia Internacional das Pessoas com Deficiência partilho convosco o meu pequeno contributo para acabar com o preconceito. "Vermelho da Cor do Céu" foi uma das Grandes Reportagens que mais gostei de fazer (com o grande sonoplasta Luis Borges Cândido). E foi seguramente das que mais me marcou. Ouçam. Com os olhos fechados e com a luz apagada.

Vermelho da Cor do Céu - TSF

Como é o mundo de quem nunca viu?A Reportagem TSF coloca a venda nos olhos, segura a bengala e entra no mundo de quem não vê com os olhos. Mercedes gostava de saber como são as pessoas, como são os seus rostos. Tiago queria ver com olhos um cavalo a correr, porque parado já o viu com as mãos. Alcides não sabe de que cor são os seus olhos porque é como se não existissem. Susana e Rodrigo, casados sem nunca se terem visto, nunca acendem as luzes na casa onde vivem. Ângelo vê com os dedos obras de Picasso e imagina as formas e um mundo que nem Picasso imaginou. Para uns o Sol é azul, da cor do céu. Para outros, as estrelas são candeeiros pendurados no tecto do céu. Para outros ainda, o céu é vermelho ou azul ou sem qualquer cor.

«Vermelho da Cor do Céu» é uma grande reportagem de Ana Catarina Santos, com sonoplastia de Luís Borges.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Rua dos dias de voam

Não é a placa que forra a esquina da minha rua, mas bem podia ser. Os meus dias voam e nem dou por eles. Passam por mim a voar. Os meus dias voam por mim, através de mim.


Ouvi esta tarde um senhor a lamentar-se que ainda ontem tinha vinte anos e num estalar de dedos passaram outros quarenta.
- "Quarenta, menina. Passaram quarenta anos e nem dei por eles."
Fixei-o. E ele continuava a desabafar ao balcão para quem o quisesse ouvir, enquanto lhe saía o vapor do café escaldado dos lábios:
- "Até aos vinte parecia que tinha tempo para tudo. A partir daí deixei de controlar o tempo. Como é que é possível?! Como é que já passaram estes anos todos?!"

Virei o espelho daquela conversa para mim.
A vida de hoje não me dá tempo para vivê-la. Corro na vida em vez de passear por ela. Corro na vida em vez de passear com ela. A passo lento.

Os dias não esperam por mim.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Merak. Ou "curiosidades" em turco.

- Laranja em turco diz-se “Portakala”. Quando dizemos que vimos de Portugal, temos de pronunciar bem a palavra ou entendem que somos naturais de “laranja”.

- Chá em turco diz-se “Çay”. Lê-se tchai, parecido com o som em português.

- A borra do café turco que fica na chávena, depois de tomado o café, serve para os turcos lerem a sina. Viram a chávena de cabeça para baixo e a borra que ficar no pires é lida como quem lê a palma da mão.

- Os turcos acreditam que se não fossem eles não haveria o hábito de beber café no Ocidente, uma vez que dizem que foram eles que introduziram o café na Europa.

- O pistacho quase podia ser o alimento nacional. Tudo tem pistachos! Os pistachos são servidos sempre sem sal e acompanham quase sempre as reuniões de trabalho. Imensos alimentos têm recheio de pistacho, carne com pistacho, puré de pistacho, peixe do Mar Negro com pistacho, sobremesas de pistacho, chocolate de pistacho, etc.

- Em Istambul há eléctricos como em Lisboa, mas em vez de serem amarelos são vermelhos. Hoje em dia são praticamente apenas turísticos e é fácil encontrá-los na Praça Taksim. 


- O alfabeto turco não é árabe. É uma variante do alfabeto latino. Tem 29 letras, das quais 8 são consoantes, mas não existem as letras Q, W e X.

- Os turcos adoram flores. Por todo o lado se compram e vendem flores. A Turquia é um dos maiores produtores de flores. Além da quantidade há muita variedade: dizem ter mais de 9 mil espécies de flores diferentes. Até vi rosas verdes à venda na Praça Taksim!

- Os turcos são fanáticos por futebol e adoram desportos de uma maneira geral.

- Istambul é a única cidade do mundo dividida em dois continentes – uma parte na Europa e outra parte na Ásia – apenas separadas pelo Bósforo.

- São Nicolau (St. Nicholas – o “Pai Natal”) nasceu no Sul da Turquia.

- Ataturk é venerado e adorado em todo o País. Por todo o lado há imagens (santinhos) do “pai fundador” da Turquia, num culto da personalidade excessivo.

- Em Istambul vendem-se na rua deliciosas maçarocas de milho assado na brasa por menos de um euro (2 Liras Turcas).


- O trânsito é caótico. Há quem faça marcha-atrás ou inversão do sentido de marcha em plena auto-estrada, apenas para tentar fugir ao trânsito.

- Os turcos têm por hábito mastigar “cravinho” (especiaria) depois das refeições. Dizem que serve para melhorar o processo digestivo e para promover a higiene oral. Não é raro os turcos oferecerem “cravinhos” aos seus convidados no final das refeições.

- A capital é Ankara mas Istambul é a maior cidade, onde vivem cerca de 15 milhões de pessoas.


- A média de idade na Turquia é de 31 anos.

- A origem da palavra “Turquia” é “Türk”, que significa “forte”.

- O lema nacional da Turquia é “Paz em casa, Paz no Mundo”.

- Na Turquia ninguém deve beijar-se em público. Os namorados, noivos, casais, não devem beijar-se na boca nas ruas. Antigamente era proibido por lei. Hoje já não é assim mas ainda há quem censure esse comportamento. Em Istambul essa “regra” é mais flexível. E não é aplicável aos turistas.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Menina do Mar

"Eu sou a menina do mar. Chamo-me Menina do Mar e não tenho outro nome. Não sei onde nasci. Um dia uma gaivota trouxe-me no bico para esta praia. Pôs-me numa rocha na maré vaza e o polvo, o caranguejo e o peixe tomaram conta de mim. Vivemos os quatro numa gruta muito bonita."














"Tu nunca foste ao fundo do mar e não sabes como lá tudo é bonito. Há florestas de algas, jardins de anémonas, prados de conchas. Há cavalos marinhos suspensos na água com um ar espantado, como pontos de interrogação. Há flores que parecem animais e animais que parecem flores. Há grutas misteriosas, azuis-escuras, roxas, verdes e há planícies sem fim de areia branca. Tu és da terra e se fosses ao fundo do mar morrias afogado. Mas eu sou uma menina do mar."


















"- Bom dia - disse o rapaz.
E ajoelhou-se na água, em frente da Menina do Mar.
- Trago-te aqui uma flor da terra - disse; chama-se uma rosa.
- É linda, é linda - disse a Menina do Mar, dando palmas de alegria e correndo e saltando em roda da rosa.
- Respira o seu cheiro para veres como é perfumada.
A Menina pôs a sua cabeça dentro do cálice de rosa e respirou longamente. Depois levantou a cabeça e disse suspirando:
- É um perfume maravilhoso. No mar não há nenhum perfume assim. Mas estou tonta e um bocadinho triste. As coisas da terra são esquisitas. São diferentes das coisas do mar. No mar há monstros e perigos, mas as coisas bonitas são alegres. Na terra há tristeza dentro das coisas bonitas.
- Isso é por causa da saudade - disse o rapaz."















"Menina do Mar", Sophia de Melo Breyner Adresen - excertos

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Montanha Mágica

Conheci um japonês no metropolitano de Madrid. Estava vestido de negro, usava óculos de massa escura, lentes rectangulares, calças escuras, creio que cinzentas. Devia ter uns trinta anos. Se bem que adivinhar a idade num oriental é sempre uma tarefa complicada.

[- E por que não poderia ser um chinês? Ou de outra nacionalidade?
 - É japonês. De certeza absoluta.
 - Como é que sabes? Ele nem sequer falou…
 - Pediu licença para se sentar. Baixou a cabeça quando fez a pergunta. Não olhou ninguém directamente nos olhos. Sentou-se discretamente. Ocupou o lugar sem se encostar em nada. Ninguém deu por ele. E pôs-se a ler.]

Era um livro japonês. Os caracteres de cima para baixo e da direita para a esquerda. Não resisti e fixei o livro. Ele percebeu que eu estava curiosa. Continuou a ler. Não tirei os olhos do livro e acho que até sorri. Tenho livros do género lá em casa, desde que no ano passado me inscrevi no curso de língua japonesa. Ele lia. Eu fixava as páginas. Ele mudava de página. Eu procurava detectar algo que me fosse familiar. E ele de olhos presos ao livro. Eu espreitava pelo canto do olho, insistente. Até que ele ajeitou o livro para que eu pudesse vê-lo melhor.

[- Apanhou-te!
 - Sim, mas eu também não estava propriamente a ser discreta.
 - E falaram? Comunicaram? Ele olhou-te nos olhos?
 - Falámos.
 - Sobre o quê? Que livro era?]

Fechou o livro e mostrou-me a capa. Era um livro de capa mole, amarelado, discreto. Um palmo de livro, quase de bolso. Apontou com o dedo indicador para os caracteres que estavam no topo da página. Tinha o dedo magro, muito branco, de unha aparada e limpa. Ouviu-se uma voz baixinha e hesitante. “Magic” – apontou para um quadradinho riscado. “Mountain”, indicou outro conjunto de traços. Sorriu timidamente. Sorri-lhe também.




Falámos sobre o Japão, sobre Tóquio, sobre o bairro de Roppongi, sobre o mercado do peixe, sobre os jardins de pedra, sobre os templos de Quioto, sobre o Templo Dourado, o meu preferido. E falámos sobre Portugal, e sobre Sintra, e para onde ele ia a seguir a Madrid, e de onde tinha vindo. Disse-me que já tinha visitado Lisboa e até tinha ido à “Loca”. 
- À Loca?!
- Loca Cape.
- Ah, Roca Cape…
O Cabo da Roca. O simbólico ponto mais ocidental da Europa continental. Fechou o livro. “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann.

Livros. Japão. Perguntei-lhe se gostava de Murakami.
- Mais ou menos. Ele escreve melhor em inglês do que em japonês. No resto do mundo é mais reconhecido e conceituado do que no Japão. É bom, mas não está no meu top five. Escreve melhor em inglês.
- E quem está no teu top?
Disse-me o nome de um japonês que não consigo reproduzir. Devia ter apontado no meu bloco de notas, mas não o fiz. Pedi-lhe que repetisse. Não percebi. Não consigo agora lembrar-me do nome ou sequer reproduzir a sonoridade. Disse-lhe que não conhecia, que nunca tinha ouvido falar.
- E também o Mishima. Esse sim, está no top dos dois ou três melhores. O Murakami está entre os dez, mas fora do pódium.
- Ah, o Mishima conheço. Já li alguns dele. É excelente!

A carruagem do metro parou. Procuramos ambos o letreiro na estação para comprovarmos que não tínhamos perdido a paragem. Estávamos em Mar de Cristal, na linha 8. Faltavam umas duas ou três paragens.

            [- Estás encantada a falar do japonês. Era giro?
             - Não. Nada disso.
             - Apaixonaste-te pelo japonês?
              Ri-se e atira o corpo para trás.
  - Que disparate! Tu conheces-me. Sabes que não me agradam particularmente os orientais. Era simpático, só isso.
  - Só isso?
  - E interessante.
  - Humm…]

Continuámos a conversar.

- E não achas que Thomas Mann é uma leitura um pouco pesada para se ler no metro?, inquiri.
- Para mim não – respondeu prontamente.
- Não?
- Se fosse Hegel ou Kant talvez te dissesse que sim.
Arregalei os olhos, fixando-o de frente. Ele olhava-me de raspão nos olhos mas não me fixava.
- Gostas de filosofia?
- Sim. Gosto de filosofia, não de filósofos. Mas, na verdade, ainda estou à procura do meu caminho.

[- My way, disse-o em inglês.
 - My way…
  Silêncio. Pausa.
 - Ele está a ler a Montanha Mágica, do Thomas Mann, à procura do seu caminho.]

A carruagem do metropolitano parou. Gente a sair e a entrar. Nuevos Ministérios. Era a minha paragem. E a dele. Levantámo-nos. Saíamos ali. Uma hesitação.

            [- Como se despediram?
             - Normal.
             - Normal como?]

Dou-lhe dois beijos? Um cartão de visita? Trocamos números de telefone? Ou nada? Hesitei. E ele também.

            [- Mas afinal como se despediram?! Ficaste com o contacto dele?]

- Adeus. Que tenhas um bom dia. - disse-me vagamente sorrindo.
- Adeus. Tu também.
- Que tudo te corra bem.
- E a ti. E espero que encontres o teu caminho.
- E tu o teu.

Um aceno de mão do lado de lá. Um aceno de mão do lado de cá. A uns passos de distância. Um jovem japonês parado, de pé, a olhar-me de frente. Algumas pessoas atravessaram-se pelo meio, a correr para o metro, enquanto soava o sinal de que as portas iam fechar-se no instante seguinte. O japonês parado. A mão direita no ar, parada. O livro na outra mão, caído junto à anca.

Procurei a placa que me indicasse a saída. O meu caminho.



terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ao vapor

Hoje não me apetece sair do duche. Aqui na minha cápsula, na minha concha, estou aconchegada. Água quente escorrendo pela nuca. Olhos fechados. Respiração lenta. Vapor por todo o lado. Nada se vê, nada se mexe, nada se ouve. Nem liguei o rádio. Silêncio. Só se ouve o som da água a cair. Tchchchchchchch… O chuveiro, lá no alto, abundante. Água dura. Como uma cascata no meu crânio cansado.

Percorro o meu dia de olhos fechados. Falo para dentro enquanto o duche me alivia. “Devia ter feito isto ou aquilo. Simpático, aquele almoço. Bolas, esqueci-me de ligar a alguém.” 

Organizo o meu cérebro amolecido pela água quase a escaldar. Derreto as minhas defesas. 

Sinto calor. Talvez esteja a transpirar. A pele das costas já deve estar quase escalfada. Sabe tão bem. Estou em banho-maria. É quase um casulo, de tão bom. Puxo os ombros para trás, rodo o pescoço, olhos fechados, estico os braços tacteando a água que me foge dos dedos. 

Hoje não me apetece sair daqui. Tchchchchchchch… Eu e o chuveiro.

As paredes molhadas. O espelho embaciado não me olha espantado, como pela manhã. Nem sequer o espelho me vê. A pele amolece. Ao vapor. Eu também. Quebro. Hoje não me apetece sair do duche.



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Trato o Outubro por tu


Trato o Outubro por tu. Conheço-lhe os truques todos. Gosto do Outubro porque me desafia. Quando arrumo os algodões lá vem ele meter-se comigo à janela.
- Bom dia! Trago-te os primeiros pingos.
- Bom dia, Ó Tu…
Digo isto para o picar. Detesta que o trate só por “Ó-Tu”.
- O meu nome é Outubro. Ou-tu-bro, entendeu? Com dois "u's".
Rio-me. Ele irrita-se. E, nesse caso, chuvisca.

Temos longas conversas, eu e o Outubro.
Trato-o sempre por tu, não que ele me tivesse dito para o fazer. Habituei-me a tratá-lo assim e não me imagino a tratá-lo doutra maneira. Ele, porém, não. Nunca se sentiu à vontade para me tratar por tu. Já insisti mas ele resiste. 
É um artista, este Outubro. Faz-se difícil. É para manter uma certa distância e fintar-me sem ficar com problemas de consciência. Conheço-o de ginjeira!
- Tiraste a gabardine para quê? Hoje estou de esplanada. Vais querer mesmo sair de gabardine?
Ri-se, o pirata. Ri-se de mim.

O Outubro sabe que eu gosto de prolongar os Setembros. Nunca lhe escondi que o Setembro é o meu favorito. Fica amuado e ciumento com isso, o meu querido Outubro.
- Anda cá, deixa-te de fitas… Fica aqui. Traz tu a manta, que eu levo o vinho tinto. 
Mas ele insiste nas voltas vadias. 




quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Abreijos abjectos

Há cada vez mais gente a recorrer à expressão "abreijos". Considero a palavra "abreijos" detestável. Ou são abraços ou são beijos. Um abraço vale por si. E um beijo vale por si. "Abreijos" é que não, pelas almas!


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Mar guerreiro

E ali estavas, sentado, a olhar o mar. O mar estava agitado. Estavas em silêncio. E tu, sentado, à janela do mar. Olhar brilhante, fixo. O reflexo do mar nos teus olhos. Só tu, tão menino. E o mar, tão homem. Só tu. E o mar guerreiro.




sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Meia dose

- Bom dia!
- Bom dia. Em que posso ser-lhe útil?
- Queria meia dose de amor.
- Como?
- Meia dose de amor, se faz favor.
- Meia dose?
- Sim, por favor. Para embrulhar.
- Meia dose não vendemos.
- Não?
- Não. Só dose inteira.
- Uma dose inteira de amor?
- Sim. Só vendemos doses completas.
- Humm… Mas isso assim não me dá jeito.
- Ora essa... Porquê?
- Porque vai sobrar. Não dou conta disso tudo.
- Claro que dá!
- Não, não. É imenso…
- Olhe que estou aqui há muitos anos e nunca nenhum freguês me pediu só meia dose de amor.
- Pois, mas uma dose inteira é muito para mim. Não consigo mesmo. Desculpe.
- Não tem nada que pedir desculpa. É assim mesmo. Estamos cá para isso.
- Obrigada. Até logo!
- Adeusinho.



terça-feira, 24 de setembro de 2013

Ao Poeta António Ramos Rosa

O senhor é um bandido. Morrer numa altura destas, seu atrevido?! E logo agora que eu precisava tanto de si. Eu, não. Nós! Nós precisamos de si. Nós todos! Mais do que nunca. É em tempos de crise e incerteza que mais precisamos de homens como o senhor.

Nunca consegui tratá-lo por tu. Bem sei, bem sei, que sempre insistia para que o tratasse com menos formalismo. Mas não consigo. Nunca consegui. Desde o primeiro dia que lhe guardo um enorme respeito e adoração, como sabe. Como, de resto, lhe disse várias vezes olhos nos olhos.

Gostei de si logo na primeira vez que o ouvi dito (e bem dito), entoado e encorpado pela voz aveludada e cheia do nosso querido Fernando Alves (bendito). Gostei tanto, tanto, de si logo naquele primeiro dia.

O senhor é, de facto, um grande Poeta... Que letras, que intensidade, que poder, que força, que artesão da palavra, que escrita, que arte, que poesia... Que maravilha... Que grande Poeta o senhor Ramos Rosa me saiu, sim senhor...

(Não insista, Poeta, não consigo mesmo tratá-lo por tu.)

Todas as noites, no beijo nocturno que me dá quando leio os seus versos, o senhor sussurra-me a vida. A vida toda nas suas letras. Um sussurro bom mesmo, mesmo antes de dormir.

Não adormeço bem se não vou lá espreitá-lo e dizer - nem que seja - um até amanhã. Às vezes acordo-o no meio das minhas insónias.
- "Desculpe, senhor Poeta... Não devia acordá-lo assim sem mais nem menos, a meio da noite, mas não resisto."
Quando acordo pela madrugada ou estou demasiado agitada, bato-lhe ao livro.
Truz-truz.
- "Pode serenar-me?"

Tenho sempre de ir lá roubar-lhe um beijo de boa noite. Tenho de tocar as suas letras e pedir, baixinho, que me aconchegue na cama. Tenho de passá-lo pelos olhos para colorir os meus sonhos. Tenho de cheirar-lhe a escrita para florir de alfazema os meus lençóis.

E agora, vai-se embora, seu bandido? Sempre a brincar com os sentimentos dos outros. Vá, deixe-se de fitas e não saia daqui. Deixe-se disso...

Venha cá. Fique aqui, meu querido Poeta. É urgente que fique...

Os Poetas não morrem. O senhor será sempre o meu Ramos Rosa. O senhor será sempre o meu Nobel da minha academia sueca da mesa de cabeceira. O senhor será sempre o mais querido dos meus Poetas. O meu querido algarvio...

Venha, vá... Está na minha hora de dormir. Vá, já é tardíssimo... Chegue aqui... Ande cá, seu teimoso. Vá... Logo hoje, que estou tão agitada. Preciso tanto de si.

Truz-truz
- "Senhor Poeta? Está aí?"






quinta-feira, 12 de setembro de 2013

S

Encontrei um S na rua. Mas não era um S qualquer. Era um S grande que brilhava imenso na calçada, ao sol. Um S prateado, bem torneado, com um tracinho em cada ponta. Como quem sabe exactamente até onde pode ir. Sabe que aquele seu S termina ali. Um S bem definido. Achatado reluzindo ao sol.

Um S perdido. Andaria à procura do quê, aquele S?

Bem, na verdade, não sei se aquele S estaria perdido. Podia apenas querer estar ali. Parado a aquecer-se ao sol. Se andasse perdido, porventura, estaria desesperado. Pediria ajuda a quem passa, gritaria pelo O e pelo outro S. Mas não. Aquele S talvez não estivesse perdido. Pareceu-me um S cheio de si, ali sozinho, ao sol.

Teria andado colado a algum pescoço? Pendurado num fio? Podia ter-se cansado da pele humana, talvez até do suor. “Ai, esta pele deste pescoço dá-me calor. Vou-me embora!” Talvez não gostasse do cheiro da pele da pessoa que o trazia. Talvez os S’s sejam demasiados sensíveis ao cheiro. Fartou-se. Foi à vida dele.

Estaria junto a outras letras? Seria a primeira de várias letras de um nome? Sim, porque aquele S, tão robusto, não me parece que seja S para ficar no meio ou no fim de um nome. É um S com ar de maiúscula. Um S com pose de inicial.

Agachei-me junto ao S para o ver mais de perto. Um S de prata, cheio de si, cheio de pose. Sozinho na praça forrada a calçada portuguesa. Era bonito, o raio do S... 
- “Estás a olhar para o quê?”, desafiou-me.
- “Estás só?”, perguntei-lhe a medo.
- “Não. Vês aqui algum ó?”



quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Gerúndios de Setembro

Setembro é o primeiro dos gerúndios nos meses do ano. Setembro é gerúndio. É ir fazendo. É ir entrando. É ir recomeçando. É Setembro. Setembrando. Com calma. Sentindo a temperatura a baixar. Com tranquilidade. Apertando os dias. Com sabores mais quentes. Vestindo as primeiras malhas. Olhando o pôr-do-sol de frente. Cantando. Espreitando as estrelas mais cedo. Sorrindo. Setembro. Com tempo. Temperando. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Regresso-te

E com o fim de Agosto regresso-te.
Primeiro foi a crise política que me afastou… Depois da crise, foi o Verão que me sequestrou. As horas na praia até à noite, os pés descalços na areia quente, o corpo triunfante no mar fresco, a pele estaladiça e salgada, a dormência dos dias sem relógio.
Agora regresso-te. Cheia de mim. Para te dar.