terça-feira, 1 de abril de 2014

Maldito Rádio






Não, de novo não
Não quero ouvir não
Agora não

Não, de novo não
Não quero ouvir não
Agora não

Maldito rádio
Agora que parecia que eu ia
Deixar um falso amor lá na memória
Agora que parecia que ia ser agora

Não é momento
De machucar meu coração com melodias
Maldito rádio não me faça pensar nela
Volte pras notícias
Para o hit da nova novela

Maldito rádio... maldito rádio
Maldito rádio... maldito rádio

Não, de novo não
Não quero ouvir não
Agora não

Maldito rádio
Agora que parecia que eu ia
Mudar de vez o curso dessa história
Agora que parecia que ia ser agora

Não é momento
De reprisar canções que são só minhas
Maldito rádio não me faça pensar nela
Volte pros anúncios
Para o hit da nova novela

Maldito rádio... maldito rádio
Maldito rádio... maldito rádio

Não, de novo não
Não quero ouvir não
Agora não...

segunda-feira, 31 de março de 2014

Impossível?

Apetecia-me escrever. Mas sobre o quê? Olhei para a janela e estava a cair uma chuvada cinzenta e pesada. Não, não vou escrever sobre o tempo. Parece conversa de elevador. Não faz sentido escrever sobre o tempo. Então, e esta chuva que nunca mais pára, já viu? É verdade. E está fresquinho, ainda por cima. Pois é. Nem parece primavera. Esta conversa, tenho com os taxistas que me levam ao som de fado popular para o centro de Lisboa. Não ia escrever sobre o tempo.

Mas apetecia-me escrever. Mas sobre o quê? Sei lá… Escreve qualquer coisa. Sim, sobre qualquer coisa. Mas tenho que escolher um tema ou um assunto de qualquer coisa, compreendes? Que disparate, é lá preciso pretexto para escrever? Pois eu acho que sim. Escreve sobre o teu fim-de-semana. Não, o que é que isso interessa às pessoas em geral? Interessa, sim. Diz o que fizeste, onde foste. Mas isso não é demasiado íntimo? Íntimo, como? É uma conversa banal. Podes falar sobre a exposição que viste no sábado, o concerto de ontem, o almoço naquela quinta gira, os passeios, sei lá uma história qualquer. Mas isso só me interessa a mim e pouco mais. Não interessa às pessoas. Estás terrível hoje…

Mas é que apetece-me mesmo escrever. Só não sei sobre o quê... Irra! Escreve! Pausa. Então?! Que tom é esse? Estás impossível de aturar. Eu? Bolas! Será da chuva?



quinta-feira, 27 de março de 2014

Chuvas

O bom da chuva é que depois de cair, mesmo tormenta, a água há-de sempre seguir o sentido do rio. 

Maria Elena - Vicky Cristina Barcelona 





segunda-feira, 24 de março de 2014

Tango, primeira lição

Aprendi os meus primeiros passos de Tango.
Era algo que já queria ter tentado há muito mas receava apaixonar-me pela quente dança, tal era o entusiasmo que tinha para aprender os primeiros passos.
Num destes fins de tarde, arrisquei. Passei o dia a ouvir Piazzola para me inspirar para a aula e estive completamente entusiasmada ao longo do dia.

À hora da aula, o entusiasmo comeu-me por dentro e transformou-se numa enorme borboleta nervosa. Sentia-me tímida e envergonhada - nada habitual em mim. Senti-me nua na sala ampla, uma formiga naquele imenso soalho de madeira a brilhar.

Éramos mais mulheres que homens, como quase sempre nestas coisas. Estávamos quase todas enconstadas numa fila de trás, junto à parede. Eles, um pouco mais soltos.

Começou a ouvir-se um Tango na aparelhagem. Uma música envolvente, aveludada...

Eu estava numa ponta da última fila, quase escondida. Procurava olhar e aprender sem que dessem por mim. Esquerda em frente, direita ao lado. Esquerda atrás, direita atrás. Olhava para os pés dele. E dela. Procurava entender as voltas. E ele virou-a. E deu-lhe um toque no calcanhar. E a perna dela deslizou com elegância. E ele agarrou-a com firmeza. E ela desliza. E ele também. E enchem a sala. E o soalho de madeira, outrora gigante, apequenou-se.

O Professor deu mais uns passos, circulou pela sala, explicava a dança, a envolvência, a leveza. Fixou-nos. Mais uns passos. Avançou um metro, e outro, e mais outro. Olhou em volta. Veio buscar-me. A mim.

- Socorro, pensei. Logo a mim...
Estava anormalmente insegura. Queria primeiro aprender os passos e só depois atrever-me a arriscar com um par.
- Não lhe posso estragar um Tango, disse-lhe nervosa.

Agarrou-me nas costas. Ajeitou-nos os corpos, encaixando as mãos.
Olhou-me nos olhos e disse-me:
- Não tenha medo. Ao contrário do que parece, aqui no Tango é a mulher que manda.





sexta-feira, 21 de março de 2014

Ode à espera. Junto ao mar.

À espera.
Como quem espera a onda seguinte.
Como se a onda seguinte fosse diferente da onda ida.

À espera.
De uma nova vaga.
Como se a vaga de avenir mudasse a espuma desta.

À espera.
Que o mar revolto passe.
Que o espelho azul sossegue.

À espera.
Como se a seguir à maré cheia
Não viesse a maré vaza.

À espera.
Como se os búzios daquela outra
fossem mais brancos que os desta.

À espera.
Como se o mar de amanhã
Não fosse o mesmo de hoje.


"À espera dos barcos" - João Marques de Oliveira (1891)

quinta-feira, 20 de março de 2014

domingo, 16 de março de 2014

Dar

- E hoje, o que me trouxeste?
- Hoje trouxe-te o sol. E chocolates.
- E tu, aí atrás?
- Eu? Trouxe-te o céu azul sem nuvens. E flores.
- E tu?
- Não trouxe nada. Mas queria ver-te. Trago-te um beijo.




quinta-feira, 13 de março de 2014

O Bukowski é que sabe

Ia escrever. Qualquer coisa, nem sei bem. Mas tropecei casualmente neste texto de Charles Bukowski partilhado nas redes sociais pelo jornalista Rui Pelejão. Decidi, então, não escrever mais nada hoje. O Bukowski é que sabe. E diz o seguinte:


"Se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.

A menos que saia sem perguntar
do teu coração, da tua cabeça, 
da tua boca, das tuas entranhas,
não o faças.

Se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre 
a tua máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.

Se o fazes por dinheiro 
ou fama,
não o faças.

Se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.

Se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.

Se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.

Se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

Se tens que esperar 
para que saia de ti a gritar,
então espera pacientemente.

Se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

Se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

Não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de pessoas 
que se consideram escritores.

Não sejas chato nem aborrecido e pedante, 
não te consumas com auto-devoção.
As bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até adormecer
com os da tua espécie.
Não sejas mais um.

Não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio.

Não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

Quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só 
e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

Não há outra alternativa.
e nunca houve."

Charles Bukowski


Charles Bukowski

terça-feira, 11 de março de 2014

Porque hoje é 11 de Março


Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor, não cante
O humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te a fim de um calmo amor prestante
E amo-te além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes




Tristão e Isolda - Rogelio de Egusquiza 



















Eu não sei senão amar-te,
Nasci para te querer.
Ó quem me dera beijar-te,
E beijar-te até morrer.

Fernando Pessoa 



Sigmonde et Sieglinde - Rogelio de Egusquiza 











De Longe Te Hei-de Amar

De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

Cecília Meireles



Ask me no more - Lawrence Alma-Tadema


segunda-feira, 10 de março de 2014

Cartas entre Aiko e Kiyomi

Querida Kiyomi,

Espero que estejas bem e que esta carta te encontre com melhor saúde. A medicação ter-te-á feito bem e os ares da montanha também, assim o desejo profundamente.

Por cá, os dias estão um pouco mais longos mas ainda demasiado cinzentos. Este fim-de-semana não saí. Nem sequer no sábado de manhã, ao Parque. Os corvos nem notarão a minha falta.

Ontem ouvi a vizinha velha nas escadas de conversa com a de cima. O mesmo falatório de sempre sobre o barulho dos cães que ladram, sobre o preço da consulta do veterinário do gato, sobre uma tal de Akemi que se separou por um amante, sobre a empregada que não veio por doença, e que ela diz ser por preguiça. Estou sem paciência. Aumento os violinos no gira-discos. Elas aperceberam-se disso. Insultaram-me de malcriado. Aumentei ainda mais os violinos.

Esta semana o Tadashi convidou-me para a festa de Primavera que vai realizar-se no fim deste mês de Março. Não lhe dei a certeza se irei. Não sei se a saudade de ti, nessa data, vai permitir-me contactar com pessoas. Hei-de escrever-lhe um postal, caso não vá.

Tenho andado para comprar um par de sapatos novos para estrear quando voltarmos ao teatro, como te prometi. Vi uns castanhos mas não gostei deles o suficiente para os comprar. Achas que o bico quadrado ainda se usa?

Fala-me de ti, minha Rainha. Como está essa tua pele aveludada com estes frios? E os teus cabelos, ao que cheiram nas montanhas? Sinto a falta do mel dos teus lábios.

A saudade já não se chama saudade. A saudade já tem o teu nome, minha doce Kiyomi.

Despeço-me teu, mais hoje que ontem,

Aiko

In the mood for love

sexta-feira, 7 de março de 2014

Ir

Poucas coisas me animam tanto como pensar no próximo destino de férias. Há viagens que não precisam de passaporte, nem de dinheiro, nem de bilhetes de avião. Consigo dar a volta ao mundo sentada aqui nesta cadeira onde escrevo. A internet ajuda, claro, mas a viagem começa no sorriso que se instala em todo o meu corpo assim que começo a estruturar o que me apetece fazer.

Só não estou já a fazer as malas porque sou, tradicionalmente, uma procrastinadora e só as faço de véspera (de madrugada se possível). Mas já quase podia partir amanhã. E esta madrugada trataria do (pouco) que falta.


terça-feira, 4 de março de 2014

El Ultimo Trago




El Ultimo Trago - Chavela Vargas

Tómate esta botella conmigo
En el último trago nos vamos
Quiero ver a qué sabe tu olvido
Sin poner en mis ojos tus manos

Esta noche no voy a rogarte
Esta noche te vas que de veras
Que difícil tener que olvidarte
Sin que sienta que ya no me quieras

Nada me han enseñado los años
Siempre caigo en los mismos errores
Otra vez a brindar con extraños
Y a llorar por los mismos dolores
Tómate esta botella conmigo
En el último trago me besas
Esperamos que no haya testigos
Por si acaso te diera verguenza

Si algún día sin querer tropezamos
No te agaches ni me hables de frente
Simplemente la mano nos damos
Y después, que murmure la gente

Nada me han enseñado los años
Siempre caigo en los mismos errores
Otra vez a brindar con extraños
Y a llorar por los mismos dolores

Tómate esta botellita conmigo
En el último trago nos vamos

Mechanical Dolls

Tim Walker é um fotógrafo de moda britânico e é excepcional. Recorre a modelos de carne e osso e dá-lhes a vida animada dos mundos imaginários que existem nos nossos sótãos de infância. Walker tem a maestria e a capacidade únicas de transformar o mundo real num infinitamente mágico episódio da Alice no País das Maravilhas.
Trabalha para a Vogue, a W Magazine, a Love Magazine, entre outras. Esta colecção "Mechanical Dolls" foi produzida para a Vogue Itália.
Apetece entrar no cenário, vestir estas personagens e assumir este mundo. Só falta a música de corda.
Thank you Mr. Tim Walker!




Que escrevo? Que hei-de dizer? Como vão acreditar numa boneca sem vida?
Quatro mãos e uma pena. E tanta tinta. E tanto ainda por escrever.





























Sem ar. E agora, quê? Está alguém aí? Sim, desse lado? 
Ouves-me, tu aí? Tu, que me olhas calado. Ouves-me? Preciso de ajuda!







E passar a vida à espera como quem espera a Primavera... Já voltaram as andorinhas?



























































Haverá saída? Como não? Havemos de lá chegar, um dia. Anda... Vens?
































Delicadeza. Silêncio. O teu Japão. E o meu.












E os papéis que assumes e os bigodes que usas e os espartilhos que te apertam e as bengalas
que tantas vezes te falham e a corda que nem sempre dá e a música que nem sempre toca.






















































Mechanical Dolls, Tim Walker, Vogue Italia. 
Selecção de fotografias e legendas de Ana Catarina Santos.


segunda-feira, 3 de março de 2014

Sunday Movie

Hoje foi noite de óscares. A madrugada ganhou magia.
O glamour, as estrelas, os sorrisos, os brilhantes, as roupas, as músicas, os dourados, os actores, as luzes, as passadeiras, as jóias, os sonhos, as actrizes, as lágrimas, os batons, os abraços, os beijos, as desilusões, os que perderam mas sorriem, os que ganharam e choram, os encantos, os recantos, os que dançam, os que cantam, os que não apareceram, os que aparecem sempre, a esperança, "será desta?", a desilusão, "para o ano há mais", as mãos, os americanos, os hispânicos, os gays, as lésbicas, os afros, os asiáticos, os judeus, os mormons, a religião, a américa, a hipocrisia, a crença, o dinheiro, os dólares, o umbigo, o cinema, a arte, a magia, as dedicatórias, os agradecimentos, o acreditar, o tempo, a vida, os sonhos adiados, os óscares ao domingo à noite.



quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Conversa sem guião

Conduzia pela cidade depois de ter dado uma maratona de aulas. Estava com a cabeça num nó. Liguei o rádio do carro e sintonizei a Antena2. A música calma e a conversa sobre livros acompanharam-me junto ao Tejo no regresso a casa.

Duas pessoas falavam de viagens, de Berlim, de São Paulo, de Moçambique. E o homem a querer falar do livro. E ela a querer falar da vida. E ele, então, percebeu e deixou-a fluir. E ela, a escritora Teolinda Gersão, começou a falar sem guião: a chuva que liberta, os contos africanos, a árvore das palavras, o livro dos anjos, as águas livres, as almas livres, as histórias inacabadas como na vida…

Tão bom… Uma conversa à solta. Sem guiões.

E houve uma frase que retive. Disse ela qualquer coisa como “não sei como só tão tarde me dei conta da vida que passou por mim sem que eu desse conta enquanto era cedo.” 

Esta ideia não me sai da cabeça. 











sábado, 22 de fevereiro de 2014

Avessos

Eras para ter vindo, não vieste. 
Eras para ter ficado, saíste.
Era para estar sol, choveu.
Era para ser, não foi.
Há dias em que o mundo parece ao contrário.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Banhos de silêncio

Enche a banheira de água quente. Não fales. Dói-me muito a cabeça hoje. Preciso apenas de te saber aqui. Calado. O silêncio pode ser maravilhoso. A água a correr. O vapor da água quente. O espelho difuso. A banheira que enche. O silêncio. O meu corpo nu projectado no espelho. Embaciado. A minha pele pálida. O teu olhar sereno. Gosto que não me perguntes porquês. Calemo-nos apenas. Um banho de silêncio. Quente.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Vermelho

Tinha o coração tão exaltado 
E o sangue tão desenfreado 
Que o devaneio descontrolado 
Começou a tingir-lhe o cabelo









sábado, 15 de fevereiro de 2014

Prémio

Recebi primeiro um telefonema. No outro lado da linha, uma voz serena e segura. Ouvi mais do que falei. Ia registando palavras soltas: "Manuel António Pina", "Poesia", "Infusão", "Textos de Amor", "Prémio", "2º lugar", "Parabéns". 
Ainda não estava a acreditar. Eu? Um prémio de poesia? 
- "Tem aqui um maravilhoso texto", dizia o Presidente do Júri ao telefone. 

A notícia oficial chegou uns dias depois, por escrito: "Agradecendo a sua participação na edição de 2013 do Concurso Nacional Textos de Amor Manuel António Pina, venho renovar as felicitações pelo 2.º Prémio Nacional obtido com o seu texto "[In] Fusão", de entre cerca de 900 textos que recebemos."

O texto "[In] Fusão" foi escrito aqui, pela primeira vez, neste blogue. 

Há prémios que nos enchem o coração. 



Notícia publicada aqui

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A écharpe do bazar

Na plataforma da despedida já chamavam os últimos passageiros para o embarque. Passos apressados de um lado para o outro, cigarros fumados nervosamente e à pressa, uma criança a chorar, atirando-se para o chão. A chuva batia nos vidros com violência. “Que frio. Ainda bem que tomei aquele café quente”.

Levava o bilhete e o passaporte na mão. Mexia no telemóvel como se estivesse à espera que lhe entrasse uma última mensagem antes de o desligar. “Desligo só quando estiver sentado lá dentro”.
- Boarding pass, please!
Mostrou os documentos. Tinha pela frente onze horas de viagem.

Ouviria música, veria alguns filmes originais sem legendas, leria algumas páginas do livro antes de tombar o pescoço, adormecido.
Encolhido no estreito banco da classe económica voltou a mexer no telefone. “Então, não diz nada? Nem um ‘boa viagem’, nem nada?…”

Ela estava no escritório. Sabia que àquela hora ele estava prestes a descolar. Se tudo corresse bem só voltaria a vê-lo daí a algumas semanas. Não se tinham despedido. Aliás, pouco falaram por estes dias. Torcia para que tudo corresse bem. A Índia é um país de enormes contrastes. Viria mais magro, talvez diferente. O telemóvel vibrou. “Será dele?” Não era. Apagou a mensagem quase sem a ler. Era uma publicidade de descontos de um supermercado. Atirou o telefone para cima da secretária.

Ele apertou o cinto de segurança. Puxou as costas do banco para a frente. Olhou uma última vez o visor. Desligou o telefone.

Ela queria ter ido ao aeroporto. Dar-lhe um beijo.
Ele também queria que ela tivesse ido. Dar-lhe um abraço.
- Vens?
- Voltas?

O avião descolou. Ela olhou para o relógio. Ele respirou fundo. Não se despediram.

As viagens, mesmo as de longo curso, não apagam os lugares de partida. Nem alteram os destinos à chegada.

Traz-me um beijo com especiarias. E uma écharpe de seda. 








quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Da Rádio

Hoje é o Dia da Rádio. No meu caso, até podia ser hoje o Dia dos Namorados. Namoro com a Rádio todos os dias.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Pára

Inventaram o pára-choques para protegermos a chapa dos embates.
Inventaram o pára-chuva para protegermos os cabelos dos pingos.
Inventaram o pára-brisas para podermos abrir os olhos na viagem.
Inventaram o paradeiro para podermos desfrutar a espera.
Inventaram o parapeito para podermos olhar as estrelas à janela.
Inventaram o parágrafo para podermos aplicar os pontos finais.
Inventaram o paradoxo para podermos hesitar e reflectir.
Até inventaram o paraíso, a promessa pintada do que há-de vir.
Como é que ninguém ainda inventou um pára-dor?
Nem ao menos um amortece-dor?


Mi e Dor de Toamna Culoare Vita Vie Soalere Cald Si Picture

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Noite

Ela sabia que o dia seguinte era um dia importante. Ela sabia que não poderia chorar. Ela quis chorar por antecipação, para no dia seguinte as lágrimas sossegarem. Ela chorou por antecipação. E choveu toda a noite.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Opened door*

Quando a porta a que tanto batemos finalmente se abre não devemos perguntar porquê: porquê agora ou porquê eu ou será que é mesmo para mim. Abriu. Nada a declarar. Devemos simplesmente entrar a correr. Passar pela porta até aí fechada. Entrar. Antes que se feche outra vez.


Monica Zúñiga

* Texto inspirado numa sequência de diálogos da série The Good Wife


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Lista de espera

Entrou com pés de lã, como se apenas tivesse entrado uma sombra.
- Boa tarde, sussurrou baixinho.
- Olá, boa tarde. Diga.
Uma pausa. A chuva a bater na janela com mais força. Ambos os olhares apontam para lá.
- Diga, menina - insiste a mulher ao balcão.
- Precisava que me marcasse uma hora para sonhar.
- Para esta semana já não dá.
- Nem no Domingo?

Enchanted Dolls - Marina Bychkova

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Jura

Cada vez que ouço a palavra "juro" penso sempre, à primeira impressão, que as pessoas que a dizem estão a mentir ou, pelo menos, a roçar a mentira.

As crianças dizem "juro" para garantirem aos pais e aos professores desconfiados, porventura com motivos, que não fizeram nada de errado. Mas os adultos não deviam dizer "juro" a não ser em Tribunal ou perante a Constituição da República.

Quando, a meio de uma conversa, me dizem "juro" ou me perguntam "jura?" apetece-me virar as costas. Jurar? Mas jurar porquê? A palavra não chega? Não acreditam no que se está a dizer?

Jurar o que se está a dizer é oferecer uma garantia caso o que se disse antes não seja verdade. É uma garantia verbal ao que a mesma pessoa acabou de dizer. Dita pela mesma pessoa. É um reforço de verdade como se a verdade existisse apenas em meias doses. É, portanto, uma irónica contradição.

- “Comprei isto por mil euros.”
- “Por mil euros? Só?! Não pode ser.”
- “Juro!”

Se não dissesse “juro” a outra pessoa não acreditaria? Só passou a acreditar depois de ter ouvido a palavra mágica? Uma palavra de valor reforçado que, no limite, pode também servir para reforçar uma mentira caso a primeira seja mentira também.

Qual a origem de "jurar"?
De juro ou juros? Bem sei que não, mas se fosse isso seria mesmo mau. Devia sempre ser evitado.
Se "jurar" vier de juridict, aceito que se aplique às questões ligadas à Justiça. Jurar dizer a verdade, apenas a verdade e nada mais do que a verdade. A justiça vive de rituais que devem ser preservados.

Mas, na verdade, a origem etimológica da palavra é do latim jurāre, ou seja dizer de forma única e definitiva.

Mas terá mais força uma palavra única como:
“Amo-te”
Ou uma frase de “valor reforçado” como:
“Juro que te amo”? 



quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Na penumbra da noite

o mundo pararia
as ondas rebentariam mudas
o vento adormeceria
as árvores bailariam em pontas

só as estrelas cintilariam
sem ruído
só luz distante

e na penumbra da noite divina
a magia única
da tua respiração
          [a meu lado]


In the mood for love - Wong Kar-Wai





segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Não se conhecem

Não se conhecem, nunca se viram. Cruzam-se casualmente.
Ele repara na mulher que tem à sua frente. Ela ainda não o viu. Ele fica siderado. Não tira os olhos dela. Ela vê um homem à sua frente. Não propriamente um homem. Vê uns olhos de homem parados, brilhantes, fixados em si. 
Estão de frente um para o outro, porque aquele era o rumo que cada um seguia. 
Ele caminha na direcção dela. Ela repara que ele o fixa. Olha-o, discretamente, ainda de longe. Ele não pára de a olhar e procura que ela se fixe nele. Ela desvia o olhar, inibida, enquanto caminha. Mas ela sabe que ele continua a fixá-la. 
Nenhum desvia o trajecto. Vão-se aproximando. Nada existe à sua volta, nem trânsito, nem carros, nem lojas, nem árvores, nem outras pessoas. Só um e outro, quase em câmara lenta. Só os olhos de um e os olhos de outro. 
Ele abranda o passo. Ar suspenso. Estão a segundos de se cruzarem. 
Ela volta a olhá-lo. Um metro separa-os. Já quase sentem o cheiro um do outro. Ele cede e rende-se. Sorri, perdido. Ela responde com um leve trejeito de lábios. Um quase, quase sorriso. 
Menos de um metro. Ela mexe no cabelo. Ele pára à sua frente. 
- Se fosse num filme, agora oferecia-te uma flor.

Robot android woman holding a red rose (at Shutterstock)






sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Say something




Say something, I'm giving up on you
I'll be the one, if you want me to
Anywhere, I would've followed you
Say something, I'm giving up on you

And I am feeling so small
It was over my head
I know nothing at all

And I will stumble and fall
I'm still learning to love
Just starting to crawl

Say something, I'm giving up on you
I'm sorry that I couldn't get to you
Anywhere, I would've followed you
Say something, I'm giving up on you

And I will swallow my pride
You're the one that I love
And I'm saying goodbye

Say something, I'm giving up on you
And I'm sorry that I couldn't get to you
And anywhere, I would have followed you
Oh-oh-oh-oh say something, I'm giving up on you

Say something, I'm giving up on you
Say something

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Promessas

Não sou de grandes promessas. Aliás, nem grandes nem pequenas. Não sou de promessas, simplesmente.

O início do ano provoca-nos atitudes ritualizadas de prometermos a cada passa que engolimos, distraídos, à passagem das badaladas da meia-noite, um objectivo. Também não aprecio propriamente passas de uva. Gosto de uvas e de vinho, mas não especialmente de passas. Talvez isso justifique que nem sempre coma as doze na passagem de ano.

Na verdade, também não penso previamente nos doze desejos ou “promessas” que é suposto fazermos à meia-noite. Se calha a ter passas à mão, à meia-noite, como algumas. Se ninguém as tiver, não dou pela falta.

Doze badaladas. Gritos, champanhe, abraços, sorrisos. E o pensamento sincronizado com a data. 

Às vezes, confesso, penso num ou noutro desejo. Mas na verdade, penso em pessoas. Sim, à meia-noite pensei em pessoas. Mas continuo todo o ano a pensar nelas. Para mim, é fim de ano todo o ano.



sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Caminharemos

Tenho sempre a sensação que me olhas de lado sempre que regresso depois de uns dias sem passar por aqui. Passaram poucos dias, aliás. Nem compreendo esse olhar de soslaio... Devias estar feliz, isso sim! Há blogues que acabam na viragem do ano, sabes disso, não sabes? Devias dar-te por satisfeito porque, obviamente, vais continuar em grande actividade em 2014.
Nunca vi um Diário com tamanha necessidade de atenção. Fiteiro!
Já sabes que por estes dias foi Natal, foi o Fim de Ano, as reuniões familiares, os jantares de amigos, e houve os fritos e os chocolates e o fogo de artifício e as passas. Não é que não me lembrasse de ti quase todos os dias, cheia de vontade de te tocar e de te contar tantas coisas. Mas, olha, não deu! Aqui estou a redimir-me. Desculpa. Prometo dar-te (ainda) mais atenção este ano.
Feliz Ano novo, querido Metafísico! Caminharemos juntos, também, em 2014.

sábado, 21 de dezembro de 2013

A Gente Vai Continuar




Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas para dar

E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
E a liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo

Enquanto houver estrada para andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada para andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O que digo

E o que digo à minha mão se não tenho a tua?
E o que digo aos meus olhos se não te vêm?
E o que digo aos meus braços se não te sentem?
E o que faço com os lábios se não te beijo?

Antonio Canova: Cupid and Psyche

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Eu não sou

Eu não sou chefe de Estado nem de Governo. Não tenho cargos nem tive. Não sou ninguém importante nem ex-nada. Não tenho motorista nem uso pins na lapela. Mas adorava poder estar naquele Estádio em Joanesburgo a viver este momento histórico. Já que não pude entrevistá-lo, ao menos estaria ali a sorrir, emocionada, por ele. Por nós.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Da privacidade

O Natal tem coisas maravilhosas. Mas também tem outras péssimas. Todos os dias fico surpreendida com as fotografias orgulhosamente colocadas em redes sociais e blogues, escancarando a intimidade da decoração de algumas Árvores de Natal de gosto duvidoso. Há recantos domésticos que eu, sinceramente, preferia não ter visto.
É como ter de ver, no Verão, algumas das pessoas que vejo todo o ano de fato e gravata com os pés refastelados em chinelos de enfiar no dedo.
É Natal, sim... Devemos ser solidários e tal... Mas não exageremos...

Há pessoas

"e largou-me o braço devagar, cada dedo, independente dos outros, a soltar-se indo e ficando, há pessoas que demoram tanto tempo a deixar-nos, o corpo vai-se mas os olhos permanecem ali"

António Lobo Antunes, in Não é Meia Noite Quem Quer


Ayako Kanda Mayuka Hayashi, "RX-Ray Couple Portraits"