segunda-feira, 19 de maio de 2014

Campanha Eleitoral: Um Barracão para Juncker

A cena aconteceu num jantar de campanha da coligação Aliança Portugal mas bem podia ter-se passado nas zonas rurais da Roménia nos anos 80. Dificilmente Jean Claude Juncker há-de esquecer esta noite. Tudo o que aqui vai ser relatado é factual e há provas disso (registos fotográficos - vide abaixo do texto).

A organização do jantar coube à Distrital do PSD Porto presidida por Virgílio Macedo, que não parou um minuto: de um lado para o outro, para cima e para baixo e sempre ao telemóvel.

O local para acolher o possível futuro Presidente da Comissão Europeia deve ter sido meticulosamente escolhido. Não é fácil, afinal, seleccionar um local à altura de um convidado de tamanha notabilidade. 

Se imaginam um local belo, de tantos que Portugal tem, com vista sobre o Douro ou outra magnífica paisagem, enganam-se. Ou se imaginam que foi numa cidade ou vila moderna, arejada, limpa e com bom ar, enganam-se novamente. Ou, ainda, se imaginam que decorreu num salão elegante, bonito, sóbrio e bem decorado, estão muito enganados.

O PSD e o CDS levaram Juncker para os arrabaldes de Trofa, numa terra chamada Alto Bailares, Santiago do Bougado. É um bairro que podia ser o fim do mundo ou apenas a zona de conforto do rei Ghob.

Os acessos eram empedrados mas a maior parte das pedras estavam soltas. As estradas, cheias de buracos, pareciam caminhos de cabras. Caminhos estreitos, com casas a fazerem de bermas e esquinas raspadas. No chão, vasos rachados com flores de plástico quase sem cor, queimadas pelo sol. Casas com as persianas desengonçadas cheias de pó e teias de aranha ou, quando abertas, mostrando vidros partidos. Imóveis inacabados, em estuque. Vivendas sem tinta, em cimento ou betão armado. Placas de sinalização imperceptíveis, de tão enferrujadas. 

Nessa localidade perto da Trofa, há uma única rua e um único café: o Zairense. Cheirava a fritos, de óleo antigo, a cinco metros da porta de entrada. Nessa noite, o Zairense facturou mais que num mês inteiro. No Zairense até a mesa de matraquilhos tinha teias de aranha.

À porta do Zairense, Juncker não viu carros modernos, não poluidores ou eléctricos. Não. À porta do Zairense, Juncker terá visto um Mazda do início dos anos 80, com matrícula ainda de relevo e contraste preto e branco. Dos idos tempos em que Portugal nem sequer fazia parte da então CEE.

O PSD e o CDS enfiaram Juncker num barracão, com chão de cimento, feio, frio, sujo, cheio de rachas e ervas daninhas, cuja única entrada de acesso era através de uma porta de garagem, com portões de ferro enferrujados. Tudo aquilo era feio. 

A sala metia dó, esteticamente falando: mesas e cadeiras de plástico encavalitadas para caber sempre mais alguém. Umas tinham toalhas de plástico baratas, outras tinham-nas de pano, também baratas. Umas às pintas, outras de cornucópias, umas vermelhas, outras azuis, outras beige com pintas pretas. Em cima das toalhas havia candelabros a imitar prata – mas apenas nas mesas vip. A de Juncker foi contemplada com uma imitação de prata de lei. E velas misturadas brancas e laranja. Derretidas. 

Estavam 1200 pessoas na sala e havia apenas uma casa-de-banho – uma. As filas chegavam à cozinha. No corredor da casa-de-banho, junto ao urinol ao qual Juncker poderia ter tido necessidade de recorrer, estava o quê? Pilhas de papel higiénico? Não, meus senhores. Estão muito enganados. Estavam as caixas do pão que seria servido às mesas. Pãozinho para o Senhor Juncker, e os restantes 1200 confrades, directamente do WC.

E se imaginam que para que a comida fosse servida com produtos frescos faria falta um frigorífico, estão novamente os senhores leitores muito enganados. Para quê esse luxo? Basta uma carrinha que fica estacionada do lado de fora, no meio da estrada empedrada, a servir de frigorífico. De lá se tiram as saladas e os doces para a mesa do Senhor Juncker. Era um entra e sai do barracão para o “frigo-car”, que nem fazem ideia.

Um mimo, este jantarinho.

Em vez de levarem o homem para a Alfândega do Porto ou para a Casa da Calçada em Amarante ou para o Parque das Nações, não senhor. Levam-no para os arrabaldes de Trofa. “Mr. Juncker welcome to Trofa!”

Aposto que o Secretário de Estado do Turismo Adolfo Mesquita Nunes deve ter adorado. E aposto ainda mais que Paulo Portas, que tudo faz para vender um Portugal moderno lá fora, há-de ter ficado encantado.

É certo que o vintage está na moda. Mas não exageremos. Nem o Rei Ghob se sentiria bem naquele barracão. “I love Portugal”, disse Jean-Claude Juncker no final do jantar. Pena, ter escrito o discurso antes de ir ao Alto Bailares, Santiago do Bougado, Trofa.






























sábado, 17 de maio de 2014

Campanha Eleitoral: A coligação pedala, pedala

Foi na Ribeira da Murtosa, Distrito de Aveiro, que se testou o nível competitivo da coligação. Depois de uma palestra sobre sensibilização ambiental, a dupla da maioria pôs as pernas à prova, agarrou nas bicicletas e avançou. Nuno Melo era o que estava mais à-vontade e, logo no início, ganhou uma ligeira vantagem.
- "Queres uma guita?", perguntou Melo a Rangel.
Mas pouco depois, já pedalavam lado a lado.
- "E sem rodinhas! Deixei as rodinhas aos cinco anos. Já foi tarde, bem sei, mas antes tarde..." - esclareceu Rangel aos jornalistas, no final da iniciativa.


Fotografia de Ana Catarina Santos


Fotografia de Ana Catarina Santos

PS: Para que conste, ninguém assobiou a música da banda sonora da série Verano Azul.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Campanha Eleitoral: Aqui há Relvas

Esta é a primeira campanha dos últimos anos sem a presença de Miguel Relvas. O antigo braço direito de Pedro Passos Coelho no PSD saiu do Governo e dos cargos dirigentes do Partido há mais de um ano. E desde que regressou ao Conselho Nacional do Partido pela mão de Passos Coelho, no Congresso do Coliseu, foi visto apenas uma única vez em iniciativas partidárias. Mas no partido laranja, em surdina, bem que se tem suspirado por um Relvas que os ajude. 

Marco António Costa, o actual homem do aparelho, tem-se alheado da campanha. Vá-se lá saber porquê... Essa responsabilidade foi delegada. A estrutura, organização, planeamento e concretização da volta nacional da campanha têm dependido de Carlos Coelho, que é simultaneamente Eurodeputado, candidato a Eurodeputado e Director de campanha. Praticamente não tem saído da sede, na São Caetano, por não ter mãos a medir. A articulação entre os dois Partidos da coligação também é feita por ele. Claro que alguma coisa há-de falhar. 

É certo que Carlos Coelho é Eurodeputado há muitos anos e conhece bem o seu PSD. Mas alguém imagina Carlos Coelho a dar dois berros ao telefone com as máquinas distritais e concelhias? Ou alguém imagina Carlos Coelho a dizer uns palavrões para "obrigar" o aparelho a dar apoio à coligação no terreno? Por isso - ou também por isso - tem sido confrangedora a evidente falta de organização e mobilização do aparelho partidário, tão visível nas acções de campanha. Ao ponto de, por exemplo, na Guarda ter sido o próprio Presidente da Câmara Álvaro Amaro (PSD) a pedir desculpa aos candidatos pela falta de mobilização das estruturas locais. 

"Falta um homem forte, falta pulso", ouve-se frequentemente nos bastidores. "Sem Marco António e sem Miguel Relvas, o PSD está anémico junto do aparelho", recordam alguns. 

Há um par de dias, quando a comitiva da coligação PSD-CDS visitou as Caves da Murganheira, em Tarouca, onde Nuno Melo e Paulo Rangel beberam da mesma garrafa de champanhe "sem nojo um do outro", alguém reparou numa pilha de caixas de Relvas. Relvas, neste caso, é o fornecedor de cápsulas de champanhe para a dita empresa. "Ao menos estes têm um Relvas que fornece os que eles necessitam". It's a dirty job, but someone's gotta do it

Pilhas de Relvas, Caves da Murganheira, Tarouca



quinta-feira, 15 de maio de 2014

Campanha eleitoral: Quem conduz a Coligação?

O episódio aconteceu há dois dias, em Lamego, na noite em que Paulo Portas interveio num comício da Aliança Portugal. A noite estava estranha, tudo parecia acontecer. Foi a noite em que Fernando Ruas disse que a Europa não precisa apenas de intelectuais, mas também de pessoas que saibam distinguir um carvalho de uma cerejeira. Foi a noite em que o líder do CDS-PP apelou ao voto das pessoas que tradicionalmente votam no centro-esquerda.
Terminados os discursos, o Diário Metafísico apurou que houve uma reunião ao mais alto nível, madrugada dentro, entre a Coligação. As falhas de coordenação e de comunicação, a fraca mobilização de ambos os aparelhos partidários, a (des)articulação das duas jotas, etc., eram os assuntos que Paulo Portas e Marco António Costa precisavam analisar.
Dirigiram-se, então, a um hotel da cidade de Lamego onde teria lugar essa reunião do Estado-Maior da Coligação até altas horas da madrugada.
Os motoristas aguardavam tanto o número dois do Governo, como o número 2 do PSD, braço direito de Pedro Passos Coelho. Os fiéis funcionários tinham os motores dos carros ligados e os faróis acesos, esperando que os ilustres políticos saíssem na parte lateral do Teatro onde tinha terminado o comício.
Marco António e Portas estavam por ali, nos cumprimentos e despedidas finais. Até que o homem forte do PSD deu uns passos, procurando apressar o Vice-Primeiro-Ministro.
- "Vamos lá?" - Perguntou Marco António.
- "Sim, sim", respondeu Portas. "Vamos, sim"
- "Queres vir aqui?"
Uma pausa... Uma pequena hesitação. Os homens do poder agarrados aos telemóveis. Mais um SMS. E um telefonema. Os carros ligados, à espera.
Nisto, a porta do condutor abre-se. O motorista de Marco António Costa sai do carro, estranhando a ordem que acabara de lhe ser dada.
Marco António, ágil, entra no carro e salta para o volante. Fica sentado à espera, enquanto Paulo Portas troca umas palavras com um dirigente local do partido. E Marco António, à espera. Sentado ao volante a observar o Vice PM.
Os faróis acesos na praça. A polícia à espera que tudo aquilo se resolvesse. Portas levanta o braço e acena aos que restam antes da sua partida. Mais um abraço a outra pessoa. Olha para o ecrã do telemóvel. Dá meia dúzia de passos. Marco António chama-o, de vidro aberto. Portas entra no lugar do pendura. Marco António põe a primeira. Arranca. Quem conduz a coligação, afinal?


Momento em que Paulo Portas entra no carro conduzido por Marco António Costa
para se reunirem de madrugada, em Lamego, por causa da campanha eleitoral. Quem
conduz a Coligação, afinal? Momento captado pelo Diário Metafísico, em Lamego. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Campanha eleitoral: "Está aí alguém?"

Os dois primeiros dias de campanha da coligação PSD-CDS foram marcados pela falta de adesão nas ruas e pela quase inexistente mobilização dos militantes.
Foi assim nas ruas da Guarda, de Coimbra, de Alcobaça, de Leiria. Quase ninguém se aproxima e poucas pessoas procuram a propaganda que os candidatos vão distribuindo: umas esferográficas azuis e brancas com a cruz assinalada na coligação e a data sublinhada de 25 de Maio. Para além das esferográficas, entregam uns panfletos com as imagens de Rangel e Melo na frente e no verso com o calendário dos jogos de Portugal no Mundial de Futebol.
O staff de campanha justifica: "as pessoas não podem faltar ao trabalho para virem gritar para as ruas com bandeiras". Outros dizem: "até mobilizar os jotas, nesta altura, é difícil... Estão todos em exames." Houve uma pequena pausa. "Ou emigraram", acrescenta um dos jotas mais novos. Ri-se.


Militantes e apoiantes do PSD-CDS na Guarda


Militantes e apoiantes do PSD-CDS na Guarda

terça-feira, 13 de maio de 2014

Campanha eleitoral: Medalha de... Cobre!

Primeiro dia de campanha eleitoral.
Logo pelas primeiras horas da manhã, os candidatos da coligação e o staff de campanha manifestaram efusivamente as boas-vindas aos jornalistas dos órgãos de comunicação nacionais porque "finalmente chegaram à campanha" e "finalmente a campanha ia aparecer nas televisões".
Qual não é o espanto quando, chegados ao primeiro ponto de reportagem do primeiro dia de campanha - uma fábrica de cabos de cobre - e a imprensa não pode entrar.
- "A imprensa não entra", disse o segurança da fábrica.
- Ai não?! Porquê?!
- "São ordens superiores."
- Mas de quem, da direcção da campanha?
- "Não lhe vou responder, minha senhora. São ordens."
- Mas não podemos acompanhar apenas uma parte da visita?!
- "Não minha senhora. Os jornalistas têm de ficar nesta área e esperam que eles saiam."
- Mas... Isso não faz sentido... É a primeira acção da campanha eleitoral...
- "Pois, minha senhora. São ordens!"


Rolos de fio de cobre, Coficab, Guarda


Fio de cobre, Coficab, Guarda



Jornalistas fora da visita


Microfones e câmaras desligados

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Campanha eleitoral, uma explicação

Não costumo escrever sobre política neste blogue. Nem sequer sobre o meu trabalho de jornalista. Mas decidi abrir uma excepção para estes dias que agora começam. Ou não. Na verdade, aqui não vou escrever propriamente sobre política ou sobre a campanha, no verdadeiro sentido da palavra. Mas falarei de episódios laterais à campanha, curiosidades ou simplesmente desabafos decorrentes do cansaço.
Quem não quiser ler sobre estes temas, que faça uma interrupção nas leituras do Diário Metafísico por apenas alguns dias. Depois de uma curta interrupção para a campanha, o Metafísico regressará ao seu registo habitual após o dia das eleições, 25 de Maio. 

sábado, 10 de maio de 2014

Faz-me uma revolução


Faz-me uma revolução.
Invade-me, grita-me, conquista-me.
Revoluciona-me por dentro.
Revolve-me, revira-me, reabre-me,
Recorta-me, resgata-me, renova-me,
Repete-me, reconstrói-me, reconverte-me,
Recolhe-me, recria-me, rejubila-me.
Relaxa-me, refresca-me, reforça-me.
Doce rebuliço.


segunda-feira, 5 de maio de 2014

Trip with Morpheus

- Boa noite.
- Chegaste tarde, hoje.
- Shuuuh... Fala baixo... Era suposto já estares a dormir.
- Estava à tua espera.
- Não esperes por mim, chego sempre tarde.
- Não consigo adormecer sem que tu chegues.
- Podes esperar por mim de olhos fechados.
- E como saberei que chegaste?
- Sentes-me.
- Anda, deita-se aqui.
- Cheiras bem...
- Beija-me as pálpebras.
- Respira fundo.
- Até amanhã.

"Trip with Morpheus" - William Eason Coombs



terça-feira, 29 de abril de 2014

Ao natural [Da natureza é o amor]

Chegaste
Devagar como a maré vazia
Falaste
Como o rouxinol nocturno
Entraste
Como aromas do campo Alentejano
Envolveste
Como a leve brisa da tarde
Abraçaste
Com a firmeza da lava quente
Mordeste
Com a certeza de uma pantera
Beijaste
Com o veludo do anoitecer
Sorriste
Como o brilho de uma estrela
Suaste
Como o orvalho sobre uma orquídea
Penetraste
Com a potência de um sismo
Escorreste
Como um rio selvagem 
Nu [cru] 
Como só tu 




quinta-feira, 24 de abril de 2014

Um dia histórico

Chorar de emoção quando se termina uma emissão de Rádio não tem preço…
A TSF foi hoje arrojada, inovadora, atrevida, maravilhosa, poética, libertadora. A TSF foi “ocupada” pela voz da Cidadania para sublinhar a importância da Palavra, da Verdade, da Liberdade.
Com orgulho fui parte activa nesta iniciativa e com humildade aceito as críticas de quem não gostou deste “grito”. 
A Rádio sempre esteve associada aos grandes movimentos da História. E hoje, perdoem-me a imodéstia, fez-se história na Rádio. Foi um dos meus dias mais felizes na Rádio, a nossa grande Casa das Palavras.
Obrigada, Amada Rádio...*



Em frente ao Edifício Altejo, Lisboa, sede da TSF



Concentração "Pela Palavra" na Rua 3 da Matinha, junto à entrada do Edifício



Reportagem em Directo de um protesto/celebração "Pela Palavra"



Manifestantes começam a entrar no Edifício. TSF acompanha em Directo



Com os Livros erguidos gritando "não somos números, somos pessoas",
entram pacificamente no Edifício Altejo, distribuindo flores



Sobem as escadas, entram nos elevadores, até nos elevadores de carga,
e "invadem", orgulhosos, o Edifício Altejo até ao piso da TSF



Não páram de chegar. São homens e mulheres, velhos e crianças, de várias localidades.
Há pessoas ainda à porta a tentar entrar na "Casa das Palavras"



Querem entrar na Redacção e nos Estúdios. O Director da TSF começa
por tentar evitar a "invasão" mas acaba por ceder e autorizá-los a
entrar pacífica e ordeiramente na Redacção



Lêem excertos de livros de Autores portugueses.
Repetem palavras e respectivas definições em Dicionários.
Gritam passagens e Artigos da Constituição da República Portuguesa.



Esticam cordas nas paredes da Redacção e penduram letras e palavras. Há um
estendal de letras soltas que vão formando novas palavras como "abensonhada"



Momentos de emoção e alegria, num protesto celebrado
pela Voz dos que não são ouvidos



Uns passeavam descalços, outros em tronco nu, outros tinham terra nos punhos,
outros ainda tinham argila na cara. Uns liam Torga, outros Natália Correia,
outros Al Berto, Saramago, Pessoa, Vergílio Ferreira. Palavras à solta...


Liberdade. Hoje e sempre.



Enquanto as palavras invadiam a Casa da Rádio, os acordes musicavam a Poesia


Mágico. Histórico. Emocionante. Genial. Único.



* Parabéns ao Grupo de Teatro "O Bando" pelo trabalho excepcional. E Parabéns ao genial Fernando Alves, autor da ideia.


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Há quem passe

Ouvido hoje na Rádio, Leon Tolstoi, citado por Fernando Alves:
"Há quem passe por um bosque e só veja lenha para a fogueira".



segunda-feira, 14 de abril de 2014

La vida

Así es, suspiró el coronel. La vida es la cosa mejor que se ha inventado.


Gabriel Garcia Marquez

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O que queres

Se é domingo, preferes sábado. 
Se é praia, escolhes campo. 
Se há doce, queres salgado. 
Se está sol, queixas-te de calor. 
Se chove, anseias por sol. 
Se dormes, não queres perder tempo. 
Se trabalhas demais, exiges descanso. 
Se te preocupas, queres relaxar. 
Se te desleixas, procuras o foco.
Se lês um livro, já pensas noutro.
Se andas, queres correr.
Se queres chá, pedes café. 
Se tomas duche, preferes banho.
Se dás um beijo, queres dar mais. 
Se queres viver... Vive.



quinta-feira, 3 de abril de 2014

A pessoa sozinha

Era uma pessoa sozinha. Pelo menos, estava sozinha esta noite. Atravessou, muito devagar, a estrada até meio. Parou no separador central junto a uns arbustos da sua altura.

Reparei nela quando espreitei a rua da minha janela, já perto da meia-noite. Estava frio e chovia. A pessoa sozinha ficou parada no pedaço de terreno que separa os dois sentidos da estrada. A pessoa não se mexia. Pensei que estivesse simplesmente à espera que os carros a deixassem atravessar a outra metade da estrada que lhe faltava. Mas não havia carros, nem para um lado nem para outro. E a pessoa ali estava, parada. Sozinha. De pé, a meio da estrada. Junto ao separador. Como um arbusto de pé. Com raízes na lama fria.

Vestia um casaco escuro, talvez negro, com um capucho que lhe tapava a testa e quase os olhos. Usava umas calças escuras e trazia calçados uns sapatos também escuros, talvez botas. O seu corpo encharcado, na noite escura, confundia-se com os arbustos molhados. Nenhum carro passou. A pessoa sozinha não atravessava porque não queria. Ali ficou uns minutos, não sei bem quantos.

Não consegui afastar-me da janela. Os vidros embaciavam com as minhas interrogações: quem é esta pessoa, por que está sozinha, por que está à chuva, por que não atravessa, por que não se abriga, por que não corre para o telheiro, o que espera, o que pensa, que lhe ocorre, o que lhe passou, quem é, que vida tem, o que precisa, quererá estar sozinha…

Os arbustos eram a sua única companhia. Até a chuva parecia estar espantada... Amaciou ligeiramente.

As luzes amarelas de dois faróis. Passou um carro devagar. Não viu a pessoa sozinha, nem sequer abrandou. Talvez a tivesse salpicado mais ainda. Limpei o vidro embaciado da janela, pois não conseguia ver com nitidez. Pareceu-me ver algum movimento junto aos arbustos. Sim, a pessoa sozinha moveu-se um pouco. Deu um passo. E outro. Aproximou-se da estrada. Ajeitou o capucho com a mão direita, olhou para o fundo da estrada, confirmou que não vinha ninguém e atravessou. A pessoa quase não andava. Arrastava os pés. Devagar, devagar, devagar. À chuva, de cabeça em baixo.

A pessoa sozinha trazia um saco de plástico enrolado na mão esquerda. Devia ter alguma coisa lá dentro, documentos, a carteira talvez. Não sei. O saco cobria algo que era pouco maior que a sua mão. Deslocou-se lentamente, encharcada, à chuva até pisar o passeio no lado de cá. Estava a uns trinta metros da minha janela. Num impulso abri a janela e pensei gritar-lhe para perguntar se precisava de ajuda. A pessoa sozinha seguia de cabeça baixa.

Com a janela aberta o silêncio fresco da noite entrou-me em casa. E com a chuva sustida, reprimida de espanto, ouvi a pessoa sozinha a chorar. Mas era um choro sem igual. Um chorar violento, um gemido que era uma lâmina, uma dor vulcânica, lágrimas de lava, um chorar ardente de alma toda. Não há choro maior que o choro de alma toda. A pessoa sozinha desabava à chuva. Desmoronava-se.

Há dores que não cabem no peito de uma pessoa sozinha.






terça-feira, 1 de abril de 2014

Maldito Rádio






Não, de novo não
Não quero ouvir não
Agora não

Não, de novo não
Não quero ouvir não
Agora não

Maldito rádio
Agora que parecia que eu ia
Deixar um falso amor lá na memória
Agora que parecia que ia ser agora

Não é momento
De machucar meu coração com melodias
Maldito rádio não me faça pensar nela
Volte pras notícias
Para o hit da nova novela

Maldito rádio... maldito rádio
Maldito rádio... maldito rádio

Não, de novo não
Não quero ouvir não
Agora não

Maldito rádio
Agora que parecia que eu ia
Mudar de vez o curso dessa história
Agora que parecia que ia ser agora

Não é momento
De reprisar canções que são só minhas
Maldito rádio não me faça pensar nela
Volte pros anúncios
Para o hit da nova novela

Maldito rádio... maldito rádio
Maldito rádio... maldito rádio

Não, de novo não
Não quero ouvir não
Agora não...

segunda-feira, 31 de março de 2014

Impossível?

Apetecia-me escrever. Mas sobre o quê? Olhei para a janela e estava a cair uma chuvada cinzenta e pesada. Não, não vou escrever sobre o tempo. Parece conversa de elevador. Não faz sentido escrever sobre o tempo. Então, e esta chuva que nunca mais pára, já viu? É verdade. E está fresquinho, ainda por cima. Pois é. Nem parece primavera. Esta conversa, tenho com os taxistas que me levam ao som de fado popular para o centro de Lisboa. Não ia escrever sobre o tempo.

Mas apetecia-me escrever. Mas sobre o quê? Sei lá… Escreve qualquer coisa. Sim, sobre qualquer coisa. Mas tenho que escolher um tema ou um assunto de qualquer coisa, compreendes? Que disparate, é lá preciso pretexto para escrever? Pois eu acho que sim. Escreve sobre o teu fim-de-semana. Não, o que é que isso interessa às pessoas em geral? Interessa, sim. Diz o que fizeste, onde foste. Mas isso não é demasiado íntimo? Íntimo, como? É uma conversa banal. Podes falar sobre a exposição que viste no sábado, o concerto de ontem, o almoço naquela quinta gira, os passeios, sei lá uma história qualquer. Mas isso só me interessa a mim e pouco mais. Não interessa às pessoas. Estás terrível hoje…

Mas é que apetece-me mesmo escrever. Só não sei sobre o quê... Irra! Escreve! Pausa. Então?! Que tom é esse? Estás impossível de aturar. Eu? Bolas! Será da chuva?



quinta-feira, 27 de março de 2014

Chuvas

O bom da chuva é que depois de cair, mesmo tormenta, a água há-de sempre seguir o sentido do rio. 

Maria Elena - Vicky Cristina Barcelona 





segunda-feira, 24 de março de 2014

Tango, primeira lição

Aprendi os meus primeiros passos de Tango.
Era algo que já queria ter tentado há muito mas receava apaixonar-me pela quente dança, tal era o entusiasmo que tinha para aprender os primeiros passos.
Num destes fins de tarde, arrisquei. Passei o dia a ouvir Piazzola para me inspirar para a aula e estive completamente entusiasmada ao longo do dia.

À hora da aula, o entusiasmo comeu-me por dentro e transformou-se numa enorme borboleta nervosa. Sentia-me tímida e envergonhada - nada habitual em mim. Senti-me nua na sala ampla, uma formiga naquele imenso soalho de madeira a brilhar.

Éramos mais mulheres que homens, como quase sempre nestas coisas. Estávamos quase todas enconstadas numa fila de trás, junto à parede. Eles, um pouco mais soltos.

Começou a ouvir-se um Tango na aparelhagem. Uma música envolvente, aveludada...

Eu estava numa ponta da última fila, quase escondida. Procurava olhar e aprender sem que dessem por mim. Esquerda em frente, direita ao lado. Esquerda atrás, direita atrás. Olhava para os pés dele. E dela. Procurava entender as voltas. E ele virou-a. E deu-lhe um toque no calcanhar. E a perna dela deslizou com elegância. E ele agarrou-a com firmeza. E ela desliza. E ele também. E enchem a sala. E o soalho de madeira, outrora gigante, apequenou-se.

O Professor deu mais uns passos, circulou pela sala, explicava a dança, a envolvência, a leveza. Fixou-nos. Mais uns passos. Avançou um metro, e outro, e mais outro. Olhou em volta. Veio buscar-me. A mim.

- Socorro, pensei. Logo a mim...
Estava anormalmente insegura. Queria primeiro aprender os passos e só depois atrever-me a arriscar com um par.
- Não lhe posso estragar um Tango, disse-lhe nervosa.

Agarrou-me nas costas. Ajeitou-nos os corpos, encaixando as mãos.
Olhou-me nos olhos e disse-me:
- Não tenha medo. Ao contrário do que parece, aqui no Tango é a mulher que manda.





sexta-feira, 21 de março de 2014

Ode à espera. Junto ao mar.

À espera.
Como quem espera a onda seguinte.
Como se a onda seguinte fosse diferente da onda ida.

À espera.
De uma nova vaga.
Como se a vaga de avenir mudasse a espuma desta.

À espera.
Que o mar revolto passe.
Que o espelho azul sossegue.

À espera.
Como se a seguir à maré cheia
Não viesse a maré vaza.

À espera.
Como se os búzios daquela outra
fossem mais brancos que os desta.

À espera.
Como se o mar de amanhã
Não fosse o mesmo de hoje.


"À espera dos barcos" - João Marques de Oliveira (1891)

quinta-feira, 20 de março de 2014

domingo, 16 de março de 2014

Dar

- E hoje, o que me trouxeste?
- Hoje trouxe-te o sol. E chocolates.
- E tu, aí atrás?
- Eu? Trouxe-te o céu azul sem nuvens. E flores.
- E tu?
- Não trouxe nada. Mas queria ver-te. Trago-te um beijo.




quinta-feira, 13 de março de 2014

O Bukowski é que sabe

Ia escrever. Qualquer coisa, nem sei bem. Mas tropecei casualmente neste texto de Charles Bukowski partilhado nas redes sociais pelo jornalista Rui Pelejão. Decidi, então, não escrever mais nada hoje. O Bukowski é que sabe. E diz o seguinte:


"Se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.

A menos que saia sem perguntar
do teu coração, da tua cabeça, 
da tua boca, das tuas entranhas,
não o faças.

Se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre 
a tua máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.

Se o fazes por dinheiro 
ou fama,
não o faças.

Se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.

Se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.

Se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.

Se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

Se tens que esperar 
para que saia de ti a gritar,
então espera pacientemente.

Se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

Se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

Não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de pessoas 
que se consideram escritores.

Não sejas chato nem aborrecido e pedante, 
não te consumas com auto-devoção.
As bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até adormecer
com os da tua espécie.
Não sejas mais um.

Não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio.

Não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

Quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só 
e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

Não há outra alternativa.
e nunca houve."

Charles Bukowski


Charles Bukowski

terça-feira, 11 de março de 2014

Porque hoje é 11 de Março


Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor, não cante
O humano coração com mais verdade
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te a fim de um calmo amor prestante
E amo-te além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes




Tristão e Isolda - Rogelio de Egusquiza 



















Eu não sei senão amar-te,
Nasci para te querer.
Ó quem me dera beijar-te,
E beijar-te até morrer.

Fernando Pessoa 



Sigmonde et Sieglinde - Rogelio de Egusquiza 











De Longe Te Hei-de Amar

De longe te hei-de amar
- da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.

Cecília Meireles



Ask me no more - Lawrence Alma-Tadema


segunda-feira, 10 de março de 2014

Cartas entre Aiko e Kiyomi

Querida Kiyomi,

Espero que estejas bem e que esta carta te encontre com melhor saúde. A medicação ter-te-á feito bem e os ares da montanha também, assim o desejo profundamente.

Por cá, os dias estão um pouco mais longos mas ainda demasiado cinzentos. Este fim-de-semana não saí. Nem sequer no sábado de manhã, ao Parque. Os corvos nem notarão a minha falta.

Ontem ouvi a vizinha velha nas escadas de conversa com a de cima. O mesmo falatório de sempre sobre o barulho dos cães que ladram, sobre o preço da consulta do veterinário do gato, sobre uma tal de Akemi que se separou por um amante, sobre a empregada que não veio por doença, e que ela diz ser por preguiça. Estou sem paciência. Aumento os violinos no gira-discos. Elas aperceberam-se disso. Insultaram-me de malcriado. Aumentei ainda mais os violinos.

Esta semana o Tadashi convidou-me para a festa de Primavera que vai realizar-se no fim deste mês de Março. Não lhe dei a certeza se irei. Não sei se a saudade de ti, nessa data, vai permitir-me contactar com pessoas. Hei-de escrever-lhe um postal, caso não vá.

Tenho andado para comprar um par de sapatos novos para estrear quando voltarmos ao teatro, como te prometi. Vi uns castanhos mas não gostei deles o suficiente para os comprar. Achas que o bico quadrado ainda se usa?

Fala-me de ti, minha Rainha. Como está essa tua pele aveludada com estes frios? E os teus cabelos, ao que cheiram nas montanhas? Sinto a falta do mel dos teus lábios.

A saudade já não se chama saudade. A saudade já tem o teu nome, minha doce Kiyomi.

Despeço-me teu, mais hoje que ontem,

Aiko

In the mood for love