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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Dedos petulantes

É nas épocas de aperto que maior é a minha necessidade de escrever. É quando não tenho tempo para nada que os meus dedos me pedem descanso do trabalho e visitas à escrita.
É quando passo mais horas ao computador que mais sinto necessidade de vir visitar-te, querido Diário. Esta mania terrível de os meus dedos tomarem conta de mim, de abusarem do meu tempo, de dominarem a minha vontade... Irritam-me vocês! Sim, os dez. Seus dedos petulantes!
Agora, que já arejaram, importam-se de me deixar voltar ao recato do trabalho?




domingo, 14 de setembro de 2014

Ao Absurdo

Nas primeiras vezes que saí à noite, guiada pelo meu irmão, fui ao Absurdo. Era ao Absurdo que queria ir nas primeiras guerras de adolescente, quando nem sempre os meus pais me deixavam sair. Ali ia com as minhas amigas e amigos para as noites loucas do Absurdo. A noite não começava ali, mas passava sempre por ali. Nem marcávamos local. "Encontramo-nos logo, lá?". Ou em plena Avenida, alguém perguntava: "já passaste por lá?" Claro. "Lá" era sinónimo de "Absurdo". 

Ali tive os meus primeiros namoricos. Ali ouvi as melhores músicas pela primeira vez. Ali cantei e dancei como se não houvesse amanhã. É um grande bar. Um espaço de amigos e convívio que agora fecha portas, quase ao fim de trinta anos. Em festa, a animar almas, desde 1988! 

O "Absurdo" vai fechar. O "meu Bar" vai fechar portas na próxima semana. O Absurdo, a par do saudoso Seagull, foi onde sempre mais gostei de sair à noite em Setúbal. Como diz o outro, "fui tão feliz no Absurdo"... Tantos e tantos anos...

A última vez que estive com o Tileu foi no Absurdo. O meu querido Tileu, amigo bom que já morreu. Dançámos e rimos tanto nessa última noite. 

As festas do volley. Imaginem uma equipa de mulheres adolescentes a celebrar vitórias e a amargurar derrotas no Absurdo. Uma festa. E as coreografias das danças. E as vozes de coro. E os discos pedidos. 

Tenho as melhores memórias das noites mais divertidas. Os Carnavais, as festas temáticas, as sextas, os sábados, os verões, a música, a animação, os sorrisos, os abraços, os amigos, os tombos, os degraus, as pistolas de água, o balcão, os espelhos, os brindes, os shots, o gin tónico quando ainda não estava na moda, todas as festas, a originalidade, os wc mais espectaculares, os porteiros, os barmen, tudo...

Obrigada por tudo! 

Merecem um enorme aplauso de pé por tamanha dedicação. Todos, mas principalmente o Espanhol (o "DDT"!) e o Jovi (Jovi Zind' House), o histórico e resistente DJ. 

Foi bonita a festa, pá! 



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Trip with Morpheus

- Boa noite.
- Chegaste tarde, hoje.
- Shuuuh... Fala baixo... Era suposto já estares a dormir.
- Estava à tua espera.
- Não esperes por mim, chego sempre tarde.
- Não consigo adormecer sem que tu chegues.
- Podes esperar por mim de olhos fechados.
- E como saberei que chegaste?
- Sentes-me.
- Anda, deita-se aqui.
- Cheiras bem...
- Beija-me as pálpebras.
- Respira fundo.
- Até amanhã.

"Trip with Morpheus" - William Eason Coombs



quinta-feira, 3 de abril de 2014

A pessoa sozinha

Era uma pessoa sozinha. Pelo menos, estava sozinha esta noite. Atravessou, muito devagar, a estrada até meio. Parou no separador central junto a uns arbustos da sua altura.

Reparei nela quando espreitei a rua da minha janela, já perto da meia-noite. Estava frio e chovia. A pessoa sozinha ficou parada no pedaço de terreno que separa os dois sentidos da estrada. A pessoa não se mexia. Pensei que estivesse simplesmente à espera que os carros a deixassem atravessar a outra metade da estrada que lhe faltava. Mas não havia carros, nem para um lado nem para outro. E a pessoa ali estava, parada. Sozinha. De pé, a meio da estrada. Junto ao separador. Como um arbusto de pé. Com raízes na lama fria.

Vestia um casaco escuro, talvez negro, com um capucho que lhe tapava a testa e quase os olhos. Usava umas calças escuras e trazia calçados uns sapatos também escuros, talvez botas. O seu corpo encharcado, na noite escura, confundia-se com os arbustos molhados. Nenhum carro passou. A pessoa sozinha não atravessava porque não queria. Ali ficou uns minutos, não sei bem quantos.

Não consegui afastar-me da janela. Os vidros embaciavam com as minhas interrogações: quem é esta pessoa, por que está sozinha, por que está à chuva, por que não atravessa, por que não se abriga, por que não corre para o telheiro, o que espera, o que pensa, que lhe ocorre, o que lhe passou, quem é, que vida tem, o que precisa, quererá estar sozinha…

Os arbustos eram a sua única companhia. Até a chuva parecia estar espantada... Amaciou ligeiramente.

As luzes amarelas de dois faróis. Passou um carro devagar. Não viu a pessoa sozinha, nem sequer abrandou. Talvez a tivesse salpicado mais ainda. Limpei o vidro embaciado da janela, pois não conseguia ver com nitidez. Pareceu-me ver algum movimento junto aos arbustos. Sim, a pessoa sozinha moveu-se um pouco. Deu um passo. E outro. Aproximou-se da estrada. Ajeitou o capucho com a mão direita, olhou para o fundo da estrada, confirmou que não vinha ninguém e atravessou. A pessoa quase não andava. Arrastava os pés. Devagar, devagar, devagar. À chuva, de cabeça em baixo.

A pessoa sozinha trazia um saco de plástico enrolado na mão esquerda. Devia ter alguma coisa lá dentro, documentos, a carteira talvez. Não sei. O saco cobria algo que era pouco maior que a sua mão. Deslocou-se lentamente, encharcada, à chuva até pisar o passeio no lado de cá. Estava a uns trinta metros da minha janela. Num impulso abri a janela e pensei gritar-lhe para perguntar se precisava de ajuda. A pessoa sozinha seguia de cabeça baixa.

Com a janela aberta o silêncio fresco da noite entrou-me em casa. E com a chuva sustida, reprimida de espanto, ouvi a pessoa sozinha a chorar. Mas era um choro sem igual. Um chorar violento, um gemido que era uma lâmina, uma dor vulcânica, lágrimas de lava, um chorar ardente de alma toda. Não há choro maior que o choro de alma toda. A pessoa sozinha desabava à chuva. Desmoronava-se.

Há dores que não cabem no peito de uma pessoa sozinha.






quinta-feira, 20 de março de 2014

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Banhos de silêncio

Enche a banheira de água quente. Não fales. Dói-me muito a cabeça hoje. Preciso apenas de te saber aqui. Calado. O silêncio pode ser maravilhoso. A água a correr. O vapor da água quente. O espelho difuso. A banheira que enche. O silêncio. O meu corpo nu projectado no espelho. Embaciado. A minha pele pálida. O teu olhar sereno. Gosto que não me perguntes porquês. Calemo-nos apenas. Um banho de silêncio. Quente.



quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Noite

Ela sabia que o dia seguinte era um dia importante. Ela sabia que não poderia chorar. Ela quis chorar por antecipação, para no dia seguinte as lágrimas sossegarem. Ela chorou por antecipação. E choveu toda a noite.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Na penumbra da noite

o mundo pararia
as ondas rebentariam mudas
o vento adormeceria
as árvores bailariam em pontas

só as estrelas cintilariam
sem ruído
só luz distante

e na penumbra da noite divina
a magia única
da tua respiração
          [a meu lado]


In the mood for love - Wong Kar-Wai





terça-feira, 15 de outubro de 2013

Ao vapor

Hoje não me apetece sair do duche. Aqui na minha cápsula, na minha concha, estou aconchegada. Água quente escorrendo pela nuca. Olhos fechados. Respiração lenta. Vapor por todo o lado. Nada se vê, nada se mexe, nada se ouve. Nem liguei o rádio. Silêncio. Só se ouve o som da água a cair. Tchchchchchchch… O chuveiro, lá no alto, abundante. Água dura. Como uma cascata no meu crânio cansado.

Percorro o meu dia de olhos fechados. Falo para dentro enquanto o duche me alivia. “Devia ter feito isto ou aquilo. Simpático, aquele almoço. Bolas, esqueci-me de ligar a alguém.” 

Organizo o meu cérebro amolecido pela água quase a escaldar. Derreto as minhas defesas. 

Sinto calor. Talvez esteja a transpirar. A pele das costas já deve estar quase escalfada. Sabe tão bem. Estou em banho-maria. É quase um casulo, de tão bom. Puxo os ombros para trás, rodo o pescoço, olhos fechados, estico os braços tacteando a água que me foge dos dedos. 

Hoje não me apetece sair daqui. Tchchchchchchch… Eu e o chuveiro.

As paredes molhadas. O espelho embaciado não me olha espantado, como pela manhã. Nem sequer o espelho me vê. A pele amolece. Ao vapor. Eu também. Quebro. Hoje não me apetece sair do duche.



quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Quero. Preciso.

Quero.
Preciso.
Só hoje.
Chega-te mais para cá.
Só até adormecer.
Aí, aí mesmo...
Preciso de relaxar.
Só até adorm...





quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Até que eu te deteste

Não vás já.
Mudou a hora.
Mudou a cor da manhã, verás.
Mudei os lençóis, cheira.
Cheira-me.
Mudou a Lua, olha.
Fica mais um pouco
Até que eu te deteste.

Fotografia de Maxim Chelak

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Noites de Outono


O pior das noites de Outono?
Não ver a outra margem.
Não ver as estrelas.
E tu, que não chegas.

Dead River Fog, fotografia de bgreenlee









sábado, 14 de julho de 2012

A meu favor tenho


"A meu favor tenho o teu olhar 
Testemunhando por mim 
Perante juízes terríveis: 
a morte, os amigos, os inimigos. 

E aqueles que me assaltam 
À noite na solidão do quarto 
Refugiam-se em fundos sítios dentro de  mim 
Quando de manhã o teu olhar ilumina o quarto. 

Protege-me com ele, com o teu olhar, 
Dos demónios da noite e da aflições do dia, 
Fala em voz alta, não deixes que adormeça 
Afasta de mim o pecado da infelicidade."


Manuel António Pina, in "Algo Parecido Com Isto, Da Mesma Substância"