Primeiro, ao longe, parecia uma criança de tão pequena. Estava
no meio da estrada com qualquer coisa nas mãos. Eram umas oito da noite e eu
seguia de carro. As luzes e as cores cintilantes dos painéis publicitários
tornavam aquela silhueta difusa, a uns metros de mim, à contraluz. O vulto
estava parado. Pequenino. Um vulto pequenino, como que escondido.
O sinal ficou vermelho. Parei. Deu dois, três passos. Dois,
três passinhos que nem de gente eram. Devagarinho. Devagarinho. Devagarinho. Aproximou-se
da janela.
- “Menina…”, quase gemeu.
Olhou para baixo para o alcatrão. Engoli em seco. Fixei-a. Trazia
na mão direita um chapéu virado ao contrário. Um chapéu de homem, de flanela, aos
quadrados castanhos. Agarrava com uma mão na pala e a outra por baixo, no
fundo.
Olhou para mim, quase a medo. Olhos pequeninos, tão
pequeninos, assustados, que se escondiam na vergonha das mãos estendidas.
Rugas. Oitenta anos de rugas.
Baixinha, um metro e pouco. Curvada. Ela de pé, à altura do
meu rosto, sentada. Frágil. Cheia de dores. E frio.
No fundo do chapéu que trazia na mão, em vez do forro, duas
fotografias a cores de 15 por 20. Um menino. Uma menina. Sorridentes. Morenos.
Ela com um ganchinho. Ele desdentado. “Os meus netinhos”, apontou com o
indicador esquerdo, deformado pelas artroses. Teriam uns seis, dez anos. E
reparei, então, que havia uma terceira fotografia. Tipo passe. Uma senhora dos
seus trinta e poucos. Roupa escura. Óculos. Cabelo curtinho, encaracolado, pelo
pescoço. “A minha filha, que Deus já a levou por ser tão boa”.

Tinha um xaile escuro – roxo, cinzento, não sei bem, cheio
de borbotos – que lhe cobria a cabeça e protegia os ombros. Casaco de malha em
cima da blusa de lã. E mais um lenço, pareceu-me ver. Uma saia comprida. O
queixo, de onde sobressaíam uns desmaiados pêlos brancos, tremia-lhe. Fixou-me
nos olhos.
“Oh, menina…” – repetia.
“É para os meus netinhos”, espere, mas tem fome?, “É para os
ajudar”, a senhora tem mais filhos?, “A minha filha, que Deus Nosso Senhor a
guarde…”, tem casa? onde vive?, “na João Crisóstomo”, quer que a leve a casa?,
“sozinha”, mas quer que a leve? “os meninos, coitadinhos”, já jantou?, “aquela
senhora disse que me trazia jantar”, .
Fiquei sem saber o que fazer. E agora? O que faço? Agarro
nela, levo-a? Trago-a? Deixo-a? O que faço? Ligo à Segurança Social? À Santa
Casa? Ao Ministro? O que faço?
- Como se chama?
- Eva.
- Que nome tão bonito…
Olhou para mim, como se não soubesse o que era um elogio, um
mimo.
A fila de carros atrás de mim estava parada. O sinal estava
verde. Ninguém buzinou.
- Vá para casa, querida…
- Tenho que ficar até às dez.
- Porquê?
- Pode a senhora vir com o jantar, coitada.
Toquei-lhe as mãos. Apertei-as. Estavam geladas.
[Também eu]